Judas e o Messias Negro faz justiça à história de Fred Hampton

22/02/2021

Por
Chip Gibbons

Tradução
Felipe W. Martins

A esquerda sempre é queimada por representações genéricas de militantes radicais em Hollywood. Portanto, é uma surpresa bem-vinda quando o cinema mainstream resolve fazer justiça à história dos revolucionários, como no novo filme sobre Fred Hampton e os Panteras Negras.

Daniel Kaluuya como Fred Hampton em Judas and the Black Messiah. (Foto cedida pela Warner Brothers)

Em 4 de dezembro de 1969, a polícia de Chicago invadiu o apartamento de um dos líderes mais ativos e promissores do Partido dos Panteras Negras, Fred Hampton. Equipada com metralhadoras, rifles, espingardas e pistolas, a polícia não só atirou primeiro como também disparou mais de noventa tiros. Os Panteras, de acordo com as conclusões de um grande júri, proferiram no máximo um único disparo. 

O ataque violento tirou a vida de Hampton e Mark Clark. Hampton foi assassinado enquanto dormia, provavelmente drogado pelo informante do FBI, o agente secreto William O’Neal. Depois que a polícia removeu Akua Njeri do local do ataque, noiva grávida de Hampton, a ativista ouviu um policial perguntando se ele ainda estava vivo. Ela respondeu dizendo que dois tiros haviam sido disparados, e então um outro policial falou: “Ele está bem e morto agora.”

Os assassinatos de Hampton e Clark foram obra direta do departamento de polícia de Chicago e do procurador estadual do Condado de Cook, Edward Hanrahan. Mas uma investigação histórica do Senado sobre a má conduta das agências de inteligência dos EUA e um processo prolongado de homicídio culposo revelou que a operação policial era parte de uma operação secreta de inteligência doméstica do FBI para neutralizar os movimentos políticos que desafiavam “a ordem política e social existente”.

Hampton tinha 21 anos quando foi assassinado. Ele era um orador talentoso com uma oposição visceral à opressão racial e uma visão socialista inabalável. Tenho falado com pessoas que conheceram Hampton ainda em vida, e todos o descrevem como alguém simplesmente incapaz de deixar a injustiça passar sem oposição.

Como resultado, Hampton continua sendo uma figura heróica para muitos da esquerda. Pessoas nascidas décadas após seu assassinato continuam a encontrar inspiração em sua vida. E o assassinato de Hampton pelas mãos do FBI e do departamento de polícia de Chicago continua sendo uma história importante sobre o “limite” que o governo dos Estados Unidos é capaz ir para silenciar os esquerdistas.

Mas embora a história de Hampton possa ser conhecida por alguns setores da esquerda, a maioria dos norte-americanos provavelmente nunca ouviu falar de Hampton ou do programa secreto de contraespionagem do FBI que causou sua morte.

É por isso que é tão importante que o novo filme Judas e o Messias Negro procure contar a história da morte de Hampton pelas mãos do FBI. Com o apoio de um grande estúdio de Hollywood, o filme tem o potencial de levar essa história a um público de massa. Felizmente, o longa consegue fazer jus à história que retrata.

Como combater o fogo

Os Panteras Negras são um dos grupos mais incompreendidos da história dos Estados Unidos. Até hoje, eles são frequentemente demonizados, tendo sua visão de mundo distorcida e silenciada. No filme, o agente do FBI, Roy Mitchell, frequentemente compara o Partido dos Panteras Negras à Ku Klux Klan. Embora tal comparação seja tão abominável quanto absurda, ela reflete como os Panteras ainda são constantemente considerados erroneamente como violentos chauvinistas raciais. E quando os Panteras não são caluniados, muitas vezes são cooptados, sua política radical omitida em favor da apropriação de sua estética.

Qualquer militante de esquerda que vá assistir um filme de Hollywood sobre Fred Hampton o faz com apreensão.

A primeira vez que vemos Fred Hampton (interpretado por Daniel Kaluuya) na tela, ele está fazendo uma de suas citações mais famosas:

⁠Não acreditamos que a melhor forma de combater o fogo seja com fogo; a melhor forma de combater o fogo é com água. Vamos combater o racismo não com racismo, mas com solidariedade. Dizemos que não vamos combater o capitalismo com o capitalismo negro, mas com o socialismo.

Pouco depois, vemos Hampton falando para um grupo de estudantes negros em uma faculdade local. O palestrante apresentando Hampton anuncia que, de acordo com as demandas dos estudantes, a faculdade mudará seu nome para Malcolm X College. Quando Hampton sobe ao palco, ele se empolga com aqueles na platéia que pensam que uma mudança de nome é semelhante a uma verdadeira libertação. O que está acontecendo, afirma Hampton, é um reformismo liberal. A reforma liberal é sobre transformar escravos em “melhores escravos”. O que os Panteras querem é uma revolução. E Hampton deixa os estudantes saberem quem é seu verdadeiro inimigo pelo nome: “o capitalista”.

