Avaliando Robert Conquest

12/09/2020

Por
Kevin Murphy

Tradução
Deborah Almeida

Kevin Murphy analisa como o anticomunismo da Guerra Fria atrapalhou demais a produção histórica de Robert Conquest, historiador conhecido por ser um crítico feroz da brutalidade stalinista.

Robert Conquest recebe a medalha presidencial da liberdade pelas mãos de George W. Bush, em 2005. Foto: Getty Images

Robert Conquest morreu em agosto de 2015. Historiador formado em Oxford, trabalhou para o Departamento Britânico de Pesquisa de Informações produzindo material anti-soviético e mais tarde foi um dos conselheiros de Margaret Thatcher. Conquest é mais conhecido como o autor de mais de uma dúzia de livros sobre a Rússia de Stalin.

Seus livros compartilham muitas das características comuns aos relatos da época da Guerra Fria sobre a União Soviética. Conquest se juntava a muitos outros anticomunistas ao alegar que o reinado assassino de Stalin derivaria diretamente da política e do pensamento do líder bolchevique Vladimir Lenin. Mas quando o historiador conseguia deixar de lado seu profundo preconceito, ele oferecia importantes sacadas sobre a história da coletivização forçada e a ascensão do stalinismo.

O jovem vermelho

Mesmo entre amigos próximos como Kingsley Amis – que escreveu que Conquest sempre foi “implacavelmente anti-soviético” – poucos sabiam que o historiador foi membro da Liga dos Jovens Comunistas em Oxford ou que ele viajou para a União Soviética no verão de 1937, no auge dos expurgos sangrentos de Stalin.

Curiosamente, dada a sua trajetória posterior, Conquest voltou de sua viagem ainda leal à causa comunista. Foi só nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial que ele foi “curado”, como disse um comentarista da época, de suas idéias juvenis.

Conquest nunca escreveu sobre sua própria transformação pessoal, mas seu preparo inicial como comunista lhe dava uma vantagem distinta sobre outros historiadores. Ao contrário de muitos especialistas acadêmicos que nunca se deram ao trabalho de ler, muito menos de tentar entender as discussões bolcheviques, ele tinha uma capacidade quase incomparável de escrutinar e resumir os debates do Partido Comunista, especialmente em torno das questões da industrialização e coletivização.

Infelizmente, a conversão de Conquest ao anticomunismo muitas vezes o cegava. Na batalha perene sobre se Lenin teria plantado as sementes que floresceram no stalinismo, Conquest respondia enfaticamente que sim.

O trabalho de Conquest se concentrava no pico do stalinismo durante a década de 1930. Suas biografias de Lenin e Stalin, no entanto, demonstram que sua verdadeira missão era reformular a história da União Soviética: trazer à luz seu suposto núcleo totalitário, demonstrar as supostas continuidades entre os primeiros escritos de Lenin e as políticas brutais posteriormente perseguidas sob Stalin.

De acordo com Conquest, a proibição das facções por Lênin em 1921 “finalmente” eliminou a oposição, um desejo que – na versão de Conquest – estaria “implícito em todos os seus escritos desde o início do século”. Lênin já teria manipulado a política intra-partidária antes da revolução, alega Conquest, e ele então teria aplicado esses mesmos métodos tortuosos “nas fábricas e regimentos em Petrogrado”.

O historiador chegou até a repetir as maluquices sobre o “ouro alemão” que supostamente teria financiado a revolução e defendeu, de forma insustentável, que o Terror Vermelho teria sido pior do que o Terror Branco contra as massas.

No entanto, parte do trabalho de Conquest saía fora dessa sua trajetória típica de “Lenin criou Stalin”, mostrando que ele pelo menos não conseguia engolir as falsificações mais flagrantes sobre a Guerra Fria.

Bolchevismo da classe trabalhadora

O resumo de Conquest sobre os resultados das eleições de 1917 em seu livro Lenin (1972) concluía – como qualquer pessoa que tenha examinado de perto os resultados poderia concluir – que os bolcheviques haviam conquistado “a maior parte das classes trabalhadoras nas cidades”. Antes do julgamento liberal (hoje padrão) sobre a Revolução Russa, e procurando hipotéticas alternativas ao regime bolchevique, Conquest faz a surpreendente proposição de que “um governo de todos os partidos socialistas” poderia ter levado à “estabilidade, unidade e paz”.

