Sob Trump, a “presidência imperial” colocou os EUA à beira da guerra

08/02/2021

Por
Branko Marcetic

Tradução
Giuliana Almada

Há 1 ano, Trump tentou arrastar os EUA para uma guerra com o Irã. Ele não obteve sucesso, mas a política imperialista que tantos democratas ajudaram a construir seguirá oferecendo riscos senão houver um abandono completo dessa política internacional.

O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, discursando na cerimônia de assinatura da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o ano fiscal de 2020 em 20 de dezembro de 2019 na Base Aérea Andrews, Maryland, EUA. Foto: Tasos Katopodis / Getty

O assassinato de Qassem Soleimani, no início do ano passado, uma escalada ilegal e imprudente das tensões entre EUA e Irã que o presidente Trump impulsionou deliberadamente ao longo de seu mandato, é um pouco como a vitória de Trump em 2016: nada do que aconteceu deveria nos surpreender, mas o resultado foi tão alarmante que é difícil não se sentir abalado.

Como especialistasapontaram, o assassinato de Soleimani tinha o potencial de desencadear algo muito perigoso. Soleimani era uma das figuras militares mais poderosas do país, o chefe de sua Força Quds de elite, que essencialmente dirigia a força militar e a política externa iraniana na região. Um herói de guerra rotulado pelo Supremo Líder do Irã, como “mártir vivo da revolução”, era uma figura extremamente popular que foi alvo de uma romantização da propaganda estatal e que possivelmente tinha uma futura liderança política à vista.

Havia uma alta probabilidade, portanto, de que sua morte provocasse represálias contra, por exemplo, as numerosas bases, embaixadas e tropas dos EUA ao redor do Irã, muitas destas implantadas entre as tentativas de Trump de incitar um conflito com o Irã para valer no ano passado. Essas represálias provocariam, em resposta, suas próprias represálias por parte de Trump, talvez até servindo como o pretexto para a guerra que o presidente estadunidense tanto procurava. Durante todo o ano de 2019 o governo estadunidense parece ter tentado incitar o Irã a fazer algo, qualquer coisa, que pudesse justificar um ataque ao país; o assassinato de Soleimani foi o ponto culminante nesse processo. Não é à toa que já em 2018 um especialista designou a possibilidade de assassinato de Soleimani como “um verdadeiro ato de guerra”. Se essa escalada de represálias não explodiu, não foi pelas atitudes do governo estadunidense, mas pelo cálculo estratégico iraniano.

Obviamente, uma guerra com o Irã representaria mais uma calamidade amplamente orquestrada pelos EUA para o Oriente Médio adicionar à essa lista sempre crescente. A lição deveria ter sido aprendida nos anos 2000 com o Iraque. Longe de uma guerra rápida e fácil de não mais de cinco meses — como previra o secretário de Defesa de George Bush — o Iraque tornou-se rapidamente a “longa, longa, longa batalha” que eles negaram que seria.

Os militares não apenas falharam em estabilizar o Iraque diante do vácuo de poder que se seguiu, mas enfrentaram uma insurgência prolongada desencadearam uma torrente de sectarismo violento e, eventualmente, uma guerra civil; ajudaram a produzir o surgimento de uma organização terrorista ainda mais cruel na forma do ISIS; e, na mais sombria das ironias, abriram a porta para a intromissão iraniana no país — especificamente, pelo próprio Soleimani. As condições criadas por uma guerra tola contra o Irã sem dúvida criariam o mesmo tipo de pretexto para uma guerra contra outros Estados no futuro.

A elite estadunidense naturalmente não aprendeu nada com tudo isso, lançando outra guerra míope para depor o ditador líbio Muammar Gaddafi em 2011, com consequências igualmente desastrosas e desestabilizadoras, que continuam turbulentas ainda hoje. Os resultados não foram mais bonitos no Afeganistão, onde os Estados Unidos depuseram o regime do Talibã, apenas para substituí-lo por um governo de sua própria criação, infundido pela corrupção, e permanecendo presos no país por duas décadas em uma batalha aparentemente interminável. Todas as três guerras também foram tóxicas para a posição global dos EUA, alimentando a raiva que sustenta a violência anti-estadunidense.

Uma guerra com o Irã não seria diferente, nem produziria o tipo de vitória rápida e temporária nas relações públicas que a mudança de regime proporcionou a Obama e Bush em suas guerras. Como vários especialistas destacaram, o Irã é um país de massa física e populacional cuja geografia física imponente torna, nas palavras da empresa de inteligência Stratfor, uma “fortaleza” que “é extremamente difícil de se conquistar”. Ao mesmo tempo, o país pode revidar aos EUA por meio de proxies regionais ou ataques cibernéticos por todo o mundo. Se as últimas duas décadas serviram para qualquer coisa, foi como um horrível lembrete dos limites profundos do poderio militar estadunidense.

Infelizmente, a realidade tem pouco a ver com a política externa de Washington.

Acabar com a Lista da Morte

Não é apenas pela situação preocupante em que o mundo foi colocado naquele momento que o assassinato de Soleimani é significativo, mas pelo que isso diz sobre a classe dominante estadunidense.

A causa imediata de tudo isso foi, obviamente, o homem volátil, cercado de escândalos e profundamente inseguro eleito para a Casa Branca em 2016. No entanto, as instituições democráticas e, de fato, a Constituição dos EUA especificamente, existem para servir como um controle contra inaptos e até líderes tirânicos. Muitos liberais de destaque, do senador do estado de Connecticut Chris Murphy, a Ben Rhodes, ex-assessor de política externa de Obama e Tommy Vietor, ex-porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Obama, questionaram, com razão, qual era a base legal para Trump lançar tal ataque, visto que a Constituição estadunidense explicitamente concede o poder de guerra ao Congresso.

A resposta é: a mesma base jurídica frágil que essas figuras que agora proclamam clamorosamente seu choque e horror apoiam quando os seus chapas estão na Casa Branca.

Barack Obama foi eleito em 2008 prometendo uma ruptura com a política externa de Bush, após uma onda de eleições de meio de mandato em que os republicanos perderam o controle de ambas as casas do Congresso em uma onda de repulsa a Bush. Porém, uma vez no cargo, em vez de cumprir essa demanda popular, Obama expandiu o projeto de presidência imperial que Bush perseguira de maneira radical. Talvez o ponto principal nisso tenha sido a ampliação do programa de assassinatos por drones, estendendo-o a vários países (sem autorização do Congresso, naturalmente) e o institucionalizando na forma de reuniões semanais na Casa Branca, nas quais o presidente e seus consultores examinavam casualmente um “lista da morte” de suspeitos de terrorismo e escolhiam qual deles deveria morrer em um ataque aéreo robótico.

Na época, comentaristas tanto de esquerda e quanto de direita apontavam que, mesmo que você confiasse na capacidade do próprio Obama de supervisionar esse programa de assassinatos de maneira responsável e humana (uma contradição tanto na teoria quanto na prática), em um sistema democrático em que líderes e administrações mudam regularmente, e às vezes drasticamente, esses poderes extraordinários podem cair nas mãos de alguém muito diferente — por exemplo, de um paranóico provocador de guerras do tipo Richard Nixon.

Os críticos foram ignorados. De fato, tipos como Rhodes e Vietor defenderam veementemente o programa de drones. Até Murphy comemorou o assassinato sem drone de Osama bin Laden, porque “os americanos podem dormir melhor sabendo que um homem verdadeiramente mau não caminha mais sobre esta Terra”. Embaraçosamente, mesmo uma grande maioria de liberais e progressistas comuns se declaravam fãs dos drones quando Obama estava no comando.

E então, como se cerca de oito anos de advertências civis libertárias assumissem uma forma física, Donald Trump se tornou presidente. Assim, em eventos como o assassinato de Soleimani, não se trata apenas das atitudes de um palhaço racista que adentrara o escritório mais poderoso do mundo por meio de uma campanha de mentiras. Estamos lidando com um sistema assustadoramente autoritário criado e posto em prática por um establishment liberal complacente e sem visão, que continuamente e alegremente entregava ao homem que até poucos meses atrás eles chamavam regularmente de “ditador em espera” maiores poderes de vigilância e orçamentos militares obscenos.

Graças aos cálculos estratégicos das partes iranianas, o assassinato de Soleimani acabou não se revelando a catástrofe completa que tinha o potencial de ser. Todavia, dada a natureza opaca, destrutiva e antidemocrática do programa de drones criado em grande parte sob Obama, outros incidentes como esse são apenas uma questão de tempo. Se os custos humanos de tirar o fôlego do programa de drones não são o suficiente, o assassinato de Soleimani deveria ter servido de alerta para todos os democratas e liberais que diminuíram os críticos progressistas à política externa de Obama ou que consideraram esse assunto uma mera distração por oito anos. O Estado de segurança nacional estadunidense precisa ser freado.

Sobre os autores

é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

Sobre o autor

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

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