Quando o Estado intervém para salvar o lucro das empresas

24/03/2020

Por
Ingar Solty

Tradução
Letícia Bergamini

Diante de mais uma recessão global, muitos governos estão reagindo com intervenções estatais ainda mais fortes do que na crise financeira de 2008. Mas os pacotes de estímulo para sustentar as empresas também devem colocar a questão do controle público delas – não adianta socorrê-las, precisamos redirecionar suas operações para enfrentar os desastres à nossa frente.

A fábrica da Volkswagen permanece aberta no primeiro dia após uma interrupção temporária da produção de carros no dia 20 de março de 2020 em Wolfsburg, Alemanha. Stuart Franklin / Getty.

A crise financeira de 2007–8, que se transformou em um colapso global, deveria ser a crise histórica – um evento único na vida. E cá estamos outra vez frente ao precipício! Na semana passada, grandes economistas como Kenneth Rogoff, de Harvard, e Pankaj Mishra, estavam convencidos de que o mundo já havia entrado em uma nova crise econômica global.

Rompendo de forma massiva a cadeia de suprimentos internacional, a globalização do COVID-19 claramente acelerou uma recessão. Observe a palavra “acelerou”. Já no final de 2019, os indicadores do crescimento do PIB, a rentabilidade e o volume de horas de trabalho indicaram que a recessão estava chegando. No ano passado a Alemanha registrou o menor crescimento desde 2009. As demissões em massa na indústria automobilística global não eram mais apenas resultados da informatização ou da transição para a mobilidade elétrica, mas estavam ligadas a uma queda mais ampla da atividade econômica.

Mas a paralisação total devido ao coronavírus fez a população mundial perceber que o mundo está de volta ao tipo de situação que enfrentou em 2008. Na segunda semana de março, as bolsas de valores despencaram: de 4 a 18 o índice Dow Jones caiu de 27.091 para 19.899 pontos, e o DAX alemão de 12.128 para 8.442. Enquanto economistas pró-trabalho, como Stephan Kaufmann, pediram o fechamento das bolsas de valores para deter a volatilidade e a espiral descendente induzida pelo pânico (semelhante à crise asiática de 1997 ou à crise de 11 de setembro de 2001), Wall Street logo exigiu um “estímulo de choque e pavor” para deter o impacto econômico.

Assim como a situação após a crise financeira global de 2008 foi caracterizada por grandes lutas sobre os efeitos sociais adversos, o mesmo pode ser esperado nos próximos anos. Pois, as soluções também terão que responder a crises que abrangem economia, reprodução e coesão social, democracia, ordem mundial e clima. Portanto, depende muito dos movimentos da classe trabalhadora no mundo todo serem capazes de transformar essa crise em uma oportunidade de mudança social e ecológica radical.

Como qualquer grande crise do capitalismo, a atual tem muitos perigos e não é apenas uma “oportunidade”. A burguesia mostrou-se capaz de usar a crise de 2008 para aprofundar o neoliberalismo – não apenas retirando recursos do Estado, mas também usando-o para fortalecer seu próprio poder. O breve ressurgimento keynesiano de 2008 a 2009 foi substituído por uma virada de austeridade quase global, mudando ainda mais a relação de forças entre capital e trabalho a favor dele.

Avançando para 2020, a interrupção da cadeia de suprimentos internacional devido à quarentena na China já criou sérios problemas na esfera da produção, dado o quão vulnerável é a produção just-in-time a choques externos. As indústrias de logística do capitalismo global entraram em profunda crise: o transporte marítimo e as companhias aéreas estão à beira da falência e já solicitaram resgates estatais. A paralisação devido ao coronavírus também está colocando as indústrias de varejo e comerciais à beira da falência. Stefan Genth, CEO da Associação Federal de Varejo da Alemanha, anunciou que o cálculo das perdas do setor era de 1,15 bilhão de euros. Ele alertou sobre uma onda de falências nas próximas quatro semanas, especialmente na indústria têxtil e de bens duráveis.

