Erich Fromm e a revolução da esperança

04/09/2020

Por
Kieran Durkin

Tradução
Mauro Costa Assis

O pensador socialista alemão Erich Fromm desenvolveu uma poderosa crítica da cultura autoritária em resposta à ascensão do nazismo. A esquerda de hoje tem muito a aprender com essa crítica e com seu otimismo político diante de tempos sombrios.

Erich Fromm em 1974. Foto: Wikimedia Commons / Müller-May / Rainer Funk

O pensador socialista alemão Erich Fromm é uma figura injustamente negligenciada, principalmente quando comparado com seus antigos colegas da Escola de Frankfurt, como Max Horkheimer e Theodor Adorno. Em muitos aspectos, a análise de Fromm sobre a cultura autoritária oferece uma alternativa mais fundamentada em relação às influentes teorias de Horkheimer e Adorno. Também revela um engajamento nitidamente mais otimista e esperançoso com a questão da transformação social radical.

As pesquisas acadêmicas sobre a Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica minimizaram as contribuições de Fromm, dando continuidade a uma tendência inaugurada pelo próprio Max Horkheimer após a saída de Fromm do Instituto de Frankfurt, em 1939. Isso nos deixou com uma imagem bastante unilateral da teoria crítica da Escola de Frankfurt, carente de uma descrição séria do pensamento de Fromm e sua crítica influente do autoritarismo.

A trajetória de Fromm nos mostra que uma crítica à cultura autoritária – uma crítica capaz de identificar as fortes tendências para a passividade e o reacionarismo na população em geral – pode manter seu impulso central, lado a lado com um pouco do otimismo da crítica marxista original do capitalismo, e sua orientação para a ação política no aqui e agora.

Primeiros anos

Fromm nasceu em 1900, em uma família judia ortodoxa de classe média em Frankfurt. Seu plano inicial ao deixar a escola era se tornar um estudioso do Talmude; em vez disso, seu pai o persuadiu a estudar direito na Universidade de Frankfurt, onde ele ficou menos de um ano antes de se transferir para a Universidade Ruprecht Karl de Heidelberg para estudar nationalökonomie (economia nacional).

Em Heidelberg, sob a tutela de Alfred Weber (irmão de Max Weber), Karl Jaspers, Hans Driesch e Heinz Rickert, Fromm frequentou aulas de História da Filosofia e Psicologia, Movimentos Sociais e Políticos e Teoria do Marxismo. Durante este período, Fromm continuou seus estudos do Talmude lado a lado com seu trabalho acadêmico – sob grande influência do socialismo romântico de seu professor de Talmude, Salman Rabinkov

Como Max Horkheimer, Fromm evitou o envolvimento direto na política socialista durante esses primeiros anos. Ele não era membro do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) nem do Partido Comunista Alemão (KPD). O envolvimento mais forte de Fromm nessa época continuou sendo com seus estudos judaicos.

Ele ajudou a fundar um influente Instituto de Ensino Judaico (Freies Jüdisches Lehrhaus), no qual lecionou junto com personalidades como Franz Rosenzweig, Martin Buber, Gershom Scholem, Leo Baeck e Siegfried Kracauer. Em Heidelberg, juntamente de sua futura esposa, Frieda Fromm-Reichmann, ele também estabeleceu um sanatório voltado a um tratamento especificamente psicanalítico de pacientes judeus.

O interesse de Fromm pelo marxismo cresceu a partir de meados da década de 1920 – no período que Karl Korsch classificou de “crise do marxismo” – durante o qual estudou no Instituto Psicanalítico de Berlim. Fromm, que a essa altura já havia renunciado ao judaísmo, fazia parte de um grupo de jovens pensadores socialistas dissidentes, incluindo Wilhelm Reich e Otto Fenichel, que estavam preocupados em aplicar as idéias da psicanálise às questões sociais.

