Contra o fim da História

11/07/2020

Por
Antonio Augusto Galvão de França

O iconoclasta pensador marxista Mark Fisher nasceu neste dia em 1968. Seu legado intelectual ajudou a inspirar uma geração e suas obras se tornaram hoje uma referência incontornável no campo da cultura, filosofia e política. Além de denunciar as consequências do neoliberalismo realmente existente, o pensamento de Fisher nos ajuda a ver para além da ideologia de que “não há alternativa”.

Mark Fisher na praia / Wikimedia.

O teórico inglês Mark Fisher completaria, neste sábado 11 de julho, 52 anos. Seu primeiro livro, Realismo Capitalista, originalmente publicado em 2009, segue como uma incontornável obra no campo de estudos da ideologia. Apesar dessa importância, Fisher ainda não é tão conhecido no Brasil.

Por ser um pensador com muitas faces e dimensões, Fisher não é um intelectual facilmente classificável, tanto no que diz respeito à forma, quanto ao conteúdo de sua obra. Podemos classificá-lo como um cyberpunk, aceleracionista, marxista, crítico cultural, pesquisador, professor, editor, acadêmico e blogueiro.

É possível inserir o pensamento de Fisher no cenário contemporâneo do chamado “novo marxismo”, em um quadrante de autores ecléticos, que, tangenciando as formas sociais e outras leituras inerentes ao marxismo, transitam por diversos temas, tais como arte, cultura, ciência política e psicanálise, cabendo aqui destacar algumas das influências na teoria de Fisher que também integram esse quadrante, tais como Gilles Deleuze, Felix Guattari, Fredric Jameson e Slavoj Zizek.

Uma especificidade de Fisher diz respeito à sua capacidade de trânsito, consistente em ocupar tanto espaços acadêmicos quanto aqueles mais informais, através do ciberespaço, principalmente blogs e sites de cultura, política e filosofia, fazendo conexões entre tais temas, diluindo suas fronteiras, ao ponto de torná-los indistintos, naquilo que o autor denomina de teoria-ficção.

Não obstante a relevância das ideias de Fisher, essas ainda não receberam o merecido reconhecimento no Brasil, o que naturalmente também se deve à ausência, até o momento, de traduções de seus livros para o português, o que em breve será parcialmente sanado com o lançamento de sua principal obra, Realismo Capitalista. Um outro possível obstáculo para a plena recepção do pensamento do autor talvez se deva a uma equivocada percepção de uma especificidade de sua produção ao contexto britânico, o que, segundo alguns, comprometeria a aplicabilidade de sua obra ao cenário brasileiro.

No entanto, as principais concepções de Fisher, relativas aos temas da subjetividade, da sociabilidade capitalista e da ideologia, são universais e assim aplicáveis em praticamente qualquer cenário atual. Por exemplo, a importância do conceito de “realismo capitalista”, que pode ser descrito, em apertadíssima síntese, como correlato à ideia de Jameson e Zizek de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, é equiparável a outras concepções notáveis do marxismo, como a “hegemonia” de Antonio Gramsci ou “aparelhos ideológicos” de Estado de Louis Althusser. Nessa linha, a importância de Fisher foi recentemente destacada por Alysson Mascaro em sua altamente recomendável entrevista ao podcast marxista Revolushow, na qual ele afirma ser Fisher um dos grandes intelectuais do nosso tempo, ressaltando a importância do livro Realismo Capitalista.

Além disso, muitas das intervenções de Fisher em questões da política local britânica podem ser perfeitamente transpostas ao cenário brasileiro, tal qual a defesa da politização do problema da depressão como a doença mais incapacitante no Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido, o que corresponde aos dados atuais do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. O próprio Karl Marx, cabe lembrar, muitas vezes deixou de lado sua produção científica para se ater às prementes necessidades políticas de seu momento. Caso assim não fosse não teria, por exemplo, interrompido a formatação de sua grande obra, O Capital, para escrever a Crítica ao Programa de Gotha, na qual, apesar da pontualidade conjuntural da intervenção, abordou importantes ideias, universalmente aplicáveis, tal como o célebre enunciado: “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.