A questão, então, é quem pagará pela crise – se veremos um resgate para a classe trabalhadora ou outro resgate de empresas industriais e financeiras em dificuldades. Após a crise financeira global de 2007–8, ficou claro que os trabalhadores pagariam, sob o disfarce de austeridade. Os custos econômicos da crise assumiram a forma de uma “desvalorização interna”, cortando custos e salários em nome da “competitividade”. Em muitos lugares, isso significava reverter acordos de negociação coletiva e salários mínimos, além de cortes em aposentadorias públicas, benefícios sociais, educação pública e provisão de assistência médica. Por isso, também significou menos leitos de terapia intensiva em hospitais públicos – algo pelo qual estamos pagando novamente à medida que a crise do COVID-19 se desenrola, com os idosos vulneráveis morrendo aos milhares pelo mundo.

Programas de estímulo, mas que tipo?

Como os governos reagiram até agora? O governo dos EUA teme que o desemprego dispare para 20% – e com a Organização Internacional do Trabalho alertando que o desemprego global aumentará em 24,7 milhões – os governos responderam rapidamente com medidas de resgate. Assim como em 2008, muitos pessoas na esquerda viram essas ações como positivas, que colocariam fim ao neoliberalismo, simplesmente porque as regras de “orçamento equilibrado” como o “déficit primário” da Alemanha foram jogadas pela janela.

Mas apenas porque os Estados estão jogando dinheiro na crise não significa que o neoliberalismo esteja acabado. Em 2008, a revista The Economist disse que não deveria haver “avareza” durante a crise, mas isso deve ser seguido por uma rigorosa austeridade quando terminar. Em outras palavras, uma vez que o Estado socializasse as perdas, poderia passar a fazer a classe trabalhadora pagar por dívidas corporativas e resgates bancários.

Até agora, as respostas dos Estados à crise atual seguiram amplamente o plano de 2008. A ação do Estado foi particularmente rápida na política monetária. Geralmente, isso significa diminuir as taxas de juros para estimular o investimento e o crescimento – com base na sabedoria neoliberal de que os capitalistas investirão enquanto o dinheiro for barato e a liquidez preservada. Daí a série de medidas de flexibilização quantitativa na economia. No entanto, os Estados não estão apenas seguindo o modelo de 2008, mas usando mecanismos específicos que resultaram nessa crise anterior.

Isso pode ser visto no mecanismo implantado pelo Federal Reserve (Fed), que agora pode conceder empréstimos diretamente às empresas capitalistas. Em 2008, o Fed baixou as taxas de juros próximas a zero para estimular a atividade econômica. No entanto, com base em suas estimativas racionais de risco de empréstimos enfrentadas pela estagnação do crescimento, baixa rentabilidade e volatilidade econômica, os bancos comerciais não repassaram essas baixas taxas de juros para as empresas – provocando uma crise de crédito e liquidez. Para evitar que isso aconteça novamente, o novo mecanismo contorna os bancos comerciais.

Mas esse mecanismo, no qual o Fed tem linhas de crédito diretas para empresas, também tem um forte viés de classe. Ele fornece dinheiro barato para grandes empresas, enquanto as linhas de crédito congelam para trabalhadores, autônomos e proprietários de pequenas empresas que ainda precisam buscar crédito nos bancos comerciais avessos ao risco. Em outras palavras, o Fed está adotando uma política de resgate para Wall Street às custas da Main Street. E esse resgate, propagado na Grã-Bretanha por um programa de £ 300 bilhões em garantias de empréstimos para empresas, é caro. Estima-se que o volume desses empréstimos do Fed esteja entre US$ 700 bilhões e US$ 1,5 trilhão.

O Secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, ex-gerente de fundos de hedge de Wall Street e notório “rei da execução hipotecária”, anunciou ainda em 17 de março que o governo dos EUA restabeleceria o Primary Dealer Credit Facility (PDCF). Antes, os ex-chefes do Fed, Ben Bernanke e Janet Yellen, haviam se unido e publicado um editorial no Financial Times exortando o governo Trump e o presidente do Fed, Jerome Powell, a empreender tal ação. Em 2008, o PDCF viu o governo comprar ativos tóxicos de bancos privados e com fins lucrativos, que os banqueiros de Wall Street passaram a adorar como a “instalação em que se troca dinheiro por lixo”.

