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Apoiadores do candidato presidencial colombiano Gustavo Petro participam de comício em Medellín, Colômbia, em 22 de abril. Foto de Joaquin Sarmiento AFP/Getty Images.

A esquerda tem poucos dias para estremecer a Colombia

Tradução
Hugo Albuquerque

A elite colombiana está comemorando em tom de vitória a ida do candidato de extrema direita para o segundo turno em 19 de junho. Mas não se engane: Gustavo Petro e Francia Márquez conseguiram um resultado histórico e têm um programa popular que ainda não atingiu seu teto eleitoral.

Passado o primeiro turno das eleições colombianas, no último domingo, 29 de maio, os mais exclusivos clubes de Bogotá, Cali, Medellín e Bucaramanga estavam enfeitados para uma comemoração. Lá se celebrava, a um ritmo triunfalista, o que os analistas e especialistas cravam como inevitável para o próximo dia 19 de junho: a iminente derrota da esquerda colombiana, encabeçada por Gustavo Petro e Francia Marquez.

Muitos vão estranhar, e não sem razão, os festejos pós-eleitorais das elites colombianas. Com 40% dos votos, Gustavo Petro praticamente superou seu resultado eleitoral de quatro anos atrás. Hoje, o representante do Pacto Histórico, que lidera a corrida eleitoral com pelo menos 12 pontos de vantagem, se prepara para disputar o segundo turno – e nunca a esquerda havia chegado tão longe na Colômbia.

Por outro lado, o candidato da direita oficial, e do uribismo, Frederico Gutiérrez ficou em um vergonhoso terceiro lugar, com pouco menos de 24% – nunca o uribismo foi tão castigado pelo povo colombiano numa eleição.

Apesar dessa vitória história, por meio da qual a esquerda colombiana se vê próxima do governo, o ambiente é fúnebre para os nossos e festiva para os poucos de sempre. Mais parece que quem assumiu a liderança da corrida eleitoral foi quem se distanciou da vitória.

O fator Rodolfo Hernández

As elites e a mídia colombiana não perderam o faro. Semanas antes das eleições, alguns setores perceberam a fragilidade do candidato uribista, cedente espaço para o auto-intitulado “engenheiro” Rodolfo Hernández: um violento ancião empresário, oriundo de Santander, na geograficamente central região Andina do país. Hernández, em seus discursos raivosos destila um machismo incontrolável, ameaça de morte seus adversários, chegando a reconhecer publicamente simpatias por Adolf Hitler.

Desconhecido até pouco antes da campanha, esse “Trump colombiano”, deu um salto eleitoral sem precedentes na Colômbia, confiando sua parca comunicação a fugazes vídeos de Tik Tok. Hernández conseguiu articular o significante da anticorrupção à sua imagem de homem de fora do sistema, muito embora seja o único candidato acusado de corrupção nestas eleições.

Pessoas participam de um comício para Gustavo Petro em Cali, Colômbia. Ele conquistou seguidores não vistos em gerações para um candidato de esquerda. Foto de Ernesto Guzmán Jr/EPA

A virada eleitoral, apenas perceptível nas melhores pesquisas de opinião de dias antes da votação, posicionou Hernández num segundo turno com 28% dos votos. No entanto, se a linguagem fraca e coloquial com que Hernández desafiava o establishment político despertou simpatias entre amplos setores da sociedade, é agora o centro gravitacional no qual orbita o uribismo: os setores conservadores e os dirigentes liberais que querem derrotar o petrismo.

Apelando às leis da aritmética simples, analistas e comentaristas embarcam no cálculo de um conjunto eleitoral híbrido. Neste, o eleitorado indignado de Hernández, somado ao antipetrismo, aos votos dos clãs políticos regionais e dos altos dirigentes dos partidos tradicionais – como os ex-presidentes César Gavíria, Andrés Pastrana e Álvaro Uribe – impõem um teto ao petrismo e compõem uma força eleitoral de 52%, que presumem ser infalível. 

É certo que neste cenário Petro encontra maiores dificuldades em crescer. Por um lado, porque a disponibilidade de votos de outros candidatos, como os de Sergio Fajardo, ofereceram ao petrismo pouco mais de 2%. Pelo outro lado, a transferência de 24% de Gutiérrez para Hernández é, possivelmente, direta, marcando um aparente impasse. Também é certo, sem dúvida, por mais infalível que isso pareça, que nenhum inimigo é impossível de vencer.

Um movimento popular e progressista contra a extrema direita

O quadro eleitoral denota um cenário no qual profundas ânsias populares de mudanças serão disputadas. Isso é uma consequência do incontornável desprestígio no qual a figura de Álvaro Uribe parece naufragar – e com ele, um projeto político de morte, imperante na Colômbio durante os últimos 20 anos.

Enquanto o voto em Hernández carece de identificação eleitoral estável, composto por camadas sociais heterogêneas sem compromissos partidários e com uma vocação de recusa abstrata ao establishment, o perfil eleitoral de Petro e Francia tem um profundo apelo emocional e programático. O eleitor de Petro é robusto e o de Hernández é volúvel.

Um Hernández agressivo, compulsivamente contraditório e ausente nos debates, sem agenda de governo ou projeção presidencial, não é diretamente compreensível, eleitoralmente falando, na disputa de segundo turno. Embora as forças eleitorais que cheguem ao segundo turno tendam a se acomodar, a Colômbia enfrenta – depois de ter eleito outro incorrigível aventureiro, o atual presidente Iván Duque – um panorama socioeconômico alarmante, atravessado por uma aguda crise alimentar e uma dura perda de direitos sociais.

A maturidade programática do movimento de Petro, em seu exercício criterioso de determinar os sintomas centrais da crise social, aliada a uma comunicação simples e audaciosa, pode competir com o oportunismo de Hernández.

Agora, o vetor eleitoral determinante no primeiro turno foi o anti-uribismo. As alianças dos partidos tradicionais por um segundo turno vão atrasar ainda mais a modesta reconfiguração das bases eleitorais. Quanto maior o apoio do uribismo, do liberalismo de direita de Gaviria ou do conservadorismo de Pastrana a Hernández, maior é o alcance de ação do Petrismo para disputar eleitores com Hernández.

Nesse cenário há variáveis importantes: o anti-uribismo e o antipetrismo. O primeiro é, sem dúvida, o campo de batalha que definirá o resultado eleitoral – e aqui, mulher e jovens são os atores que o petrismo pode e deve disputar.

Hoje, Petro conta com alguns dias, até 19 de junho, para mostrar a 8% do eleitorado, principalmente jovem e feminino que votaram em Hernández, que ele e Francia lideram um projeto político nacional com maturidade suficiente para desenhar um horizonte alternativo, viável e necessário. Isso será uma batalha entre cavalos e tanques – e nós colombianos sabemos muito sobre isso: temos tudo a ganhar.

Sobre os autores

é professor de filosofia e teoria política na Fundação Getúlio Vargas. Ele também é membro pesquisador da rede DeSiRe (Democracia, Significação e Representação) e do Centre of Ideology and Discourse Analysis (cIDA) da Escola de Essex.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Militarismo and Política

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