Pós-punk universitário

O autor nasceu na Inglaterra, no emblemático ano de 1968, na região inglesa de East Midlands, de forte tradição operária. Desse modo, viveu sua infância na década de 1970, no limiar do período fordista e do estado de bem-estar social britânico, época de efervescência política e cultural no Reino Unido, cujos eventos são comumente por ele utilizados em seus textos, como por exemplo a vitoriosa greve dos mineiros de 1972 e o advento do movimento punk em 1976.

O período cultural e político mais emblemático na formação de Fisher talvez corresponda ao de sua adolescência e início de juventude, a primeira metade da década de 80, época de um pós-fordismo ainda não consolidado, campo de disputa cultural e política, no qual é possível destacar a cena musical pós-punk e a mal fadada greve dos mineiros de 1984. Nesse tempo, a formação de Fisher foi profundamente marcada pelas publicações da imprensa musical, especialmente do periódico New Musical Express, onde Fisher, em meio à crítica cultural, teve contato com teóricos como Jacques Derrida e Jean Baudrillard.

No final dos anos 80, Fisher formou-se bacharel em Artes, com licenciatura em inglês e filosofia, pela Universidade de Hull e, dando continuidade aos estudos, ingressou na pós-graduação na Universidade de Warwick, concluindo seu doutorado em 1999. Ao longo da década de 1990, integrou a banda D-Generation, chegando a lançar um disco e, em 1995, co-fundou o coletivo Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), uma hermética e experimental organização para-acadêmica inicialmente vinculada ao Departamento de Filosofia da Universidade de Warwick. O CCRU era ponta de lança da corrente aceleracionista, com grande influência da filosofia de Deleuze e Guatarri, de base spinozista, referenciais que acompanhariam Fisher por toda sua obra.

Ensinando a classe trabalhadora

No início dos anos 2000, com seu doutorado concluído em Warwick, Fisher afastou-se da Universidade e do ambiente do CCRU, começando a trabalhar como professor de Further Education (FE), um misto de educação continuada com cursos profissionalizantes, destinados a alunos que terminaram o ensino médio e não quiseram, ou puderam ingressar na faculdade, geralmente oriundos da classe trabalhadora.

Foi experiência crucial para Fisher. Para além de ser seu primeiro emprego estável, de um lado, houve a satisfação em poder ensinar alunos oriundos das classes trabalhadoras, que costumeiramente apresentavam questões e desafios mais relevantes do que aqueles que seriam colocados por estudantes universitários. Por outro lado, ele se deparou com a dura realidade das políticas neoliberais de controle, que constrangia os colégios de educação continuada, sujeitando-os às metas impostas pelo governo e às pressões de métricas mercadológicas. Segundo Fisher, as escolas estiveram na vanguarda das mudanças que seriam implementadas no restante do sistema educacional e nos serviços públicos – um tipo de laboratório no qual as reformas neoliberais da educação foram testadas, o que foi determinante para a ruptura do autor com a concepção aceleracionista de que o incremento dos processos de reprodução capitalista poderiam resultar em uma superação emancipatória desse modo de produção, marcando sua guinada para o marxismo.

Crítica como meio, não como finalidade

Em 2003, em paralelo ao seu ofício de professor da FE, Fisher inaugurou seu blog, K-Punk (“k” sendo uma abreviação do grego kyber), que passou a ser uma persona de Fisher. O blog rapidamente se consolidou como pedra angular de um intenso circuito blogueiro, onde as ideias podiam circular sem os trâmites formais do espaço acadêmico. Além disso, tal meio permitia a inserção de imagens, vídeos e links para outros blogs ou textos, propiciando a formação de redes e fóruns de discussão.

Tal estrutura, rápida e informal, dava abertura a um outro tempo de resposta. Assim, Fisher passou a blogar de maneira precisa e pontual, acompanhando a sequência dos acontecimentos, fazendo múltiplas conexões, sendo uma de suas principais características a de vislumbrar potencialidades críticas e revolucionárias tanto em obras do mainstream. K-Punk tornou-se uma grande referência cultural crítica, e até hoje continua disponível on-line, com centenas de artigos, publicados de setembro de 2003 a julho de 2015.

