Sem aturar marmanjo

26/06/2021

Uma entrevista com
Kristen Ghodsee

Tradução
Melanie Castro Boehmer

O socialismo de Estado foi a prova empírica: quando as mulheres têm independência econômica dos homens, elas não ficam em relacionamentos ruins.

Um cartão postal de 1975 da Alemanha Oriental. PK / Flickr.

Entrevista por
Meagan Day

Em seu novo livro Por que as mulheres tem melhor sexo sob o socialismo, a etnógrafa Kristen Ghodsee relata uma piada popular que é contada em muitas línguas do Leste Europeu:

No meio da noite, uma mulher grita e salta da cama, com os olhos cheios de terror. Seu marido assustado a observa correndo para o banheiro e abre o armário dos remédios. Em seguida, ela corre para a cozinha e inspeciona o interior da geladeira. Finalmente, ela abre uma janela e olha para a rua abaixo do apartamento deles. Ela respira fundo e volta para a cama.

“O que há de errado com você?”, diz seu marido. “O que aconteceu?”

“Tive um pesadelo terrível”, diz ela. “Sonhei que tínhamos o remédio que precisávamos, que nossa geladeira estava cheia de comida e que as ruas lá fora estavam seguras e limpas”.

“E por que isso seria um pesadelo?”

A mulher sacode a cabeça tremendo e diz: “pensei que os comunistas estavam de volta ao poder”.

Centenas de milhões de europeus orientais, incluindo muitos que abominavam a realidade política por trás da Cortina de Ferro, relatam que seu padrão básico de vida era mais alto sob o “socialismo autoritário” do que sob o capitalismo de livre mercado contemporâneo. Pegando a deixa deles, o livro de Ghodsee parte da premissa de que alguns aspectos da vida eram melhores sob o socialismo de Estado do século XX do que são hoje. Admitir as partes ruins não significa ignorar as partes boas: é o que ela pensa. Pode-se reconhecer simultaneamente os horrores da polícia secreta e o conforto de uma forte rede de segurança social.

Uma das características mais positivas do socialismo de Estado, argumenta Ghodsee, é que ele deu às mulheres independência econômica dos homens. Nos antigos países soviéticos, as mulheres podem não ter participado de algumas “eleições livres” ou encontrado uma diversidade de bens de consumo, mas lhes foi garantida educação pública, empregos, moradia, assistência médica, licença maternidade, auxílio social para crianças, creche e muito mais. Este arranjo não apenas libertou mulheres e homens de ansiedades e pressões do nadar-ou-morrer do capitalismo, mas também significou que as mulheres tinham muito menos probabilidade de depender dos parceiros homens para a satisfação de necessidades básicas. Isso, por sua vez, significava que as relações românticas das mulheres heterossexuais com os homens eram mais opcionais, menos constrangidas por considerações econômicas, e muitas vezes mais igualitárias. Como Ghodsee escreve em seu livro:

Quando as mulheres usufruem de suas próprias fontes de renda, e o Estado garante a segurança social na velhice, doença e incapacidade, as mulheres não têm nenhuma razão econômica para permanecer em relacionamentos abusivos, não satisfatórios ou não-saudáveis em geral. Em países como Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Iugoslávia e Alemanha Oriental, a independência econômica das mulheres se traduziu em uma cultura na qual as relações pessoais poderiam ser liberadas das influências do mercado. As mulheres não precisavam se casar por dinheiro.

Para debater mais sobre esse assunto, a escritora da Jacobin Meagan Day conversou com Ghodsee sobre as perspectivas da mulher sob o socialismo e o capitalismo.


MD

Nos antigos países socialistas de Estado, as mulheres hoje são muito mais propensas do que suas companheiras do Ocidente a trabalhar na Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as áreas chamadas de “Exatas” ou “STEM”). Por que isso acontece?

KRG

Isso é resultado da educação e treinamento intencionais que as mulheres tiveram nesses campos sob o socialismo de Estado.

Neste momento, a Bulgária e a Romênia têm a maior porcentagem de mulheres que trabalham em tecnologia da União Europeia. A razão é que havia políticas em vigor que permitiam que as mulheres entrassem em campos que no Ocidente permanecem dominados pelos homens. Houve um esforço conjunto por parte dos governos socialistas de Estado, remontando aos anos 30 na União Soviética e aos anos 50 na Europa Oriental, para integrar as mulheres nos setores antes mais masculinos da economia – direito, medicina, universidade, bancos. As mulheres eram até treinadas nas Forças Armadas, como pilotas, franco-atiradoras e paraquedistas.

