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O ponto mais importante que podemos tirar de tudo isso é o contraste da imagem que tínhamos de Elon Musk anos atrás como um cara progressista que está tentando salvar o mundo com carros elétricos. Foto de Nerdiest

A tecnologia não nos salvará

A internet nem sempre foi um espaço tóxico dominado por grandes corporações ávidas por lucro. Para entender como os novos bilionários se capitalizaram com recursos públicos, privatizaram a rede mundial de computadores e destruíram sua promessa libertadora enquanto pavimentavam o caminho para extrema direita chegar ao poder, conversamos com o pesquisador radical especialista em tecnologia Paris Marx.

UMA ENTREVISTA DE

Sofia Schurig e Leonardo Dresch

Nesta semana, o bilionário mais rico do mundo, Elon Musk, esteve no Brasil prometendo soluções para monitorar a floresta Amazônia e interligar escolas com internet. Mas tudo não passou de pura propaganda: se o governo Bolsonaro quisesse realmente monitorar as queimadas na Amazônia – que estão batendo recorde a cada ano de seu governo – não teria desmontando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), nem repassado a tarefa ao Centrão para implantar “kit de robótica” superfaturado.

Para desbaratar esse jogo de cena, Sofia Schurig, repórter da Jacobin Brasil, conversou com Paris Marx para falar sobre seu podcast, Tech Won’t Save Us [A Tecnologia Não Nos Salvará], onde instiga o público a pensar criticamente sobre ao papel das tecnologias que convivemos no dia-a-dia, a indústria da tecnologia e seus bilionários, assim como meios de transporte, tema principal de seu novo livro Road to Nowhere What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation [Estrada para lugar nenhum: o que o Vale do Silício erra sobre o futuro do transporte] que será publicado pela editora Verso no segundo semestre deste ano.

Paris é doutorando na Universidade de Auckland no Canadá em Meios de Comunicação, Cinema e Televisão e escreve regularmente sobre tecnologia, mídia e, sobretudo, o futuro, tendo muitos trabalhos publicados na revista Jacobin em diversos idiomas — inclusive em português.


SS

Como começou o podcast Tech Won’t Save Us?

PM

Já queria começar um podcast há algum tempo antes da pandemia, mas um dos problemas é que viajava muito e não sabia como fazer coisas essenciais para um podcast – como editar. Quando a pandemia veio e estávamos em lockdown, sabia que ficaríamos no mesmo lugar por muito tempo. Decidi que não havia um momento melhor para começar. Comecei em abril de 2020. Fico muito feliz que fiz isso porque, durante a pandemia, não vi e nem conheci tantas pessoas quanto normalmente, então foi uma ótima forma de entrar em contato e conhecer pessoas novas, além de ter uma ampla conversa sobre tecnologia de maneira crítica.

“Nos EUA, a indústria foi fundada a partir de investimento público, particularmente do Exército. Isso fica ‘esquecido’ porque eles preferem fingir que seu legado veio do livre-mercado e do espírito empreendedor.”

Durante esses dois anos, o podcast cresceu de uma forma impressionante, um tamanho que certamente não esperava quando iniciei. Comecei como um projeto pessoal porque já escrevia sobre tecnologia há alguns anos e senti que não havia uma grande perspectiva crítica sobre ela, especialmente no mundo dos podcasts. Muitos podcast de tecnologia são positivos e até apologistas, fazendo com que seus ouvintes fiquem felizes com lançamentos de produtos e equipamentos, enquanto o meu pede para que as pessoas pensem de forma crítica sobre as tecnologias que interagimos diariamente, as que podemos nem saber que interagimos todos os dias e a própria indústria da tecnologia, que concentra um imenso poder em moldar a sociedade em que vivemos.

SS

Você tem algum tema preferido para o podcast dentro da temática tecnologia?

PM

Existem alguns tópicos que eu tenho que voltar sempre porque acredito que eles são tanto importantes quanto ilustrativos do que a tecnologia está fazendo e como devemos entender. 

