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Polícia confronta manifestantes durante um protesto contra o governo do presidente colombiano Iván Duque em Bogotá em 9 de junho de 2021. (Juan Barreto / AFP via Getty Images)

O governo colombiano está em guerra contra os manifestantes

POR
Tradução
Aline Klein

Após seis semanas de protestos massivos contra o neoliberalismo e a violência estatal na Colômbia, o presidente direitista Iván Duque está contando com a força bruta para permanecer no poder.

Em seis semanas desde o início da greve geral colombiana, os manifestantes conseguiram vitórias significativas ao aguentar o impacto da repressão brutal por parte do Estado e das forças paramilitares. Cinco membros do gabinete do presidente Iván Duque renunciaram ou foram substituídos. Duque retirou sua lei tributária regressiva que gerou os protestos, bem como uma polêmica lei de saúde e uma proposta de pagar bilhões pelos caças da Lockheed Martin em meio à crise econômica e sanitária que a Colômbia enfrenta. Um movimento se consolidou com um foco claro na sabotagem do governo aos acordos de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e no controle contínuo da desigualdade massiva, que se tornou intolerável para grandes segmentos da população.

Duque e seu partido político mostraram sua capacidade ou relutância em responder às demandas dos manifestantes, que refletem a corrupção da Colômbia e as desigualdades neofeudais que foram exacerbadas pela pandemia. Uma terceira onda de coronavírus ceifou mais de 15 mil vidas em maio e manteve as unidades de terapia intensiva com quase 100% da capacidade nas principais cidades da Colômbia. As forças de segurança catalisaram enormes demonstrações de solidariedade com a greve geral por meio de seus ataques ferozes contra manifestantes pacíficos.

Mais de quarenta manifestantes foram sumariamente executados pelo Estado e paramilitares, com a Human Rights Watch recebendo 63 relatos ​​de mortes nos protestos, 2 dos quais eram policiais. Os grupos de direitos humanos Temblores e Indepaz relataram mais de 2.000 casos documentados de brutalidade policial, mais de 1.600 detenções arbitrárias, 25 agressões sexuais confirmadas, 65 lesões oculares e 346 desaparecimentos forçados de manifestantes desde o início da greve geral, com indígenas, negros e comunidades pobres como alvos primários da repressão.

Miguel Ceballos foi o alto comissário de paz e representante do governo em pré-negociações com o Comitê de Greve Nacional até sua renúncia em 22 de maio. Ceballos foi amplamente criticado na comunidade de direitos humanos por minar o processo de paz em nome do governo. O presidente Duque nomeou Juan Camilo Restrepo para substituir Ceballos como comissário de paz. Restrepo era o presidente da Augura, uma associação comercial de produtores de banana quando doou $ 33 milhões de pesos colombianos para a campanha contra os acordos de paz de 2016. Augura é conhecida pelo apoio direto a grupos paramilitares e vários membros do conselho são considerados apoiadores ou participantes diretos das organizações paramilitares que operam em Antioquia.

O governo Duque sabotou repetidamente as pré-negociações de seu governo com o Comitê de Greve que representa os manifestantes, recusando-se a fornecer garantias de direitos fundamentais aos manifestantes enquanto intensifica a repressão militarizada – a continuação de uma longa tradição na Colômbia de responder à mobilização social com o Estado e a repressão paraestatal.

Lucía González, proeminente membro da Comissão da Verdade da Colômbia formada como parte dos acordos de paz entre o governo e as FARC, afirmou sem rodeios no final de maio:

um Estado antireforma, que criminalizou qualquer tentativa de aprofundamento da democracia, qualquer que seja a sua forma, eliminando militantes sindicais, dirigentes dos direitos humanos, estigmatizando mobilizações, criminalizando dirigentes mobilizadores, com o objetivo de garantir o status quo e evitar qualquer tipo de reforma que decorre de suas demandas. É um Estado que protege as elites e privilégios de alguns setores contra os direitos de outros. É um Estado de elite, para a elite.

Cali tem sido o epicentro da violência estatal e paraestatal desde o início da greve geral. Um relatório de 23 de maio divulgado pela organização Justicia y Paz sobre a situação em Cali descreve uma iteração particularmente horrível da análise de González: em 2 de maio, o Centro de Administração Municipal de Cali foi usado como centro de operações clandestinas e manifestantes foram levados para lá e detidos nos porões antes de serem transportados por um caminhão. O relatório descreve valas comuns em dois municípios fora de Cali, a área Mulaló de Yumbo e a área Guacarí de Buga, onde os corpos dos manifestantes desaparecidos teriam sido descarregados por caminhões usados ​​pela polícia.

