Precisamos retomar a coragem de maio de 1968

27/05/2021

Por
Sofia Schurig e Alexandre Ramos

Em maio de 1968, uma manifestação de estudantes e professores contra a invasão policial na universidade incendiou toda a França durante 7 semanas com protestos, greves e ocupações de universidades e fábricas. Com as ruas conflagradas com manifestações e barricadas, a economia do país parou e o governo começou a temer uma revolução.

As barricadas multiplicam-se e consolidam-se com blocos de concreto, andaimes e até arames de ferro, atingindo dois metros de altura. Enquanto o Quartier Latin está bloqueado por todos os lados, tanto pela polícia quanto pelos manifestantes, a atmosfera fica ainda mais tensa. Wikimedia Commons.

Em 2 de maio de 1868, estudantes da Universidade de Nanterre fizeram um protesto contra a divisão dos dormitórios entre homens e mulheres e a prisão de estudantes franceses que se opunham à guerra do Vietnã. A agitação se espalhou pelo país quando, em Paris, cerca de 600 estudantes foram presos dentro da Universidade de Sorbonne após um protesto. A União Nacional dos Estudantes da França (UNEF) – que é, ainda, o maior sindicato estudantil do país – e o sindicato dos professores universitários convocaram um protesto contra a invasão policial onde mais de 20 mil alunos, professores e trabalhadores marcharam em direção à universidade e, em pouco tempo, foram atacados. Centenas de alunos e professores foram presos. No dia seguinte, sindicatos de alunos do ensino médio uniram-se ao protesto e pediram a retirada de todas as acusações criminais, assim como a reabertura da universidade – que se encontrava isolada pela polícia. 

Em 10 de maio, dia também conhecido como a “Noite das Barricadas”, uma enorme multidão reúne-se na Rive Gauche – metade sul da capital francesa – e começa a erguer barricadas contra a polícia, que contra-ataca os manifestantes de madrugada que lutavam contra a prisão de colegas e professores e queriam a reabertura da universidade. 

O encontro com os alunos começa no fim da tarde e passa de 5 mil manifestantes, para rapidamente 10 mil em pouco tempo. Já com 20 mil manifestantes, as primeiras barricadas desse fatídico dia começam a ser erguidas. O líder do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup, sigla em francês) e o vice-presidente da UNEF pedem que o Quartier Latin – bairro na metade sul da cidade de Paris, onde os confrontos estudantis se firmaram naquele mês – seja ocupado “a todo custo”. 

Apesar das provocações, a polícia permanece impassível. De capa impermeável preta ou de terno e gravata, munidos de capacetes sem viseira, óculos de motoqueiro, bolsa tiracolo (contendo máscara de gás), cassetete e escudo, a polícia está por toda parte. O Quartier Latin tornaria-se, naquele dia, um barril de pólvora.

Com uma picareta ou barra de ferro, os paralelepípedos decorativos das calçadas de Paris são extraídos das ruas por manifestantes. “Todos ficamos felizes porque sabíamos da nossa força. Foi esse sentimento de força e unidade que criou a atmosfera de festa e barricadas. (…) Tudo foi ficando simples, fácil. As barricadas deixaram de ser apenas um meio de autodefesa e tornaram-se símbolos de uma certa liberdade.”, escreve Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil. 

As barricadas multiplicaram-se com blocos de concreto, andaimes e até arames de ferro, atingindo dois metros de altura. Enquanto o Quartier Latin está bloqueado por todos os lados, tanto pela polícia quanto pelos manifestantes, a atmosfera fica ainda mais tensa. Nesse momento, os grupos enfrentaram-se com as armas às mãos: pedras da calçada de um lado, bombas de gás lacrimogêneo do outro. Naquela noite, a areia das ruas parisienses serviu como meio de defesa, projetada na polícia graças aos compressores encontrados no local. Os alunos também contaram com o apoio de alguns moradores que, de suas janelas, jogam na polícia o que têm em mãos.

Polícia parisiense (CRS) invade as barricadas na noite de 10 para 11 de maio, mais conhecida como Noite das Barricadas. Fotografia: SIPAHIOGLU / SIPA.

