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Soldados bolivianos realizam operações anticocaína com apoio dos EUA, 26 de julho de 1986. (Rafael Wollmann / Gamma-Rapho via Getty Images)

Como a “guerra às drogas” subverteu a democracia na Bolívia

Tradução
Gercyane Oliveira

Já se passaram três anos desde o golpe que a direita articulou contra o governo socialista de Evo Morales. Um militar anticolonialista e ex-ministro do governo bolivariano contou à Jacobin como a "guerra às drogas" promovida pelos EUA ajudou a criar um exército subserviente ao imperialismo e sem controle popular.

UMA ENTREVISTA DE

Anton Flaig

Já se passaram três anos desde que o presidente boliviano Evo Morales e o Movimento ao Socialismo (MAS) foram depostos por um golpe militar. As ações do Exército em novembro de 2019 tiveram apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), o governo Trump e Bolsonaro, a União Europeia (UE) e boa parte da mídia, cada um deles alegando que Evo havia roubado as eleições presidenciais. Essas alegações de fraude foram instantânea e completamente desacreditadas – mas provocaram um imenso prejuízo à democracia boliviana.

No decorrer dos meses seguintes ao golpe, as forças direitistas apoiadas por paramilitares formaram um novo regime sob a líder de transição Jeanine Áñez, que buscou desfazer o legado do MAS. Celebrado pelo Parlamento da UE como uma campeã dos direitos humanos, o regime de Áñez massacrou de fato dezenas de manifestantes antigolpe, enquanto forçou Evo e muitos de seus colegas ao exílio. Todavia, isso não foi o bastante para intimidar a resistência popular e, após comícios massivos e greves exigindo que novas eleições acontecessem, o candidato do MAS, Luis Arce, obteve uma grande vitória em outubro de 2020.

Juan Ramón Quintana foi ministro da presidência em um dos três governos de Evo. Ex-militar de carreira de alta patente e sociólogo, filósofo e cientista político, Quintana é considerada o anti-imperialista mais importante da Bolívia. No ano passado, ele publicou La contraofensiva imperial (A contra-ofensiva imperial) sob o pseudônimo Ernesto Eterno, um trabalho cujo subtítulo promete examinar o golpe por meio da “anatomia da violência e pilhagem” na Bolívia.

Quintana conversou com Anton Flaig a respeito dos interesses do imperialismo na Bolívia, o papel da Administração de Fiscalização de Drogas (DEA) dos Estados Unidos na politização dos militares bolivianos e os desafios do MAS depois de seu retorno ao poder.


AF

Qual foi a sua experiência do regime de Áñez?

JRQ

Passei quase um ano na embaixada mexicana, um momento muito difícil. Estava sem minha família, que foi implacavelmente perseguida. Enquanto isso, o regime golpista agiu contra nossos companheiros e promoveu os massacres em Senkata e Sacaba.

Na embaixada, fomos sitiados por snipers, os telefones foram grampeados, e os morros no entorno do edifício foram ocupados pela polícia. O objetivo era nos intimidar e minar nossa força de vontade. Praticamente todas as normas internacionais foram violadas. O embaixador, a equipe administrativa e a equipe de serviço foram pessoalmente perseguidos. O regime golpista demonstrou toda a sua crueldade. Para todos nós, foi negada uma viagem segura para o México. Alguns camaradas ainda conseguiram sair, incluindo Luis Arce, que foi para o México, depois para o Brasil e, mais tarde, de lá de volta para a Bolívia. Minha estratégia foi abordar a situação com racionalidade, ficando calmo e focando na minha escrita.

AF

Você era um oficial de alta patente, treinado na Escola das Américas. Contudo, anos mais tarde, como ministro sob Evo Morales, você se tornou a voz mais poderosa do anti-imperialismo na Bolívia. Como você se tornou um anti-imperialista?

JRQ

A decisão de assumir uma posição anti-imperialista, anticolonial e anticapitalista não era fácil. De novo, leio muito sobre a história do meu país, incluindo autores estrangeiros que tinham uma visão diferente sobre a história da América Latina. Aos poucos, comecei a entender que a vida dos povos do “Terceiro Mundo”, os pobres, é moldada pelos centros hegemônicos do capitalismo.