O primeiro é entender a história dessas tecnologias e sua indústria, e tentar entender quais lições podemos tirar disso, porque acredito que um dos problemas que temos hoje, e é algo que o próprio Vale do Silício promove — ignorar a história a não ser que ela os beneficia. Então acredito que entender a história dessa indústria, como ela foi construída e como ela não reflete as narrativas que normalmente recebemos dessas grandes empresas porque ela não serve sua narrativa, como o fato de que, nos Estados Unidos, a indústria foi fundada a partir de investimento público, particularmente do Exército. Isso fica de fora porque eles preferem fingir que seu legado veio de algo do livre-mercado e do espírito empreendedor. Ao mesmo tempo, lembrar a história de oposição a essas tecnologias que, novamente, é esquecida.

Além disso, me interesso pelas formas que a tecnologia é usada para explorar as pessoas, sejam trabalhadores ou o público geral, algo que é, em muitas formas, fácil para nós esquecermos, ignorarmos ou não percebermos, porque essas questões podem estar escondidas até na tecnologia em si. 

Outro tema que sempre volto é a crítica aos bilionários da tecnologia. Pessoas como Jeff Bezos e Elon Musk são tópicos frequentes de conversa no podcast, o que não quer dizer que temos vários programas onde só falamos sobre eles e ignoramos os problemas mais profundos. É falando sobre problemas mais complexos que esses bilionários tendem a aparecer, porque são muito influentes em modelar a indústria e suas tecnologias. 

Esses são os pontos-chave que volto sempre, mas o podcast atualmente tem mais de cem episódios e consigo explorar diversos campos diferentes. 

SS

Uma prefeitura no Brasil realizou a primeira assembleia pública no metaverso em todo o país. Em casos como este, além dos problemas éticos, quais são os problemas técnicos, como espionagem ou hacks? 

PM

Sinto que deveria estar chocado com isso, mas, ao mesmo tempo, não estou, porque essa prefeitura certamente não é o único governo tentando embarcar na onda de popularidade do metaverso. Seul, na Coreia do Sul, está tentando transformar o metaverso em algo grandioso e as Bahamas disseram que colocariam uma embaixada no metaverso — o propósito disso também não ficou muito claro. 

É parte de governos tentando aparentar um pensamento futurista adotando novas tecnologias, tentando atrair investimento e atenção. É uma tática muito comum que vemos também em governos adotando e expressando interesse em criptomoedas, e até em governos que expressaram interesse nos túneis da Boring Company, do Elon Musk, que supostamente deveriam ser uma solução para tráfego e transporte, mas que são um parquinho de diversões para adultos que gostam da Tesla.

“O objetivo dessas empresas de tecnologia é encontrar novas formas de consumir, gerar dados, e, potencialmente, fazer trabalho digital por condições miseráveis.”

É fascinante falar sobre isso e quando se trata do metaverso, existem diversos problemas sérios nele, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Existem muitas preocupações sobre envolvimento governamental tão rápido e deveríamos estar tendo assembleias, especialmente algo que envolva informação sensível, em um espaço como o metaverso onde qualquer coisa pode ser rastreada e gravada. Não acho que temos as mesmas restrições de segurança que você teria em outros locais. 

Também não é a primeira vez que isso acontece. Quando o jogo Second Life era popular muitos anos atrás, governos estavam fazendo a mesma coisa e universidades estavam estabelecendo campus no jogo, para mostrar que todos eles tinham uma mentalidade futurista e sabiam mexer com a tecnologia inovadora. E hoje todos esses espaços estão abandonados, porque a tendência passou. 

Acredito que se governos estão animados com o metaverso, isso é um indício de algo muito preocupante que mostra uma mudança nos tipos de assuntos que eles estão aceitando e até dispostos a promover, assim como as criptomoedas. Eles meio que estão ajudando a promover o avanço da capitalização, comoditização e comercialização das nossas vidas, porque no fim, o objetivo dessas empresas de tecnologia é encontrar novas formas de consumir, gerar dados, e, potencialmente, fazer trabalho digital por condições miseráveis. 

