Da Estação Finlândia ao futuro socialista

28/11/2019

Por
Bhaskar Sunkara

Tradução
Charles Rosa

Os avanços do populismo de extrema-direita na esteira da crise do neoliberalismo parecem colocar como únicas alternativas para a humanidade a manutenção do liberalismo agonizante ou um autoritarismo ultranacionalista. No entanto, existe uma alternativa: um retorno à “Estação Finlândia” e aos ideais radicais que animavam os socialistas da classe trabalhadora no começo do século XX.

Trabalhadores de fábrica de tecelagem em Likinskaya, na Rússia de 1917. Foto: RIA Novosti/Sputnik, via Associated Press

Cem anos depois do trem blindado de Lênin chegar à Estação Finlândia e desencadear os eventos que acabariam levando aos gulags de Stálin, a ideia de que deveríamos retornar a essa história em busca de inspiração pode soar absurda. No entanto, havia uma boa razão para que os Bolcheviques certa vez tivessem se chamado de “social-democratas”. Eles faziam parte de um amplo movimento de partidos em crescimento que buscavam lutar por maior democracia política e, usando a riqueza e a nova classe trabalhadora criadas pelo capitalismo, estender os direitos democráticos para as esferas econômica e social, o que nenhum capitalista permitiria.

O movimento comunista nos seus primórdios nunca rejeitou essa premissa ampla. Ele nasceu de uma sensação de traição por parte dos partidos da esquerda mais moderados da Segunda Internacional, a aliança de partidos socialistas e trabalhistas de 20 países fundada em Paris em 1889. Por toda a Europa, partido atrás de partido fez o impensável, abandonando suas promessas de solidariedade pelas classes trabalhadoras entre todas as nações e apoiando seus respectivos governos na I Guerra Mundial. Aqueles que permaneceram leais às velhas ideias se autodenominaram “comunistas” para se distanciar dos socialistas que haviam apoiado a matança que custou 16 milhões de vidas. (Em meio à carnificina, a Segunda Internacional desmanchou em 1916).

Certamente, a nobre jogada dos comunistas a fim de parar a guerra e pavimentar uma via humana para a modernidade na Rússia atrasada aparentemente acabou reafirmando a noção burkeana de que qualquer tentativa de revogar uma ordem injusta acabaria somente por criar outra.

A maioria dos socialistas teve de sofrer o castigo das lições do comunismo do século XX. Hoje, muitos dos que teriam aplaudido a Revolução de Outubro têm menos confiança nas perspectivas para a transformação radical do mundo em uma única geração. Em vez disso, colocam uma ênfase no pluralismo político, no dissenso e na diversidade.

Ainda assim, o espectro do socialismo evoca o medo de um novo totalitarismo. Um relatório recente da Fundação Memorial das Vítimas do Comunismo demonstra preocupação sobre como nos EUA os jovens tendem a ver o socialismo de maneira favorável e que um “impulso Bernie Sanders” pode estar contribuindo para um giro milenial contra o capitalismo. Em 2016, o próprio presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Thomas J. Donohue, achou necessário lembrar os leitores de que o “Socialismo é um Perigoso Caminho para a América”.

A direita segue denunciando o socialismo como um sistema econômico que levaria à miséria e à privação, mas com menos ênfase no autoritarismo político que frequentemente esteve de mãos dadas com o socialismo no poder. Isso talvez ocorra em virtude das elites atuais não terem os direitos democráticos no primeiro plano de seus pensamentos – talvez porque sabem que as sociedades que dirigem são difíceis de justificar nesses termos.

O capitalismo é um sistema econômico: um modo de organizar a produção para o mercado através da propriedade privada e da motivação do lucro. Até onde permitiu a democracia, ele fez isso com extrema relutância. É por isso que os primeiros movimentos de trabalhadores, como os cartistas britânicos no começo do século XIX, organizaram-se em primeiro lugar em nome dos direitos democráticos. Tanto os líderes capitalistas quanto os dirigentes socialistas acreditavam igualmente que a luta pelo sufrágio universal encorajaria os trabalhadores a usar seus votos na esfera política para demandar uma ordem econômica que os colocasse no controle.

Não foi bem assim que as coisas aconteceram. Por todo o Ocidente, os trabalhadores vieram a aceitar uma espécie de compromisso de classe. O empreendimento privado seria domado – e não superado -, enquanto uma maior parcela de um bolo em crescimento seria usada para fornecer benefícios universais através de generosos estados de bem-estar. Os direitos políticos também seriam consagrados, à medida que o capitalismo evoluía e se adaptava de tal forma que uma sociedade civil democrática e um sistema econômico autoritário passaram a compor um par improvável, porém aparentemente bem-sucedido.

Em 2019, esse arranjo está morto há tempos. Com os movimentos da classe trabalhadora adormecidos, o capital surtou, traçando um curso destrutivo sem nem mesmo manter a promessa de crescimento sustentado. A raiva que levou à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, ao voto pelo Brexit na Grã-Bretanha ou à eleição de Bolsonaro no Brasil é palpável. As pessoas sentem como se estivessem em um trem desgovernado rumo a um destino desconhecido e, por uma boa razão, desejam um retorno às misérias com as quais já estão familiarizadas.