Os dois maiores sindicatos de esquerda do país – a  Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a Força Ouvrière (CGT-FO, sigla em francês) – convocam greves gerais para o dia 13 de maio, em decorrência da violência policial demonstrada na “Noite das Barricadas”. A greve-geral viria a ser uma das maiores da Europa e a maior da França, tendo duração de um mês completo e com adesão inicial de 1 milhão de pessoas – já no dia 13. 

O movimento desencadeou uma imensa manifestação de criatividade e discussão política à medida que os trabalhadores, em todos os lugares, buscavam refazer seus mundos e contribuir para a luta. Além dos trabalhadores em fábricas industriais, arquitetos e pintores se juntavam à luta enquanto atores entravam em greve fechando teatros e escritores ocupavam o prédio da Sociedade dos Homens de Letras – uma associação francesa de escritores fundada no século XIX pelos notáveis ​​autores franceses Honoré de Balzac, Victor Hugo, Alexandre Dumas e George Sand.

Nessa época, após a imposição de leis neoliberais que facilitavam horas extras sob contrato, a semana de trabalho média era de 46 horas semanais. Além disso, o salário mínimo francês estava entre um dos mais baixos da Europa, sendo de aproximadamente 2,22 francos por hora – o equivalente a 2,75 euros hoje em dia.

Durante uma manifestação estudantil,Place Denfert-Rochereau em Paris, 7 de maio de 1968 | Fotografia por AFP.

Muitos operários descreviam fábricas e usinas como “quartéis”, por serem forçados a trabalharem horas extras em condições desumanas. Durante as greves, alguns estudantes invadiram uma fábrica da Citroën. Lá, guardas e policiais pararam nas portas, agrediram trabalhadores por conta da leitura de “literatura subversiva” e intimidaram ativistas sindicais. Há um depoimento de um jovem trabalhador que, emocionado, apontou para as portas da fábrica e gritou: “Quando chamamos de prisão, você entende o que queremos dizer.”

Tentando conter o avanço do movimento, o então primeiro-ministro George Pompidou declara que estudantes presos em decorrência das manifestações e invasões policiais seriam soltos e que a Universidade da Sorbonne, que ainda estava ocupada pela polícia, seria reaberta. Após a reabertura da universidade, ainda no dia 13 de maio, estudantes ocuparam-na e declararam-na um “local do povo”.

Nas universidades e escolas secundárias ocupadas, surgiu uma transformação revolucionária de consciência que levou os alunos a desafiarem fundamentalmente a ordem existente, a educação e a pedagogia à qual haviam sido submetidos. Folhetos foram espalhados em todo o campus, proclamando satiricamente o “sucesso de todos os alunos” em seus “exames obrigatórios”. Um deles, em específico, parabenizava “todos os alunos por passarem nos testes de: Espírito de Iniciativa, Desenvolvimento de Consciência Política, Disciplina Revolucionária, Solidariedade, Protestos e Barricadas”.

Alguns resolvem focar os relatos históricos da revolta estudantil somente nas instituições de ensino superior, mas a militância de estudantes secundaristas foi essencial. Membros de comitês de ação estudantil (Comités d’action lycéen) afirmaram: “A presença dos ‘liceus’  nas barricadas, nos comícios, nas ocupações, reflete a amplitude e a profundidade da crise de maio: é de fato uma crise que diz respeito ao conjunto da sociedade, onde a indiferença é impossível; e uma parte do meio do ensino médio escolheu o seu campo: desafiar o sistema, questionar instituições universitárias, sociais e políticas.”

Cartazes em uma universidade francesa celebrando líderes comunistas, a ideologia e a filosofia marxista. | Fotografia por: Bruno Barbey.

Os comitês também denunciaram os exames universitários como “absurdos e socialmente reacionários” e demonstraram-se preocupados com os currículos, dizendo: “estudamos, blefamos e aprendemos mais pelo exame do que para formar a nossa personalidade. Somos julgados pelo conhecimento livresco armazenado às pressas e que rapidamente esquecemos assim que termina o exame. O exame privilegia a competição, a emulação para o sucesso social e reforça hábitos mentais individualistas. Assim, incentiva um ambiente pedagógico no qual o homem é um lobo para os outros homens.”

