Poder em qualquer lugar onde haja povo

30/08/2020

Por
Fred Hampton

Tradução
Gabriel Landi Fazzio

Fred Hampton, militante revolucionário e um dos principais quadros do Partido dos Panteras Negras, nasceu neste dia em 1948. Para celebrar, publicamos seu histórico discurso feito na igreja de Olivet em 1969.

Fred Hampton discursando na convenção dos Panteras Negras em Chicago em 1969.

Poder onde quer que haja povo. Deixem-me dar um exemplo de como ensinar o povo. Basicamente, os modos pelos quais o povo aprende são a participação e a observação. Vocês sabem que muitos de nós andamos por aí zombando de nós mesmos, acreditando que as massas têm PhD, mas isso não é verdade. E mesmo se tivessem, não faria qualquer diferença. Porque algumas coisas precisam ser aprendidas vendo ou participando. E vocês mesmos sabem que há hoje pessoas andando pela sua comunidade que têm todos os tipos de graus de escolaridade e que deveriam estar nesta reunião, mas não estão aqui. Certo? Porque você pode ter tantos graus quanto um termômetro, se não tem nenhuma prática, então não poderá sequer atravessar a rua e mascar chiclete ao mesmo tempo.

Deixe me contar-lhes como Huey P. Newton, o líder e fundador, o homem principal do Partido dos Panteras Negras, lidou com essa situação.

A comunidade tinha um problema, lá na Califórnia. Havia uma intersecção de quatro vias, muitas pessoas estavam sendo mortas, atropeladas por carros, e então o povo veio à tona e enviou suas queixas ao governo. Vocês já passaram por isso. Eu sei que vocês, na comunidade, já. E eles voltaram e os porcos disseram: “Não! Vocês não podem ter nada”. Ah, eles não costumam dizer que vocês não podem ter algo. Hoje em dia eles ficaram um pouco mais cautelosos. É isso que aqueles graus no termômetro irão lhe permitir. Eles lhe dirão: “Tudo bem, lidaremos com isso. Por que vocês não voltam na próxima reunião e perdem algum tempo?”. Eles vão lhe enrolar em digressões fúteis, e você ficará em um ciclo de insanidade, indo e voltando, indo e voltando, indo e voltando, tantas vezes que logo enlouquecerá. Então eles lhe dirão: “Está bem, pretos, o que vocês querem?”. E você se precipitará e dirá: “bom, tanto tempo se passou, nós não sabemos o que queremos”, e sairá da reunião; e eles dirão: “bem, vocês pretos tiveram sua chance, não tiveram?”.

Deixe me contar o que Huey P. Newton fez.

Huey Newton convocou Bobby Seale, o presidente do Partido dos Panteras Negras em âmbito nacional. Bobby Seale pegou sua 9mm, uma pistola. Huey Newton pegou seu rifle, pegou umas placas de “pare” e um martelo. Foi até a intersecção, deu seu rifle para Bobby, que estava com sua 9mm. Ele disse “Segure este rifle. Se qualquer um mexer com a gente, você estoura seu cérebro”. Ele pregou as placas de “pare”.

Não houve mais acidentes, não houve mais problema.

Agora, eles tinham uma outra situação. Isso não é tão bom, vejam, porque são duas pessoas lidando com um problema. Huey Newton e Bobby Seale, não importa o quão durões eles fossem, não podem lidar com o problema. Mas deixe me explicar a vocês quem são os verdadeiros heróis.

Na vez seguinte, havia uma situação semelhante, em outra intersecção de quatro vias. Huey convocou Bobby, pegou sua 9mm, pegou seu rifle e seu martelo e conseguiu mais placas de “pare”. Prendeu as placas, deu o rifle para Bobby e disse a Bobby: “se qualquer um mexer com a gente enquanto estamos prendendo essas placas, proteja o povo e estoure seu cérebro”. O que o povo fez? Observou novamente. Participou naquilo. Da outra vez, havia outra intersecção de quatro vias. Problemas por lá; eles tinham acidentes e mortes. Desta vez, o povo da comunidade pegou seus rifles, seus martelos e suas placas de “pare”.

Agora deixe-me mostrar a vocês como tentaremos fazer no Partido dos Panteras Negras daqui. Acabamos de voltar da zona sul. Fomos até lá. Fomos até lá e entramos em uma discussão com os porcos, ou os porcos entraram em uma discussão com a gente. Um deles disse: “bem, presidente Fred, você supostamente é tão durão, porque não vai em frente e atira alguns destes policiais? Você está sempre falando em pegar suas armas e você tem essa; porque não segue em frente e atira em alguns deles?”.