Desta vez, Bernanke e Yellen argumentaram que o Estado deveria comprar a “dívida corporativa com grau de investimento” para “ajudar a reiniciar a parte do mercado de dívida corporativa, que está sob estresse significativo”. Em 2008, o governo argumentou que essas aquisições eram empréstimos temporários. Os ativos deveriam ser devolvidos às empresas de Wall Street assim que a tempestade passasse. O argumento era que esses empréstimos, emitidos no valor de US$ 8,95 trilhões, beneficiariam trabalhadores e empresas estadunidenses.

No entanto, na realidade, pelo menos 64% (US$ 5,7 trilhões) foram para os maiores bancos de Wall Street, como Citigroup, Morgan Stanley e Merrill Lynch, que haviam explorado desregulamentações financeiras por alavancagem de alto risco e negociação de obrigação de dívida colateralizada, e que então chantageara o Estado para resgates bancários porque eram “grandes demais para falir”. A maior parte do dinheiro era usada não para reestimular a atividade econômica, mas para aumentar ainda mais a centralização e concentração de capital por meio de fusões e aquisições de bancos menores, bem como pagamentos de bônus que indignaram, com razão, a população.

Economistas neoclássicos e libertários de direita como Ron “End the Fed” Paul sugeriram que esses bancos deveriam ter sido deixados para trás. Mas eles realmente se tornaram “grandes demais para falir” – e deixá-los entrar em colapso provocaria um colapso financeiro com consequências terríveis. No entanto, as ações do Estado ajudaram os bancos a se tornarem ainda maiores, garantindo que, após essa chantagem bem-sucedida, eles pudessem contar com futuros resgates. Aqui vemos que os bancos “grandes demais para falir” são “grandes demais para serem privados”. A crise atual ilustra, surpreendentemente, que esses bancos deveriam ser serviços públicos, permitindo aos Estados conduzir investimentos para fins socialmente úteis – para financiar conversões industriais e transformações socioecológica, por exemplo.

Agora, o governo Trump discutiu um pacote de US$ 1 trilhão – US$ 200 bilhões a mais do que a Lei de Recuperação e Reinvestimento de janeiro de 2009 do governo Obama, o maior programa de estímulo na história dos EUA no pós-guerra. Da mesma forma, o governo alemão anunciou que iniciará um programa de estímulo de até € 500 bilhões através de seu banco estatal KfW. O Banco Central Europeu (BCE) anunciou em 19 de março que compraria ativos na bolsa de valores no valor de € 750 bilhões até o final de 2020, a fim de impedir o colapso financeiro – de fato, “tantos [ativos] conforme o necessário, pelo tempo que for necessário”. Christine Lagarde, presidente do BCE, postou no Twitter: “Tempos extraordinários exigem ações extraordinárias. Não há limites para o nosso compromisso com o euro. Estamos determinados a usar todo o potencial de nossas ferramentas em nosso mandato”. Os bons e velhos tempos de colocar ativos tóxicos nos balanços dos bancos centrais estão de volta.

De um modo geral, em 2008 e novamente em 2020, o mundo aprendeu a lição da Grande Depressão. Em seguida, o governo Hoover nos Estados Unidos, assim como o gabinete de Heinrich Brüning na Alemanha, respondeu à falência global de Wall Street implementando duras medidas de austeridade. Esse corte simultâneo no investimento público e privado resultou em uma espiral deflacionária descendente que levou a demissões em massa, seguidas por uma redução adicional da demanda agregada, seguida por outras demissões em massa, com o desemprego nos Estados Unidos atingindo 24,9% em 1933. Como dizia o título do romance de John Fante, 1933 Foi Um Ano Ruim: a austeridade eliminou a maioria dos governos liberais fora dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e levou Hitler ao poder. Mas se a lição de não cortar, no momento da crise, foi aprendida, isso deixa em aberto as questões sobre o que está sendo gasto e quem será beneficiado.

Até agora, o governo Trump revelou apenas parte do que seu programa de estímulo conterá. O objetivo é incluir um resgate de US$ 50 bilhões da indústria de linhas aéreas em crise e 1650 milhões de dólares adicionais em empréstimos garantidos a outras indústrias com dificuldades, além de cortes de impostos para grandes empresas. Além disso, a partir de abril, o governo dos EUA pretende emitir pagamentos diretos a famílias estadunidenses, além de empréstimos que os empregadores com menos de quinhentos trabalhadores podem receber para cobrir seis semanas da folha de pagamento, desde que eles garantirem a não-demissão por oito semanas.

