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Seu Jorge e Adriana Esteves em cena do filme 'Marighella', dirigido por Wagner Moura — Foto: O2 Filmes / Divulgação

O apagamento da militância feminina na resistência

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O filme de Carlos Marighella, que estreia hoje nos cinemas, é um excelente esforço cultural para divulgar a vida e ousadia do guerrilheiro. Mas comete o mesmo deslize do filme que retrata a luta de Carlos Lamarca, ao delegar às suas companheiras, Clara Charf e Iara Iavelberg, um papel secundário e apolítico na resistência durante a ditadura.

Em 2019, foi lançado no Festival de Berlim Marighella, longa dirigido por Wagner Moura que chega, oficialmente, nas salas de cinema no Brasil hoje – dia que em que o guerrilheiro foi assassinado. O filme acompanha, num ritmo eletrizante, a vida do militante Carlos Marighella do momento que adentra à luta armada após o golpe de 1964 até sua morte em 4 de novembro de 1969. Moura conseguiu entregar uma grande obra, ainda que com algumas falhas no trato político e histórico, e é justamente uma delas que será abordada aqui. 

A obra cinematográfica, remonta os últimos cinco anos de vida do guerrilheiro baiano, apresentando alguns personagens que o acompanharam neste período. Dentre elas, há uma forma problemática e diminuta como foi exposta a figura de Clara Charf, companheira de longa data de Marighella, que compartilhou a seu lado também sua luta política.

Juventude radical

Clara Charf, nascida em 17 de julho de 1925, na cidade de Maceió, foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), partido o qual se filiou aos 21 anos. Apesar da origem judia, seu convívio social principal não se deu com a sociedade israelita de Recife. Em sua infância, conviveu muito mais com seus vizinhos e obteve uma formação democrática, cursando o primário e o ginásio em escola pública. Já aos 12 anos teve seu primeiro contato com o comunismo por meio de Jacob Wolfenson, judeu e pai do fotógrafo Bob Wolfenson, responsável por apresentá-la em linhas gerais o que seria o socialismo, em uma visita à casa da família Wolfenson, colegas dos pais de Clara.

Sua família mudou-se para Recife, e lá, se organizou junto ao PCB, partindo posteriormente para o Rio de Janeiro para compor as células abertas do partido. Na cidade carioca, onde também trabalhava como aeromoça, conheceu Carlos Marighella, enquanto os dois atuavam em uma fração parlamentar, uma forma de assessoria coletiva que o PCB utilizava para orientar seus parlamentares, incluindo Marighella, que era deputado e responsável por essa fração, a qual permaneceu em funcionamento até a cassação dos mandatos, em 1948.

Em, rara foto do casal, Clara, no centro, rodeada por Marighella, a irmã deles, Teresa, e a sobrinha, Esther Grinspum em 1963.

Nesta função, Charf atuou politicamente, também cumprindo tarefas de organização documental e datilografando, já que possuía formação na área. Com o fechamento da fração, foi atuar próxima a movimentos de mulheres dentro do partido, em especial junto à Seção Feminina que funcionava como uma espécie de comissão, junto à direção da época. Nesse sentido, compôs um trabalho de organização partidária, discutindo e ajudando a organizar a questão da mulher dentro do partido e no movimento de esquerda no geral. Já em 1959, ajudou a fundar a Liga Feminina do Estado da Guanabara, uma entidade, que de acordo com Charf, mantinha grande contato com a população e que já naquela época, abordava com seriedade as questões da mulher, e foi como representante da Liga participar, em 1962, de um congresso em Cuba.  

Também em 1953, foi à URSS para o Congresso Mundial de Mulheres, compondo a delegação brasileira de 53 mulheres. Lá, pode acompanhar as conquistas de gênero no campo econômico e social que impactaram fortemente sua delegação, como a ida da primeira cosmonauta ao espaço, Valentina Vladimirovna Tereshkova.

 Golpe, clandestinidade e anistia

Após o golpe empresarial-militar de 1964, Charf manteve vínculo direto com a Ação Libertadora Nacional (ALN), colaborando de forma tática com a organização. Apesar de não participar diretamente da luta armada – não andava armada -, Clara escondeu diversos militantes perseguidos em sua casa e ajudou na manutenção financeira das famílias de militantes que iam a Cuba, fazendo constantes doações de roupas, alimentos e remédios durante a repressão. 