Esse grupo, como muitos outros na Alemanha da época, queria entender por que o socialismo até então não havia se materializado no país, embora tivesse uma grande classe trabalhadora e um movimento operário altamente organizado. Influenciados pela crítica ao “marxismo mecanicista”, inaugurada por Georg Lukács e Karl Korsch, eles tentaram identificar o que poderia ser chamado de barreiras “subjetivas” ao socialismo. Eles acreditavam que a psicanálise poderia desempenhar um papel particularmente importante para trazer à luz essas barreiras.

Ingressando na Escola de Frankfurt

Durante esse período, Fromm conheceu Max Horkheimer, que também estava interessado no potencial da psicanálise em dar sentido às falhas do socialismo. Horkheimer nessa época era afiliado ao famoso Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, fundado em 1923 por Felix Weil, filho de um rico empresário e ex-aluno de Karl Korsch.

Embora o Instituto inicialmente se parecesse com um centro marxista ortodoxo de estudos do trabalho, depois que Horkheimer se tornou seu diretor em 1930, seu foco mudou para a mistura interdisciplinar da filosofia com as ciências sociais empíricas e, particularmente, a mistura de preocupações sociológicas e psicanalíticas. Instigado por Horkheimer, Fromm recebeu um convite para ingressar no instituto, onde ele e Horkheimer seriam a força intelectual central nesses primeiros anos, sendo pioneiros na fusão da psicanálise com o marxismo muito antes de Theodor Adorno entrar em cena.

No instituto, Fromm se encarregou de um estudo empírico inovador sobre trabalhadores alemães, tanto manuais quanto de colarinho branco. A partir de um questionário detalhado distribuído a cerca de 3.300 trabalhadores, o estudo buscou analisar a relação entre a constituição psicológica dos trabalhadores e suas opiniões políticas. Como o questionário revelou, a maioria dos entrevistados se identificava com os slogans de esquerda de seu partido, mas seu radicalismo era consideravelmente mais fraco quando se tratava de questões mais sutis e aparentemente apolíticas.

Fromm concluiu que cerca de 10% dos participantes eram “autoritários”, cerca de 15% eram “democráticos / humanistas” e os 75% restantes estavam em algum lugar entre esses dois polos. Ele previu que os autoritários apoiariam um futuro movimento político fascista, enquanto os democratas / humanistas se levantariam e o enfrentariam. O problema era que o segmento democrático / humanista poderia não ser forte o suficiente para derrotar os 10% autoritários se aqueles no meio estivessem psicologicamente despreparados para resistir aos autoritários.

Embora o estudo em si não tenha sido publicado até a década de 1980, sob o título The Working Class in Weimar Germany (“A Classe Trabalhadora na Alemanha de Weimar”) – em parte devido ao colapso subsequente no relacionamento de Fromm com Horkheimer – ele claramente lançava uma luz considerável sobre o que aconteceria sob o regime nazista. Foi também um raro exemplo de pesquisa empírica sobre as vidas e atitudes da classe trabalhadora dentro da tradição da Escola de Frankfurt.

Fromm continuou representando uma parte importante do trabalho do instituto durante a maior parte da década de 1930. Ele foi o grande responsável pela transferência do instituto para os Estados Unidos em resposta à tomada do poder pelos nazistas, fazendo contato pessoal com acadêmicos da Universidade de Columbia, onde o instituto acabou se estabelecendo. Ele também foi fundamental para a pesquisa contínua do instituto sobre autoritarismo e desempenhou um papel central no Studien über Autorität und Familie (Estudos sobre Autoridade e Família) de 1936 – um relatório preliminar de mil páginas que ajudou a pavimentar o caminho para o o trabalho mais famoso do instituto, The Authoritarian Personality (“Estudos Sobre a Personalidade Autoritária“).