Eu respondi: “Você acaba de violar uma lei. Na verdade, mesmo que você esteja usando um uniforme, não me faz qualquer diferença. Porque eu não ligo que você tenha nove uniformes e cem distintivos. Quando você pisa fora do campo da legalidade e vai para o campo da ilegalidade, então sinto que você deveria ser preso”. E eu lhe disse: “você fez o que eles chamam, na lei, de flagrante provocado, você tentou me induzir a fazer algo que é errado, você me encorajou, você tentou me incitar a atirar em um porco. E isso não é tranquilo, irmão; você conhece a lei, não?”.

E falei àquele porco: “você tem uma arma, porco?”. Continuei: “você tem que pôr suas mãos contra a parede. Nós estamos lhe dando voz de prisão, enquanto cidadãos”. Este idiota não sabia o que era isso. Eu afirmei: “agora fique tão calmo quanto puder e não faça muitos movimentos bruscos, porque não queremos ter que machucar você”.

E falei com ele como ele sempre falou conosco, disse-lhe: “Bem, estou aqui para lhe proteger. Não se preocupe com nada, estou aqui em seu benefício”. Então falei para outro irmão ir chamar os porcos. Você tem que fazer isso em uma prisão por cidadão. Ele chamou os porcos. Lá vêm os porcos, com suas carabinas e rifles. Eles vêm falando sobre como prenderão o presidente Fred. E eu disse “Não, seus idiotas. Este é o homem que vocês têm que prender. Foi ele que infringiu a lei”. E o que eles fizeram? Arregalaram os olhos e não puderam suportar. Sabem o que fizeram? Eles estavam tão irritados, tão nervosos, que me falaram para ir embora.

E o que aconteceu? Todas aquelas pessoas estavam lá na rua 63. O que elas fizeram? Elas estavam lá por perto, rindo e falando comigo enquanto estava realizando a prisão. Elas me viram enquanto eu discutia e me ouviram enquanto eu discutia. Então, na próxima vez em que o porco estiver na rua 63, por causa do que nosso ministro de Defesa chama de observação e participação, aquele porco poderá ser detido por qualquer um!

Então, o que fizemos? Estávamos por lá educando o povo. Como o educamos? Basicamente, da forma pela qual o povo aprende, pela observação e participação. E é isso que estávamos tentando fazer. É isso que temos que fazer aqui nesta comunidade. E muitas pessoas não compreendem, mas existem três coisas fundamentais que você tem que fazer sempre que tentar ter uma revolução vitoriosa.

Muitas pessoas entendem a palavra revolução de maneira confusa e pensam que revolução é uma palavra ruim. Revolução não é nada mais do que, por exemplo, ter uma ferida em seu corpo e passar algo para curar a infecção. E eu estou dizendo a vocês que vivemos em uma sociedade infectada, agora mesmo. Estou dizendo a vocês que vivemos em uma sociedade doente. E qualquer um que defenda se integrar a esta sociedade doente antes dela ser desinfetada é um homem que está cometendo um crime contra o povo.

Se você passa por uma sala de hospital e vê uma placa que diz “contaminado” e tenta levar as pessoas para aquela sala, então estas pessoas são bem burras, vocês me entendem; porque, se não fossem, lhe diriam que você é um líder injusto e desonesto que não pensa nos interesses de seus seguidores. E o que estamos dizendo é simplesmente que temos que tornar os líderes responsáveis pelo que fazem. Eles andam por aí falando que fulano é um Pai Tomás, então abriremos um centro cultural e para ensiná-lo o que é negritude. E estes pretos acham que estão mais conscientes do que você e eu, e Malcolm e Martin Luther King, e todo mundo junto. Com certeza. Eles são os mais conscientes, são os que inaugurarão o centro. Irão lhe dizer de onde da África vieram os ossos, lugares cujos nomes vocês não conseguem nem pronunciar. É isso. Eles lhe falarão sobre Chaka, o líder dos batus que combatem pela liberdade, e sobre Jomo Kenyatta, esses dingo-dingas. Vão desandar a falar tudo isso para vocês. Eles sabem disso tudo. Mas o ponto é que fazem o que estão fazendo porque é benéfico e lucrativo a eles.