Após o assassinato de Marighella, Clara Charf viveu na clandestinidade até 1970, quando se mudou para Cuba. Voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, e se filiou ao nascente Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1982, angariou cerca de 20 mil votos como candidata à Assembleia Legislativa paulista, sem se eleger. Em abril de 2012, residindo em São Paulo, presidiu a Associação Mulheres pela Paz e era membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. No PT, integrou a Secretaria de Mulheres e a Secretaria de Relações Internacionais.

Apesar da antiga trajetória de luta de Charf, incluindo sua atuação durante a ditadura empresarial-militar antes de sua partida ao exílio em Cuba, o filme de Moura escolheu não retratá-la como uma militante, ao contrário, limitando-a apenas ao papel de companheira romântica de Marighella. O filme de 2019 é inspirado na biografia do jornalista Mário Magalhães Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo, no qual, ainda que timidamente, nos apresenta um pouco do percurso militância de Clara entre 1964 e 1969, período o qual o filme dramatiza, apesar de nele, ter prevalecido o apagamento de sua trajetória política. 

Essa problemática fica ainda mais evidente se analisarmos brevemente o roteiro: logo no início do filme, uma cena anuncia uma discussão entre Marighella e Clara, quando o guerrilheiro comunica à sua companheira que irá aderir à luta armada, que o confronta e decide ficar em casa enquanto ele parte à ANL. Charf só volta a aparecer na obra em seus momentos finais, quando o militante pausa suas tarefas políticas para o que seria o último encontro entre os dois, mais uma vez caindo no cliche onde coloca apenas como parceira romântica do protagonista.

Em momento algum do filme o espectador tem qualquer prenúncio do que teria sido a colaboração de Clara à luta política de seu companheiro no período entre 1964 e 1969, ao contrário, somos defrontados com poucas cenas que na verdade apresentam mais da vida privada entre os dois, diferindo de outras personagens do filme, inclusive aquelas fictícias, que ainda sim possuem mais profundidade e relevância política.

Outros apagamentos

Não é somente o filme do Marighella que possui esse problema na representação de personagens femininas, principalmente as que ocuparam, entre outras posições, o papel de companheiras românticas de grandes guerrilheiros brasileiros. A mesma questão pode ser observada no filme Lamarca (1994), dirigido por Sérgio Rezende, que corrobora com uma narrativa vulgarizadora da militante e parceira de Carlos Lamarca, Iara Iavelberg, marginalizando sua trajetória política e atribuindo-a o papel de humanizar a figura do protagonista, responsável por despertar seu lado sentimental meio à guerrilha. 

O percurso político de Iara, entretanto, foi muito mais complexo do que o exibido pelo filme. Nascida em 7 de maio de 1944, em São Paulo, ela, assim como Charf, também vinha de família de judeus imigrantes – húngaros na parte materna e romenos na paterna. Cresceu no bairro do Ipiranga junto de seus 3 irmãos, dentre os quais apenas Samuel, além de Iara, participou da luta armada durante a ditadura empresarial-militar.

Casou-se aos 16 anos, interrompendo temporariamente seus estudos, que retomou cerca de um ano depois. Destacando-se academicamente, ingressou em 1964 no curso de Psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), concomitantemente trabalhando como professora do Centro Acadêmico da Maria Antônia, onde oferecia um curso preparatório para o vestibular e ao mesmo tempo arregimentava mais militantes para a luta política naquele momento imediato após o golpe. Decidindo pelo divórcio, Iara inicia uma ruptura com as normais sociais que a rodeavam.

Sua vida militante, apesar de breve; sendo interrompida abruptamente por seu assassinato em 1971, foi extremamente intensa. Até a proclamação do Ato Institucional n°5 (AI-5), que endureceu a já cruel ditadura em curso no Brasil, Iara participou ativa e abertamente da luta estudantil, com ações voltadas para decisões sobre a estrutura do curso e a instituição em geral, de forma que ficava claro seu perfil militante. 

Após algum tempo na militância independente durante a vida universitária, se organizou na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP), organização na qual o irmão Samuel já militava. Em 11 de julho de 1968, foi presa com o então namorado Silvério Soares Ferreira, também militante da POLOP, e ambos foram levados para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). 

