Na Colômbia, movimento desencadeado pela greve geral está colocando a classe dominante de joelho

30/06/2021

Por
Nathália Urban

Apesar da brutal repressão policial, e da pandemia, feministas, sindicalistas, indígenas, estudantes e outros movimentos sociais tomaram as ruas das principais cidades do país. A mobilização, que já dura 2 meses, está derrubando a agenda neoliberal do governo. Os bairros mudaram sua dinâmica para dar suporte ao movimento, oferecendo brigadas médicas, refeitórios comunitários e muitas intervenções culturais.

Manifestantes participam de um protesto exigindo ação do governo para enfrentar a pobreza, a violência policial e as desigualdades nos sistemas de saúde e educação, em Bogotá, Colômbia, em 10 de maio de 2021. Foto EFF

“Isso que estamos fazendo não é sobre guerra nem sobre violência, é sobre um povo revoltado com a desigualdade” disse o líder da Central Única dos Trabalhadores Colombianos em uma coletiva de imprensa no começo de junho, Francisco Maltés. Há mais de um mês que o mundo assiste o povo colombiano enfrentando nas ruas as atrocidades cometidas por Ivan Duque. A greve geral nacional contra uma proposta de reforma tributária foi o estopim para grande parcela da população se mobilizar nas ruas e não sair mais.

Duque retirou a proposta, mas as manifestações continuaram enquanto os manifestantes expandiram sua lista de demandas para incluir a retirada de uma proposta de reforma da saúde, o fim da violência generalizada no país e medidas para enfrentar a desigualdade econômica.

Crises acumuladas

O país passa concomitantemente por outras crises, especialmente em relação às violações constantes dos direitos humanos.

As reclamações atuais sobre o governo não são novidade. A Colômbia viu grandes protestos em 2019 e na época também ignorou as reivindicações. “Nós também apresentamos um plano ao governo naquela época mas fomos sistematicamente ignorados, a crise social se aprofundou principalmente por conta da COVID-19” disse Maltés. O Comitê Nacional de Greve, formado por sindicatos e todos os grandes movimentos sociais, apresentou uma nova declaração de demandas e no dia 24 de maio foi feito um acordo preliminar com o governo, mas que posteriormente o próprio Executivo o alterou, o que acabou atrasando ainda mais as negociações – até agora infrutíferas para aplacar o ânimo das ruas.

O Comitê Nacional da Greve admitiu que suspendeu as negociações com os representantes de Duque. Ambas as partes mantinham diálogos sem grandes avanços, mas com vontade de continuar, como haviam expressado, na esperança que o governo aceite o pré-acordo de 24 de maio e revogue o Decreto 575 que autoriza o auxílio militar para a “gestão de protestos sociais”.

Os colombianos estão indignados por mil motivos que irão soar muito similares à situação enfrentada por outros países sul-americanos: a escandalosa corrupção de funcionários públicos e políticos; salários baixos sem reajuste; enorme desemprego; o tratamento incapaz e classista da pandemia; as milhares de pessoas desaparecidas à força e executadas pelo exército, os paramilitares e a polícia e a agressividade da “polícia pacificadora”. Mas a pobreza é algo acachapante no país, com mais de 21 milhões de colombianos vivendo na pobreza, um terço deles em extrema pobreza, de acordo com estatísticas nacionais, em 2020, com mais 2,7 milhões de pessoas chegando nessa situação.

Vítimas que lutam 

Os crimes de direito internacional e as violações e abusos dos direitos humanos no contexto do conflito armado interno continuado aumentaram nas áreas rurais onde o controle de territórios anteriormente dominados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP) foi disputado. As principais vítimas continuaram a ser membros de comunidades rurais e indígenas. A violência sexual contra mulheres persistiu, assim como a impunidade para esses crimes.

A Colômbia foi amplamente reconhecida como o país mais perigoso do mundo para aqueles que defendem os direitos humanos. Segundo dados da Unidade de Investigação e Acusação (UIA) da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), desde 2016 foram assassinados 276 anistiados e 904 lideranças sociais e defensores dos direitos humanos, dos quais cerca de metade foram pool ativos na implementação do Acordo de Paz, ratificado em 2016.