As metas específicas de tais pacotes são decisivas em termos de seus efeitos sobre os padrões de vida da classe trabalhadora – e, de fato, sobre o clima. Como argumentei antes, o pacote de estímulos de Obama em 2009 foi caracterizado por três grandes contradições que o separavam de medidas keynesianas progressistas, como as adotadas pelo New Deal de Franklin Roosevelt, às quais costumava ser comparado.

Apesar das proclamações do governo Obama de uma mudança em direção ao capitalismo verde e uma “economia pós-bolha”, ela não era realmente verde (apenas 3,5% do total de US$ 787 bilhões foram gastos em pesquisa e desenvolvimento em tecnologias verdes). Também não era grande o suficiente – visto que apenas evitou o colapso financeiro e a consequente explosão do desemprego em massa para os níveis da década de 1930, mas não garantiu que a “recuperação” fosse melhor do que uma “epidemia de meio período ou baixos salários“. Esse pacote também diferia fortemente das políticas de Roosevelt, na medida em que não criava programas públicos de emprego para os desempregados. Havia um grande componente de redução de impostos ao capital – com base na falha ideologia neoliberal de que a redução de impostos para os ricos leva ao aumento de investimento, emprego e prosperidade. Mas as medidas de austeridade federais e estaduais, reforçadas pelas emendas do “orçamento equilibrado”, eliminaram milhões de empregos no setor público – de professores do ensino médio a bombeiros.

Os limites da política monetária

Então, para onde a crise nos levará desta vez? De muitas maneiras, o capitalismo global está em um pior estado do que durante a crise financeira global. As cadeias de suprimentos internacionais entraram em colapso. Se a crise financeira global ressaltou as ineficiências dos mercados financeiros desregulados, desta vez, graças ao COVID-19, a crise está ressaltando as ineficiências do capitalismo global com cadeias de valor transnacionalizadas. A produção just-in-time significa que as indústrias de todo o mundo estão encontrando cada vez mais dificuldades em gerenciar seus ciclos de produção transnacionalizados. Como alegado, em um país como a África do Sul, até mesmo palitos de dente – antes importados da China – estão com pouco estoque. A pergunta é: como substituir os suprimentos nessas condições de volatilidade internacional?

A crise de 2007–8 atingiu o mercado financeiro, depois se espalhou para a manufatura e, assim, acabou afetando muito os trabalhadores. O que torna a crise mais grave desta vez é que ela está atingindo as cadeias de suprimentos internacionais – que já foram afetadas devido à tentativa de Donald Trump de cortar a China das cadeias de alta tecnologia (principalmente em microchips usados na comunicação móvel 5G) – e os trabalhadores conectados a eles. Também está atingindo os sistemas nacionais de saúde, que foram vulnerabilizados pelas cadeias de suprimentos transnacionalizadas. Além disso, a crise está atingindo sociedades cuja recuperação econômica se baseou amplamente na expansão de empregos precários e com baixos salários. Por exemplo, nos Estados Unidos, o Fed estimou que apenas 21% de todos os empregos perdidos durante a crise global estavam no setor de baixos salários, quando na verdade eram 59% de todos os empregos recém-criados.

Isso explica porque o número de pessoas com graduação entre os trabalhadores em tempo integral na indústria de fast-food ultrapassou três quartos de milhão nos Estados Unidos. Agora, essas empresas do setor de salários baixos estão exacerbando a disseminação do COVID-19, na medida em que se recusam a pagar subsídios por doença a seus trabalhadores, forçando-os a ir trabalhar. As maiores empresas que “colocam os lucros à frente da saúde pública” incluem o McDonald’s, com 517.000 funcionários, Walmart (347.000), Kroger (189.000), Subway (180.000) e Burger King (165.000).

