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Rappers (da esquerda para a direita), O Notorious B.I.G, Tupac Shakur, e Redman nos bastidores de uma apresentação de Tupac no Clube Amazon em Nova York em 23 de julho de 1993.

A caminhada do hip-hop no socialismo

POR
Tradução
Natália Porpino

Desde que se tornou popular nos anos 1980, o hip-hop tem sido um grande sucesso, e muitas de suas principais figuras têm um ethos fortemente capitalista. Mas há uma tradição alternativa de rap socialista que desafia o status quo.

O clipe de “Marx is a Post-90” apresenta uma ilustração do filósofo e revolucionário mais importante do século XIX exibindo um sinal de paz. Este rap chinês, que exalta as virtudes de Marx, é feito por um jovem MC, vestido com uma camisa de esporte com o número “13” estampado no peito, que descreve sua primeira introdução à filosofia marxista como algo que ele tinha que estudar para passar nas provas, antes de se tornar um comunista totalmente convertido. 

“Você se levanta e diz que a força do proletariado irá superar o mal”, o rapper fala em sua língua nativa. “Eu sou seu Bruno Mars, mas você é minha Vênus”. 

Para o leigo, “Post-90” é um corte demográfico: o termo se refere a pessoas nascidas na última década do século passado, a versão chinesa dos millennials. O governo chinês autorizou “Marx is a Post-90” como um jeito de aproximar jovens da política, e o vídeo é tão legal quanto você poderia esperar de um rap aprovado pelo governo, com uma quantidade estranha e desajeitada de imagens comunistas e a rapidez de uma paródia.

É estranho. Ou talvez nós tenhamos sido condicionados a ver o marxismo e o hip-hop como duas entidades que não podem ser sintetizadas. Apesar do hip-hop claramente ter uma história vinculada ao pensamento político, além de ser uma música dançante, – “A CNN negra”, como Chuck D. do Public Enemy uma vez falou – as filosofias socialista e comunista nunca foram um pilar para este gênero musical. Na verdade, desde que o hip-hop foi além de seu nicho e se globalizou, o capitalismo tem sido parte de seu desenvolvimento como os dois toca-discos e o microfone.

Do Bronx aos escritórios

Enquanto movimento cultural, o hip-hop nasceu dos incêndios do Bronx da década de 1970 como uma cultura jovem que era pura e inalterada. Aquelas crianças realmente mudaram o mundo: com o passar das décadas, o rap se tornou o gênero mais vendido no planeta. 

A era da ostentação [bling-bling] do final dos anos 1990 refletiu na comercialização do rap. Os artistas mais populares focaram menos nos problemas sociais que haviam sido protagonizados na década de 1980 e início dos anos 1990, e mais nas extravagâncias e no dinheiro – como obtê-lo e exibi-lo.

O hip-hop parecia exemplificar algumas premissas ideológicas dos Estados Unidos, particularmente a ideia de que todo cidadão pode alcançar uma mobilidade social ascendente por meio do trabalho árduo e do empreendedorismo inteligente. Seus protagonistas têm sido jovens que muitas vezes vêm da pobreza extrema. Um punhado de artistas que começaram por baixo estão agora entre as pessoas mais ricas do país: em 2019, Jay-Z se tornou o primeiro bilionário do hip-hop. Existe inclusive um estudo sobre sua ascensão meteórica escrito por um editor sênior da revista Forbes, com prefácio do próprio Steve Forbes. 

No rap, bilionários não são apenas encorajados, são divinizados. As celebridades mais bem-sucedidas são frequentemente promovidas para a área que ajuda a sustentar a indústria. Este emaranhado de música e grandes negócios coloca obstáculos no caminho das pessoas que querem fazer música com um cunho político radical. Inevitavelmente, rappers em ascensão procuram socializar com os detentores da indústria capitalista. 

Mesmo assim, é surpreendente que o rap raramente tenha sido terreno fértil para o pensamento socialista. Considere a forte presença do Partido dos Panteras Negras nas mensagens sobre poder negro articuladas através do hip-hop. Os líderes da maior organização socialista revolucionária estadunidense negra que já existiu, construída com base na estrutura marxista-leninista que é geralmente ignorada pelos rappers.

O hip-hop se inclina para a esquerda da política dominante dos EUA. O Partido Republicano sempre foi um grupo tóxico para os rappers se aproximaram, tanto que qualquer tipo de afeto compartilhado entre um rapper e um político do “partido da ordem” se torna instantaneamente uma manchete – veja a reação contra o punhado de celebridades que tocou para Donald Trump na última eleição. 

O instinto do hip-hop em se alinhar com os Democratas se intensificou durante a primeira campanha presidencial de Barack Obama. Bernie Sanders obteve alguns apoios vindo do hip-hop, talvez mais notavelmente do incansável Killer Mike, que descreveu o “capitalismo compassivo” como seu maior objetivo. Lideranças do hip-hop às vezes falam sobre fazer uma revolução da boca para fora. Na maioria das vezes, no entanto, os interesses políticos do rap permanecem dentro dos limites estabelecidos pelo sistema.