Porém, essa realidade aterrorizante não tirou dos colombianos a vontade de lutar e buscar uma sociedade menos violenta e um futuro menos assustador e desigual, mas eles entendem que isso não virá sem luta e sacrifícios. 

O poder por trás do trono, o ultradireitista Álvaro Uribe Vélez, conseguiu até agora impor sua estratégia de “punho de ferro” deixando a gestão do problema nas mãos dos militares e da polícia, reprimindo selvagemente os protestos, mas sem conseguir sufocar as mobilizações de rua.

A perseguição aos que lutam por melhorias na Colômbia é muito presente, a situação é tão latente que a coletiva de imprensa fechada com os dirigentes do Comitê da Greve Nacional, teve que ser interrompida pois haviam funcionários do governo colombiano infiltrados. “Vejam amigos jornalistas, essa é nossa realidade, perseguição constante” denunciou Maltés.

Os protestos estão marcados pela violência, segundo a ONG Temblores, ocorreram 4687 episódios de violência policial desde 28 de abril, onde mais de 44 manifestantes foram presumidamente assassinados pelas forças armadas e policiais. 

As mulheres e mães na linha de frente 

Enquanto a organização oficial da greve vem dos sindicatos junto com camponeses, indígenas e outras organizações sociais, os protestos têm se caracterizado pela mobilização de jovens colombianos de bairros urbanos pobres, e principalmente pelas feministas. As mulheres que se autodenominam Madres de Primera Línea (Mães na Linha de Frente), estão nos protestos para colocar seus próprios corpos entre a polícia e os manifestantes, e evitar escaladas de violência. 

A jornalista colombiana María Fernanda Fitzgerald, ressalta o protagonismo que as mulheres tomaram nesses protestos: “o que temos visto na Colômbia é um movimento cada vez mais organizado tanto por grupos feministas quanto por iniciativas mais individuais e mais informais, mas com muitas mulheres, temos visto novas lideranças tanto regionalmente quanto nas principais cidades”. Elas se formaram inicialmente em Cali e depois em Bogotá e ao mesmo tempo despertam muita empatia em muita gente – e isso fez com que suas reivindicações fossem respeitadas.

María Fernanda explica, que esse protagonismo das mulheres não aconteceu ao acaso e que tem ligação direta com os outros grupos que compõem a greve: “existem mulheres somando às lideranças indígenas e a liderança das mulheres afro-colombianas. Um bom exemplo é Francia Márquez, existe liderança das mulheres camponesas e todas essas mulheres são levadas a sério pelos homens que compõem esses movimentos.”

As disparidades entre os gêneros na questão socioeconômica sempre foram gritantes e com o aprofundamento da crise se tornou mais ainda. Embora a pandemia signifique a perda de empregos para muitas pessoas, ela afetou principalmente as mulheres. O Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE) informou em um comunicado à imprensa que entre os meses de março e julho de 2020 cerca de 11 milhões de mulheres não tinham emprego. Esse número é quase o dobro em comparação aos 6,3 milhões de homens desempregados.

Todo esse protagonismo está sendo duramente rechaçado pelas autoridades. A polícia colombiana está no centro da polêmica devido às inúmeras denúncias de abuso sexual que organizações como a ONG Temblores coletaram, com mais de 28 casos de violência sexual registrados. Um vídeo postado em rede social alertou o mundo sobre os horrores sofridos pelas mulheres na Colômbia, onde quatro agentes da ESMAD arrastam para uma delegacia de polícia em Popayán a jovem Alison Melendez, de 17 anos, que grita que eles estão tirando suas calças. No dia seguinte, depois de relatar que a havia sido agredida sexualmente, ela tirou sua própria vida.

Porém, a resiliência e confrontação das mulheres diante do machismo estrutural e violência de gênero promovida pelo Estado se tornou manchete no mundo. Um grupo de mulheres se despiu no Parque Nacional de Bogotá em protesto para rejeitar atos de violência sexual cometidos pelos agentes da reepressão. Carregando cartazes que diziam em tom irônico “Eu sou sua amante”, “Eu sou sua filha”, “Você fez amor comigo”, “Eu fiz amor com você” e “Meu útero foi sua primeira casa”, as mulheres foram aplaudidas. Manifestações semelhantes se repetiram em outros centros urbanos onde os protestos estão se tornando mais violentos, como Cali, Palmira e Popayán.