Luta anticolonial e antipatriarcal

Outras motivações externas para a agitação eram as guerras da Argélia e do Vietnã. Estudantes do ensino médio participaram de manifestações antifascistas e protestaram contra a visita do então vice-presidente norte-americano Hubert Humphrey à França.

A Guerra do Vietnã teve maior peso no movimento de contracultura por causa de sua influência na história mundial. O conflito, que durou cerca de 20 anos, foi um dos maiores atritos geopolíticos da Guerra Fria, com seu saldo desolador de mortes, destruição e instabilidades. A guerra teve dois polos: Vietnã do Norte e do Sul – em um contraste comunista e capitalista, respectivamente -, que buscavam tomar o território oposto e unificar o país, separado desde a Guerra da Indochina.

Bebendo da mesma fonte do maio francês e da contracultura, o conflito foi mundialmente contestado por representar a brutalidade do imperialismo norte-americano através de centenas de atentados contra civis e da destruição de um território estrangeiro. Um fatídico exemplo é o agente laranja, um herbicida tóxico bombardeado durante dez anos em todo o território vietnamita pela Força Aérea dos Estados Unidos. O objetivo era dizimar as safras do norte e destruir a guerrilha comunista, que costumava se esconder na selva para combater os invasores. Quarenta anos após o conflito, foi confirmado pelo governo que mais de 3 milhões de vietnamitas foram mortos em decorrência do produto.

Mas não foram somente os valores militares e ocidentais que sofreram um abalo naquele mês de maio, valores patriarcais também foram chacoalhados pela segunda onda feminista. 

Para as minorias, as lutas não cessaram naquele mês. Na verdade, essas continuaram a lutar e atingiram importantes aspectos – já na década de 70 – em questões de classe, raça, gênero e suas interferências. Como apontado por Diana Press, no livro Class and Feminism, é preciso que a luta feminista “também confronte as opressões de raça e de classe, ampliando ainda mais a criatividade do movimento”. 

O maio francês foi o ponto de partida para a luta ao direito de aborto, já que, nos anos conseguintes, a pauta se tornou ainda mais forte, culminando na aprovação da ‘Lei Veil’ – em homenagem à Simone Veil, então Ministra da Saúde do país, que foi responsável pela elaboração do projeto de lei. “Digo com toda a convicção: o aborto deve continuar a ser a exceção, o último recurso em situações sem saída. Mas como tolerá-lo sem perder seu caráter excepcional, sem que a sociedade pareça incentivá-lo? Em primeiro lugar, gostaria de partilhar convosco uma convicção de mulher – peço desculpa por fazê-lo nesta Assembleia quase exclusivamente composta por homens: nenhuma mulher recorre com alegria ao aborto. Você apenas tem que ouvir as mulheres. Ainda é um drama e sempre será um drama. Por isso, se o projeto que vos é considerado a situação factual existente admite a possibilidade de interrupção da gravidez, é para controlá-la e, tanto quanto possível, para dissuadir a mulher de o fazer.” Esse foi o discurso da então Ministra na apresentação inicial do projeto de lei na Assembleia Nacional Francesa, em 1974.

Mulheres francesas marcham por seus direitos e pedem a queda do general De Gaulle. | Fotografia por: Getty Images.

Mas, por mais que a pauta da libertação sexual feminina fosse levada a sério, as mulheres, como grupo, não eram. “Tudo era questionado. As relações entre professor e aluno, patrão e trabalhador, rico e pobre… Tudo, menos a relação entre homem e mulher.”, relembra a socióloga francesa, Jacqueline Feldman. A pesquisadora relembra, em entrevista à revista Elle, o sexismo gritante da França naquele período – presente até dentre seus colegas manifestantes. “Eu não tinha muitos problemas na época, exceto por ser uma mulher e pertencer ao segundo sexo. O sexo frágil. (…) Naquele mês, fiquei desapontada. A revolução era cultural, proletária, sexual, tudo menos feminista. Quando nós abordávamos o assunto do local da mulher na sociedade, éramos chamadas de burguesas egoístas.” 