No entanto, a revisão de Fromm de Sigmund Freud durante este período começou a aliená-lo de Horkheimer. Fromm argumentava que o problema principal da psicologia era como os indivíduos se relacionam uns com os outros e com a sociedade ao seu redor – e não uma questão de estágios libidinais predeterminados (anal, oral, genital etc.), como seria o caso na teoria de Freud. A crescente relação intelectual entre Horkheimer e Adorno contribuiu ainda mais para esse sentimento de alienação. Fromm acabou deixando o instituto no final de 1939.

Medo da liberdade

Pouco depois de sua saída do instituto, Fromm apareceu no cenário intelectual dos Estados Unidos com sua obra Escape from Freedom (“O Medo à Liberdade”, de 1941). O tema central do livro era como a Europa sacrificou seu progresso ao longo dos séculos em direção a formas cada vez maiores de liberdade política – e até mesmo em direção ao socialismo – por meio de sua capitulação ao fascismo. Fromm queria explicar como o nazismo havia se consolidado na Alemanha e por que tantas pessoas apoiaram Adolf Hitler.

Ele apresentou a noção de um caráter “sadomasoquista” ou “autoritário”, que combinava desejos de submissão e dominação para fornecer a base humana para um governo autoritário. Fromm queria transcender as explicações simplistas do nazismo que o descreviam como um fenômeno exclusivamente político ou econômico, sem recorrer a teorias puramente psicológicas (que sugerem que Hitler seria louco, e seus seguidores igualmente). Ele procurou entender o nazismo como um problema tanto do ponto de vista psicológico e quanto socioeconômico.

Como a maioria das análises marxistas da época, Fromm manteve o foco no papel das classes médias baixas, argumentando que certas mudanças socioeconômicas e políticas deixaram nelas uma marca psicológica profunda, removendo os suportes e mecanismos tradicionais da sua autoestima. Essas mudanças incluíram o declínio do status dessa classe em face do capitalismo monopolista e da hiperinflação, bem como a derrota que a Alemanha sofreu na Primeira Guerra Mundial.

Fromm identificou profundos sentimentos de ansiedade e impotência sobre os quais Hitler foi capaz de capitalizar. Sua mensagem sadomasoquista de amor aos fortes e ódio aos fracos – para não mencionar um programa racial que elevava os “verdadeiros” alemães ao topo da escada evolucionária – forneceu um meio de escapar dos intoleráveis ​​fardos psicológicos experimentados em massa.

O Medo à Liberdade não era apenas uma mera análise do nazismo. No cerne de sua tese estava a noção de que o capitalismo – especialmente em sua fase monopolística – promove “o desenvolvimento de uma personalidade que se sente impotente e solitária, ansiosa e insegura”, e que, portanto, sofre a tentação de entregar sua liberdade a líderes poderosos.

A análise de Fromm falava explicitamente das condições para o fascismo que existiam nos Estados Unidos: os efeitos da Grande Depressão, a existência de formas cada vez mais mecanizadas de trabalho nas fábricas, a predominância de propaganda política e de formas hipnóticas de publicidade, interagindo com uma suposta tendência psicológica na direção da “conformidade de autômato” por parte de uma porcentagem significativa da população.

A orientação mercantil

Fromm voltou ao tema da conformidade social quatorze anos depois em The Sane Society (“A Sociedade Sã”, de 1955 – publicado no Brasil como “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”), que identificou uma “patologia da normalidade”, amplamente disseminada e socialmente padronizada, que governava as sociedades capitalistas avançadas. O livro se engajava em uma ampla crítica da sociedade estadunidense de meados do século XX, que para Fromm era essencialmente uma forma burocrática de capitalismo de consumo de massa.

Como parte dessa crítica, Fromm utilizou a noção de “orientação mercantil” para descrever o que ele enxergava como o tipo de personalidade dominante na sociedade estadunidense. Essa noção era claramente uma refração sócio-psicológica da noção marxista de alienação, com a ideia de que os humanos foram alienados de si mesmos e de seus próprios poderes e capacidades. Para Fromm, a “orientação mercantil” denotava um modo de existência no qual as pessoas viam a si mesmas e aos outros como mercadorias – literalmente como algo a ser comercializado.