Eu li muito sobre o nacionalismo militar na Bolívia. É assim que descobri os presidentes que se opuseram aos oligarcas da mineração que lutaram por uma Bolívia independente e desenvolvida e foram assassinados. O socialismo militar dos anos 1930; o nacionalismo militar dos anos 1940, que mais tarde descambou na Revolução Nacional, foi engolida pelo imperialismo norte-americano; e então tivemos o ressurgimento nos anos 1970 deste nacionalismo militar anterior – mas todos eles foram derrotados. Aprendi que, para construir a nação boliviana, você deve se opor ao sistema financeiro e ao domínio imperialista.

“A aplicação da política de segurança dos EUA na América Latina exigia que as Forças Armadas fossem capazes de reprimir a população e exercer o poder acima dos políticos, o Judiciário e toda a sociedade.”

Mais tarde, deixei o Exército e me dediquei a estudar as Forças Armadas, a polícia e as relações entre os Estados Unidos e a Bolívia.

Quando eu entrei como ministro no gabinete de Evo, tinha uma ideia clara dos gigantescos desafios com que nosso governo se deparou. Por 14 anos, conseguimos resistir às intervenções imperialistas, com bastante esforço. É por isso que a mídia, que faz parte do domínio imperialista, atou impiedosamente contra a gente. É por isso que os políticos de direita, que são marionetes do imperialismo norte-americano e o próprio governo dos Estados Unidos nos atacaram.

AF

Nos anos 1990, você propôs uma reforma dos militares. Como foi isso?

JRQ

O objetivo era cortar as prerrogativas e privilégios das Forças Armadas para limitar a autonomia política que ganharam desde a luta contra o tráfico de drogas. A doutrina da “guerra às drogas” veio de Washington. A aplicação da política de segurança dos Estados Unidos na América Latina exigia que as Forças Armadas fossem capazes de reprimir a população e exercer o poder acima dos políticos, o Judiciário e toda a sociedade. Sob todos os governos neoliberais, houve massacres, assassinatos, desaparecimentos forçados e tortura.

Durante o governo de Jorge “Tuto” Quiroga (2001-2002), uma força mercenária chamada de Grupo Expedição foi fundada – como os paramilitares da Colômbia hoje. Foi criada para combater os agricultores da coca na Bolívia. Porém, o legislativo não fez nada para controlar a perda da soberania do Estado e do Estado de Direito. Os atores políticos abdicaram de sua responsabilidade. Como chamar isso de democracia quando as Forças Armadas têm supremacia política sobre o governo e sua estrutura, o Parlamento Nacional e as autoridades judiciais?

Sugeri que o Parlamento deveria exercer mais poder sobre as Forças Armadas, de modo que eles se responsabilizassem ​​por sua corrupção, suas ligações com o tráfico de drogas, suas violações dos direitos humanos e os maus-tratos dentro do Exército. Entretanto, graças principalmente à sua dependência em relação ao Comando Sul dos Estados Unidos, nossas Forças Armadas se pareciam mais com forças coloniais intervindo em uma área dominada. Não pode existir Estado de Direito com os generais se passando por substitutos políticos e com os militares norte-americanos governando grande parte do país. Então, ao contrário das reformas que proporíamos hoje, as reformas anteriores tiveram que ter um curso diferente.

AF

Quais reformas você proporia hoje?

JRQ

Há três problemas básicos com o Exército. A primeira tem a ver com a fraqueza das autoridades políticas em controlar as Forças Armadas. Tem existido uma cultura sediciosa e conspiratória nelas desde o século XIX. Bolívia é o país latino-americano que teve mais golpes de Estado. As Forças Armadas creem que estão destinadas a ficar acima da autoridade pública.

Contudo, há também uma fraqueza na sociedade. A população paga seus impostos para sustentar os militares, mas não tem absolutamente qualquer conhecimento a respeito dos militares, sua doutrina, suas armas, sua mentalidade e sua história. Em nossos 14 anos no escritório, nós [o MAS] não conseguimos preencher espaços políticos com pessoal de Defesa que democratizariam o conhecimento das Forças Armadas. Isso as deixou isentas da responsabilidade perante a sociedade.