Uma das maiores falhas do movimento foi levar somente a questão da libertação sexual a sério – talvez devido ao fato de esse evento histórico ter sido protagonizado por jovens, sobretudo universitários – ou pautas essenciais da relação entre classe e gênero. Mesmo assim, o progresso feito na época é admirável, ainda que imperfeito. Algumas figuras feministas francesas da época revolucionaram movimentos, como é o caso da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, hoje em dia conhecida mundialmente. Beauvoir não é somente conhecida por suas obras acadêmicas, mas também por seu papel essencial no maio francês ao lado dos estudantes. 

É relatado em sua biografia, Simone de Beauvoir: uma vida, que Beauvoir e seu parceiro, o também filósofo, Jean-Paul Sartre, davam assistência frequente aos jovens estudantes. Ela costumava organizar reuniões em seu próprio apartamento para direcionar e auxiliar os estudantes em suas pautas e reivindicações. O casal – sobretudo Sartre, que era mais chegado à vida política e à exposição pública de suas opiniões ideológicas – também participou de diversas reuniões em grandes universidades francesas, como Sorbonne e Nanterre, assim como reuniões organizadas pelos comitês de ação estudantil.

Tais comitês surgiram em resposta à repressão dos estudantes do ensino médio que participavam de manifestações e greves. Muitos eram presos pela polícia e até suspensos de suas escolas. Por esse motivo, os comitês foram criados, com o objetivo de mobilizar estudantes para democratizar suas escolas e apoiar demandas de universitários e trabalhadores em Paris. 

Ocupações e greves de massa

Já na noite do dia seguinte à greve-geral, cerca de dois mil manifestantes ocuparam as primeiras fábricas, começando pela da empresa francesa de aviação Sud-aviation.  Os trabalhadores da Sud-aviation conseguiram manter a greve por um mês completo, permanecendo na fábrica quase a todo momento. Em certo momento, familiares de manifestantes começaram a viver no local, ajudando em tarefas e no movimento.

“Ao longo do dia 15 de maio, a fábrica e seus arredores pareciam um gigantesco canteiro de obras, mas os trabalhadores logo arrumaram o cenário e suas estruturas em ruínas, começando a construir coberturas e cabines. Não há necessidade de líderes ou ordens do sindicato para esta colônia de formigas. Solidariedade e autodisciplina podem fazer maravilhas. A ‘comuna’ tomou forma, uma ‘Administração do Povo’ colocando as coisas no lugar com uma eficiência surpreendente. Participantes, simpatizantes e moradores ficaram mudos com toda essa agitação. Em pouco tempo, a cerca de um quilômetro depois da fábrica, uma placa colocada pelo comitê conjunto dos sindicatos delineava as fronteiras da área ocupada.”, escreve François le Madec, ativista sindical que trabalhava na fábrica durante a ocupação e faz um relato de primeira-mão em seu livro L’aubépin de mai (Os espinhos de maio).

No mesmo dia, cerca de 500 mil metalúrgicos entraram em greve em uma fábrica da Claas, empresa responsável pela produção de tecnologia agrícola. Com essas ocupações, os sentimentos revolucionários impulsionaram cada vez mais movimentos ao decorrer da semana, culminando na maior greve geral da história francesa, com a adesão de aproximadamente 10 milhões de trabalhadores.

O escritor e jornalista Daniel Singer descreve como o potencial revolucionário irrompeu quando a luta desencadeou o debate político e questionou todos os aspectos da sociedade: “Nas fábricas ocupadas, nos escritórios, nos laboratórios, nas ruas, as pessoas conversavam, questionando as estruturas hierárquicas e sua função na sociedade. Professores, sociólogos, cientistas debatiam seu próprio papel na ordem existente. Por toda parte, as engrenagens pensantes estavam ponderando seu lugar na máquina.”