O Psicanálise da Sociedade Contemporânea de fato mostrava certa afinidade com a ênfase dos outros teóricos da Escola de Frankfurt na integração da classe trabalhadora na sociedade capitalista. No entanto, havia um sentido maior no trabalho de Fromm sobre as possibilidades de mudança, mesmo que ele não identificasse um agente social específico que seria responsável por tal mudança. Fromm dedicou um espaço considerável a alternativas práticas, incluindo uma extensa análise das práticas de trabalho comunitário, como a fábrica de caixas de relógio de Marcel Barbu em Boimandau.

O livro também se destacava por suas críticas a aspectos do projeto marxista, especialmente no que diz respeito ao conceito tradicional de revolução. Fromm acreditava que havia um profundo erro psicológico na famosa declaração que conclui o Manifesto Comunista, sugerindo que os trabalhadores “nada tinham a perder, exceto suas correntes”. Além de suas correntes, os trabalhadores também tinham algo mais a perder: todas as necessidades e satisfações irracionais que se desenvolveram enquanto eles usavam aquelas correntes.

Fromm argumentou que precisamos de um conceito expandido de revolução: em termos não apenas de barreiras externas, mas também de barreiras internas e subjetivas. Tal conceito abordaria as raízes das paixões sadomasoquistas, como o sexismo, racismo, nacionalismo e outras deformidades de caráter individual e social que não necessariamente desapareceriam rapidamente no contexto de uma nova sociedade.

Capitalismo e o amor

Fromm continuou sua análise das barreiras subjetivas para um verdadeiro socialismo humanista em The Art of Loving (“A Arte de Amar”, 1956), talvez sua obra mais conhecida. Ele foi inflexível quanto à existência de uma incompatibilidade profunda entre “o princípio subjacente à sociedade capitalista e o princípio do amor”.

A crítica do amor – que, para Fromm, não é um fenômeno restrito às suas manifestações românticas – era, portanto, também uma crítica ao capitalismo e às maneiras como ele obstrui formas genuínas de amor que se realizariam em uma sociedade mais humana. Fromm exigia que analisássemos as condições para a possibilidade de realização do amor e da integridade na sociedade atual e procurássemos fortalecê-las.

Durante a década de 1950, Fromm ingressou no American Socialist Party – Social Democratic Federation (SP-SDF) e procurou influenciar o programa do partido. O documento resultante, publicado como Let Man Prevail (“Que a Humanidade Sobreviva”, de 1958), expôs a forma distinta do marxismo de Fromm, que ele chamou de “humanismo radical”. O texto estava cheio de críticas à URSS como uma forma de “socialismo vulgarizado e distorcido”.

O que Fromm oferecia em seu lugar era uma forma democrática e humanista de socialismo que colocava o ser humano no centro. Ele terminava com um conjunto de objetivos de curto e médio prazo, incluindo propostas para aumentar a participação popular nas esferas econômica, social, educacional e política. No exato momento em que Horkheimer e Adorno se distanciavam cada vez mais da política organizada, à sombra de Auschwitz, nesse momento Fromm, o mais judeu de todos os pensadores da Escola de Frankfurt, caminhava para essa direção.

Ele continuou nesse caminho durante a década de 1960. May Man Prevail? (“A Sobrevivência da Humanidade”, 1960) era uma análise do comunismo soviético com a intenção de influenciar um movimento pelo desarmamento unilateral durante a Guerra Fria. A extensa crítica de Fromm ao stalinismo e ao kruchevismo pós-stalinista também enfatizava as semelhanças administrativas e burocráticas entre os sistemas soviético e americano. Seu texto referia-se com aprovação às revoluções anticoloniais na Ásia, África e América Latina, e havia algumas palavras duras dirigidas à hipocrisia ocidental.