Para aqueles que se apressam em rotular Conquest como apenas mais um vigarista anticomunista, vale a pena considerar que sua solução diverge acentuadamente daquelas apresentadas por seus colegas ideólogos da Guerra Fria como Richard Pipes, um admirador do potencial ditador russo Lavr Kornilov.

Pipes escreveu de maneira favorável sobre Kornilov – que simpatizava com os paramilitares anti-semitas do movimento Centenas Negras; que disse a associados que queria enforcar todo o bloco progressista do congresso (Duma) e que, durante a crise de abril de 1917, ordenou bombardeios de artilharia contra comícios e manifestações. Pipes alegava que “a Rússia ansiava por uma autoridade forte” e batia na tecla de que “os socialistas erem insensíveis a esse sentimento”.

Em agosto de 1917, Kornilov disse a outros líderes militares que era “hora de enforcar os agentes alemães” e dispersar os sovietes de forma que “nunca mais consigam se reunir”. Pipes culpa Kerensky por sua “recusa em tomar medidas resolutas contra os bolcheviques”, mas na realidade essa solução de açougueiro para a Revolução Russa estaria fadada ao fracasso. A maioria dos trabalhadores se recusavam a se desarmar, e as classes dominantes simplesmente não tinham capangas suficientes nas ruas para tornar suas aspirações ditatoriais uma realidade.

Pelo menos Conquest foi capaz de reconhecer que uma radicalização popular varreu a Rússia em 1917 – para Kornilov e Pipes, era como se a revolução nunca tivesse realmente acontecido. Mas, como muitos historiadores liberais modernos da Revolução Russa, Conquest se recusava a explicar como essa coalizão socialista imaginária poderia realmente ter funcionado.

Na prática, a solução proposta por Pipes de repressão em massa reflete melhor os desenvolvimentos reais e a política Aliados durante anos. Os britânicos forneceram veículos blindados para a tentativa ditatorial de Kornilov e, em dezembro de 1917, o presidente dos EUA Woodrow Wilson começou a enviar milhões de dólares a vários “homens fortes” na tentativa de instalar uma “ditadura militar” – como disse o secretário de Estado Robert Lansing – que se encaixasse melhor com as necessidades estadunidenses.

Depois do fracasso do golpe de estado de Kornilov em agosto de 1917 contra o governo provisório de Kerensky, Lênin de fato propôs uma coalizão socialista que transferisse pacificamente o poder para os sovietes, se os mencheviques e o Partido Revolucionário Socialista (SR) rompessem decisivamente com os liberais Kadets que haviam apoiado Kornilov. Mesmo que apenas a esquerda do SR tenha apoiado o governo soviético; por um breve período Conquest realmente realizou seu desejo.

No entanto, seu apelo retrospectivo por uma aliança mais ampla ignora a totalidade política de 1917. Na esteira da Revolução de Outubro, membros de direita do SR e dos mencheviques se juntaram a um tipo totalmente diferente de coalizão, o Comitê de Salvação da Pátria, que organizou um golpe militar fracassado.

Naquele que talvez tenha sido o momento mais importante da revolução, os mencheviques e os SRs de direita escolheram se aliar não a outros socialistas, mas a muitos anti-socialistas de extrema direita, incluindo o notório Vladimir Purishkevich, que organizou pogroms anti-semitas e que ajudou a fundar o União do Povo Russo, de extrema direita.

A fome de Stalin

Os estudos mais polêmicos de Conquest – Harvest of Sorrow (“Colheita de Amargura”) e The Great Terror (“O Grande Terror”) – focavam a campanha de coletivização forçada e os expurgos de Stalin. Ele defendeu os dois livros em um diálogo turbulento com o historiador revisionista Arch Getty no final dos anos 1980.

Graças à abertura dos arquivos da ex-União Soviética, as alegações dos apologistas de Stalin foram refutadas. Stalin realmente foi um ditador cruel, e as felizes abelhas operárias zumbindo em torno das fábricas soviéticas ainda não foram encontradas.

Certamente, nenhum historiador hoje sugeriria que a coletivização forçada de Stalin tinha como alvo os “kulaks” (supostamente, camponeses ricos), como Getty afirmara trinta anos atrás. Em vez disso, o ditador empreendeu um ataque liderado pelo Estado a todo o campesinato, usando a terminologia da guerra de classes como propaganda.