Tupac e os Panteras Negras

Apesar disso, alguns rappers são heróis da esquerda radical, como Tupac Shakur, um ícone inegável da esquerda. A imagem de Pac existe no mesmo reino que Che Guevara, destinado a ser idolatrado nas paredes dos dormitórios da faculdade para sempre, instantaneamente reconhecido até mesmo por pessoas que não conseguem nomear uma de suas músicas.

É natural que Shakur tenha sido associado aos rebeldes. Sua mãe, Afenia Shakur, era uma militante entre 21 Panteras Negras que foram presos e acusados de diversas conspirações para bombardear as delegacias de polícia e outros locais em Nova York. O próprio Tupac parece ter sido membro da Liga Comunista Jovem em uma época. Mas o socialismo de Pac era menos motivado por teorias abrangentes sobre como a sociedade deveria ser reconstruída do que pelo seu próprio senso de realpolitik (um sistema de políticas ou princípios baseados mais na prática do que nas considerações ideológicas ou morais).

Como um poço de raiva eloquente, Pac protestou abertamente contra o regime político. Ele tinha um ódio particular pelo imperialismo norte-americano, sugerindo certa vez que era uma forma mais sangrenta de violências do que as gangues urbanas:

Alguém atira em um membro de sua família, então com certeza você retalia, você entende o que eu estou falando? A mesma coisa que os EUA fazem, exceto que ninguém nunca vai atira num membro do Estado. Os Estados Unidos veem algum conflito dizem: “ah isso tá errado, nós temos que mostrar a eles quem são os verdadeiros assassinos.”

Pac protestou contra a estrutura de riqueza da sociedade estadunidense também. “De que maneira Michael Jackson, ou quem quer que seja, deveria ter um milhão de dólares quando há pessoas morrendo de fome?”, disse em uma entrevista. “Não é possível! Não é possível que essas pessoas sejam donas de aviões e há outras pessoas que não têm casas, apartamentos, barracos ou calçados.”

Há um certo equilíbrio na música de Tupac “Thug Life” e o mantra de Notorious B.I.G “ashy to classy”. Thug Life é um acrônimo para “o ódio que você dá às crianças fode todo mundo” [The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody], que encapsula de forma imperfeita o espírito de justiça social de Pac. Biggie, seu rival histórico e um dos poucos rappers da mesma grandeza, viveu apenas alguns meses a mais, e, também não esteve vivo tempo suficiente para formar completamente seu legado.

Na sua ausência, a afirmação de Biggie de que nós fomos de pobres a ricos [ashy to classy] – em outras palavras, da pobreza à prosperidade – foi levada aos extremos por dois de seus ex-colaboradores. Jay-Z e Sean “Puffy” Combs se apontaram como guardiões do legado de B.I.G e depois se tornaram empresários extremamente ricos com um variado portfólio. Nós nunca vamos saber como o próprio B.I.G teria reagido ao tal hiper-capitalismo.

Tupac era uma grande contradição – tanto um antagonista quanto um ativista – e muito incentivado pela pura emoção para ter apresentado ideias políticas tão maduras. De qualquer maneira, a sua influência em toda uma geração não pode ser negada.

Criando desculpas para os bilionários

As ideias abertamente socialistas foram localizadas principalmente no nicho underground do hip-hop. Um punhado de artistas tem sido inequívocos em suas disposições de rimar sob uma bandeira vermelha. Paris, Immortal Technique e o Coup (na qual o líder, Boots Riley, agora é um diretor de cinema) têm gravado músicas radicais desde os anos 1990. E a indústria mainstream sempre os iludiu.

Vamos analisar Paris primeiro. O rapper de Oakland sentiu a dor de tentar lançar uma música com um conteúdo político incendiário em 1992, quando gravou “Bush Killa”, uma música de protesto que criticava a guerra de George H. Bush contra o Iraque. Paris repetiu a mensagem que a juventeude negra revolucionária dizia há 10 anos: o inimigo deles não era estrangeiro, mas sim doméstico. Ele rejeitou sugestões de que o ativismo sempre deveria ser antiviolência: “Porque quando eu sou violento é a única hora que demônios escutam”. 

Essa canção estava datada para ser lançada em seu segundo álbum, Sleeping with the Enemy (Dormindo com o Inimigo). Mas a pressão dos meios de comunicação e acionistas da Time Warner dissuadiram a Tommy Boy Records, que era na época um subsidiária da Warner Bros. Records, de lançar o projeto. Paris acabou lançando o album independentemente.

Paris, agora com 53 anos de idade, ainda lança novas músicas. Seu álbum mais recente, Safe Space Invader (Invasor do Lugar Seguro), é tão dedicado à mensagem socialista como qualquer álbum de rap que eu já ouvi. Em “Nobody Move”, ele ecoa aquele passado de luta declarando “o retorno da dura e autêntica verdade cuspida, Trump assassino, Pence assassino, Bush assassino, policial assassino” e clama abertamente por uma revolução comunista: “Convencer o proletariado a escutar, imagine. A revolta e os olhos abertos, sábios.”