Em meio a essa turbulência, alguns temem um retorno à Estação Finlândia através dos ares de tio ou de avô de líderes que se declaram socialistas, como o Sr. Sanders nos EUA e Jean-Luc Mélenchon na França. Porém, a ameaça à democracia hoje está vindo da direita, não da esquerda. A política parece apresentar dois caminhos à frente, ambos formas decididamente não-stalinistas de coletivismo autoritário.

A “Estação Cingapura” é o destino inconfesso do trem do centro neoliberal. É um lugar onde pessoas de todos os credos e cores são respeitadas – desde que saibam o seu lugar. Afinal, o povo é grosseiro e irracional, incapaz de governar. Deixem a administração da Estação Cingapura para os especialistas.

Esta é uma visão viável e funcional para as elites que observam com medo justificado o surgimento de um errático populismo de direita. Muitos deles defendem a necessidade de medidas de austeridade para manter uma frágil economia global e preocupam-se com o fato de que os eleitores possam não querer sofrer no curto prazo para se poupar de disfunções de longo prazo. O mesmo se aplica à ameaça iminente das mudanças climáticas: a ciência é incontestável entre os cientistas, mas ainda está aberta ao debate na esfera pública.

O modelo Cingapura não é o pior de todos os possíveis pontos finais. É um modelo onde se permite que especialistas sejam especialistas, que capitalistas acumulem e que os trabalhadores comuns tenham um semblante de estabilidade. Só que ele não deixa nenhum espaço para os passageiros do trem poder gritar “PARE!” e a pegar um destino de sua própria escolha.

A “Estação Budapeste”, assim nomeada por causa dos poderosos partidos de direita que hoje dominam a Hungria, é a parada final da direita populista. Budapeste nos permite ao menos nos sentir de volta no comando. Para chegar lá a gente precisa desacoplar alguns dos vagões que nos aceleravam para frente e engatar uma lenta marcha ré. Estamos todos juntos nessa, a menos que você seja um pária sem passagem – nesse caso, boa sorte.

O “trem Trump” segue nessa direção. O presidente Trump não pode oferecer ganhos tangíveis para as pessoas comuns, o que exigiria desafiar as elites, mas pode oferecer uma valorização superficial do “trabalhador” e estimular a raiva pelas supostas causas do declínio nacional – imigrantes, acordos comerciais ruins, globalistas cosmopolitas. A imprensa, a universidade e quaisquer outras partes da sociedade civil que não se conformem a ele estão sob ataque. Enquanto isso, tirando a parte de terem de se ajustar a mais protecionismo e a políticas de imigração restritivas, tudo permanece o mesmo para a maioria das corporações.

Mas há uma terceira alternativa: voltar à “Estação Finlândia”, munidos de todas as lições do passado. Dessa vez, as pessoas podem votar. Bom, na verdade podem debater, deliberar e depois votar – e ter fé em que as pessoas podem se juntar e se organizar para traçar novos destinos para a humanidade.

Despido até a sua essência, e retornado às suas raízes, o socialismo é uma ideologia de democracia radical. Numa época em que as liberdades estão sob ataque, o socialismo busca empoderar a sociedade civil para nos permitir a participação nas decisões que afetam nossas vidas. Uma burocracia estatal enorme, é claro, pode ser tão alienante e antidemocrática quanto as mesas diretoras das corporações, por isso precisamos refletir profundamente sobre as novas formas que a propriedade social poderia tomar.

Alguns contornos mais amplos já devem estar claros: cooperativas de trabalhadores, concorrendo em um mercado regulado; serviços governamentais coordenados com o auxílio de planejamento cidadão; e a provisão dos elementos básicos necessários para se ter uma boa vida (educação, moradia e cuidados de saúde) garantidos como direitos sociais. Em outras palavras, um mundo onde as pessoas são livres para atingir seus potenciais, não importa suas circunstâncias de nascimento.

Nós só podemos chegar a essa Estação Finlândia com o apoio de uma maioria; essa é uma das razões pelas quais os socialistas são defensores tão enérgicos da democracia e do pluralismo. Mas não podemos ignorar a perda de inocência do socialismo ao longo do século passado. Podemos rejeitar a versão de Lênin e dos bolcheviques como demônios enlouquecidos e optar por vê-los como pessoas bem intencionadas tentando construir um mundo melhor à partir de uma crise – mas nós precisamos descobrir como evitar suas falhas.

Esse projeto implica um retorno à social-democracia. Não a social-democracia de François Hollande, mas a dos primeiros dias da Segunda Internacional. Esta social-democracia envolveria um compromisso com uma sociedade civil livre, especialmente para as vozes de oposição; a necessidade de freios e contrapesos institucionais sobre o poder; e uma visão de transição para o socialismo que não exige uma ruptura de “ano zero” com o presente.

Nossa Estação Finlândia do século XXI não será um paraíso. Você pode se sentir de coração partido e angustiado por lá. Mas será um lugar que permitirá a muitos e muitos que hoje estão esmagados pela iniquidade participarem da criação de um novo mundo.

Publicado originalmente no The New York Times.

Sobre os autores

é editor e fundador da revista Jacobin.