Vejam só, as pessoas se envolvem em várias coisas que são lucrativas para elas, e temos que torná-las menos lucrativas. Temos que tornar essas coisas menos benéficas. Estou dizendo que qualquer programa que é trazido para nossa comunidade deve ser analisado pelo povo daquela comunidade. Deve ser analisado para ver se atende às necessidades relevantes daquela comunidade. Não precisamos de pretos vindo à nossa comunidade trazer suas companhias, abrindo negócios para os pretos. Existem muitos pretos em nossa comunidade que não conseguem tirar sequer migalhas dos negócios que eles vão abrir.

Temos que encarar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem ao que vocês chamam de classes inferiores; e, quando eu falo das massas, estou falando das massas brancas, estou falando das massas negras e das massas marrons e das amarelas também. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que se combate o fogo melhor com o próprio fogo, mas nós dizemos que se combate melhor o fogo com água. Dizemos que não se combate racismo com racismo. Combateremos o racismo com solidariedade. Dizemos que não se combate o capitalismo com nenhum capitalismo negro; o capitalismo se combate com o socialismo.

Não vamos lutar contra os porcos reacionários que vêm e vão pelas ruas sendo nós mesmos reacionários; vamos organizar e nos dedicar ao poder político revolucionário e ensinar a nós mesmos as necessidades específicas de resistência à estrutura de poder, nos armar e combater os reacionários com a revolução proletária internacional. É assim que tem que ser. O povo tem que ter o poder: ele pertence ao povo.

Temos que entender com bastante clareza que existe um homem em nossa comunidade chamado capitalista. Algumas vezes ele é negro e algumas vezes é branco. Mas este homem tem que ser expulso de nossa comunidade, porque qualquer um que vem para a comunidade lucrar sobre o povo, explorando-o, pode ser definido como capitalista. E não ligamos para quantos programas eles tenham, para o quão longa a sua dashiki seja. Porque o poder político não nasce das mangas de um dashiki; o poder político flui do cano de uma arma. Ele flui do cano de uma arma!

Muitos de nós que andamos por aí falando de política nem sequer sabemos o que é política. Você já viu algo que puxou e levou o mais longe possível, tanto que essa coisa quase se esticou toda e se tornou outra? Se você puxar bastante essa coisa, ela se torna duas? Na verdade, algumas coisas, se você as esticar demais, vão se tornar outras coisas. Você já cozinhou algo tanto tempo que se transformou em outra coisa? Não é verdade?

É sobre isso que estamos falando quando falamos em política.

Que a política não é nada, mas se você esticá-la tanto que ela não pode ir além, então sabe o que tem em suas mãos? Tem uma contradição antagônica. E quando você leva essa contradição ao mais alto nível e a tensiona ao máximo possível, tem o que se chama de guerra. A política é guerra sem derramamento de sangue, e a guerra é política com derramamento de sangue. Se você não entende isso, mesmo que seja um democrata, um republicano, um independente ou qualquer coisa que quiser, na verdade, você não é nada.

Não queremos nenhum destes pretos, nem qualquer um desses alemães ou quem quer que seja, radicais ou não, ninguém falando: “Sou um candidato independente”. Isso significa que você se vende aos republicanos. Independente significa que você está disposto a ser aliciado e irá se vender para quem pagar mais. Entendem?

Queremos pessoas que queiram disputar pelo Partido do Povo, porque o povo irá comandá-lo, quer eles gostem ou não. O povo provou que pode comandar. O povo o fez na China, e o fará aqui. Podem chamar isso do que quiserem, podem falar o que quiserem disso. Eles podem chamar de comunismo, e pensar que isso vai assustar alguém, mas não vai assustar ninguém.

Tivemos a mesma coisa acontecendo na rota 37. Eles vieram para a rota 37, onde fica nosso programa de café da manhã para crianças, e começaram a abordar aquelas mulheres que eram um pouco mais velhas, por volta dos 58 anos – sabem, eu digo mais velhas porque eu sou jovem. Eu não tenho mais 20 anos, é verdade, é verdade. Mas vejam, eles irão abordá-las e fazer lavagem cerebral nelas. E vocês não viram nada até verem uma dessas lindas irmãs, com seus cabelos meio começando a ficar cinzas, e elas não têm muitos dentes, mas estavam estraçalhando esses policiais! Estavam os estraçalhando! Os porcos chegavam nelas e falavam: “Você gosta de comunismo?”.

Os porcos iam até elas e falavam “Você tem medo do comunismo?”. E as irmãs falavam “Não tenho medo, eu nunca ouvi falar nisso”.

“Você gosta de socialismo?”

“Não tenho medo. Nunca ouvi falar disso.”