Em outra cena, vemos Fred Hampton liderando sessões de formação política para novos recrutas. Hampton não fala apenas do socialismo, ele também fala de Mao Tse-tung e do impacto de suas teorias sobre a perspectiva do partido. O informante do FBI, William O’Neal (interpretado por LaKeith Stanfield), ignora a lição porque está mais preocupada em xavecar uma mulher sentada perto dele. Hampton chama ele e lembra dos ensinamentos do partido sobre o respeito às mulheres camaradas. Os homens não devem tomar liberdades com as mulheres e devem reconhecê-las como “irmãs de armas”.

Longe dos chauvinistas raciais, Hampton busca construir uma “Coalizão Arco-Íris” dos Panteras com os Jovens Senhores, uma organização predominantemente porto-riquenha semelhante aos Panteras na ideologia; e os Jovens Patriotas, uma organização de esquerda anticapitalista de autodenominados “caipiras” composta em grande parte por migrantes dos Apalaches para Chicago.

Em uma dramatização tensa do primeiro encontro entre os Panteras e os Patriotas, alguns dos Panteras parecem hesitantes sobre o que poderia esperá-los quando se encontrarem com os Patriotas. Ao se juntarem a uma reunião em andamento, uma gigantesca bandeira confederada imediatamente chama sua atenção. Um orador do palco afirma que a bandeira é apenas para lembrar sua herança sulista. Um membro dos Panteras afirma que a bandeira o lembra do linchamento sofrido por sua família. O orador dos Patriotas afirma: “Meu povo oprimiu seu povo por centenas de anos”, antes que um membro branco da platéia explodisse, alegando que seu povo não oprimia ninguém, já que sua família era meeira.

Antes que a situação explodisse, Hampton intervém. Ele lembra aos participantes brancos que eles estão vivendo em um gueto em condições deploráveis. Hampton pergunta se eles não acham ridículo terem que pagar os salários da polícia que os brutaliza rotineiramente. Em suma, ele reconhece as diferenças e tensões entre eles, mas insiste que suas semelhanças na opressão devem uni-los para lutar contra um inimigo comum.

O foco principal dos Panteras era combater a opressão racial, alcançando a autodeterminação das comunidades negras nos Estados Unidos. Os Panteras foram formados em Oakland como o Partido Pantera Negra para Autodefesa. Com armas na mão, os Panteras seguiam a polícia para garantir que obedecessem à lei. Apesar de ser um movimento contra a opressão do povo negro nos Estados Unidos, os Panteras atuavam através de uma estrutura explicitamente internacionalista e socialista, olhando para os escritos de Frantz Fanon, e consideravam-se operando no mesmo movimento global que a revolução em Cuba e as lutas de libertação nacional na Argélia e Vietnã.

E eles foram claros sobre a fonte da opressão negra: o capitalismo. Os capitalistas negros não resolveriam o problema, apenas o socialismo o faria. Nesta luta, os Panteras estavam dispostos a trabalhar com pessoas pobres e oprimidas de todas as raças e origens para alcançar o objetivo.

Além de algumas observações perdidas, incluindo comentários sobre as conquistas do sistema de saúde cubano, as políticas internacionalistas dos Panteras não são realmente exploradas no filme. Mas o socialismo revolucionário dos Panteras Negras está na frente e no centro – um feito nada pequeno para um grande filme de Hollywood.

Embora o filme se concentre em Hampton, é também, em última análise, sobre os ataques do FBI contra ele. Aqui, também, o filme faz jus à história.

Crucificando um Messias potencial

O título “Judas e o Messias Negro” refere-se a uma carta enviada pela sede do FBI a 41 escritórios de campo do FBI. Em 1956, o FBI iniciou formalmente um programa de contraespionagem (denominado COINTELPRO) contra o Partido Comunista. A contrainteligência tradicionalmente envolve a neutralização de agentes estrangeiros hostis, mas o FBI decidiu que era hora de usar essas técnicas contra movimentos políticos domésticos.

O FBI acreditava que seus poderes anticomunistas lhe permitiam atingir cidadãos e organizações não-comunistas que, em sua avaliação, corriam o risco de serem infiltradas ou influenciadas por comunistas. Foi sob esse raciocínio que o FBI visou, originalmente, o movimento dos direitos civis e muitos de seus líderes mais proeminentes, incluindo Martin Luther King

Mas em 1967, o FBI criou um novo programa COINTELPRO para atingir “Grupos de ódio de nacionalistas negros”. Na mesma época, o FBI também criou uma seção de “investigações de inteligência racial” dentro de sua divisão de inteligência doméstica. Em 4 de março de 1968, o FBI publicou um memorando delineando os objetivos deste novo COINTELPRO, que incluía “Prevenir a ASCENSÃO DE UM MESSIAS que poderia unificar e energizar o movimento nacionalista negro militante.”