“Duque diz que vai reformar a polícia, não dá para reformar o que está quebrado. Eles matam, estupram, cegam, e ganham medalhas por isso!” disse Tânia Cruz, militante feminista de Bogotá. Em nota, Iván Duque disse que pedirá ao Congresso logo no primeiro dia da próxima sessão legislativa, em julho, a aprovação de medidas para modernizar a polícia, com a criação de uma nova diretoria de direitos humanos e mais treinamento de oficiais. Um novo sistema de reclamações também seria estabelecido, juntamente com padrões disciplinares para oficiais.

A imprensa colombiana ressalta que esse anúncio só se deu por conta da chegada da delegação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) à Colômbia para avaliar as recentes denúncias.

Resistência popular e organizada

Toda essa mobilização, com sua força, autoconfiança e vigor, e com seu caráter espontâneo, necessita que aqueles que a conduzam sejam capazes de manter um diálogo enriquecedor com os mobilizados para que tudo o que se conquista na mesa de discussão seja fruto de dois princípios fundamentais em qualquer processo de mudança: organização e espontaneidade devidamente coordenada.

Nas grandes cidades, pontos estratégicos de concentração foram adotados e já marcados como “locais de resistência” com linhas de frente, brigadas médicas, refeitórios comunitários e muitas intervenções culturais. Os bairros mudaram sua dinâmica para dar todo o suporte durante a Greve Nacional. As pessoas não param, a mobilização e organização alcançadas são uma conquista dentro do movimento social.

As ruas continuam repletas apesar do medo e do terror que o governo tenta instilar. Manter a unidade entre tantos grupos de pessoas – incluindo pequenos setores das classes médias – será, portanto, um ponto crítico. Esta luta pode ajudar a avançar na formação de uma frente ampla que consiga uma vitória significativa nas próximas eleições parlamentares e que retire a extrema direita do governo nas eleições presidenciais do próximo ano. Entretanto, os colombianos sabem e entendem que a gravidade da situação exige mais do que esperar que toda a crise seja resolvida somente na institucionalidade. 

E a pandemia?

Segundo Oscar Gutiérrez, líder do grupo Dignidad Agropecuária, “uma das motivações das pessoas protestarem é justamente a pandemia O governo não nos ajudou, não deu condições para que os trabalhadores se cuidassem, não deu hospitais. Nós também estamos na rua porque senão estaríamos morrendo em casa”. 

O Ministério da Saúde do país usa da mesma tática pouco eficaz de fechamento parcial, mas sem controles sérios, por isso a Colômbia enfrenta seu pior momento da pandemia. O governo alertou que nas últimas semanas o país apresentou as maiores positividades até agora na pandemia, segundo informações do próprio governo , 30% do total de exames de PCR feitos no país são positivos, o que significa que 3 em cada 10 pessoas estão infectadas.

Francisco Maltés garantiu que normas de biossegurança estão sendo incentivadas pelo Comitê: “Somos mais cuidadosos com isso do que o próprio governo que não deu auxílio nenhum à população.”

Com uma população de 50 milhões de habitantes, a Colômbia ultrapassou 106 mil mortes por Covid-19 e 4,21 milhões de infecções desde que detectou o primeiro caso em março de 2020. Em proporção à sua população, é o terceiro país com mais mortes por coronavírus na América Latina e Caribe, atrás de Peru e Brasil.

Em um cenário que parece completamente desolador, a resiliência dos colombianos para lutar contra tudo e todos é mais do que admirável. “Não é porque muitas pessoas na Colômbia não têm mais nada a perder, além de suas vidas, que a gente vai parar de lutar. Só existe derrota quando não existe mais luta”, finalizou Cruz.

Sobre os autores

é uma jornalista independente e comentarista política, anti-imperialista. Nascida no Brasil mas radicada na Escócia.

Sobre o autor

Nathália Urban é uma jornalista independente e comentarista política, anti-imperialista. Nascida no Brasil mas radicada na Escócia.

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