No ano de 1967, porém, a POLOP sofre um racha e seus dissidentes formam a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), da qual Iara passa a integrar e é nesta organização que conhece seu futuro companheiro político e romântico, o guerrilheiro e ex-capitão do exército Carlos Lamarca. Sua função na VPR se constituía principalmente em alugar apartamentos que serviriam com aparelhos da guerrilha e promover assistência teórica ao círculo de estudos que funcionava à noite em Quitaúna, Osasco, auxiliando seus camaradas com as leituras consideradas fundamentais, principalmente obras teóricas marxistas-leninistas. É dessa forma que Lamarca, integrante da VPR, organizou sua formação teórica, fundamental para travar em seguida a luta armada.

Lamarca, ainda no Exército, dá lições de tiro a funcionários do Bradesco, em Quitaúna.

Destaca-se, portanto, como Iara foi central para a constituição de seu parceiro enquanto figura política e destacado quadro militante, ponto que é apagado completamente no filme de Sérgio Rezende. Mas a luta de Iara não parou por aí: passou a integrar a organização VAR-Palmares junto de seu companheiro, onde, de acordo com relatos de companheiros da época, se destacou por sua singular atuação, e assim iniciou seu treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira.  

Por fim, integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), na reta final de sua vida. Iara e Lamarca separam-se e ela deixa a luta de guerrilha após um incidente físico, que ao que tudo indica era uma infecção corporal, e parte para Salvador, também fugindo da crescente repressão e perseguição militar. Enquanto isso, seu companheiro constrói a luta armada no interior da Bahia, na crença de que assim como em Cuba, a revolução deveria vir do campo.

Iara morre em 20 de agosto de 1971, em uma emboscada policial, enquanto ainda habitava em um aparelho da guerrilha na capital baiana e Lamarca é assassinado menos de um mês depois, sem saber da morte da amada — estratégia sustentada pelos militares que acreditavam que o guerrilheiro ainda poderia procurá-la. 

Mesmo com a densa discussão sobre a causa da morte de Iara, fomentada pela Comissão Nacional da Verdade, a qual aponta fortemente para um homicídio, já que foi encontrada morta com uma bala entre os seios, o filme decidiu retratar esse momento adotando a narrativa posta em seu obituário, assinado por militares, que assume um suicídio. Indo contra o que a literatura especializada e biográfica aponta sobre a militante, o filme de Rezende também faz outras escolhas infelizes no que tange o tratamento da personagem.

A obra, no primeiro momento que retrata Iara, reforça o estereótipo que ronda sua figura no sentido de reforçar uma suposta vaidade vulgar. Logo de início, nos é mostrada uma cena cheia de ação, nos quais os militantes da VPR, incluindo Lamarca, estão disfarçados, com os rostos cobertos em uma ação da organização, enquanto Iara está andando pelas ruas bem vestida e observa companheiros serem assassinados enquanto está em um salão de beleza. 

Quando finalmente junta-se aos seus camaradas, não participa das discussões do grupo em torno das ações armadas ou sobre política, conversando sobre essas questões apenas diretamente com Lamarca, demarcando e delegando-a fortemente no filme o papel de companheira romântica do protagonista heroico, e nada mais. Enquanto as discussões políticas dos dois mostram que o guerrilheiro agia e pensava como valorizar a luta, sua prioridade, Iara é apresentada sempre propensa a fazer suas escolhas voltadas ao bem-estar do relacionamento dos dois.

Narrativas masculinas

Por fim, percebemos como ambos os filmes promovem de certa forma um apagamento da figura militante de Charf, e em outro, a vulgarização da figura de Iavelberg, colaborando para uma narrativa já disseminada dentro das esquerdas de um protagonismo primordialmente masculino na luta de guerrilha e resistência durante a ditadura que assolou o país por 21 anos. Os filmes, entretanto, principalmente de Moura, o qual obteve grande alcance, moldam o imaginário daqueles que não possuem contato com a biografia e percurso de ambas militantes, ou seja, configuram erroneamente a história da luta armada no imaginário do grande público.

Ao contrapor o discurso e narrativa historiográficas que dão espaço à homens que foram grandes figuras militantes e símbolos de resistência e ao mesmo tempo apagam completamente e vulgarizam o papel de mulheres militantes, vale relembrar o percurso político dessas mulheres, alicerçando seu percurso militante para muito além de seus companheiros de vida ao relembrar e afirmar sua relevância na luta política e seus espaços de atuação durante vida.

Sobre os autores

está graduanda História na Universidade Federal de São Paulo-UNIFESP com foco em História da Saúde e Gênero.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Antifascismo, cinema, Cultura and Política

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