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Pedrosa traçou um caminho luminoso nos campos da cultura e da política, que nunca considerou inconciliável.

Mário Pedrosa, uma vida entre arte e política

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40 anos após sua morte, não há dúvida de que o Brasil sente falta da extraordinária figura de Mário Pedrosa. Defensor incansável da arte moderna, militante antifascista e difusor das idéias de León Trotski e Rosa Luxemburgo, Pedrosa foi também o primeiro afiliado do Partido dos Trabalhadores.

Neste ano de 2021, em 5 de novembro, se completam 40 anos do falecimento de Mario Pedrosa. Uma enorme ausência para todos nós, sobretudo nestes trágicos momentos vividos pelos brasileiros. 

De um lado, no campo da crítica das artes, Pedrosa é considerado aquele quem deu solidez à crítica brasileira, erigindo-lhe um estatuto de seriedade e profundidade, tornando-se um dos responsáveis pela atualização da arte moderna no Brasil, transformando-se no mais destacado defensor das vanguardas artísticas. De outro, no campo da política, além de introdutor e difusor das ideias de Leon Trotsky e de Rosa Luxemburg no Brasil, Pedrosa foi um implacável defensor da independência de classe dos trabalhadores frente ao Estado e um incansável adversário do stalinismo e do fascismo. 

Hoje, no campo dos estudos sobre a trajetória e as ideias de Mario Pedrosa, há um grande e significativo número de trabalhos voltados à sua atuação crítica. Já no campo da política tal foco é bem mais escasso. Ainda se faz necessário, na verdade, um esforço no sentido de conjugar e compreender arte e política na trajetória de Mario Pedrosa. Em boa parte dos estudos a ele dedicados, quando se referem à política, a trajetória de Pedrosa reduz-se a um parágrafo: trotskista de primeira hora no Brasil; fundador da IV Internacional, em 1938, em Paris; nos Estados Unidos rompeu com a IV Internacional e com Trotsky, em 1940; dirigiu, entre 1945 e 1948, o jornal Vanguarda Socialista; após a ditadura instaurada em 1964 no Brasil, exilou-se e voltou para ser um dos fundadores e filiado número um do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Com Pas de politique Mariô! Mario Pedrosa e a política deu-se um passo inicial mais sólido na busca do preenchimento desta lacuna sobre a trajetória política de Pedrosa.

Mário Pedrosa em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 1959 (Fundo Mario Pedrosa. CEMAP (CEDEM-UNESP).

Legado

Ao longo de seus 81 anos de vida Pedrosa deixou traçada uma luminosa trajetória nos campos da cultura e da política, no exercício dos quais jamais viu irreconciliabilidade: “Sempre convivi muito bem com a política e as artes. Nunca misturei setores”. Talvez essa harmoniosa convivência possa ser explicada pelo fato de Pedrosa sempre ter sido um atento e apaixonado observador dos homens e de suas ações.

Mario Pedrosa desde meados dos anos 1920 já exibia, em sua atividade jornalística, inicialmente como crítico literário, e posteriormente como analista da política internacional, sua extraordinária capacidade de compreensão, como, em 1931, testemunhou Mario de Andrade a Manuel Bandeira:

“Aliás tenho sido bem feliz nestes últimos tempos quanto a observações a meu respeito. A mais fina de todas foi feita pelo Mario Pedrosa que me disse que o Remate [de Males] dava pra ele a impressão de que eu tinha voltado ao mesmo estado de sensibilidade e de ser de 1917 e que o Remate era o mesmo. Há uma gota de sangue [em cada poema], só que naturalmente com uma elevação que eu não podia ter naquele tempo. Palavra de honra, Manu, tive assim a sensação de que de repente ficava nu diante de alguém. A sensação duma certeza irremovível que eu mesmo não tinha percebido. Fiquei pois contente como o diabo porque a coisa que mais me agrada neste mundo é que alguém me revele alguma coisa de mim que inda não sei.” 

Assim também foi com a política quando Mario Pedrosa buscava compreender o Brasil e o seu lugar no mundo para mudá-lo sob a égide do socialismo, cuja finalidade era, como ele dizia, “conseguir que a dignidade humana não seja mais o monopólio de uma elite, no fundo já hereditária”. Seus esforços nesse campo, que se iniciaram com Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil, escrito em colaboração com Livio Xavier em 1930, passaram pelos dois volumes A Opção Brasileira e A Opção Imperialista (ambos de 1966) e concluíram com Sobre o PT (1980), deixaram uma sólida herança e rendem ainda hoje bons e salutares frutos.

Pedrosa ao lado de Lula, em comício do PT. Pedrosa participou na fundação do PT e foi o seu primeiro afiliado.

Revoada das galinhas verdes

São Paulo, Praça da Sé, 7 de outubro de 1934. A contramanifestação armada organizada pela esquerda brasileira ali unida expulsou os fascistas locais das ruas. Este feito histórico foi resultado de uma decisão tomada em janeiro de 1933, pouco antes da chegada ao poder de Hitler na Alemanha. Este evento teve sua origem em reunião da direção da Liga Comunista do Brasil, em São Paulo, da qual Mario Pedrosa fazia parte e que ali se encontrava presente. Aí se aprovou a proposta de criação da Frente Única Antifascista (FUA) que tinha como pauta a união de toda a esquerda para combater ativamente o integralismo, a organização fascista local.

Na FUA se somou a iniciativa de publicar um porta-voz para essa organização, o jornal O Homem Livre, do qual Mario foi ativo participante, tendo aí publicado, além de artigos de análise política, aquele que é considerado o seu primeiro trabalho de crítica de arte, dedicado à obra da gravadora alemã Kaethe Kollwitz.

Para Mario Pedrosa a preparação deste combate, começou antes, durante sua estadia em Berlim, entre 1927 e 1929, militando nas fileiras do Partido Comunista alemão, onde conheceu o nazismo. Pedrosa o prosseguiu quando difundiu no Brasil não apenas a sua experiência pessoal como, em sua atividade profissional jornalística e editorial, se deu à tarefa de traduzir as afiadas análises de Leon Trotsky, cujas ideias passou a defender em terras brasileiras nas fileiras da Liga Comunista do Brasil. Ele as reuniu no livro Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, lançado em fevereiro de 1933, que foi a mais completa reunião de textos de análise sobre o nazismo e os meios de enfrentá-lo escrito por Trotsky.

Pedrosa continuou este combate liderando a FUA, atuando em seus comícios e atividades, escrevendo em O Homem Livre e, muito importante, participando das tratativas entre as forças de esquerda que resultaram na contramanifestação de 7 de outubro. Ali foi ferido por um integralista, pouco depois de ver morrer em seus braços um militante da Juventude Comunista. Após a prisão de sua companheira Mary Houston, Pedrosa saiu do hospital em que estava e mergulhou na clandestinidade, que o levou ao exílio, na França e nos Estados Unidos, e o qual se encerrou – depois de uma breve passagem pelo Brasil, em 1941, quando foi preso e expulso – no ano de 1945, quando retornou ao Brasil.

Perseguição

Em seus tempos de militância nas fileiras da Oposição Internacional de Esquerda e da IV Internacional, entre 1929 e 1940, Mario Pedrosa já se habituara aos insultos e falsidades a ele dirigidos e produzidos pelas fileiras stalinistas. Desde os mais brutais e raivosos produzidos particularmente desde Moscou até aqueles gerados por aqui nos trópicos, como renegados, traidores, “doutores rabanetes”.

Com o tempo as coisas tornaram-se graves e tomaram o rumo da violência física e do extermínio. Em 1938, o próprio Pedrosa esteve em contato, em Paris, com o assassinato e esquartejamento de seu camarada Rudolf Klement, realizados pelo serviço secreto soviético residente na capital francesa. A isso se some a experiência de Mario Pedrosa com a classe dominante brasileira e seus violentos e corruptos aparatos repressivos, particularmente os de São Paulo e do Rio de Janeiro, os quais o levaram à clandestinidade e ao exílio.

Se Pedrosa rompeu com Trotsky e com a IV Internacional em 1940 ele não se afastou do âmbito do marxismo. Ao contrário, sempre Pedrosa manteve em seu campo de ação e de pensamento a defesa intransigente da transformação do mundo e da vida, consignada no lema “Socialismo e Liberdade”, divisa de seu jornal Vanguarda Socialista. No entanto, já depois dos anos 1940, além daqueles mais desatentos à política que ainda o viam como trotskista, os adversários de seu lema de vida ainda insistiam em reafirmar falsamente estabelecer liames organizativos e políticos com a IV Internacional. Foi assim que os stalinistas insistiam em qualificá-lo como “pontífice do moribundo trotskismo nacional”.

Ou ainda, por ocasião de sua candidatura a deputado federal pelo MBD em 1966, quando se tentou impugná-la com base em acusações oriundas do aparato repressivo da ditadura brasileira que afirmavam que Pedrosa, depois de ter mantido “contato com terroristas franceses [que não eram sequer identificados!], de regresso da URSS [onde esteve somente em 1961!], esteve no México, onde manteve contato com Trotsky [a quem jamais encontrou pessoalmente e que foi assassinado, como se sabe, a mando de Stalin em 1940]”. Enfim, um completo disparate que mostrava com extraordinária clareza a incompetência das corruptas e brutais máquinas de repressão do Estado brasileiro! 

De uma coisa não tenham dúvidas: Mario Pedrosa jamais se vergou!

Sobre os autores

é doutor em História (USP) e pós-doutorando em História pela Universidade Estadual de Campinas. Coautor, juntamente com Fulvio Abramo, de "Na Contracorrente da História" (Sundermann, 2015) e autor de "Pas de politique Mariô! Mario Pedrosa na política" (Ateliê; Editora da Fundação Perseu Abramo 2017).

Cierre

Arquivado como

Published in América do Sul, Antifascismo and Perfil

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