Existem uma série de preocupações. Tenho certeza que o que essa prefeitura fez é, infelizmente, só o começo de algo maior, onde governos tentaram se associar com o metaverso — especialmente se ele se tornar algo mais popular, a fim de parecerem inovadores e atrair investimento, ou até atenção da indústria da tecnologia. 

SS

Você acha que o envolvimento de países no metaverso pode acabar salvando parte da reputação do Facebook, agora Meta, após os vazamentos de documentos internos no Facebook Papers? 

PM

É uma pergunta difícil, mas não acho que irá. O primeiro problema é que o metaverso certamente está sendo promovido pelo Facebook, mas não é uma coisa onde só o Facebook está envolvido. Existem diversas empresas que estão promovendo o conceito do metaverso e diferentes visões para o que o metaverso poderia ser — empresas como a Microsoft, Nvidia, Epic. Existem empresas enormes que estão tentando impulsionar o metaverso. 

Mesmo que o Facebook seja, na minha opinião, a empresa mais visível entre essas e está fazendo o maior esforço em construir o metaverso, eu não acho que isso salve sua reputação. Porque, além disso, não é claro se o metaverso vai ser algo que realmente irá decolar como um conceito ou que durará ao longo prazo. Agora, o Facebook certamente está fazendo uma grande aposta, e existem muitas outras empresas usando essa linguagem para animar e conseguir investidores e aumentar seu valor no mercado de ações, mas, novamente, ainda não é claro se consumidores e usuários irão comprar e querer engajar com essa tecnologia. Além disso, ainda não é certo se a tecnologia está nem ao menos perto do nível que precisaria estar para algo como o metaverso realmente funciona da forma que Mark Zuckerberg promove. Ainda pode demorar muito mais tempo para chegar lá — mais tempo do que Zuckerberg e seus engenheiros querem que seja ou estão sugerindo ao público.

“O Facebook teve, pela primeira vez em sua história, um declínio em usuários ativos e o valor da empresa desabou após isso.”

Do outro lado, não é só porque o Facebook está promovendo o metaverso que isso significa que o escrutínio sobre suas plataformas de redes sociais vai cessar. Recentemente, saiu a notícia de que o Facebook teve, pela primeira vez em sua história, um declínio em usuários ativos e o valor da empresa desabou após isso. Existem coisas acontecendo no segmento das redes sociais do Facebook para tentar descobrir qual será o futuro dessas plataformas e se elas devem continuar aumentando o engajamento mesmo se o número de usuários começar a decair.

Até há o potencial para que os efeitos sociais do Facebook se agrave, já que a empresa está tão focada em tentar espremer lucro e tornar pessoas mais engajadas. As tendências negativas dessa plataforma podem piorar por conta desse processo e levar a uma situação onde a única solução real seria a regulação e algum tipo com uma autoridade contra o Facebook. Ainda não é claro que o governo dos EUA ou outros governos que tenham o poder para fazer isso tomarão a iniciativa e as ações necessárias. Vemos algum movimento em direção a isso nos EUA agora, mas o país possue um sistema político complicado e até antiquado, que pode em alguns momentos fazer com que coisas necessárias seja algo muito difícil de ser atingido.

Precisamos ver o que sairá disso, mas dificilmente as pessoas começarão a gostar mais do Facebook somente porque existe agora um produto novo e brilhante na vitrine. 

SS

Como as tecnologias estão sendo tomadas pela extrema direita para propaganda ideológica?