Os porcos estavam em choque, porque eles gostavam de ver estas pessoas assustadas com essas palavras.

“Você gosta do capitalismo?”

“Sim, bem, é algo com que eu vivo. Eu gosto.”

“Você gosta do programa café da manhã para as crianças, crioula?”

“Sim, eu gosto.”

E os porcos dizem: “oh-oh”. Os porcos dizem: “bom, o programa café da manhã para crianças é um programa socialista. É um programa comunista”.

E a mulher disse: “Bem, vou lhe falar uma coisa, garoto. Eu conheço você desde que você era da altura do joelho de um gafanhoto, preto. E eu não sei se gosto de comunismo e não sei se gosto de socialismo. Mas sei que o programa café da manhã para as crianças alimenta meus filhos, preto. E se você puser suas mãos no programa café da manhã para as crianças, vou sair daqui e chutar sua bunda como um…”

É isso que elas estavam falando. É o que estavam falando e isso é uma coisa linda. E é isso que o programa café da manhã para as crianças é. Muitas pessoas pensam que é caridade, mas o que ele faz? Leva o povo de um estágio para um outro. Qualquer programa que seja revolucionário é um programa que faz avançar. Revolução é mudança. Queridos, se vocês simplesmente continuarem mudando, antes mesmo que percebam – e, de fato, mesmo sem saber o que é socialismo; você não precisa saber o que isso é –, defenderão, participarão e apoiarão o socialismo.

E muitas pessoas lhes dirão, bem, o povo não tem nenhuma teoria, eles precisam de alguma teoria. Precisam de alguma teoria mesmo se não têm qualquer prática. E o Partido dos Panteras Negras lhe diz que se um homem disser ser o tipo de homem que faz que você comprar chocolates e comer a embalagem, jogando fora o chocolate, então ele faria com que você andasse para o leste quando você deveria andar para o oeste. É verdade. Se você ouvisse aquilo que o porco diz, vocês estariam lá fora no sol radiante com um guarda-chuva sobre sua cabeça. E quando estivesse chovendo, vocês sairiam de casa e deixariam seu guarda-chuva lá dentro. É isso mesmo. Vocês têm que juntar as peças. Estou dizendo que é isso que eles fazem que vocês façam.

Agora, o que NÓS fazemos? Dizemos que o programa café da manhã para as crianças é um programa socialista. Ensina ao povo basicamente isso, pela prática; é assim que nos concebemos, e deixamos as pessoas praticarem esta teoria e investigarem esta teoria. O que é mais importante? Você aprende algo da mesma forma que qualquer um.

Deixe-me tentar esmiuçar para vocês.

Vocês dizem que este irmão aqui vai para a escola por oito anos para ser um mecânico de automóveis. E aquele professor, que costumava ser um mecânico de automóveis, diz a ele: “bom, preto, você tem que passar pelo que chamamos de treinamento profissional”. E ele diz: “Maldição, com toda essa teoria que eu tenho, tenho que ir para o treinamento profissional? Para quê?”.

Ele disse: “no treinamento profissional, ele trabalha comigo. Estive aqui por vinte anos. Quando comecei a trabalhar, eles nem tinham mecânicos de automóveis. Eu não tenho nenhuma teoria, apenas tenho um monte de prática”.

O que aconteceu? Um carro chegou fazendo muito barulho, um barulho esquisito. Este irmão foi pegar seu livro. Ele está na página um, ele não chegou na página duzentos. Eu estou sentado ouvindo o carro. Ele pergunta: “o que você acha que é?”.

Eu digo: “Acho que é o carburador”.

Ele responde: “Não, eu não vejo em nenhum lugar daqui que diga que um carburador faz um barulho como esse”. E completa: “Como você sabe que é o carburador?”.

Eu disse: “Bem, preto, cerca de vinte anos atrás, dezenove para ser exato, eu ouvi o mesmo tipo de barulho. E o que fiz foi desmontar o regulador de voltagem e não vinha de lá. Então desmontei o alternador, e não era isso. Desmontei as escovas do gerador, e não era isso também. Depois que desmontei tudo, finalmente peguei o carburador e, quando cheguei nele, descobri que era aquilo. E eu disse a mim mesmo que ‘besta, da próxima vez que você ouvir este som é melhor desmontar primeiro o carburador’’’.

Como ele aprendeu? Ele aprendeu pela prática.

Eu não me importo com quanta teoria você tem: se essa teoria não tem nenhuma prática aplicada a ela, então acaba sendo irrelevante. Certo? Qualquer teoria que você tem, pratique-a. E quando você a praticar, você cometerá alguns erros. Quando você cometer um erro, corrigirá essa teoria e, então, será a teoria corrigida que será capaz de ser aplicada e usada em qualquer situação. É disso que temos que ser capazes.

Toda vez que falo em uma igreja, sempre tento dizer algo, sabe, sobre Martin Luther King. Eu respeito muito Martin Luther King. Penso que ele foi um dos maiores oradores que o país já produziu. E ouço qualquer um que fala bem, porque gosto de ouvir isso. Martin Luther King disse que pode parecer escuro às vezes, e pode parecer escuro aqui na zona norte. Talvez você pensasse que a sala fosse estar lotada de pessoas, e talvez tivesse pensado que tivesse que pedir para algumas pessoas se retirarem e, ao final, pode ser que não haja tantas pessoas. Talvez algumas das pessoas que vocês pensam que deveriam estar aqui não estejam, e você pensa que, bem, se elas não estão aqui, então não será tão bom como pensamos que poderia ser. E talvez vocês pensassem que precisavam de mais pessoas do que as que temos aqui. Talvez pensem que os porcos serão capazes de pressionar vocês, e colocar pressão suficiente para esmagar seu movimento antes mesmo de ele começar. Mas Martin Luther King disse que ouviu em algum lugar que apenas quando está escuro o suficiente você pode ver as estrelas. E não estamos preocupados com estar escuro. Ele disse que o braço do universo moral é longo, mas que ele se dobra em direção ao céu.

Temos Huey P. Newton na cadeia e Eldridge Cleaver na clandestinidade. E Alprentice Bunchy Carter foi assassinado; Bobby Hutton e John Huggins foram assassinados. E muitas pessoas pensam que o Partido dos Panteras Negras, em certo sentido, está desistindo. Mas vamos dizer isso: que nós nos comprometemos com o povo de um modo com que dificilmente alguém já tenha se comprometido.

Nós tomamos essa decisão, ainda que alguns de nós venham do que alguns de vocês chamariam de famílias pequeno-burguesas; ainda que alguns de nós pudéssemos estar, em algum sentido, naquilo que vocês chamam de “topo da montanha”. Nós poderíamos estar integrados à sociedade trabalhando com pessoas com as quais nós podemos nunca ter a chance de trabalhar. Talvez pudéssemos estar no topo da montanha e talvez não tivéssemos que ficar nos escondendo quando vamos falar em locais como esse. Talvez não tivéssemos que nos preocupar com tribunais, ir parar na cadeia e ficar doentes. Nós dizemos que, mesmo que todos estes luxos existam no topo da montanha, nós compreendemos que vocês e seus problemas estão bem aqui, no vale.

Nós, no Partido dos Panteras Negras, por nossa dedicação e entendimento, fomos até o vale sabendo que o povo está no vale; sabendo que o nosso drama é o mesmo drama do povo no vale; sabendo que nossos inimigos estão na montanha, que nossos amigos estão no vale e que, mesmo que seja legal estar no topo da montanha, nós estamos de volta para o vale. Porque nós entendemos que existe trabalho a ser feito no vale, e quando levarmos a cabo este trabalho no vale, então teremos que ir para o topo da montanha. E estaremos indo para o topo da montanha porque tem um filho da puta no topo de montanha que está brincando de rei, e ele nos está sacaneando. E nós temos que subir ao topo da montanha não para viver seu estilo de vida e viver como ele vive. Temos que subir ao topo da montanha para fazer esse filho da puta entender, desgraça, que estamos vindo do vale!


Esse texto foi extraído do livro Raça, classe e revolução – A luta pelo poder popular nos Estados Unidos.

Sobre os autores

foi um ativista e revolucionário, presidente da filial de Illinois e vice-presidente nacional do Partido dos Panteras Negras. Hampton e Mark Clark foram assassinados durante uma emboscada feita por uma unidade tática da Procuradoria do Estado do Condado de Cook, em conjunto com o Departamento de Polícia de Chicago e o Gabinete Federal de Investigação em dezembro de 1969.

Sobre o autor

Fred Hampton foi um ativista e revolucionário, presidente da filial de Illinois e vice-presidente nacional do Partido dos Panteras Negras. Hampton e Mark Clark foram assassinados durante uma emboscada feita por uma unidade tática da Procuradoria do Estado do Condado de Cook, em conjunto com o Departamento de Polícia de Chicago e o Gabinete Federal de Investigação em dezembro de 1969.