Um retorno a Marx

Em Marx’s Concept of Man (“Conceito Marxista do Homem”, 1961), Fromm retornou a Marx. O livro continha a primeira tradução completa para o inglês dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Marx, de 1844, que se tornou um ponto de referência para o humanismo marxista, precedido por alguns ensaios curtos sobre Marx e sua filosofia. Fromm procurava restaurar o marxismo à sua forma original como “um novo humanismo”, livre das distorções do comunismo soviético e chinês.

O Conceito Marxista do Homem ajudou a popularizar Marx nos Estados Unidos e desafiou algumas visões mal compreendidas de seu pensamento que predominavam no mundo de língua inglesa na época. O livro também tinha seus problemas. Em uma carta à marxista russo-americana Raya Dunayevskaya, o próprio Fromm admitiu que seu relato sobre Marx era “abstrato demais”. Ao mesmo tempo, é notável que o engajamento de Fromm se concentrou na obra de Marx como um todo. Fromm rejeitava a ideia de uma ruptura brusca entre o “jovem Marx” e o “velho Marx”, promovida por figuras como o filósofo marxista francês Louis Althusser.

O renovado engajamento de Fromm com Marx continuou com a publicação de Beyond the Chains of Illusion (“Meu Encontro com Marx e Freud”) em 1962. Nesta obra, Fromm desenvolveu ainda mais sua teoria social-psicológica freudiana-marxista sobre o caráter social, incluindo uma tentativa de fundamentar a teoria marxista da ideologia que elogiava as sacadas psicológicas na obra de Marx, não muito reconhecidas. Fromm elogiou Marx explicitamente como um pensador de “profundidade e escopo muito maiores do que Freud”, sublinhando a centralidade de Marx para o seu próprio projeto.

Fromm também desempenhou um papel importante na publicação de Socialist Humanism: An International Symposium (“Humanismo Socialista: Um Simpósio Internacional“, de 1965). Trabalhando com Raya Dunayevskaya e o marxista polonês Adam Schaff, ele reuniu uma coleção global de marxistas e socialistas humanistas, vindos em grande parte da Europa Oriental (muitos deles da escola iugoslava do Grupo Praxis), mas também da África e da Índia. Os colaboradores incluíam Herbert Marcuse, Karel Kosík, Gajo Petrović, Mihailo Marković, Léopold Senghor, Ernst Bloch e Maximilien Rubel, bem como os próprios Dunayevskaya e Schaff.

Lidando com a política

Fromm permaneceu uma figura proeminente na esquerda dos EUA nos anos que se seguiram, apesar de morar principalmente no México. Ao contrário de Horkheimer e Adorno, que se recusaram a criticar a Guerra do Vietnã, Fromm vocalizou a sua postura anti-guerra. Ele discursou em muitos campi universitários e até escreveu discursos para o senador Eugene McCarthy, em seu desafio anti-guerra contra o Lyndon Johnson nas primárias democratas de 1967-68.

Nessa qualidade, Fromm redigiu um longo Memo on Political Alternatives” (“Memorando sobre Alternativas Politicas“) identificando uma série de movimentos democráticos e populares, essencialmente semelhantes aos delineados em Psicanálise da Sociedade Contemporânea, que poderiam constituir a base para um movimento popular de massas. O memorando apareceu impresso como “A Revolução da Esperança” (1968), após o fracasso da candidatura presidencial de McCarthy.

Fromm defendeu-se firmemente contra os críticos que o acusavam de reformismo social-democrata, incluindo seu velho amigo Herbert Marcuse. Referindo-se à aparente desesperança no relato de Marcuse sobre a teoria crítica em seu livro de 1964, O Homem Unidimensional, Fromm sugeriu que “se não estiver preocupada com os passos entre o presente e o futuro, a pessoa não lida com política, seja ela radical ou não.”