“Como chamar isso de democracia quando as Forças Armadas têm supremacia política sobre o governo e sua estrutura, o Parlamento Nacional e as autoridades judiciais?”

Em segundo lugar, há uma cultura colonial na Bolívia. Isso tem relação com as consequências de mais de cem anos de serviço militar. As comunidades agrícolas rurais assumem que filhos delas precisam pagar um pedágio de sangue para que se tornem cidadãos. Abolir o serviço militar compulsório é impensável, já que, como sociedade, não criamos espaços alternativos para o exercício da cidadania.

O Exército acha que tem licença para ser o “guardião” da sociedade. Por quê? O contato dele com a sociedade é o contato com o mundo indígena e rural. Não tem com a classe média, com os filhos da oligarquia, já que estes não entram no quartel. Quem vai são os índios, os camponeses, os trabalhadores. O contato das Forças Armadas com camadas marginalizadas propicia a elas uma sensação de superioridade cultural. Ainda hoje, não compreenderam o conceito do Estado plurinacional. Assim, é necessário trabalhar para descolonizar as Forças Armadas. Elas devem entender que o nosso Estado reconhece a diversidade entre as nações, coexistindo de forma complementar.

O terceiro problema é a interferência estrangeira. Por 70 anos, as Forças Armadas da Bolívia foram regidas ideologicamente pelos Estados Unidos. A aparência de seus uniformes, suas armas, sua doutrina, sua formação, suas viagens para os Estados Unidos fizeram com que perdessem sua identidade como uma instituição dependente do Estado boliviano. Você se sente orgulhoso em ser um aliado do Exército mais poderoso do mundo, ainda que as relações entre vocês sejam coloniais. Segundo as Forças Armadas coloniais, os criollos locais constituem um poder invencível.

Hoje, elas percebem que as Forças Armadas americanas podem ser derrotadas. O Império norte-americano está em declínio – e sofrendo derrotas históricas. Eles deixaram o Afeganistão em condições piores que Saigon em 1975. Dessa maneira, está começando a surgir nas Forças Armadas a ideia de que elas não precisam se alinhar automaticamente com o maior poder militar do mundo.

Que guerra você vai ganhar com um Exército que tem uma mentalidade colonial? A única batalha vencida nos últimos 70 anos é a guerra contra o povo boliviano. A doutrina das Forças Armadas provém da ideologia anticomunista dos Estados Unidos: o povo é o inimigo, não podemos ser um país moderno porque a maioria dos bolivianos é miserável, ignorante, indígena, e assim por diante. Nessa ideia de modernidade, os povos indígenas somente podem alcançar o valor social caso atendam as condições de viver em uma “sociedade civilizada”: eles devem falar espanhol. Precisam ter costumes urbanos ocidentais. Têm que imitar o modo de vida norte-americano.

É por isso que necessitamos mudar esse modelo de Defesa do século XIX para um do século XXI.

AF

Como seria um modelo do século XXI?

JRQ

A doutrina de ter um corpo armado profissional, mais o serviço militar que seja de parte do povo, é do século passado. Um modelo de século XXI seria a doutrina das pessoas armadas. Em face de todas as ameaças à segurança do Estado, com o colapso institucional e democrático, é o povo armado que defende a democracia, o território e a soberania.

Em última análise, é isso que torna o Estado invulnerável. Esse é o modelo desenvolvido no Vietnã. Esse é o modelo que o Talibã tem no Afeganistão, os chineses com Mao Tsé-Tung, os cubanos o têm, e grande parte da Venezuela também o têm. Entregar armas à população garante a integridade nacional e a defesa da soberania. A relação de dependência espiritual, intelectual e cultural dos Estados Unidos precisa ser quebrada, e as Forças Armadas trazidas para o controle do Estado.

Hoje, muitas das Forças Armadas em todo o mundo se tornaram serviços praticamente privados. Logística, alimentação, roupas e armas são fornecidas por empresas militares. Também existe uma tendência à privatização dentro do próprio campo militar. Os soldados que foram ao Afeganistão e no Iraque são, em larga medida, mercenários contratados em outros países. Eles respondem simplesmente aos interesses das grandes corporações que estão travando a guerra para saquear o petróleo, gás e minérios. Mesmo os soldados americanos não são necessariamente soldados profissionais – é mais barato contratar mercenários.

AF

Quando Evo propôs que milícias fossem formadas como na Venezuela, a imprensa reagiu de forma bem negativa, e ele imediatamente teve que retirar sua proposta. Portanto, existem algumas preocupações – mesmo entre partes da população que votaram no MAS. Como o povo armado poderia ser controlado?

JRQ

Nesse modelo, um povo armado com nível educacional [suficiente] e consciência política assume a defesa militar do território, mas também da própria nação.

A mídia condena Evo por essa proposta – mas por quê? Recordo-me de que, de 1960 a 1964, a Constituição reconhecia o Exército, a Força Aérea, a Marinha, mas também as milícias. A Revolução Nacional de 1952 a 1964 coexistiu com milícias armadas, milícias trabalhadoras, milícias camponesas e mulheres armadas. Só que agora isso é supostamente um escândalo.

Os Estados Unidos são a sociedade mais armada do mundo, e sua população civil é a mais armada do mundo. Só que agora virou um escândalo pensar na possibilidade de haver milícias.

“Havia 60 comunistas na Bolívia e os anticomunistas contavam com um Exército de 30 mil homens. O Partido Comunista da Bolívia era pacífico e nunca declarou guerra civil e só participou de campanhas eleitorais.”

Essa é uma concepção para as revoluções do século XXI. Não é somente uma questão de suprimir ameaças de golpe. Com certeza, não há golpe contra um povo consciente e armado. Porém, o conceito não para por aí – é um conceito mais amplo de autodefesa. Atualmente, o Império, os Estados Unidos, está sofrendo derrota atrás de derrotado por um povo armado no Afeganistão, o mais pobre do Oriente Médio. Essa é a maior derrota militar dos poderes ocidentais no século XXI – e fará com que os Estados Unidos e a OTAN pensem duas vezes antes de invadir outro território.

AF

Você mencionou doutrinas imperialistas, como a luta contra o comunismo. O que existe por trás de tais doutrinas?

JRQ

Os norte-americanos lutaram três guerras na América Latina nos últimos 70 anos: a guerra contra o comunismo, a guerra contra as drogas e a guerra ao terror. Essas guerras imperiais servem como pretexto para o domínio geopolítica sobre a América Latina – e também outras partes do mundo, mas vou me concentrar na América Latina.

A guerra contra o comunismo era uma farsa. Ela dizia respeito à expansão norte-americana por todo o mundo sob o pretexto de coibir o avanço do comunismo. Com o macarthismo, eles criaram a ameaça vermelha na sociedade americana e a utilizaram a fim de criminalizar o comunismo, mas apenas para manter a coesão interna da população dos Estados Unidos.

Este foi um pretexto para erguer o poderio dos militares, que vieram à América Latina com seu anticomunismo. Havia 60 comunistas na Bolívia e os anticomunistas contavam com um Exército de 30 mil homens. O Partido Comunista da Bolívia era pacífico e nunca declarou guerra civil. Participou de campanhas eleitorais democráticas. Porém, as Forças Armadas na Bolívia foram moldadas de acordo com a doutrina anticomunista. Como os Estados Unidos disseram que os trabalhadores, camponeses, mulheres indígenas, mineiros e etc. eram comunistas, o Exército combateu mineiros, trabalhadores, camponeses e etc..

Com a queda do muro de Berlim, a guerra anticomunista foi substituída pela “guerra às drogas”. Eles alegaram que o tráfico de drogas corrompe e destrói a sociedade. Para que? Para criar a DEA e usá-la para interferir em assuntos domésticos da Bolívia e outros países da região.

“Com a queda do muro de Berlim, a guerra anticomunista foi substituída pela Guerra às Drogas.”

Só que vamos olhar para dois casos. Em 2001, quando os norte-americanos invadiram o Afeganistão, havia 20 vezes menos produção de ópio do que hoje. Estamos falando de que luta contra as drogas? Há 7 bases norte-americanas na Colômbia onde fica uma grande parte do Comando Sul dos Estados Unidos. A Colômbia é um país ocupado pelos norte-americanos, e o maior produtor líquido de cocaína. Onde está a luta contra o tráfico de drogas lá? Onde estão os soldados da DEA e dos Estados Unidos?

Atualmente, eles empregam a “guerra ao terror”. Eles nos chamavam sediciosos e terroristas, um narcogoverno. Só que cadê os terroristas?

AF

Considerando que a DEA foi expulsa da Bolívia em 2008, segundo vários relatórios, foi graças ao apoio de DEA que as atividades de tráfico de drogas se expandiram. O que você pensa sobre isso?

JRQ

Historicamente na Bolívia, a DEA foi parte do problema do tráfico de drogas e nunca foi a solução. Vou lhe dar três exemplos claros.

A DEA estava envolvida na exportação de drogas da Serranía de Caparuch para alimentar o sistema financeiro e comprar armas para as guerras civis na América Central, sob o comando de Oliver North. Em ambos os casos, a CIA esteve envolvida na exportação de cocaína. Aqui na Bolívia, há dois casos em que a DEA participou da exportação de quatro toneladas de cocaína que saíram de El Alto e que foram então detidas no Peru.

Além disso, há outros casos de agentes da DEA envolvidos no tráfico de drogas. Não sou apenas eu quem diz isso. Há livros de autoria de ex-agentes de DEA que confessam que ela esteve envolvida na proteção do tráfico de drogas, produção de cocaína, proteção das rotas internacionais de tráfico. Michael Levine escreveu a respeito disso. Ele é um ex-agente da DEA que trabalhou na Bolívia e na Argentina. Ele relatou que o golpe militar de Luis García Meza em 1980 foi financiado com o apoio da CIA e do tráfico de drogas.

“Há livros de autoria de ex-agentes de DEA que confessam que ela esteve envolvida na proteção do tráfico de drogas, produção de cocaína, proteção das rotas internacionais de tráfico.”

Quem hoje acredita que a guerra ao tráfico de drogas tem obtido vitórias? Muito pelo contrário. Ela tem sido um fracasso retumbante.

AF

É interessante que os gabinetes de Evo contavam com líderes sindicais, acadêmicos, ex-guerrilheiros junto com você, um antigo soldado de alta patente. Por que Evo criou um governo tão diverso, inclusive gerando certas tensões?

JRQ

Os governos anteriores não refletiram a sociedade. Evo perseguiu a lógica indígena andina de tecer relacionamentos conjuntos. Para Evo, o poder não é a predominância da decisão de um homem, mas saber como tecer coisas juntos. No gabinete, havia mineiros, trabalhadores, mulheres indígenas, artesãos, ex-soldados e intelectuais de classe média.

Em qualquer decisão política, você tinha a possibilidade de ouvir uma opinião de qualquer um desses diferentes atores sociais. Havia sempre discrepâncias, sempre havia debate. Entretanto, a decisão política foi enriquecida pela combinação plural do pensamento de todos.

AF

Houve fortes críticas quando você disse, alguns dias antes do golpe em 2019, “vamos ser para os Estados Unidos o segundo Vietnã”. Por que você disse isso?

JRQ

A direita vai usar qualquer coisa que o governo dissesse para seus próprios objetivos políticos. Se dissermos que [meu discurso] contribuiu para um clima de tensão social, foi graças à manipulação feita pela direita da minha simples declaração de que “meu desejo maior é que a Bolívia seja um Vietnã contra o Império”.

Porém, que revolucionário não quer que sua pátria seja outro Vietnã? Se não, qual é o ponto de ser anti-imperialista?

Hoje, a maior ameaça à humanidade é o imperialismo dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, aliados na OTAN. Este é o imperialismo que destruiu o Afeganistão, que está destruindo o Iraque, que está destruindo o Iêmen, que está destruindo o Oriente Médio, que está desestabilizando a região.

Isso também é um imperialismo em crise, incapaz de se erguer com os dois pés. O imperialismo se sustenta explorando a sociedade, saqueando os recursos naturais, explorando força de trabalho, concentrando a riqueza em algumas mãos. Temos 1% da sociedade controlando 50% da riqueza do mundo. Você considera isso racional?

“A maior ameaça à humanidade é o imperialismo dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, aliados na OTAN.”