Mesmo assim, uma nova divisão de trabalho baseada no gênero surgiu sob o socialismo do século XX. As economias socialistas valorizavam o trabalho físico em detrimento do que poderíamos pensar como trabalho “de escritório”. Os homens eram mais propensos a realizar o primeiro e as mulheres o segundo.  

O emprego masculino era frequentemente melhor remunerado. Mas, por outro lado, os salários não importam tanto quando o Estado fornece uma enorme gama de serviços sociais. O Estado garantia empregos, moradia, assistência médica, educação e coisas como creche e licença maternidade prolongada e remunerada. As mulheres não eram compensadas tão bem quanto os homens, mas ainda tinham um grau maior de independência econômica em relação aos homens hoje em dia.

As feministas socialistas de Estado – e eu deveria colocar o termo “feminista” entre aspas, porque na realidade elas eram ativistas mulheres – entenderam que as mulheres tinham necessidades diferentes dos homens e procuraram implementar políticas para atender a essas necessidades. Não estamos falando de gênero ou igualdade sexual exatamente da forma como foi articulada pelas feministas ocidentais da segunda onda. A ideia era, ao invés disso, que homens e mulheres ambos faziam contribuições valiosas para a sociedade, mas de maneiras diferentes. O papel da mulher como mãe era frequentemente presumido. Para esse fim, foram implementadas muitas políticas estatais para lidar com as questões de equilíbrio trabalho-família com as quais as mulheres ainda debatem hoje no Ocidente.

MD

Os governos socialistas de Estado tentaram socializar não apenas o acesso à saúde, moradia e educação, mas também o trabalho doméstico e os cuidados infantis. Qual foi o pensamento por trás desse esforço?

KRG

Esta ideia de que devemos socializar o trabalho doméstico para torná-lo valioso remonta à socialista utópica Flora Tristan, na França, nos anos 1840. Décadas depois, a socialista alemã Lily Braun teve a ideia do que ela chamou de seguro de maternidade, e a socialista alemã Clara Zetkin desenvolveu mais a ideia de socializar o cuidado infantil e o trabalho doméstico.

A teoria se tornou uma realidade depois de 1917 na União Soviética, com o apoio de Lenin e especialmente de Alexandra Kollontai, que era a comissária do bem-estar social. Kollontai tentou colocar em prática a socialização do cuidado infantil na criação dos lares de crianças. Ela queria criar cantinas públicas onde as pessoas pudessem comer. Ela queria criar lavanderias públicas. Ela também queria criar cooperativas para conserto de roupas, porque naquela época essa era uma tarefa enorme que as mulheres tinham que fazer em casa e ela achava que seria mais eficiente se fosse feita coletivamente, reduzindo a carga sobre as mulheres individualmente.

Tudo isso foi tentado no início dos anos vinte. O problema é que o Estado soviético não era suficientemente rico e entrou em colapso. Todas estas leis foram revertidas até 1936 porque Stalin disse: “Temos que pegar nossos recursos e colocá-los na economia industrial, e é muito mais acessível para nós colocar estas mulheres fazendo este trabalho em casa de graça”. Mas, o mais importante, essas mesmas políticas que Kollontai tentou implementar nos anos 20 ressurgiram na Europa Oriental depois de 1945.

MD

Que efeito essas mudanças estruturais tiveram nas relações entre os indivíduos homens e mulheres nos países socialistas de Estado? Estou pensando em um exemplo de seu livro de homens observando que as mulheres na Alemanha Oriental eram mais difíceis de conquistar com um salário atraente. “Você tinha que ser interessante”, lembrou um homem.

KRG

O que vemos é que quando as mulheres têm independência econômica em relação aos homens – no sentido de que podem sustentar filhos fora do casamento, têm empregos, têm pensões, têm acesso à moradia e suas necessidades básicas como serviços públicos e alimentação subsidiados – elas não ficam em relacionamentos insatisfatórios. Quando podem sair, não ficam com homens que não as tratam bem.

Portanto, se um homem é heterossexual e quer ter um relacionamento com uma mulher, não é tão fácil conseguir uma mulher fornecendo a segurança econômica que ela não possui, ou comprando-lhe algo que ela precisa. Ele tem que ser gentil, atencioso, atraente de outras maneiras. E acontece que quando os homens têm que ser “interessantes” para atrair as mulheres, eles o são. Na verdade, eles acabam sendo homens melhores. Não é um conceito assim tão difícil. Não sei por que as pessoas ficam tão chocadas com isso.

Mais uma vez, quero ter cuidado para não idealizar a vida por trás da Cortina de Ferro. Havia alguns aspectos muito negativos, obviamente. Mas, por outro lado, houve alguns efeitos sociais demonstravelmente positivos da emancipação econômica das mulheres. Também podemos ver esses mesmos efeitos sociais hoje em dia em países mais sociais-democratas como a Suécia, a Noruega ou a Dinamarca.