Políticas socialistas são mais lentas para gestar em formas mais comerciais de rap. “Então quando nós começarmos de novo vocês todos vão tentar praticar o socialismo e o comunismo”, disse Chance The Rapper, uma estrela genuína, em um tweet mês passado, insinuando um esgotamento com o capitalismo que pode se infiltrar na música que muitas vezes prevalece a religião acima da política.

Sua amiga de Chicago, Nomane, que vem usando as mídias sociais para documentar sua evolução ideológica desde 2019, foi criticada quando tuitou uma defesa do capitalismo negro. Entre os melhores momentos estava a revelação que ela havia recusado a chance de gravar uma música para o filme sobre Fred Hampton, Judas e o Messias Negro, criticando o filme por não focar na “política revolucionária radical” marxista-leninista.

Ela também lançou o Clube do Livro da Noname, um grupo de leitura que tem selecionado literaturas como Estarão as prisões obsoletas? de Angela Davis, Os Condenados da Terra, do teórico anticolonial Franz Fanon, e A Luta de Classes em África por Kwame Nkrumah. O novo disco de Noname, Factory Baby (Bebê de Fábrica), está agendado para o final deste ano. Se os seus conteúdos refletirem o desenvolvimento recente de sua ideologia, pode ser o lançamento mais significante de uma rapper que defende claramente o socialismo, sem sentir nenhuma vergonha acerca disso. “Como você inventa desculpas para um bilionário?” ela pergunta e seu último single, “Rainforest”. “Você está sem um puto no ônibus”.

Rap contra o Estado

Com as bases capitalistas da sociedade estadunidense ainda aparentemente inabaláveis, não é surpreendente que alguns dos marxistas mais proeminentes que adotaram o rap como um instrumento para espalhar suas mensagens passaram a ser encontrados em outros lugares. A capa do álbum de Marxman de 1993, 33 Revolutions per Minute, apresentava um fundo vermelho e uma foice e um martelo. Marxman consistia em dois homens de Dublin, MC Hollis Byrne e o musicista eletrônico Oisin Lunny, e dois jamaico-britânicos, o rapper MC Phrase e o tocador de disco DJ Kay One. O álbum misturou beats específicos de sua época – samples com o feel do funky e pura bateria, com partes ocasionais de dance britânico e até música celta – com mensagens virtuosas de esquerda.

A música de abertura, “Theme from Marxman”, envia uma conversa entre o grupo e um liberal, enquanto eles fazem o argumento de redistribuição de riqueza, e arranhou a voz de Gil Scott-Heron: “A revolução vai ser ao vivo”. Em outra parte do álbum, “Droppin’ Elocution” saudou ativistas que lutam pelo poder dos trabalhadores e clamou por uma “revolução de mudança social e não apenas uma reforma”. Essa mistura de afirmações revolucionárias de esquerda e hip-hop ainda é surpreendente porque continua sendo muito diferente e autêntico. 

Marxman não mudou o mundo, mas o rapper comunista catalão Pablo Hasél mudou, ou, no mínimo, assustou alguns daqueles que detêm o poder. Hasél, cujo nome verdadeiro é Pablo Rivadulla Duró, compõe frequentemente músicas defendendo membros da organização separatista basca, ETA, e o grupo marxista de guerrilha urbana, GRAPO. 

Em 16 de fevereiro desse ano, depois de Hasél se barricar com manifestantes na Universidade de Lleida, na Catalunha, a polícia o prendeu sob acusações de “glorificação ao terrorismo” e “insultar a coroa espanhola e sua força de segurança” em uma série de 64 tweets postados de 2014 a 2016 e uma música lançada via Youtube. Aqui está um exemplo de um tweet considerado ilegal pelos tribunais espanhóis: “enquanto eles chamam Cuba de ser uma terrível tirania, onde há menos recursos, mas não despejos, eles escondem os negócios gangsters [do rei] Bourbon com a Arábia Saudita.” 

O Tribunal Nacional da Espanha, a Audiência Nacional, dispensou a petição de Hasél contra sua sentença de prisão, citando seu registro criminal anterior, incluindo uma sentença de dois anos por músicas “glorificando” ETA e GRAPO. Aquela sentença tinha sido provisoriamente suspensa, mas foi reativada quando Hasél recebeu uma nova condenação. 

Enquanto a polícia estava arrastando Hasél para fora da universidade, ele incitou as pessoas a irem às ruas – e elas foram – jurando que a luta contra o Estado iria continuar. “Eles nunca vão nos fazer desistir, apesar da repressão”, ele disse com um punho em riste. 

A supressão de rappers revolucionários – que vem das estruturas capitalistas da indústria musical ou de uma repressão mais ampla do governo – permanece sendo uma barreira séria para desenvolver o verdadeiro, direto e cru hip-hop socialista. Mas os talentos em potencial ainda estão por aí, borbulhando no underground, prontos para disseminar conhecimento.

Sobre os autores

é um escritor freelance baseado em Dublin que publica no The Guardian e no Pitchfork.

Cierre

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Published in América do Norte, Análise, Arte and Cultura

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