Conquest citou historiadores da União Soviética na esquerda, como E.H. Carr e Moshe Lewin, sobre o absurdo da análise de “classe” rural do regime – havia pouca diferenciação econômica entre o campesinato soviético.

Lynne Viola, uma ex-revisionista, demonstrou, depois, que muitos rebeldes anti-coletivistas vinham das classes camponesas médias ou baixas, e a resistência frequentemente envolvia aldeias inteiras. Só em 1930, houve cerca de 13.754 revoltas envolvendo 2,5 milhões de camponeses, incluindo 176 insurreições de massa – algumas das quais conseguiram até mesmo tomar o poder por um breve período em nível distrital.

Mas Getty de fato acertou em uma coisa: a alegação de Conquest de que Stalin teria organizado intencionalmente a fome de 1932-33 como um ato de genocídio contra o povo ucraniano não se sustenta.

Os historiadores rurais da União Soviética hoje concordam que a fome, que ceifou cerca de seis milhões de vidas, não foi um desastre natural, mas uma consequência direta da coletivização brutal de Stalin.

O próprio Conquest descreveu com precisão a fracassada política. Com mais de 12 milhões de novos trabalhadores entrando nas fábricas, o regime dobrou as exigências de impostos sob a falsa suposição de que os rendimentos coletivizados aumentariam. Mas eles diminuíram, produzindo escassez de alimentos em grande parte da Ucrânia, Cáucaso, Cazaquistão e oeste da Sibéria.

Como o futuro primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev reconheceria mais tarde, os agricultores coletivos entregaram “literalmente tudo” sem “nenhuma compensação”. Camponeses perdiam o interesse ou fugiam das fazendas coletivas, agravando a crise.

Enquanto isso, Stalin continuou a exportar grãos ucranianos para a Europa. Agentes do Estado prendiam camponeses esquálidos que escondiam míseros punhados de grãos. Muitas vezes eles eram baleados sob a draconiana lei do roubo de 1932 sob Stalin.

Em todos os seus livros, Conquest se entregou a ataques baratos contra Lênin e Trotsky, mas sua acusação de que Trotsky teria ignorado a fome ucraniana é parcialmente verdadeira. O Boletim da Oposição de setembro de 1932 incluiu um relato de uma testemunha ocular da fome, mas no mês seguinte – mais de dois anos e meio após o início da campanha de “deskulakização” – Trotsky escreveu que Stalin deveria restringir “as tendências exploradoras dos kulaks.” Somente em 1939 Trotsky reconheceu a “varredura assassina” do stalinismo na Ucrânia.

Conquest admitiu que os escritos de Lênin sobre coletivização enfatizavam a persuasão ao invés da coerção, indo contra a natureza de seu argumentação mais ampla que ligava Lênin inexoravelmente a Stalin.

Mas ele então invocou o colega anticomunista Adam Ulam, que afirmava que Lênin teria coletivizado a agricultura até mais cedo que Stalin. E em Reflections on a Ravaged Century (“Reflexões Sobre um País Devastado”), Conquest acrescentou outra testemunha especialista para condenar Lênin por seu hipotético apoio à coletivização forçada – o protegido de Stalin, Vyacheslav Molotov.

Assassinatos em massa

Apesar de suas deficiências, a narrativa macabra de Conquest sobre os expurgos em O Grande Terror é mais útil do que relatos revisionistas, que às vezes até enquadram os assassinatos em massa como um movimento “de baixo”, no qual Stalin estaria apenas tangencialmente envolvido.

Agora sabemos que Stalin cegou a ordenar cotas de detenção locais na casa dos milhares, dando crédito a grande parte do relato de Conquest. O líder dependia de pessoas leais – como Khrushchev em Moscou e Andrei Zhdanov em Leningrado – para cumprir suas ordens, e designou tenentes endurecidos como Lazar Kaganovich para usar a força bruta em regiões menos confiáveis. O infame “tornado negro” de Kaganovich levou apenas três dias para exterminar a liderança “trotskista de direita” na cidade de Ivanovo.

As rodadas de prisões cada vez maiores se concentraram em líderes partidários, oficiais militares, supostos nacionalistas, crentes religiosos, cidadãos estrangeiros, camponeses e trabalhadores – incluindo mil em uma única fábrica.