Tudo isso está acontecendo em uma situação em que, de acordo com um relatório do Fed de maio de 2019, 40% dos estadunidenses não conseguiam pagar uma despesa de emergência de US$ 400 sem pedir dinheiro emprestado – em outras palavras, quase metade da população está a um contracheque da falta de moradia. Essa crise, portanto, ameaça milhões de trabalhadores com baixos salários a entrarem em falência doméstica.

O mesmo destino aguarda milhões de autônomos e freelancers, que terão basicamente zero renda nos próximos meses de quarentena. Até agora, parece que apenas alguns países, como Suécia, Noruega e Itália, legislaram um apoio mínimo a esses grupos vulneráveis de trabalhadores; na Suécia, por exemplo, pessoas físicas e autônomas podem receber auxílio-doença financiado pelo governo, embora apenas por catorze dias.

Tudo isso torna a nova crise potencialmente muito pior que a de 2008, já que o mundo enfrenta agora uma tripla crise da dívida que atinge o setor privado, as famílias e os Estados ao mesmo tempo.

Simultaneamente, os mecanismos e recursos estatais para administrar a crise do capitalismo tornaram-se limitados. Antes de tudo, a flexibilização quantitativa sempre teve seus limites como uma ferramenta para estimular o investimento, o crescimento e o emprego. Enquanto os bancos centrais, sob a regulamentação keynesiana, ainda deveriam garantir o pleno emprego, a política monetária neoliberal foi orientada a conter a inflação e garantir a estabilidade do valor da moeda. A redução das taxas de juros dos bancos centrais tem sido um meio de último recurso para estimular o crescimento.

O fato de as taxas de juros de 0% (e abaixo) terem pouco efeito sobre investimento, emprego e crescimento mostra os limites do banco central hoje. Como Jeff Spross aponta, corretamente: “O banco central pode impedir que o sistema financeiro desmonte, o que certamente é uma coisa boa. Mas pode fazer pouco pelo sustento de uma pessoa comum. Não é apenas uma situação injuriosa e injusta, mas, como todas as estratégias de gotejamento, seu valor econômico é decididamente limitado.”

Enquanto a rentabilidade do capital global for tão baixa quanto hoje – em outras palavras, enquanto o capital estiver superacumulando, como hoje acontece, e enquanto os trabalhadores também forem incapazes de aumentar a demanda devido à sua incapacidade de aumentar a parcela salarial, o investimento de capital não ocorrerá, independentemente do quão baixas tenham sido as taxas de juros. Isso não será alterado pelo novo mecanismo do Fed com linha de crédito direto para grandes empresas.

Além disso, a ascensão do autoritarismo de direita em todo o mundo e os quatro anos de bilateralismo e transacionalismo de Trump prejudicaram severamente as instituições multilaterais, com a confiança na cooperação e nas “situações em que todos saem ganhando” substituídos por uma mudança para o unilateralismo e o nacionalismo do jogo de soma zero. A virada da austeridade competitiva global criou um novo capitalismo global de mendicância (beggar-thy-neighbor), no qual os Estados se esforçaram para apreender um pedaço maior do bolo às custas diretas dos outros. 

As instituições que a esquerda criticou, com razão, por décadas (como o G2, G8 e G20), e que agora podem facilitar a coordenação global dos programas nacionais de estímulo, estão em crise. Essa coordenação é, no entanto, uma pré-condição para o gerenciamento eficaz de crises globais. Pois, ideias de aumentar a dívida pública para enviar cheques aos trabalhadores são problemáticas da perspectiva dos governos nacionais, se isso significar apenas, por exemplo, que os trabalhadores estadunidenses acabam comprando produtos de outros países (chineses ou outros), impulsionando a atividade econômica e emprego fora dos Estados Unidos. Em resumo, é possível que os mecanismos de gerenciamento de crises durante a crise financeira global tenham se exaurido amplamente.

Na União Europeia, o nacionalismo ressurgente também pressionou a solidariedade do continente: isso pode ser visto, por exemplo, na Alemanha, inicialmente bloqueando a exportação de suprimentos médicos (já pagos) para a Itália e a Áustria. Os limites dessa solidariedade foram visíveis quando Angela Merkel brincou publicamente com a ideia de Eurobonds (carinhosamente conhecidos como “títulos-corona”) antes de se voltar contra eles, e a presidente do BCE, Christine Lagarde, sugerindo inicialmente que a Itália talvez devesse deixar a zona do euro em vez de receber alívio do BCE através de aquisições de títulos do governo. Ao mesmo tempo, os países membros da UE estão deixando refugiados de guerra para morrer nas perigosas e populosas ilhas gregas.