A partir do final de 1960, após uma série de ataques cardíacos, o engajamento político de Fromm diminuiu e suas energias se voltaram mais para as preocupações acadêmicas. Mesmo assim, ele não cortou suas conexões com causas de esquerda. Seu livro de 1973, The Anatomy of Human Destructiveness (“Anatomia da Destrutividade Humana”), se envolvia com as discussões acadêmicas contemporâneas sobre a natureza humana, desafiando a visão dessa natureza como inatamente agressiva e avarenta que viria a fornecer o lastro intelectual para a era neoliberal.

O último dos escritos sociais e políticos de Fromm, To Have or to Be? (“Ter ou Ser”, 1976), apareceu depois que ele deixou o México e voltou para a Europa. Ele retomou a discussão dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de Marx, os integrando com uma crítica da destrutividade ecológica do capitalismo que ajudou a inspirar o movimento verde europeu. Mais uma vez, Fromm trabalhou o texto em torno de seu apelo por reformas econômicas, sociais e políticas práticas, desta vez aproximando-se ainda mais de Marx ao proclamar o que ele via como “o início – e rápido crescimento – do declínio do capitalismo”.

Um pensador para a nossa era

Em um de seus poucos comentários sobre Max Horkheimer e a Escola de Frankfurt, escrito no final de sua vida, Fromm deu uma ideia do que ele considerava ser a natureza da “teoria crítica”:

Pelo que sei, a coisa toda é uma farsa, porque Horkheimer tinha medo […] de falar sobre a teoria de Marx. Ele usava uma língua esopiana generalista e falava em teoria crítica para não falar da teoria de Marx. Acredito que seja isso o que estava por trás dessa descoberta da teoria crítica de Horkheimer e Adorno.

Embora os escritos de Fromm não tenham prestado atenção suficiente às ondas de agitação trabalhista das décadas de 1950, 1960 e 1970, ao contrário de Horkheimer, Fromm não via a ascensão do fascismo como tendo marcado a derrota final do projeto socialista. Em vez disso, a experiência do fascismo estimulou Fromm a se aprofundar em formas de engajamento político de esquerda, caracterizadas por um espírito de esperança e otimismo radicais, e um retorno a Marx que pretendia ajudar a reviver a esquerda em uma base de massas.

Em muitos aspectos, Fromm é o pensador da Escola de Frankfurt mais adequado à época atual. Sua visão estava atenta às inter-relações entre economia, cultura e emoções humanas, e ele evitava as armadilhas da resignação melancólica ou do determinismo esquemático. Ele colocava as tendências regressivas e reacionárias do presente firmemente na no primeiro plano de sua análise, mas também procurava identificar caminhos tangíveis para o progresso.

Em um contexto político que rapidamente se move para um território perigoso, com uma recessão que ameaça ser tão profunda quanto a Grande Depressão, um relato socialista que não dê atenção aos perigos do autoritarismo seria tão irresponsável quanto aquele que o apresente como nosso destino inevitável. É aqui, bem como por meio de seu engajamento com o humanismo de Marx, que Erich Fromm ainda tem muitas lições valiosas a nos oferecer.

Sobre os autores

é professor bolsista na Universidade de York e pesquisador visitante na Universidade da California. É o autor de The Radical Humanism of Erich Fromm ("O Humanismo Radical de Erich Fromm") e co-editor de Erich Fromm’s Critical Theory: Hope, Humanism, and the Future ("A Teoria Crítica de Erich Fromm: Esperança, Humanismo e o Futuro").

Sobre o autor

Kieran Durkin é professor bolsista na Universidade de York e pesquisador visitante na Universidade da California. É o autor de The Radical Humanism of Erich Fromm ("O Humanismo Radical de Erich Fromm") e co-editor de Erich Fromm’s Critical Theory: Hope, Humanism, and the Future ("A Teoria Crítica de Erich Fromm: Esperança, Humanismo e o Futuro").