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Apresentação de Kendrick Lamar no Grammy 2016. Foto: Larry Busacca / AFP

Entre tropeços e levantes, Kendrick Lamar dá grandes passos

Crescer como racializado e marginalizado no mundo capitalista tende a constituir uma variedade de experiências traumáticas - e elas estão bem retratadas na nova obra do rapper Kendrick Lamar.

A sétima faixa do disco To Pimp A Butterfly, intitulada Alright, lançada em 2015 pelo rapper estadunidense Kendrick Lamar foi adotada logo após o seu lançamento como um tipo de hino do movimento Black Lives Matter. Não era, nas imagens dos protestos dispostos por esse grupo frente ao genocídio da população preta norte-americana, raro que se ouvisse um grupo de pessoas cantando em uníssono o refrão da canção “Nigga we gon’ be alright”, repetindo como afirmação e desejo as palavras que afirmavam a possibilidade de um futuro em que as pessoas pretas ficariam bem. O motivo para essa adoção, reside na forma como a música criada por Lamar consegue compor – em lírica e melodia, nas batidas escolhidas e mesmo na seleção dos instrumentos – uma ideia bastante acurada da realidade da experiência negra no século XXI. 

Alright – como, de fato, todo aquele disco – possui em sua harmonia uma inspiração nas composições do jazz contemporâneo (um dos maiores expoentes desse gênero musical, Kamasi Washington, de fato participou ativamente da produção da obra de 2015 do rapper) e se apoia fortemente nos cortes elípticos sonoros que se popularizaram no gênero para produzir a sensível noção de tropeços no escutar da composição. De fato, a gagueira, o soluço, o tropeço, a queda e outros significantes que compõem esse mesmo campo semântico são termos que se acomodam muito bem à escuta da obra de Lamar, especialmente – mas não limitado-a – quando se coloca em perspectiva o disco de 2015 e a canção Alright

Esse campo semântico abre-nos para uma exploração interessante dos efeitos culturais da obra do rapper quando somos confrontados com seu mais novo trabalho Mr. Morale & The Big Steppers, de 2022. Sete anos e um outro disco, DAMN (2017), separam essas duas obras, mas penso que para entender bem o que Kendrick nos propõe em seu novo álbum é preciso continuar mais um pouco no passado, pois o tempo e sua subjetiva mobilidade é um tema fulcral da nova obra e é válido notar que existe uma linha macrotemática nos três últimos discos do artista que se vale dessa mobilidade. Comecemos, portanto, continuando no prelúdio, naquele disco de 2015, no tropeçar e na adoção daquela canção-tropeço como um hino de Levante

Em um livro em que propôs algumas de suas mais agudas contribuições teóricas, intitulado Divagações, o poeta francês Stéphane Mallarmé colocou à nossa disposição a noção de que a poesia acontecia a partir da produção que empreendia por si mesma de uma gagueira da linguagem. O poeta propunha que o lugar da poesia, sua morada sensível, se fazia no entre-lugar de som e sentido – foi também Mallarmé quem atentou-se com bastante intensidade à necessidade musical da poesia. Se pararmos para pensar sobre essa gagueira, não seria forçoso afirmar que esta nada mais é do que o tropeço da voz; e tal afirmação nos colocaria bem próximo de alinhar as modulações harmônicas da canção de 2015 de Lamar com esse lugar de morada da poesia, esse entre-lugar de som e sentido. 

Reprodução

Do que importaria essa noção com relação à adoção da música como hino de um movimento em Levante? Bem, esse entre-lugar da poesia nada mais é do que o lugar da possibilidade, o chamado à interpretação, o início de um jogo. É nesse entre-lugar que a poesia se compõe como um elemento metamórfico não só da linguagem, mas também daquilo que a contorna. Dessa maneira, faz certo sentido que essa gaga-canção-tropeço tenha sido adotada por um movimento que tenha necessidade de não só ser escutado, mas de estabelecer uma nova forma de escuta, uma nova disposição geral com relação ao estado das coisas. Quando o povo em marcha entoa o refrão de Lamar, ele está inventando um novo mundo, um mundo onde isso é possível e vidas negras de fato importam. Um mundo não capitalista. 

É a partir desse prisma que recebo, ansioso, o novo trabalho do rapper. Se To Pimp A Butterfly estabeleceu essa disposição de invenção metamórfica ao colocar como seu tema uma comunidade em movimento e cantar as formas como esse movimento acontece aos tropeços, o disco subsequente do artista DAMN pareceu se voltar mais para o sujeito que tropeça em meio aos seus semelhantes nesse movimento, uma leitura de como os afetos atingem o ser e como esse ser deve lidar com eles. Agora, em 2022, com esse novo disco, estaria na hora de uma nova colocação, de uma movimentação nesse jogo que é tão poético quanto político – como não podia deixar de ser.