PM

É importante entender a forma que as tecnologias que usamos foram moldadas ao longo do tempo por políticos de direita e pelo capitalismo para servir as necessidades do sistema, facilitando a adaptação pela extrema direita. Por exemplo, se olharmos para quando a internet foi difundida no fim da década de noventa, havia muitas narrativas de que ela seria algo desafiador para o poder do Estado e um espaço onde o Estado não teria papel — algo muito libertário e há muitos ideais de direita nisso também. Como resultado, mesmo que a narrativa inicial fosse que a internet seria um local onde comunidades poderiam ser formadas e as pessoas poderiam se conectar de uma forma que não podiam no passado, o que realmente vemos é que ao expulsar o Estado e remover sua governança, isso abriu o espaço para que corporações pudessem efetivamente domina-la. 

Vimos isso com a plataformização da internet. Atualmente, quando vamos on-line, não visitamos vários sites diferentes onde tentamos conseguir informações ou em fóruns para interagir, mas normalmente utilizamos o Google para conseguir informações, o Facebook para interações sociais e um pequeno grupo de plataformas e sites que usamos. Isso ocorre por conta da forma que corporações dominaram a internet e adaptaram-na para produzir lucros para si mesmos e fazer com que ela servisse a seus interesses antes de qualquer tipo de interesse público. Também é importante compreender que a internet foi fundada e criada pelo governo dos EUA antes de ser privatizada em 1995. 

Tudo isso é para dar um contexto histórico para entender onde estamos hoje. No curso de inúmeras décadas, podemos ver como o Facebook realmente ajudou a extrema direita a ampliar seus discursos. E não digo isso porque estou ao lado da esquerda, e sim porque é algo que você pode enxergar ao olhar as reportagens produzidas sobre quais pessoas e páginas recebem mais engajamento da plataforma, normalmente são influencers e mídias de direita.

“Existe muito material sobre como a direita se envolveu com o Bitcoin desde o início e como a própria base ideológica para a fundação das criptomoedas vem a partir de ideais de direita sobre dinheiro.”

Ao mesmo tempo, se pode observar através da divulgação de discussões internas da empresa que há um esforço explícito em garantir que conteúdo de direita não seja suprimido ou tratado como outros quando há desinformação e questões semelhantes. Eles foram vitoriosos em construir a narrativa de que seus conteúdos são suprimidos nas redes — algo que só é uma repetição do que diziam décadas antes sobre a mídia mainstream —, fazendo com que executivos no Facebook e outras empresas de redes sociais evitem tomar medidas contra discursos de direita, para não irritar grandes vozes desses movimentos nos EUA e outros países. Houve reportagens sobre isso na Índia e certamente devem haver no Brasil. 

Mas tudo isso nem chega ao ponto de NFTs e criptomoedas. Existe muito material sobre como a direita se envolveu com o Bitcoin desde o início e como a própria base ideológica para a fundação das criptomoedas vem a partir de ideais de direita sobre dinheiro, a economia em si e em pessoas como Friedrich Hayek, um proeminente neoliberal. Uma vez que a direita se envolveu muito brevemente com Bitcoins como uma forma de fugir das normas de sistemas bancários, eles conseguiram lucrar imensamente com o crescimento em valor das criptomoedas. Naturalmente, isso lhes dá mais recursos para espalhar mensagens de extrema direita. 

No Canadá, recentemente tivemos uma grande manifestação de extrema direita e o movimento anti-vacina chamada “Freedom Caucus” onde vários foram Ottawa, capital, e a ocuparam por algumas semanas. Depois que a GoFundMe fechou a página de financiamento coletivo do movimento — que estava recebendo muitas doações de pessoas de direita, especialmente dos EUA — eles trocaram sua forma de arrecadação para o bitcoin, já que burlar esses provedores de serviço regulados e conseguir dinheiro de outra forma. Vemos uma conexão muito forte entre o movimento crescente de criptomoedas e a direita, a extrema direita em particular. David Golumbia, acadêmico dos EUA, delineou essas conexões em um livro chamado A Política do Bitcoin: Software como Extremismo de Direita.

SS

Se fossemos reconstruir as tecnologias atuais para terem um viés socialista, como faríamos?

PM

É uma pergunta difícil, já que estamos neste sistema capitalista que é extremamente poderoso e possui muito controle sobre nossas vidas. A habilidade de desafiar, ao menos na América do Norte, está enfraquecida no momento, no sentido de que as organizações e estruturas de poder para desafiá-las foram desgastadas ao longo das décadas – e agora elas estão sendo reconstruídas. Ainda há bastante trabalho para ser feito e para criar os recursos necessários para combate-los, especialmente porque sabemos que as grandes empresas de tecnologia são controladas por monopólios enormes com bastante poder em si mesmos e influência entre pessoas que as governam.  

Existem muitas coisas promissoras para se pensar. Existem discussões atuais sobre legislação antitruste nos EUA, algo que quebraria essas empresas ou ao menos colocaria restrições. Enquanto não acredito que essa é a bala de prata para resolver nossos problemas, é um passo muito importante, uma vez que você restringe o poder e o crescimento dessas empresas e potencialmente desativa alguns de seus negócios nas linhas de produção. 

“Aplicativos de delivery poderiam ser algo além de uma economia terceirizada onde trabalhadores são muito mal pagos e restaurantes recebem altas taxas.”

Em parte, também é importante imaginar como a tecnologia pode ser utilizada diferentemente e como ela pode servir diferentes funções além de um modelo de lucro para grandes empresas de tecnologia. Isso pode ser difícil de se imaginar em alguns momentos. 

Por um lado, há o pensamento sobre como as tecnologias já existentes podem ser orientadas e readaptadas para objetivos positivos. Aplicativos de delivery poderiam ser algo além de uma economia terceirizada onde trabalhadores são muito mal pagos e restaurantes recebem altas taxas. Poderíamos reexaminar para que eles sirvam ao bem-comum e estejam conectados com serviços de alimentação pública — garantindo que pessoas sejam propriamente alimentadas, especialmente em casos de idosos ou pessoas com liberdade motora restringida. Também poderíamos conectar tais aplicativos ao serviço postal que promove o comércio local ao invés de grandes monopólios econômicos como a Amazon. Mas existem formas de pensar que vão muito além disso. 

Podemos pensar sobre qual papel o Estado e as empresas públicas podem ter em criar tipos de interfaces tecnológicas, serviços tecnológicos e softwares. Ao invés de precisarmos depender de serviços privados como o PayPal para processamento de dinheiro e transferências, isso poderia ser um serviço e aplicativo público. Ou, ao invés de todos precisarmos utilizar o Microsoft Word e pagar uma certa taxa anual para a empresa, poderia existir um processador de escrita público e gratuito. 

Pensando além e no mundo das redes sociais, acredito que continuaremos utilizando a internet para nos conectarmos de alguma forma, então até que ponto poderíamos imaginar um novo tipo de plataforma de rede social para comunicação online que não é focada em engajamento e aumento dos lucros publicitários, mas em valores sociais positivos como educação e comunidade — e como isso afetaria a própria criação e design das plataformas e de tecnologia para encorajar um inusitado tipo de vivência que não é focado em lucro, mas em valores que devemos promover em nossa sociedade. 

SS

Como você enxerga a corrida tecnológica entre a China e os EUA daqui há uma década? 

PM

É difícil enxergar até onde ela realmente irá. 

Por um lado, acredito que a China está fazendo bons e importantes avanços ao desenvolver sua capacidade tecnológica e atingir um nível de inovação que certamente preocupa os EUA — que vê sua superioridade tecnológica sendo ameaçada por uma potência global, geopoliticamente falando. A China está tendo ações interessantes para regular e tomar iniciativa sob a sua indústria de tecnologia doméstica por conta de alguns problemas com suas empresas de serviços financeiros como Alipay, e também contra empresas de serviço terceirizado e o que elas fazem com seus funcionários. Essas ações são, acima de tudo, direcionadas a produtos e indústrias mais voltadas ao consumidor e há um foco em promover o lado manufatureiro e inovador da tecnologia — empresas como a Huawei não estão sendo afetadas por essas sanções, por exemplo. 