MD

As feministas ocidentais são profundamente apegadas ao projeto de reformar ou civilizar homens individualmente. Isso não é necessariamente um objetivo mal orientado, uma vez que o comportamento dos homens muitas vezes apresenta problemas reais para as mulheres. Se esse comportamento é o problema número um que as mulheres enfrentam ou não é uma questão à parte. Mas mesmo que você pense que é, e que abordar o comportamento dos homens seja seu principal projeto político, então o que esta história nos mostra é que mudanças econômicas estruturais podem realmente ser uma maneira melhor de lidar com isso.

KRG

Suponho que para muitas pessoas a missão civilizatória individual pareça mais viável do que uma mudança estrutural, de modo que se sintam compelidas a concentrar sua energia limitada dessa forma. Mas penso que em uma cultura onde as mulheres têm mais oportunidades econômicas, os homens se auto civilizam de certa forma porque percebem que se querem ter relações com as mulheres não podem ser abusivos, não podem tomar as mulheres como um direito adquirido.

Havia feministas socialistas brilhantes nos anos 70, pessoas como Silvia Federici e outras, que defendiam que grandes mudanças estruturais iriam reorganizar as relações entre homens e mulheres. O que aconteceu é que, como escreveu Nancy Fraser, o feminismo foi amplamente cooptado pelo capitalismo neoliberal. Assim, acabamos recebendo uma espécie de feminismo ao estilo de Sheryl Sandberg, que tem tudo a ver com o sucesso individual e cria condições para que um punhado de mulheres seja tão podre de rica quanto um punhado de homens.

A ideia de um feminismo socialista evaporou com o retrocesso geral global contra o marxismo e a ascensão do neoliberalismo. Ainda estamos sobrevivendo a isso.

MD

Você escreveu que o colapso do socialismo de Estado na Europa Oriental “criou um laboratório perfeito para investigar os efeitos do capitalismo sobre a vida das mulheres”. Você documenta alguns dos efeitos mais duros nesta passagem:

“Hoje, noivas russas por correspondência, trabalhadoras sexuais ucranianas, babás moldavas e criadas polonesas inundam a Europa Ocidental. Intermediários sem escrúpulos colhem cabelos loiros de adolescentes pobres da Belorússia para os fabricantes de perucas de Nova Iorque. Em São Petersburgo, as mulheres frequentam escolas para aspirantes a esposas-troféu. Praga é um epicentro da indústria pornográfica européia. Traficantes de pessoas percorrem as ruas de Sófia, Bucareste e Chișinău à procura de meninas infelizes que sonham com uma vida mais próspera no Ocidente.”

Os ocidentais em geral têm consciência do empobrecimento das mulheres dos antigos Estados soviéticos e da intensificação da opressão de gênero consequente. Mas quando se pergunta por quê, acho que a explicação padrão é que a culpa é do comunismo. Seu livro traz uma argumentação extensa sobre como, na verdade, a culpa é do capitalismo. Então, por que o capitalismo, e não o socialismo, é o culpado por esta situação?

KRG

Quando o socialismo de Estado foi desmantelado, isso significou a privatização e a liquidação das empresas estatais e a erosão do estado de bem-estar social. Muitos recursos para as mulheres desapareceram – licença maternidade paga, centros infantis, creches e jardins de infância, salário-família e assim por diante. As mulheres foram lançadas à mercê dos mercados capitalistas e, ao mesmo tempo, empurradas de volta para dentro de casa e forçadas a arcar com o fardo do trabalho de cuidado não remunerado. 

Quando fazemos pesquisas e estudos, muitas mulheres da Europa Oriental falam sobre como elas tinham mais oportunidades sob o socialismo de Estado. Apesar da falta de bens de consumo, das restrições às viagens, da censura e da polícia secreta, elas ainda dizem que tinham mais oportunidades de vida do que as jovens da Europa Oriental têm hoje.

Os países do mundo com as populações mais encolhidas estão na Europa Oriental, em parte porque as mulheres não têm filhos – porque não há economia para sustentar uma família – e em parte por causa da emigração. Na ausência de segurança econômica, as mulheres estão usando as ferramentas que dispõem para fazer uma vida melhor, incluindo a comercialização de suas relações com os homens. É por isso que quando você digita “mulheres ucranianas” no Google, a primeira coisa que aparece são anúncios para noivas virtuais.

MD

Tá bom, então o capitalismo não tem tratado bem as mulheres nos países pobres. E as mulheres que vivem sob o capitalismo em países ocidentais mais ricos? Será que funciona para nós?