Na época em que o memorando foi emitido, os Panteras ainda não estavam na mira do FBI. Os potenciais “messias” em questão eram Martin Luther King, Stokely Carmichael e Elijah Muhammad (o memorando observou que Malcolm X poderia ter sido o temido “messias”, mas em vez disso ele se tornou um “mártir”). Exatamente um mês depois da publicação deste memorando, Martin Luther King foi morto por um assassino.

O próprio Edgar Hoover declararia os Panteras como a “maior ameaça à segurança interna do país”; eles se tornariam rapidamente o principal alvo do programa. Das 295 operações COINTELPRO autorizadas contra os grupos “Nacionalistas Negros”, 233 seriam levadas a cabo contra os Panteras.

A revelação de que Hampton foi morto como resultado de uma série de ações secretas destinadas, em parte, a prevenir a ascensão de um “messias negro” teve um impacto óbvio. Fred Hampton foi um orador carismático e um organizador brilhante. Ele foi capaz não apenas de criticar a opressão racial, mas também de unir uma coalizão multirracial da classe trabalhadora. Muitos se perguntaram se o FBI temia que Hampton fosse aquele “messias”, então eles escolheram assassiná-lo. Judas e o Messias Negro abraça essa visão da história.

Embora o filme evite o didático, ele faz um bom trabalho de representação de algumas táticas comuns do COINTELPRO adotadas pelo FBI. Isso inclui o método “snitchjacketing”, quando os informantes do FBI rotulam falsamente outras pessoas como sabotadoras ou traidoras para semear desconfiança. Sem spoilers, mas, como mostra o filme, isso pode ter consequências letais.

Também é descrito como o FBI redigiu panfletos com ataques a diferentes grupo falsamente afirmando ser dos Panteras, sempre na esperança de desencadear conflitos violentos entre eles. Em outra cena, o filme mostra como os informantes podem agir como agentes provocadores, no intuito de criar um pretexto para uma prisão, uma tática ainda popular no FBI.

No título do filme, “Judas” vem antes do “Messias Negro”. Isso reflete o direcionamento do longa, que não está ancorado em Hampton, mas no informante do FBI, William O’Neal. Esse foco tem suscitado críticas. Embora o filme, felizmente, evite retratos unidimensionais e cartoonísticos, O’Neal é exibido sob uma luz mais simpática do que ele merece.

Em um punhado de cenas, O’Neal é mostrado lutando com o que o FBI o incumbiu de fazer. Como O’Neal falou muito pouco sobre suas experiências, essas cenas são puramente ficcionais. Não temos ideia se O’Neal já se sentiu em conflito com suas atribuições. E alguns dos piores atos de O’Neal como provocador são omitidos do filme: O’Neal realmente construiu uma cadeira elétrica que ele queria que os Panteras usassem em informantes e tentou incitar a violência entre os Panteras e as gangues de Chicago. Ambos os incidentes estão completamente ausentes do filme.

Ainda assim, no balanço geral, o filme captura com sucesso uma história raramente contada enquanto é bem-sucedido nos termos cinematográficos do cinema mainstream.

A visão de Fred Hampton perdura

Mesmo antes da atual onda de programas policiais propagandísticos, o FBI sempre foi impulsionado pela cultura popular. No auge da “segunda ameaça vermelha”, Hollywood produziu filmes como Fui Comunista para o FBI, que celebrizaram a polícia política do país. Embora o FBI tenha sido o beneficiário da cobertura bajuladora da imprensa ao longo de sua história, o oposto exato foi executado contra os Panteras Negras.

Judas e o Messias Negro vem em um momento em que há um ativismo renovado em torno da violência policial, do racismo e das falhas do capitalismo. Os ativistas de hoje se debatem com questões sobre como enfrentar a opressão racial e a exploração de classes. Muitos sofismas têm sido oferecidos sobre este tema, desde afirmações de que fechar os olhos e ignorar as realidades do racismo é o caminho para a unidade de classe até advertências de que a quebra de bancos não acabará com o racismo.

Mas a visão revolucionária de Fred Hampton oferece uma perspectiva de como enfrentar a opressão racial e a exploração capitalista não como problemas separados, mas como parte de uma luta entrelaçada.

Embora seja necessário contar a verdadeira história dos Panteras e do FBI por si só, Judas e o Messias Negro chega em um momento em que as memórias desse passado são de extrema relevância. E, por isso, a esquerda pode encontrar muito o que comemorar no filme.

Sobre os autores

é jornalista, que escreve oara Jacobin e The Nation. Ele também é o consultor político e legislativo para defender direitos e dissidências, as opiniões expressas aqui são suas.

Sobre o autor

Chip Gibbons é jornalista, que escreve oara Jacobin e The Nation. Ele também é o consultor político e legislativo para defender direitos e dissidências, as opiniões expressas aqui são suas.

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