“A China também é líder no que é chamado clean tech (tecnologia limpa), coisas como painéis solares, veículos elétricos e uma gama de coisas que serão essenciais para uma transição verde.”

No outro lado, temos os EUA. É justo dizer que eles estão vendo a dificuldade com sua hegemonia global por conta da China e se sentem muito ameaçados por isto. Então, estão tentando dar o primeiro passo em uma nova Guerra Fria ou, ao menos, tomar ações hostis direcionadas a ela em uma tentativa de limitar a influência geopolítica e tecnológica chinesa ao redor do mundo. Vemos muitos novos acordos entre a China e governos na África, Ásia, Pacífico e até mesmo na própria América Latina. Portanto, é preciso dizer que a influência global chinesa está crescendo em contraponto a decaída de influência dos EUA. 

Com isso, também vemos que a indústria tecnológica chinesa está desafiando os EUA no campo das telecomunicações, como com a Huawei, mas também em inteligência artificial e outros importantes progressos que estão atualmente acontecendo na tecnologia. A China também é líder no que é chamado clean tech (tecnologia limpa), coisas como painéis solares, veículos elétricos e uma gama de coisas que serão essenciais para uma transição verde. 

Os EUA estão certamente tentando isolar a China, mas, simultaneamente, ainda não consegue se tornar completamente independente dela, já que muitos dos bens importados para os EUA vêm da China, criando uma dependência que nunca houve com a União Soviética, por exemplo. Também é honesto dizer que o foco do Vale do Silício em criar aplicativos e serviços orientados ao consumidor – focados em explorar mão de obra barata e expandir a conveniência – provavelmente não foram a melhor decisão para tentar manter os EUA como principal desenvolvedor tecnológico e líder mundial da inovação, já que a China também está investindo bastante nesses serviços.

Aonde vai chegar é algo difícil de dizer. Acredito que a China continuará crescendo e sua influência mundial aumentando, enquanto o poder dos EUA e seu status de hegemonia continuarão a declinar. Não veremos o desenvolvimento e progresso tecnológico chinês sendo parado. Ele só continuará a crescer por conta do investimento e foco financeiro em coisas que os EUA estão ignorando nas últimas décadas. 

SS

Em dezembro do ano passado, 6 trabalhadores morreram em um armazém da Amazon após serem impedidos de voltarem para suas casas em meio a um furacão. O modelo de negócios que “mata o trabalhador” está se expandindo de uma maneira onde bilionários como Jeff Bezos acreditam nem ser mais necessário esconder coisas como esta? 

PM

É extremamente preocupante. O reconhecimento do tipo de modelo de negócios da Amazon definitivamente cresceu nos últimos anos a partir do foco em seus armazéns e como eles funcionam – as altas cotas de produtividade, altos números de acidente de trabalho, funcionários urinando em garrafas. A morte recente destes trabalhadores realmente mostrou o grau de falta de importância do trabalhador, que são vistos somente como uma parte do processo em entregar mercadorias para consumidores. Não existe uma visão de trabalhadores como seres humanos. 

É difícil dizer como a Amazon sente a necessidade de se apresentar na imagem pública, mas é interessante dizer que toda vez que algo assim acontece, os porta-vozes da empresa dizem que se sentem muito mal pelo ocorrido, ou fingem que nada disso realmente é um problema, como fizeram com a questão de funcionários precisando urinar em garrafas plásticas – até que as evidências foram expostas e eles precisaram fazer uma retratação. 

É muito preocupante, e acredito que a única coisa que poderá fazer alguma mudança é a sindicalização, já que tenho cada vez menos fé de que o governo dos EUA irá atuar de forma mais rápida do que a organização dos trabalhadores.