Pouco tempo depois, já havia cerca de 50 fábricas ocupadas em toda a França. Trabalhadores recusavam-se a deixar seus postos com medo de serem demitidos e faziam enormes barricadas nas portas das fábricas, demandando salários justos e melhorias nas condições de trabalho. O comitê de ocupação da Universidade de Sorbonne ajudou a fomentar ainda mais a crise sociopolítica e demandou a ocupação imediata de todas as fábricas na França, somada à criação de conselhos de apoio aos trabalhadores grevistas.

Fotografia (autor desconhecido) tirada nos primeiros dias da ocupação de fábricas da Sud-AviationA ocupação durou um mês completo e teve participação de familiares e até filhos dos operários.

Enquanto a imprensa internacional temia as revoltas populares francesas e já associava a nação a uma espécie de novo “socialismo europeu”, a imprensa francesa cobria os acontecimentos com orgulho e chegava a apoiar o movimento publicamente. A Office de Radiodiffusion-Télévision Française (ORTF) era a maior companhia de mídia do país e possuía praticamente o monopólio de audiência. Mais da metade dos lares franceses tinham-na como sua fonte primária de informação.

Jornalistas, produtores, cinegrafistas, redatores e diversos funcionários decretaram apoio e participação na greve geral e tiveram a colaboração de organizações gerais do cinema francês, assim como de sindicatos. Uma série de panfletos foi confeccionada e distribuída pelas ruas da capital explicando o porquê dos profissionais de comunicação aderirem à greve. 

Nele, é dito: “Os jornalistas de rádio e televisão pretendem exercer nossa profissão livremente. Sempre procuramos fazer isso. Mas as pressões do governo e da gestão da ORTF, escolhida por esse governo, estão privando você de algumas das informações que coletamos para você. Uma grave crise estourou no país. Estamos cientes de nossas obrigações para com você, tudo fizemos para mantê-lo informado até o dia em que fomos totalmente impedidos. Recusamos então um noticiário truncado e juntos protestamos parando de trabalhar.”

Estudantes no Quartier Latin sendo conduzidos a uma delegacia de polícia em 11 de maio| Fotografia por: Getty Images.

A greve dos jornalistas se fortaleceu ainda mais logo depois que o então ministro das Comunicações gaullista, Yves Guén, decidiu cortar qualquer meio de transmissão do Quartier Latin. Poucos dias depois, jornalistas aderiram oficialmente à greve com apoio dos sindicatos. Dessa forma, profissionais de empresas privadas resolveram aderir ao movimento, assim como grandes nomes do jornalismo francês. 

O sindicato dos jornalistas criou uma “comissão permanente” para o “respeito da objetividade da informação”. Essa assembleia votou pela greve e confeccionou uma lista de reivindicações, incluindo autonomia jornalística diante do poder que o Estado possuía na ORTF – por conta do financiamento estatal – e a criação de um “estatuto pessoal” para os membros da imprensa. Contudo, a ORTF só iria aderir oficialmente à greve geral no dia 25 de maio. 

Solidariedade cinematográfica

Houve uma outra parte da comunicação francesa afetada pelos protestos: o Festival de Cannes, um dos festivais cinematográficos mais prestigiados em todo o mundo. Dias antes do evento, a Associação Francesa de Críticos emitiu uma nota pedindo aos participantes que se juntassem às manifestações de apoio aos estudantes grevistas, além de pedir a suspensão do festival. A Associação alegou que “a violenta repressão policial atenta contra a liberdade cultural da nação, as tradições laicas de suas universidades e seus princípios democráticos”. Poucos dias depois, a Assembleia Geral de Professores de Cinema também pediu a suspensão do festival. No entanto, a organização do festival se recusou.