O fato de China, Cuba e Venezuela terem enviado ajuda para a Itália – com médicos, remédios, respiradores, máscaras e todo tipo de equipamentos – aumenta a crise de solidariedade e superioridade moral europeia em relação ao resto do mundo. O FMI, no entanto, preferiu agradecer à Venezuela por seu apoio na Itália recusando-se a conceder um empréstimo de emergência de US$ 5 bilhões ao país para combater o coronavírus, alegando “falta de certeza sobre a legitimidade do governo do presidente Nicolas Maduro”.

Uma oportunidade de transformação

Dada a profundidade da crise, não é surpresa que os Estados estejam “entrando com tudo”. E algumas de suas sugestões podem parecer surpreendentes, principalmente quando vindas de políticos de direita. Quando o ministro da Economia da Alemanha, o democrata-cristão Peter Altmaier, anunciou que estava considerando nacionalizações, isso gerou muita surpresa e feedbacks positivos na esquerda. No Twitter, o presidente da juventude social-democrata Kevin Kühnert, que no verão passado declarou que esperava a nacionalização da BMW e outras empresas transnacionais, respondeu que “certamente teremos que discutir nosso modelo de economia e trabalho”. No entanto, “este não era o momento para cantar vitória. Dizer agora ‘eu avisei’ é mesquinho”.

A questão das nacionalizações está obviamente de volta à agenda – mesmo na agenda dos economistas convencionais. Mas há nacionalizações e nacionalizações. Intervenções como essas são bastante comuns como medidas estatais para proteger as empresas sempre que o capitalismo está em crise. Esse não é o tipo de nacionalização que os socialistas imaginam (com base na administração da economia para o bem público e não para o lucro), muito menos nas socializações para democratizar a economia. O ponto dessas nacionalizações segue o padrão usual do capitalismo: “socialize as perdas, privatize os os lucros”.

A ideia por trás dessas nacionalizações é que, com seus “fundos ilimitados” (retirados dos fundos públicos de pensão e tributando o que os trabalhadores levam para casa em salários), o Estado fornece garantias, projetadas para impedir que os investidores de capital desistam de investir durante quedas no mercado de ações, como aqueles que acabamos de experimentar. O objetivo é estabilizar as empresas nos mercados financeiros, para que não entrem em crises de liquidez, seguidas de demissões em massa, seguidas de uma demanda agregada reduzida, seguida de uma contração dos investimentos, seguida de mais demissões.

Como reconhece o economista alemão Jens Suedekum, as perdas de receita confrontam as empresas com a perspectiva de falência – e é apenas nesse momento que as nacionalizações entram em cena como último recurso. Além disso, no caso de Altmaier, essas sugestões são parte integrante da nova estratégia industrial da comissão alemã e da UE – fortemente entrelaçada com a militarização do continente – de criar “campeões” nacionais (ou europeus) capazes de desafiar a ascensão hipercompetitiva da China.

Também vimos esse tipo de nacionalização durante a crise financeira após 2007, onde os governos a usaram em prol das corporações, não dos trabalhadores. Apenas para dar um exemplo: em 2009, duas das três grandes empresas automobilísticas dos Estados Unidos foram nacionalizadas porque estavam com problemas financeiros. Suas dificuldades foram aumentadas por terem transferido a produção de seus carros para SUVs mais lucrativos quando os preços da gasolina estavam baixos. Quando, de repente, durante a turbulência da guerra do Iraque, o preço do petróleo disparou, essas empresas estavam em apuros. Barack Obama então conduziu as nacionalizações – com o que ele chamou de “abordagem sem intervenção”. Isso significava que, apesar de seu discurso verde, não havia essencialmente nenhuma intervenção nas decisões de investimento dessas empresas, mesmo que elas obviamente não fossem economica ou ecologicamente sustentáveis. Obama nem sequer interveio na gestão das empresas, apesar de suas decisões claramente erradas. A única pessoa que precisou sair foi o CEO da General Motors, Rick Wagoner.