SS

Elon Musk foi acusado, novamente, de criar um ambiente de trabalho racialmente segregado. Qual sua opinião sobre isso e você acredita que o processo irá para frente? 

PM

Essas acusações estão acontecendo há alguns anos, Elas envolvem, por exemplo, acusações de que pessoas negras são submetidas a insultos; pichações racistas em banheiros; que a própria gerência faz parte do problema e que, quando isso foi levado ao Elon Musk, ele enviou um e-mail aos trabalhadores pedindo que eles tivessem “uma pele mais grossa” – efetivamente falando que eles deveriam somente aguentar isso enquanto estão no trabalho.

Acredito que já houve dois casos onde foi julgado contra a Tesla que funcionários negros estavam em um ambiente de trabalho discriminatório. Esse só é um caso maior contra um departamento específico na Califórnia e seu ambiente de trabalho.

“Musk não só comanda um ambiente de trabalho abusivo segregado racialmente e contra sindicalizações, mas SpaceX também é um péssimo ambiente.”

O ponto mais importante que podemos tirar de tudo isso é o contraste da imagem que podemos ter de Elon Musk – ou ao menos tínhamos alguns anos atrás – como um cara progressista que está tentando salvar o mundo com carros elétricos. Essa imagem era bastante promovida durante os anos de 2010, mas que começou a mudar durante a era Trump. Agora o vemos abraçar figuras da extrema direita, se opor a medidas restritivas de contenção ao coronavírus, se opor vigorosamente a taxação de bilionários e uma série de outras coisas preocupantes. Acredito que ver o ambiente de trabalho da Tesla e observar que Elon Musk não só é permitido a continuar com isso, mas dizer a funcionários que eles deveriam ter uma “pele mais grossa”, nos mostra que a imagem que tínhamos dele nunca foi verdadeira e sempre houve problemas na superfície escondidos e a mídia optou por não prestar atenção, porque queria que Musk se tornasse essa grande figura heróica. 

A segregação racial e tantos outros problemas na Tesla não são novos, a questão é que ao passar dos últimos anos eles finalmente tomaram a atenção que deveriam ter tomado há bastante tempo.

SS

O que você pensa sobre Musk ter se tornado um motivo de inspiração, e até idolatria, de muitos jovens, especialmente os da nova geração que estão entrando no mundo das criptomoedas? 

PM

É preocupante quando qualquer pessoa admira Elon Musk, sejam pessoas mais novas ou mais velhas, não só pelo tipo de pessoa que ele é, mas pelas ações tomadas por ele e a forma que seus fãs ou admiradores tentam diminuir a problemática dessas ações. Ele não só comanda um ambiente de trabalho abusivo segregado racialmente e contra sindicalizações, mas SpaceX também é um péssimo ambiente. É dito que funcionários são levados ao burnout porque são empurrados até o limite por pessoas como Musk. 

Acredito que ele também possui uma influência negativa no público geral, como quando questiona a ciência por trás de medidas de saúde públicas para impedir a transmissão do coronavírus, assim como vacinas. Vimos recentemente em sua empresa Neuralink; que ambiciona criar um chip cerebral para dar o poder de controlar coisas mentalmente e até afirma ter o poder de “consertar” certas deficiências, que os macacos de laboratório eram excessivamente mal-tratados e estavam sofrendo imensamente por conta dos experimentos. 

Voltando a Tesla, os produtos que eles lançam são de muito pouca qualidade em termos de engenharia e que seu sistema de direção autônomo é extremamente perigoso quando testado em rodovias públicas – já participando de diversos acidentes, até mesmo fatais. A preocupação é que as pessoas veem Elon Musk como uma figura inspiradora e deve ser emulada, e como resultado, todas essas coisas negativas que eles fazem são subestimadas. Existe uma certa ideologia por trás dele, onde todas essas coisas horríveis são aceitas e ele pode acumular 200 bilhões de dólares, simplesmente porque ele acredita que ele está guiando a humanidade para o progresso e futuro da civilização humana. É preocupante que as pessoas comprem esse discurso, com tanto dano social, só porque querem ficar idealizando o futuro.