Em uma entrevista coletiva à imprensa na manhã do dia 18 de maio, foi criado um painel de discussão dos membros do Comitê de Defesa da Cinemateca, com a presença dos diretores Jean-Luc Godard e François Truffaut – esse último seria banido posteriormente do Festival por seu apoio aos manifestantes. “A França está em estado de sítio, depois que uma onda de protestos estudantis recentes se transformou em greves nacionais e distúrbios violentos. O rádio anuncia a cada hora que as fábricas estão ocupadas ou fechadas”, disse Truffaut. “Os trens pararam, o metrô e os ônibus serão os próximos. Portanto, anunciar a cada hora que o Festival de Cinema de Cannes continua é simplesmente ridículo.” Godard foi mais direto: “Estamos falando de solidariedade com estudantes e trabalhadores, enquanto você está falando de fotos e closes de bonecos. Você é um idiota.”

Berri, Godard, Truffaut, Polanski (respectivamente) e Malle (de pé), durante entrevista coletiva, onde expressaram suas vontades de cancelar o Festival de Cannes. | Fotografia por: GETTY IMAGES

Como o festival – que também seria no dia 18 – ainda não havia sido cancelado pela organização, cineastas tiraram seus filmes da competição e membros do júri renunciaram a suas funções. Outros tentaram se agarrar às cortinas vermelhas do festival para impedir a exibição dos filmes. Manifestantes subiam ao palco e impediam que qualquer sessão fosse exibida. No fim do dia,  a direção do festival anuncia o cancelamento da competição, mas com a continuação das exibições. No entanto, de 28 filmes que seriam exibidos, apenas 11 conseguiram aparecer nas telas e nenhuma premiação foi feita. 

“Quebrem tudo, esse é o templo do capitalismo”

Ao longo dos próximos dias, as manifestações tornam-se ainda maiores e cada vez mais trabalhadores aderem à revolta. A situação implodiu logo após uma ordem executiva do Ministro do Interior para impedir a entrada de um dos líderes do movimento estudantil, Daniel Cohn-Bendit, em território francês. Daniel estava em uma viagem para tratar de assuntos políticos com movimentos estudantis estrangeiros em Saarbrücken, cidade alemã. Poucos dias depois, ele consegue retornar para a França escondido em um porta-malas após pintar seus cabelos. Ele ficou no país por somente quatro dias, mas chegou a participar de protestos e reuniões abertas em universidades. Sua expulsão do território francês durou dez anos, mesmo com o fim das manifestações. 

O líder estudantil, Daniel Cohn-Bendit, discursando na Universidade de Sorbonne junto a outros líderes do movimento estudantil | Fotografia por: Bruno Barbey.

Na semana que se seguiu, diversos setores públicos – como correios e transporte público – aderiram às paralisações. Com a escalada da agitação e da radicalidade dos manifestantes, autoridades francesas começaram a entrar em contato com sindicatos, políticos e líderes sociais para a elaboração de um acordo, que preferencialmente culminasse no fim dos protestos. 

Mas a elaboração foi demorada demais para conter um dos maiores feitos dos manifestantes: o incêndio na Bolsa de valores de Paris. Duas horas antes, Charles de Gaulle anunciou aos franceses um referendo em junho “sobre a renovação”, que levaria à sua saída se o “não” vencesse. “Adieu de Gaulle, Adieu” cantaram em resposta aos manifestantes. 

Bombeiros tentam controlar o incêndio iniciado por manifestantes na Bolsa de Valores de Paris, em 24 de maio. Ato ficaria marcado posteriormente para os jovens como uma ‘luta contra o capitalismo e as ordens patriarcais’.| Fotografia por: AFP.

Na praça da Bolsa cerca de três mil manifestantes estavam reunidos e, após o pronunciamento, começaram a se chocar entre si. Alguns, considerados moderados, queriam retomar os protestos no bairro do Quartier Latin, enquanto outros queriam invadir a Bolsa parisiense. “Vamos galera, quebrem tudo, esse é o templo do capitalismo”. A princípio hesitantes, depois gradualmente encorajados pela emoção de gritos, ordens, insultos e o som das janelas, cada vez mais numerosas e estilhaçadas, os manifestantes invadem o edifício.

Balanço

Infelizmente, os esforços e as motivações revolucionárias do maio francês se encerrariam pouco tempo depois. O então primeiro-ministro George Pompidou havia assumido informalmente as funções do presidente de Gaulle – já que esse perdera apoio popular – e elaborou um acordo entre os manifestantes, a classe trabalhadora e o governo. 