Conquest desmascara o argumento de que os expurgos teriam sido projetados para quebrar conexões com a herança revolucionária de 1917. Em 1934, os oposicionistas já haviam desaparecido há muito tempo. Mas o expurgo dos purgadores significou que menos de 2% dos leais stalinistas retornaram ao congresso do partido em 1939. As denúncias de líderes partidários por membros da base podem ter resolvido muitas questões pessoais, mas a escala de repressão também exigia “confissões” – coagidas por meio de espancamentos, tortura e redução da pena de morte para 12 anos para pressionar os pais a denunciar colegas de trabalho, vizinhos e amigos.

O Grande Terror foi saudado em 1969 como uma importante contribuição para a compreensão ocidental sobre a União Soviética, e poucos estudiosos contestaram o fracasso de Conquest em explicar adequadamente os expurgos. Depois de algumas referências obrigatórias ao Terror Vermelho de 1918, Conquest atribui os expurgos a males a-históricos da ideologia comunista e então avança rapidamente para 1934.

De acordo com Conquest, o gatilho para os expurgos teria sido o suposto assassinato por Stalin, em 1934, de Sergey Kirov, o popular líder do partido em Leningrado. Apesar do fato de que suas evidências sejam inteiramente circunstanciais, ele defendeu que a cumplicidade de Stalin seria “quase inegável”.

Em contraste com a teoria da conspiração no centro de O Grande Terror, a obra anterior de Conquest, Colheita de Amargura, situava corretamente o início do stalinismo político em 1928, com o bode expiatório histérico de engenheiros inocentes no julgamento-espetáculo de Shakhty e os confiscos de grãos nos Urais, na Sibéria.

É uma pena que o anticomunismo de Conquest muitas vezes o levasse para longe desse tipo de História mais cuidadosa e em direção a explicações simplistas que às vezes exageram o impacto supostamente generalizado do “totalitarismo”.

Por exemplo, ele argumenta que as execuções em massa de 1937-1938 – que custaram as vidas de setecentos mil prisioneiros – diminuíram porque o terror já teria “habituado” os soviéticos ao silêncio e à obediência – “ao medo e à submissão”, como diz ele – de modo que o terror generalizado “não seria mais necessário”.

No entanto, montanhas de relatórios da polícia secreta e cartas aos líderes do partido refutam o mito de que um stalinismo “totalitário” teria conquistado totalmente a sociedade soviética. O historiador marxista Vadim Rogovin encontrou queixas de que “em nosso país dificilmente há uma única casa que não tenha alguém na prisão […] todo o país é contra o regime soviético”.

É mais provável que Stalin tenha reduzido os pelotões de fuzilamento por causa do fracasso dos expurgos, ao invés de seu sucesso. Seu famoso ditado – “alcançar” o Ocidente ou encarar a aniquilação – certamente motivava a barbárie de longo prazo de seu regime. No entanto, execuções preventivas de oponentes em potencial não eram capazes de resolver o caos estrutural da industrialização rápida e forçada. Em última análise, matar engenheiros competentes, partidários leais e líderes militares não foi apenas ineficaz, mas contraproducente para a preocupação mais urgente de Stalin – o confronto iminente com a Alemanha nazista.

Quaisquer que sejam suas deficiências como historiador, no aniversário de sua morte vale a pena revisitar as obras do mais conhecido e prolífico historiador do sistema stalinista. Hoje, com mais da metade dos estadunidenses com menos de trinta anos tendo uma visão favorável ao socialismo, questões sobre o destino da primeira experiência socialista do mundo precisam ser abordadas.

Ocasionalmente, Conquest oferece percepções importantes, mas elas são empacotadas em um enquadramento anticomunista que obscurece a dinâmica que gerou e que deu sustentação ao stalinismo.

Para compreendermos esse sistema, devemos primeiro reconhecer a ruptura entre a revolução de 1917 e a contra-revolução posterior, bem como a ruptura entre Lênin e Stalin, algo que tanto os historiadores tradicionais quanto os revisionistas relutam em fazer.

Sobre os autores

é professor de História da Rússia na Uniiversidade de Massachusetts Boston. Seu livro Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory [Revolução e contrarrevolução: luta de classes em uma metalúrgica de Moscou], venceu o Prêmio Deutscher Memorial em 2005.

Sobre o autor

Kevin Murphy é professor de História da Rússia na Uniiversidade de Massachusetts Boston. Seu livro Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory [Revolução e contrarrevolução: luta de classes em uma metalúrgica de Moscou], venceu o Prêmio Deutscher Memorial em 2005.