SS

Como Elon Musk está destruindo a estrutura ferroviária e criando uma falsa utopia que somente o beneficia, através da Boring Company? 

PM

Musk não está necessariamente destruindo a infraestrutura ferroviária, eu diria, mas seu projeto é criar uma narrativa de não ser preciso uma estrutura ferroviária pública, ou modernizar as já existentes, porque a solução será o uso de carros. Sua ideia é que não é mais preciso um transporte público e coletivo porque a solução para todos os problemas que temos hoje são carros elétricos, já que eles seriam a solução para problemas de todos os tipos – desde as mudanças climáticas até trânsito através da Boring Company, que quer criar túneis subterrâneos. 

“Os problemas causados por automóveis, como problemas ambientais, o alto custo para motoristas e até mesmo o grande número de fatalidades, não são coisas que podem ser resolvidas por carros elétricos.”

Qualquer pessoa que tem a menor compreensão do planejamento público e mobilidade urbana sabe que essas ideias não fazem o menor sentido. 

Podemos ver que ao falarmos de problemas causados por automóveis, como problemas ambientais, o alto custo para motoristas e até mesmo o grande número de fatalidades em acidentes, não são coisas que podem ser resolvidas por carros elétricos. Eles podem reduzir a pegada de carbono de automóveis, mas ao observarmos a maior infraestrutura automobilística e os impactos gerais, não podemos depender de carros elétricos e carros feitos para trens. Devemos investir em transporte público, construir e planejar cidades que sejam densas onde mais pessoas estão vivendo, aumentar as ciclovias e a forma de transporte a pé, porque são essas coisas que resolverão os problemas fundamentais criados por carros. 

SS

Você pode nos falar sobre a premissa do seu livro Road to Nowhere [Estrada a Lugar Nenhum], que será publicado no segundo semestre deste ano? 

PM

O livro observa o que o Vale do Silício está propondo para o futuro do transporte, coisas como veículos elétricos, serviços de carona, bicicletas e patinetes, e até mesmo carros voadores – algo que a Uber chegou a propor ao Brasil. O objetivo é escavar essas propostas e mostrar o que está errado com elas. Essas empresas fizeram enormes promessas, mas não foram cumpridas, e o impacto dessas tecnologias seria muito maior do que suas promessas caso algum dia fossem cumpridas. 

Ao reconhecer isso, somos naturalmente levados à questão: “mas qual é a alternativa?”. O livro, no fim, tenta responder essa pergunta e delinear uma visão para o futuro do transporte público que realmente responde a problemas citados na obra – desde a desigualdade de transporte, os problemas ambientais e os próprios problemas causados por carros em nossas comunidades -, mas sem ignorar que expandir as linhas de transporte não é suficiente, porque se não ficaremos com os mesmos problemas criados pelo modelo neoliberal de transporte – onde valores imobiliários aumentaram. O livro tenta se aprofundar nesses problemas e respondê-los, até mesmo analisando a história dos meios de transporte e entendendo como chegamos a situação que estamos hoje. Para assim, podermos usar essas realizações para imaginar um melhor futuro para a transportação. 

Ele é focado nos EUA, já que é lá onde muitas das idéias de transporte estão surgindo, mas espero que ainda sim, seja algo aplicável para fora dos EUA, já que essas soluções já foram propostas e exportada por diversas ramificações do Vale do Silício e da indústria da tecnologia mundo afora. 

Sobre os autores

é um escritor de tecnologia canadense. Ele é o apresentador do podcast Tech Won't Save Us e autor do livro Road to Nowhere: What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation (Verso, 2022).

é editora-chefe da revista O Sabiá e assistente editorial na Jacobin Brasil .

Cierre

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Published in América do Norte, Entrevista, Livros, Meio Ambiente and Tecnologia

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