Após quase um mês de protestos, ocupações e greves, os Acordos de Grenelle são postos à mesa. Naquele mesmo dia, o país inteiro estava sem gasolina e sem linhas telefônicas. Esse representava um conjunto de reformas na área econômica e melhorias nos direitos trabalhistas como: um aumento de 35% no salário mínimo – que vai para 3 francos por hora –, a criação de uma secção sindical em todas as empresas com mais de cinquenta empregados e uma diminuição na jornada de trabalho para 40 horas semanais. 

Com um mês de luta, os trabalhadores franceses conseguiram o mínimo: condições dignas de trabalho. Mas não se engane, essa luta não foi feita somente por grevistas, e sim por toda a sociedade francesa. Durante todo o mês, diversas regiões do país ficaram sem luz e água. A gasolina foi escassa e quase causou um desabastecimento dos mercados. Pessoas comuns sacrificaram bens materiais, como carros e até móveis, para a criação de barricadas nas ruas. 

Foram contabilizados quase 2 mil manifestantes feridos por forças policiais – dentre os quais 200 estavam em estado grave – e existem documentações oficiais e não oficiais de mil até cinco mil prisões. Vários estudantes do ensino médio que participavam ou apenas visitam os comitês de ação estudantil foram suspensos e até expulsos de seus colégios. Universitários de todos os cursos reprovaram em seus exames por se recusarem a frequentar aulas até que melhorias educacionais fossem feitas. 

O gaulismo de ontem é o bolsonarismo de hoje

Com o pior dos dois mundos, o Brasil de hoje tem o contexto social da ditadura militar e a economia da França gaullista. Mas a economia francesa da época não só era sustentada através da exploração de trabalhadores, mas também por valores tradicionais e conservadores que mantinham a estrutura sólida. Um desses exemplos é o ultra-nacionalismo presente nas falas de gaullistas, onde instituições estatais devem ser sempre respeitadas e jamais questionadas – por este motivo, organizações sindicais eram inimigas do gaullismo tradicional e sua doutrina, já que questionavam seriamente as políticas trabalhistas do governo. 

Esse ultra-nacionalismo também é presente no ódio que eles possuíam de organizações internacionais, como as Nações Unidas, pois, julgavam que a base de pensamento da sociedade francesa jamais poderia ter influência externa. Para eles, a única cultura a ser adorada é a francesa. Além disso, gaullistas defendiam que o poder Executivo deveria ser o mais forte e estável, com o adicional de um Presidente da República intocável. Certa vez, De Gaulle esbravejou: “a [única] Suprema Corte é o povo!”, não deixando dúvidas da hostilidade que gaullistas possuíam não só contra a Suprema Corte francesa, mas, na realidade, qualquer órgão ou instituição que poderia limitar os poderes do general. Foram valores como estes que sustentaram governos gaulistas. Mas há uma contradição, ou uma hipocrisia, que também é semelhante ao governo brasileiro. 

Enquanto o general gritava para seus apoiadores que os sindicalistas estavam errados e eram criminosos, que “tanto visões de esquerda, como de direita eram ultrapassadas, assim como discussões entre capitalismo e socialismo” e que o país deveria se libertar da independência externa, o trabalhador francês médio ganha menos de cinco baguetes por hora. Enquanto isso, o grande general, que claramente lutava pelas massas francesas, recebia noventa e três mil euros por ano.  Isso te lembra alguém?

Então, se o presente é motivo de dor, que a coragem de 68 nos inspire a transformar o futuro. O gaulismo de ontem é o bolsonarismo de hoje. A chama do maio francês continua tão acesa quanto o incêndio na bolsa de Paris.

Sobre os autores

é editora da revista O Sabia.

é estudante de direito na USP e colunista da revista Sabiá.

Sobre os autores

Sofia Schurig é editora da revista O Sabia.

Alexandre Ramos é estudante de direito na USP e colunista da revista Sabiá.

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