Outra característica da escrita de Fisher em seu blog, que também posteriormente se refletiu em seus livros, diz respeito à uma elegante, porém contundente, radicalidade não apenas com relação a eventos manifestamente condenáveis, como também para com obras pretensamente neutras ou libertárias, nas quais denunciava elementos conservadores e reacionários subjacentes. Todavia, para Fisher, a crítica era um meio e não uma finalidade, e costumava “fazer do limão uma limonada”: por mais crítico que fosse em seus textos, sempre buscavam apontar novos caminhos ou leituras implícitas, extraindo o melhor de pessoas, obras e eventos.

Vida e obra

Fisher também atuou como editor, ajudando a fundar a editora crítica Zer0 Books, pela qual publicou sua obra de referência: Capitalist Realism – Is There No Alternative? (2009). Também publicou outros dois livros: Ghosts Of My Life – Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures (2013) e The Weird and The Eerie (2016), este último pela editora Repeater, a qual também ajudou a fundar, seguindo o mesmo espírito da Zer0 Books.

Postumamente foi publicada uma antologia, consistente na compilação de artigos, entrevistas e escritos, alguns inéditos, denominada K-Punk – The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher 2004-2016 (2018) e, finalmente, a tese de doutorado de Fisher, defendida em 1999, na Universidade de Warwick, Flatline Constructs: Ghothic Materialism and Cybernetic Theory-Fiction (2018), materializada em livro quase vinte anos depois.

Durante toda sua vida, Fisher travou uma batalha incessante contra a depressão, fato que tratava abertamente em seus livros, artigos e entrevistas. Em 13 de janeiro de 2017, em meio ao um período de crise, interrompeu sua própria vida. 

Nessa toada, é possível questionar como alguém que interrompe a própria vida pode ao mesmo tempo ser tido como um pensador que defende a esperança? A bem da verdade, a questão deve ser invertida, isto é, como alguém constantemente assombrado pela depressão pode ter desenvolvido uma produção tão profícua? Essa persistência em meio à dificuldade, característica de Fisher, foi batizada por Robin Mackay como a Função-Fisher, nome de um painel realizado em 2017.

Em seus últimos anos, Fisher estava ativo, proferindo palestras, escrevendo e atuando como professor no Departamento de Cultura Visual na Goldsmith – Universidade de Londres, onde sua morte foi profundamente sentida. Desde então, anualmente, ocorre na Goldsmith uma conferência memorial em sua homenagem.

Sua obra apresenta duas nítidas faces principais, de um lado a crítica radical ao capitalismo e à atmosfera ideológica pós-fordista, de outro a incessante busca de caminhos e alternativas para a superação do capitalismo, notadamente via subjetividade, cultura e desejo. Há um senso de urgência na escrita de Fisher, tanto no trato das questões táticas do dia a dia cultural e político, quanto na formulação de estratégias de longo prazo. Talvez em razão da premente necessidade dos embates do dia a dia, bem como por conta de uma certa rejeição para com os modelos acadêmicos tradicionais, não tenha se preocupado em esboçar um sistema filosófico acabado. Muito menos – e muito mais – que isso, sua obra pode ser interpretada como uma contundente denúncia à ideologia capitalista, aliada à arquitetura de esboços de superação, pontuada por uma série de conceitos geniais, tais como “realismo capitalista”, “materialismo gótico”, o “binômio estranho/insólito” e o “comunismo ácido”.

Realismo Capitalista pode ser sintetizado como um substancioso trabalho de nomeação de um sintoma, diagnosticando as raízes da angústia violentamente incutida por meio do discurso do “fim da história” e de que “não há alternativa” ao capitalismo. Mais que uma obra incontornável no tema da ideologia, Realismo Capitalista fornece um imprescindível insight de emancipação humana, pressuposto de superação da sociabilidade capitalista e, em última instância, um manifesto de esperança, a partir do qual, nos dizeres do autor, “de uma situação em que nada mais pode acontecer, de repente tudo é possível”.

Sobre os autores

é Juiz de Direito e membro da AJD - Associação Juízes para a Democracia.

Sobre o autor

Antonio Augusto Galvão de França é Juiz de Direito e membro da AJD - Associação Juízes para a Democracia.