KRG

A forma específica como o capitalismo é estruturado historicamente é que os empregadores só contratarão uma mulher se ela for mais barata que um homem. Isto porque, entre outras razões, é provável que ela tire tempo da força de trabalho para realizar trabalhos de cuidado doméstico, especialmente quando ela tem filhos. Por que você empregaria alguém não confiável a menos que pudesse pagar um salário mais baixo?

Você acaba tendo esse ciclo vicioso onde o trabalho de cuidado é necessário mas não remunerado, então alguém tem que tirar tempo da força de trabalho para fazê-lo, e essa pessoa é sempre a que ganha o salário mais baixo, o que significa que são as mulheres, o que reforça a idéia de que elas podem e devem receber menos. Sob o capitalismo, portanto, há um equilíbrio onde as mulheres estão permanentemente em desvantagem no mercado de trabalho.

As feministas socialistas sempre argumentaram que a única maneira de resolver estruturalmente este problema em um mercado de trabalho capitalista é através da entrada do Estado e do apoio social ao trabalho de cuidado.

Por uma série de razões, o trabalho de cuidado para idosos ou doentes, ou certamente para crianças, muitas vezes cai no colo das mulheres. Dado que este trabalho tem que ser feito, as sociedades têm uma escolha: podem reduzir a carga do trabalho de cuidado das mulheres transferindo-o do indivíduo para a sociedade, ou podem desvalorizá-lo completamente e empurrá-lo para a esfera privada onde as mulheres o fazem de graça.

Se você quer reduzir os impostos para os super-ricos, se essa é sua prioridade, você vai empurrar todo esse trabalho para a esfera privada. Alternativamente, você poderia trazê-lo para a esfera pública. Sistemas universais de saúde, cuidado infantil, educação pública. Os super-ricos neste país usam o Estado para promover seus interesses – por que as pessoas comuns não deveriam fazer a mesma coisa? Há países ao redor do mundo com redes de segurança robustas, e eles não estão deslizando em direção ao gulag.

MD

Parece-me que um dos propósitos de seu livro é desafiar as ideias ocidentais não apenas sobre gênero e socialismo, mas sobre a vida sob o socialismo de Estado em geral. Como os ocidentais imaginam a vida sob o socialismo de Estado, e de que maneiras o estereótipo erra o alvo?

KRG

Não devemos ignorar os expurgos, os gulags e a violência do Estado, mas temos que ser claros de que não foi sempre assim. Há centenas de milhões de pessoas vivas hoje que cresceram sob o socialismo e têm uma impressão muito diferente dele. Como sou uma etnógrafa que faz trabalho de campo na Europa Oriental há vinte anos, conheço muitas pessoas que lhe dirão que a vida era muito mais rica e complexa, e não tão esmagadoramente negativa quanto os ocidentais imaginam. Certamente nem todos estavam marchando com a cabeça raspada, ou passando fome nas ruas e implorando por um par de calças jeans.

Os jovens que estão chegando a ideias socialistas hoje em dia, são automaticamente espancados na cabeça com o cacetete dos crimes socialistas do século XX na Europa Oriental. Se você diz algo sobre um sistema de saúde financiado pelo Estado, as pessoas começam a gritar sobre expurgos e gulags. Temos que ser capazes de ter uma conversa moderada, atenciosa e enriquecedora sobre o passado. A reação anticomunista que você tem hoje em dia torna difícil ter essa conversa. Espero que meu livro torne isso um pouco mais fácil.

Sobre os autores

é professora de Estudos Russos e do Leste Europeu e membro do Grupo de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade da Pensilvânia. Etnógrafa premiada e autora especializada na experiência vivida do socialismo e do pós-socialismo na Europa Oriental, ela escreveu nove livros, e seus inúmeros artigos e ensaios foram traduzidos para mais de uma dúzia de idiomas e apareceram em publicações como Aeon, Dissent, Foreign A airs, Jacobin, e World Policy Journal, e New Republic, Ms. Magazine, e Washington Post, Lancet e New York Times.

faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

Sobre os autores

Kristen Ghodsee é professora de Estudos Russos e do Leste Europeu e membro do Grupo de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade da Pensilvânia. Etnógrafa premiada e autora especializada na experiência vivida do socialismo e do pós-socialismo na Europa Oriental, ela escreveu nove livros, e seus inúmeros artigos e ensaios foram traduzidos para mais de uma dúzia de idiomas e apareceram em publicações como Aeon, Dissent, Foreign A airs, Jacobin, e World Policy Journal, e New Republic, Ms. Magazine, e Washington Post, Lancet e New York Times.

Meagan Day faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

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