A parte em que Obama interveio fortemente foi em nome da competitividade global. Em conluio com o sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística, os salários de todas as novas contratações foram reduzidos pela metade. A ideia era a mesma que no pacto fiscal da UE e no Memorando de Entendimento com a Grécia: “desvalorização interna” dos custos e salários em detrimento ao capital, a fim de obter uma participação global maior de um setor superacumulador e exportar uma maneira de sair da crise.

A questão é que essas nacionalizações, se surgirem, são uma oportunidade, pois, toda crise é sempre uma oportunidade e um perigo para a burguesia e as classes trabalhadoras. Mas, para usá-las de maneira que beneficiem a classe trabalhadora e ajudem a evitar a catástrofe climática iminente, a esquerda deve avançar para que se tornem permanentes e conectadas a vastos programas de transformação sócioecológica.

A crise do coronavírus é, em certo sentido, uma oportunidade para a esquerda lutar por um tipo de agenda radical que possa abordar as várias dimensões da crise ao mesmo tempo. Após a crise de 2008, as classes econômicas e políticas dominantes acabaram implementando políticas internas de desvalorização como estratégias de saída. Em vez disso, a esquerda precisa lutar pela valorização, colocando o sustento dos trabalhadores e a luta contra as mudanças climáticas em seu cerne e, em particular, colocando nacionalizações progressivas de volta à agenda.

O tremendo fracasso do “mercado autorregulador” é um desastre até mesmo quando o capitalismo está “saudável”. Cria vastas desigualdades econômicas e disparidades regionais e leva ao tipo de crise em que o capitalismo se encontra agora. No entanto, durante essas crises, o mercado literalmente destrói a sociedade e ameaça matar em larga escala a classe trabalhadora. Isso nos mostra que, para proteger o bem comum, o mercado capitalista precisa ser superado. E é isso que a atual crise revela para milhões de pessoas em todo o mundo.

Como as crises também são oportunidades, podemos observar que foi a Gripe Espanhola de 1918 que facilitou a criação do Estado de Bem-Estar sueco. A interrupção das cadeias de suprimentos internacionais devido ao COVID-19 traz consigo a oportunidade de usar esse platô da globalização para avançar em modelos mais sustentáveis, incluindo o reposicionamento da produção em uma desglobalização seletiva. A crise está nos mostrando o quão vulneráveis são os serviços públicos e como eles fracassam enquanto o fornecimento de serviços de saúde depende da importação de todos os tipos de suprimentos médicos de um único lugar no mundo. Além disso, a necessidade de reposicionar a economia, a fim de lidar com as consequências da crise do COVID-19, criou conversões emergenciais de indústrias que podem prejudicar o redirecionamento das fábricas de automóveis dos EUA como instalações de tanques durante a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, essas conversões reposicionariam a produção para o bem comum, abrindo espaço para novos debates sobre como transformar a indústria automobilística de maneiras sociais e ecológicas em nossa luta contra as mudanças climáticas. Obviamente, essas medidas são o oposto da marca estratégica do Ministro da Economia alemão de recolocação estratégica – parte da nova estratégia industrial da UE de autarquia seletiva como forma de enfrentar a China.

Ainda assim, a crise criou aberturas históricas. A tarefa da esquerda é vê-las, capturá-las e lutar por elas. E enquanto a sobrevivência da raça humana está em jogo, a superação do mercado capitalista incluirá e deverá incluir nacionalizações progressivas, incluindo o setor financeiro como pré-condição mínima para o controle socioeconômico do investimento. Essa crise já mostra o que é possível em outras áreas. O governo de esquerda da Espanha acabou de legislar a aquisição de todos os hospitais privados e com fins lucrativos – até agora, uma requisição temporária, não uma nacionalização. Mas se tais medidas para mobilizar recursos para lidar com a crise se tornarem permanentes, elas podem ser um passo em direção a uma sociedade que serve os interesses não do capital, mas do clima e da classe trabalhadora.

Sobre os autores

é pesquisadora no Instituto de Análise Social Crítica da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim.

Sobre o autor

Ingar Solty é pesquisadora no Instituto de Análise Social Crítica da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim.