Coringa e o pânico moral

04/10/2019

Por
Eileen Jones

Tradução
Victor Alexander

O pânico moral sobre filmes provocantes como “Coringa” é tão antigo quanto o próprio cinema. Filmes de Spike Lee, Oliver Stone, Luís Buñuel e Jean Renoir já sofreram a mesma acusação pela direita liberal. Na maioria das vezes são apenas mais uma prova do mérito de um filme – e de uma classe com medo de se reconhecer nas telas.

Joaquin Phoenix como Arthur Fleck em Coringa. (Niko Tavernise / Warner Bros. Entretenimento)

O número de vezes na história em que filmes criaram um alvoroço que levou à violência é surpreendentemente pequeno, tornando as recentes previsões sombrias de que Coringa provavelmente inspirará caos em massa uma aposta ruim – possível em países sempre perturbados como os EUA, mas não provável.

Quando se trata de tumultos previstos nas exibições ao longo da história do cinema, uma experiência mais típica é a frustração de Luís Buñuel quando o público não se revoltou na estreia de seu ainda surpreendente filme de vanguarda Un Chien Andalou em 1929. (Se você é sensível, desvie o olhar quando a navalha se aproxima dos olhos da mulher.) Ele ficou furioso quando o filme que fez com Salvador Dali para agir como “um chamado ao assassinato” foi recebido com calorosos aplausos.

Críticos e especialistas histéricos previram tumultos urbanos para as sessões de Faça a Coisa Certa de Spike Lee em 1989, o que ajudou a fazer o filme ser ainda mais visto no que se mostraram ser experiências cinematográficas perfeitamente decorosas em todo o país. Mas, por outro lado, os assassinatos frenéticos e representados graficamente por Oliver Stone em Assassinos por Natureza (1994), que levaram ao seu banimento inicial na Irlanda e a uma liberação adiada nos Estados Unidos, tornaram-se marcantes por supostamente ajudar a inspirar assassinatos “copiados”, incluindo os massacres de Heath High School e Columbine High School

Se você quiser falar sobre tumultos reais inspirados em filmes, pode citar Padmavati, um filme de Boolywood de 2018 sobre um romance do século XIV entre uma rainha Hindu e um imperador Muçulmano. Simples rumores de que havia uma sequência em desenvolvimento no filme contendo uma cena íntima fantasiosa entre os dois provocou a vandalização do cenário durante a produção por grupos hindus de direita, protestos nas ruas queimando carros e ônibus, o banimento do filme em quatro estados indianos, ameaças de cortar o nariz da estrela Deepika Padukone, o diretor Sanjay Leela Bhansali queimado em efígie e intervenção judicial para garantir o lançamento do filme com algumas mudanças prudentes.

O mais improvável tumulto que surgiu de um filme foi provavelmente A Regra do Jogo de Jean Renoir, que estreou em Paris no ano de 1939 em uma dupla aposta com um documentário patriótico sobre a história francesa. Organizações de direita que fizeram a exibição do filme vaiaram o retrato incisivo da classe dominante francesa. Brigas começaram e alguém tentou atear fogo no cinema. O filme estrelado foi um desastre comercial, banido na França pelo surto da guerra por seus efeitos “desmoralizantes”, e as cópias e os negativos do filme foram destruídos em um atentado pelos Aliados. Pensava-se que fosse um filme perdido, até uma única cópia sobrevivente ser descoberta em 1960, quando uma reavaliação crítica estabeleceu este como o auge do trabalho de Renoir.

Um membro do Partido Comunista Francês (PCF) e o principal cineasta a trabalhar em nome da Frente Popular, Renoir analisou o tumulto em torno de A Regra do Jogo com sua usual generosidade e compreensão:

Eu retratava personagens agradáveis e simpáticos, mas os mostrava em uma sociedade em processo de desintegração, para que fossem derrotados no início… A audiência reconheceu isso. A verdade é que eles reconheceram a si mesmos. Pessoas que cometem suicídio não se preocupam em fazer isso diante de testemunhas.

O furor em torno do novo filme Coringa começou não de uma sessão desastrosa, mas de uma estreia extremamente bem sucedida: foi ovacionado durante oito minutos no Festival de Veneza, e em sequência ganhou o prestigiado prêmio Leão de Ouro. Apenas para contextualizar, o Leão de Ouro vai para filmes como Rashomon, O Ano Passado em Marienbad, A Infância de Ivan, A Batalha de Argel, Os Renegados, Adeus Meninos, The Story of Qiu Ju, O Segredo de Vera Drake, Brokeback Mountain, e Roma. Apenas esperando que alguém esteja se divertindo em algum lugar, gosto de pensar que os europeus que votaram no Festival de Cannes estavam apenas nos trolando, antecipando o surto moral e estético entre os guardiões da cultura estadunidense na elevação de Coringa a padrões significativos de filmes de arte. Eu os imagino bebendo tanto até que o vinho saia pelo nariz.

No entanto, na verdade eles provavelmente foram sinceros, e sua reverência ao filme foi, para dizer o mínimo, inesperada para mais um filme com o Coringa, o gargalhante e amado vilão psicopata da DC Comics, um personagem que já foi interpretado três vezes em filmes de super-heróis, por Jack Nickolson (Batman,1989), Heath Ledger (Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2008), e Jared Leto (Esquadrão Suicida, 2016). Mas com o altamente respeitado ator Joaquin Phoenix reconcebendo o papel como um raivoso e isolado incel branco da classe trabalhadora levado ao limite, esse aplauso chocou e irritou críticos de cinema e jornalistas de entretenimento. Houve uma enxurrada de comentários alarmistas desde então, incluindo especulações nervosas sobre a possibilidade de violência imediata como uma aparente resposta ao filme, como na crítica de Sarah Hagi na Jezebel :

A pergunta na mente de todos quando assistirem Coringa é e será: o quão perigoso é isso? O público alvo de jovens homens brancos será inspirado por Coringa?

O precedente assustador é o massacre de Aurora, Colorado em que um jovem enlouquecido – supostamente chamando a si mesmo de Coringa – atacou uma plateia em uma exibição de O Cavaleiro das Trevas, matando doze pessoas e ferindo setenta. Porém, essa compreensível ansiedade percorrendo as discussões sobre o filme tende a ampliar as denúncias do próprio filme como um projeto inerentemente irresponsável socialmente, independentemente de sua qualidade. Há uma formulação em muitas críticas que pode ser resumida como “É bom, mas e daí?”.

Como Scott Tobias, editor de filmes do The A.V. Club, comentou

Coringa pode até ser um ótimo filme, mas soa como o equivalente cultural à fabricação de caminhonetes gigantescas em resposta às mudanças climáticas

Uma ideia menos alarmante do que Coringa representa, pelo menos até agora, seria uma tentativa de fazer um filme de gênero a partir de material excessivamente familiar, encontrando um ângulo que o torne interessante e significativo novamente, como vemos com frequência. O maior problema percebido aqui parece ser que os resultados são muito poderosos e o público em geral os verá.

Se este fosse apenas um filme de arte que lidasse com as forças sociais que conduzem o movimento incel, por um autor respeitado, feito para uma audiência de nicho dos conhecedores de arte, não haveria tamanhas reações histéricas como a que veio da crítica de Leah Grenblatt na Entertainment Weekly’s, cujos editores optaram por lançar sua resenha do filme sem nota:

Entretanto a verdade é que o entretenimento não existe no vácuo e um filme que martela uma mensagem como esta repetidas vezes – que a vida é desagradável e curta; que ninguém se importa; que você também pode queimar tudo – parece volátil e assustador demais para se separar da violência real cometida por jovens como o Arthur Fleck de Joaquin Phoenix nos EUA quase todos os dias.

Estes críticos apertando repetidamente o botão do pânico misturam o perigo supostamente inerente ao conteúdo do filme com a questão de sua qualidade, o que reduz alguns à incoerência, como vemos no texto de David Ehrlick do IndieWire:

Coringa não é nem um divisor de águas e nem apenas “outro dia em Chuckletown”. É ambos. É bom o suficiente para ser perigoso e ruim o suficiente para que desejemos algo melhor. Vai virar o mundo de cabeça para baixo e nos deixar histéricos no processo. Para o bem ou para o mal, é exatamente o filme de que o Coringa gostaria.

Mesmo que denunciem o filme por razões morais, Ehrlich e outros críticos reconhecem – ainda que indiretamente – a criatividade invulgarmente ousada do filme, suas proezas técnicas e, especialmente, o desempenho perigosamente eficaz de Joaquin Phoenix em um papel projetado para criar uma identificação insidiosa com o público.

Pelo que podemos extrais desses relatos, o problema é que este filme é bom demais. A sua considerável qualidade é suspeita e a chave para sua malevolência.

E ainda pior do que ter o que poderia ser um filme poderosamente eficaz chegando em nosso caminho, nós temos que nos confrontar com seu diretor, Todd Phillips, que está sendo renegado e insultado por seus problemas como poucas vezes se viu com um diretor de um esperado novo filme de sucesso. Ehrlich o descreve como “um glorificado troll sem limites, que carece da disciplina ou da nuance necessárias para lidar com responsabilidade com um material tão perigoso…”

Outros apenas mencionam os trabalhos mais conhecidos de Phillips como um insulto suficiente por si só – Dias Incríveis, Caindo na Estrada e Se Beber, Não Case 1, 2, e 3, todas comédias – e talvez se refiram levemente à sua participação na chamada “galera da irmandade” (“frat pack“), um trio de diretores de comédia que inclui Judd Apatow e Adam McKay. A implicação parece clara de que o que há de errado com Phillips é que ele é um “parça” da faculdade – “parça” demais para ser capaz de lidar com um assunto tão volátil como um filme que mostra um homem psicótico colocando em ação as massas enfurecidas. Já vimos esse retrato em vários filmes nos últimos anos – exemplo 1: Bane, em The Dark Knight Rises. Podemos confiar nisso como fonte de terror para os liberais, pois, eles contemplam com repulsa absurdamente igual à ascensão política de Donald Trump e de Bernie Sanders.

Os esforços de juventude de Phillips, entretanto, ajudam muito a contextualizar o surgimento de Coringa como uma indicação de maiores ambições no cinema e a possibilidade de ele realmente ter feito um filme interessante. Até aqui ninguém parece intrigado pelo início da carreira de Phillips, que inclui alguns anos estudando na Tysch School of the Arts da Universidade de Nova York, onde ele fez o documentário Hated: GG Allin and the Murder Junkies (algo como “Odiados: GG Allin e os Drogados Assassinos”), um retrato de um escabroso roqueiro punk que teve lançamento nos cinemas e em DVD – algo quase inédito para filmes estudantis. Abandonando a faculdade para terminar Hated, ele trabalhou na lendária, decadente e abrangente Kim’s Video and Music, uma locadora especializada em filmes raros e voltados a iniciados, que “graduou” seu próprio grupo ilustre de notáveis ex-funcionários, que se tornaram cineastas, músicos e artistas. Ele co-dirigiu seu segundo documentário, “Frat House“, que trouxe uma sombria visão crítica da vida em uma fraternidade na faculdade e que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, mas que afundou logo na estreia por causa de alegações de que membros da fraternidade teriam sido pagos para reencenar eventos. Seu terceiro filme, o “rockumentário” Bittersweet Motel (algo como “Hotel Agridoce”), levou Phillips em uma turné com a banda Phish, onde ele conheceu o diretor Ivan Reitman, e o resto, como se costuma dizer, é história.

O irônico resultado final de toda essa agitação crítica será revertido em mais ingressos, já que pessoas que haviam perdido todo seu interesse no gênero de super-heróis agora se sentem curiosas sobre que possível tratamento cinematográfico do Coringa poderia representar tal ameaça para a sociedade. Sugestões críticas nas entrelinhas (e às vezes além das entrelinhas), de que um filme deveria ser suprimido em nome do bem público sempre nos atrairão em manadas. Não estamos errados nessa reação – há uma boa chance de vermos algo interessante e o precedente histórico nos diz que sempre há a possibilidade de que vamos assistir a um filme realmente excelente, que deixou todo mundo nervoso por um bom motivo.

Sobre o autor

é crítica de cinema da Jacobin e autora no Filmsuck, nos Estados Unidos. Ela também apresenta um podcast chamado Filmsuck.