Retornando para avançar 

O tempo é, como mencionado acima, um elemento essencial no novo disco de Kendrick Lamar. É entendendo o tempo como fator psicológico e na intenção de explorar as rachaduras de uma memória que é tão subjetiva quanto coletiva, que a obra parece se iniciar. Separada em dois discos, a obra Mr. Morale & The Big Steppers, anuncia logo em sua primeira faixa um palco para a encenação dessas memórias, um canto que remete a um coro clerical onde enuncia a frase “I hope you find some peace of mind in this lifetime” [“espero que você encontre alguma paz enquanto estiver vivo”]. É uma enunciação pesada, mas gentil. O tom em que nos é apresentada relembra o peso de uma igreja ao mesmo tempo em que corta a possibilidade de uma solução religiosa – no além – ao nos dizer “enquanto estiver vivo”. A paz que nos é desejada é para ser desfrutada aqui, nessa vida. 

Esse canto parece dar o tom da primeira parte da obra que nos apresenta canções sobre os autoquestionamentos do rapper e sua busca por um lugar, uma voz, algo que ele tivesse a acrescentar no conglomerado de sons que se amontoam no nosso tempo. A busca é por algo que destoe, algo que desvie da barragem da monotonia que preenche nossos ouvidos, algo que possa estabelecer uma quebra, ainda que instantânea, na estrutura simbólica que nos oprime. As primeiras músicas do disco narram essa busca e nos diz bastante sobre a necessidade premente de engajar nessa procura. Não é só até a metade do primeiro disco, na faixa 5 Father Time, que o rapper parece ter encontrado a maneira de colocar para fora o que estava em si, de nos contar algo que ao mesmo tempo quebre com a monotonia e componha com suas obras anteriores: se To Pimp A Butterfly pode ser visto como um disco sobre uma comunidade em seu tropeçante movimento e DAMN como uma leitura desse sujeito que tropeça ao se movimentar, Mr. Morale & The Big Steppers é sobre o seio familiar que – em seus traumas – compõe esse sujeito, entendendo o impacto amplo daquilo que propôs na obra de 2015. 

O artista parece querer nos mostrar o que está na raiz dessa proposição, demonstrando uma aguda afinidade com a proposição de Karl Marx no livro Crítica da Filosofia do Direito de Hegel quando afirmou que ser radical seria tomar as coisas pela raiz. A nova obra de Lamar é uma aventura radical, um mergulho na raiz do que veio a ser a força simbólica de sua obra de 2015 – o que, de certa maneira, também acaba por nos introduzir no esquema de coisas necessário para se entender profundamente as ideia contidas em seus primeiros trabalhos, Section.80 (2011) e Good Kid, M.A.A.D city (2012).

Dessa maneira, é lindo escutar o diálogo que abre a quinta faixa do primeiro disco em que Kendrick coloca à nossa disposição a insistência de uma mulher – uma mãe, podemos pensar a partir do título – para que um homem – o pai – faça terapia. O diálogo se desenvolve com a mulher dizendo “you really need some therapy” [“você realmente precisa de terapia”] e o homem retrucando que “real nigga need no therapy, fuck you talkin’ about?” [“pretos de verdade não precisam de terapia, que merda é essa?”]. Esse diálogo, ao qual segue uma canção em que o eu-lírico se afirma como tendo “daddy issues” e, em um verso particularmente forte e doloroso, relembra que “I might reject the love ‘cause everything he didn’t want was everything I was” [“eu talvez rejeite o amor, pois tudo o que ele não queria era tudo o que eu era”] dá, de certa maneira, o tom do disco, que passa a ser uma exploração dos traumas de uma vida racializada e marginalizada em sua crueza. 