Este imperialismo em armas é a expressão de um sistema capitalista global – como afirmou Vladimir Lênin, sobre a fase superior do capitalismo. Ele só pode sobreviver por meio da guerra. Nossa proposta é derrotar a lógica da indústria de guerra, o sistema que se baseia na guerra.

Para dizer que a Bolívia viraria outro Vietnã – bem, politicamente, acho que é isso que aspira qualquer cidadão progressista, humanista e solidário da esquerda. É o mínimo que devemos propor. Quando você pensa no Vietnã, você pensa em uma nação armada, um povo pobre e golpeado invadido pela maior potência mundial, que provou ser capaz de derrotar o Império.

Isso, obviamente, geraria muita controvérsia entre a direita, defensora do Império. A mídia boliviana são cadeias de transmissão do projeto de dominação imperial. Eles estão defendendo a destruição da humanidade, enquanto nós defendemos a humanidade e a Mãe-Terra. É por isso que somos anti-imperialistas. Pois queremos a paz. Pois não desejamos supremacia, mas igualdade e justiça. Então, o que eu disse não era uma posição militarista, mas a oposição política ao militarismo imperial.

Algumas pessoas não acreditavam que ocorreria um golpe na Bolívia. Só que, quando você tem um projeto político de emancipação, da independência do Império, um golpe é inevitável. Porque os Estados Unidos não podem aceitar nenhum país na América Latina que não obedeça seus interesses estratégicos e geopolíticos. Todos os países que se opuseram aos Estados Unidos nos últimos cem anos sofreram punição imperial ou invasão militar, golpes, assassinatos ou destruição do governo.

AF

Você é uma figura controversa, mas também popular, e você recentemente publicou seu novo livro. O que você enxerga como seu papel futuro no “processo de mudança” boliviano?

JRQ

Estou tentando tornar os jovens conscientes de sua responsabilidade quanto à humanidade. Quero vê-los ter uma conduta ética, política e moral que seja anti-imperialista, anticapitalista, anticolonialista e antifascista. Desse modo, meu trabalho se concentrará na educação política.

O capitalismo é um projeto exaurido. Então, nós precisamos cogitar uma alternativa. Pensar nesta filosofia do bem-viver (vivir bien), um pensamento anti-imperialista que tem também uma projeção global. Eu me vejo como um humilde professor dessa geração de jovens, tentando fazê-los compreender nossa história.

“Nosso poder não é o conceito ocidental de poder: uma concentração de privilégios. Pelo contrário, é uma ferramenta para a libertação.”

Precisamos nos rebelar contra a história que fomos ensinados durante 180 anos. O século XIX viu o movimento indígena lutar para preservar suas terras contra o cerco das grandes mineradoras e os grandes proprietários expropriadores. Se você expropria as terras de uma comunidade, também está destruindo sua cultura, sua língua, seus costumes, sua memória ancestral.

Essa história sempre foi escondida de nós para negar o papel de liderança do trabalhador, do agricultor, da mulher camponesa. Meu maior desejo é ensinar essa história oculta. Se eu puder desenvolver esse trabalho no MAS, estarei muito feliz de verdade.

AF

Se você pudesse dar conselhos a qualquer membro do governo, qual seria?

JRQ

Eu não costumo dar conselhos, mas vou fazer uma recomendação simples especialmente para o governo. Caso o poder não for entendido da forma correta, estamos condenados a ser derrotados.

A direita quer poder e não tem problemas em ver o povo sendo massacrado – como em Senkata e Sacaba – numa lógica de poder pelo poder. Não tem moral ou escrúpulos no domínio imponente sobre os outros.

Contudo, nosso poder não é o conceito ocidental de poder: uma concentração de privilégios. Pelo contrário, é uma ferramenta para a libertação. O poder não significa um meio para usurpar aquilo que os outros têm. O poder serve fazer tudo que for possível para que os outros possam viver bem. O poder não é sobre comandar do alto do cargo público, mas a obediência à vontade coletiva – garantindo interesses coletivos.

Sobre os autores

foi o ministro boliviano da presidência no governo de Evo Morales.

é organizador do Wiphala Movement Germany e estudante de ciência política e sociologia.

Cierre

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Published in América do Sul, Entrevista, Guerra e imperialismo and História

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