Dessa forma, as canções que se seguem parecem ter saído de um álbum de fotografias de uma infância e adolescência que o eu-lírico do rapper insiste em nos mostrar graficamente, de maneira a sintonizar – ou, ao menos, tentar – com nossos próprios afetos e traumas e expandir a leitura de uma sociedade que faz dessas dolorosas memórias um tipo de regra para um certo tipo de pessoas. As batalhas com vícios, com a violência, com a própria incapacidade de viver algo como o “amor” e, então, perdê-lo pululam pela obra permeadas por batidas que ao mesmo tempo em que são muito contemporâneas, conseguem jogar com referências daquelas que deviam ser as batidas que ritmaram esse crescimento do eu-lírico nos anos 90 no bairro marginalizado de Compton em Los Angeles. Dentre as brilhantes harmonias escolhidas para ilustrar os saltos traumáticos das experiências narradas, é de particular genialidade a escolha de um teclado que alterna entre uma nota aguda e uma grave durante toda a música Crown – segunda faixa do disco 2 da obra. A canção tem como tema os conflitos internos do eu-lírico, sua dúvida sobre a sua influência e sobre o poder que esta contém e, de maneira que parece nos colocar de volta em uma ambiência barroca, a batida sabe colocar o ouvinte nesse lugar de tensão que parece atormentar o narrador. 

Grandes passos a frente

Crescer como racializado e marginalizado no mundo capitalista tende a constituir uma variedade de traumáticas experiências e estas são dispostas como imagens na nova obra do artista. Obra esta que não ignora a origem da estrutura que impõe essas dores, afinal, quando o eu-lírico afirma em Savior “capitalists posing as compassionates be offending me” [“capitalistas posando de compassivos me ofende”] ele sabe muito bem que é justamente aí que está a raiz do problema. 

A capa do disco, como é costume na obra de Lamar, compõe com as canções de maneira vibrante, criando, também ela, uma ótima rima. Nela, Kendrick posa como um pai de família em um quarto, com um bebê está no seu colo, onde é possível ver uma arma despontando na parte de trás de suas calças, e ele veste uma coroa de espinhos. Na cama, uma suposta esposa nina outro bebê. As paredes têm marcas descascadas – o que serve para que possamos ver ao mesmo tempo a realidade material e a metáfora que o disco institui, de um homem descascando as pinturas nas paredes que suas memórias construíram – e a composição toda brinca com um jogo de luz claro-escuro que, novamente, nos remete a uma pintura barroca nos moldes de Caravaggio. Tudo ali está em crise, em dúvida e em dor, mas também em alegria. A coroa e a arma que vestem o sujeito do pai resumem o conflito de sua própria existência e dão o tom do que será a jornada do disco a partir dali.

(Reprodução)

Mr. Morale & The Big Steppers é mais um acréscimo a uma ótima discografia do artista, contém em si canções que sabem divertir, beats contemporâneos, ótimas escolhas entre os artistas convidados e propõe uma viagem sobre os conflitos de viver a experiência da negritude de uma maneira de tal forma visceral que penso quase existir a possibilidade de uma comunicação de nossas dores. Mas mais do que isso, parece que esse disco vem nos dar a mensagem de que mesmo que essa comunicação seja falha – e, como nos lembra o psicanalista francês Jacques Lacan, toda comunicação é, já, a priori, falha – ela é absolutamente necessária. Nesse ponto, o aplauso fica para a forma como essa obra compõe com os outros discos do artista. Pois parece que algum entendimento de uma necessidade de pormenorização se estabeleceu no rapper em 2015 quando Alright ganhou as ruas como um hino de levante. Parece que os dois álbuns subsequentes tiverem o cuidado primoroso de nos mostrar o motivo da necessidade de invenção desse mundo outro em que ficaremos bem

Judith Butler, em um texto que compõe a coletânea de apresentação da exposição curada por Georges Didi-Huberman, Levantes, propõe que um levante é a reação tomada pela comunidade que deixa de sustentar uma situação insustentável. Butler também lembra que um levante deve acontecer, mas está fadado ao fracasso: um levante é um gatilho, um murmuro que percorre os corpos e os prepara inevitavelmente para o que vem depois dele. Ao terminar de ouvir Mr. Morale & The Big Stepper se entende que levantes são necessários e para entender um levante deve-se saber rastrear a sua origem, as formas como essa situação insustentável se instaurou e o porquê dos corpos se levantarem – ainda que tropeçantes. No entanto, ao sintonizar com as dores que o artista nos dispõe fica evidente que, mais do que um levante, é necessário aquilo para o qual ele prepara, é necessária uma revolução. E talvez ela comece, de alguma maneira ainda que mínima, na escuta sensível desse tropeçante-disco-gago.

Sobre os autores

é crítico de arte, professor e tradutor. Mestre em Poesia e Aisthesis pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e graduado em Letras pela mesma universidade. No momento trabalha na tradução da obra Bad New Days: Art, Criticism, Emergency do crítico de arte estadunidense Hal Foster.

Cierre

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Published in América do Norte, Análise, Arte, Cultura and Música

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