Os relatórios de Buga descrevem as execuções de jovens manifestantes que foram dados como desaparecidos. Alguns sobreviventes das execuções foram encontrados posteriormente em centros de saúde com ferimentos à bala e agora estão escondidos e enfrentando ameaças de morte.

O relatório também descreve a formação de grupos paramilitares armados sob proteção policial operando no exclusivo distrito de Ciudad Jardín, em Cali. Ciudad Jardín foi palco de ataques armados de moradores abastados do bairro, acompanhados pela polícia, contra manifestantes indígenas desarmados. Durante os ataques de 9 de maio, pelo menos oito manifestantes sofreram ferimentos à bala nas mãos de civis armados.

Existem agora relatos de casas de pique [casas de piquete] em Ciudad Jardín, um termo usado para descrever os centros clandestinos usados ​​pelos grupos paramilitares da região para deter, torturar, matar e frequentemente desmembrar os corpos de suas vítimas. Atualmente, 120 pessoas desapareceram dos protestos em Cali desde 28 de abril.

Alfredo Molano Jimeno relatou no El Espectador em 24 de maio que as brigadas médicas que atendiam aos manifestantes em Cali foram alvos de assassinos profissionais e forças de segurança. Profissionais de saúde disseram que agora estão removendo as marcas de identificação que tradicionalmente usam em zonas de conflito para evitar serem alvejados. Vários profissionais de saúde relataram ter sido informados de que uma recompensa havia sido oferecida pelo assassinato de voluntários de saúde que cuidavam de manifestantes em Cali e descritos como sendo alvos de policiais e civis.

Em 25 de maio, o advogado argentino de direitos humanos Juan Grabois, que chegou à Colômbia com a Comissão Internacional de Solidariedade e Direitos Humanos (CIDH) para monitorar os abusos aos direitos humanos, teve sua entrada negada, foi detido e foi deportado no mesmo dia. Observadores de direitos humanos que já estavam no país foram alvos de policiais e civis armados durante a greve geral. O governo Duque negou ou atrasou os pedidos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para ir à Colômbia monitorar a situação, antes de finalmente capitular na semana passada às pressões de grupos internacionais, incluindo o governo dos Estados Unidos.

A CIDH se reuniu com o governo e grupos civis durante toda a semana e Duque anunciou um projeto de reforma superficial da polícia no dia em que a comissão chegou a Bogotá. Temblores, Indepaz e Paiis apresentaram um relatório devastador à comissão da CIDH detalhando uma longa lista de atrocidades confirmadas apoiadas pelo Estado.

O regime de Duque embarcou em uma estratégia de comunicação multifacetada destinada a estigmatizar protestos amplamente pacíficos como atos de terrorismo interno e a apresentar um quadro de protocolo institucional rigoroso à comunidade internacional. A campanha produziu resultados mistos, graças à ampla circulação de imagens e vídeos que mostram a extensão da brutalidade do Estado. O fracasso de ambas as abordagens não parece ter impedido o governo Duque e seu partido Centro Democrático de dobrar a cabeça na guerra suja que travaram contra os protestos.

Álvaro Uribe, ex-presidente de direita da Colômbia e patrono político de Duque, usou seu Twitter para defender a violência contra os manifestantes e promover uma teoria neonazista de “revolução molecular dissipada”, que argumenta que o protesto é essencialmente um ato de guerra civil e que requer uma resposta militarizada do Estado. Embora o Twitter tenha removido uma postagem de Uribe no início da greve geral por “glorificar a violência“, a rede social permitiu que ele usasse a rede social como seu centro de comando, a partir do qual envia mensagens invocando a linguagem do terrorismo e da contra insurgência para a polícia e grupos paramilitares que continuam a mutilar, torturar, estuprar e matar manifestantes.

Uma pesquisa recente da Invamer mostrou Uribe e Duque com índices de desaprovação de 73% e 76%, respectivamente, destacando a fraqueza de sua postura política antes das eleições gerais do próximo ano, com o líder da oposição de centro-esquerda Gustavo Petro liderando as candidaturas presidenciais por uma margem confortável em todas as pesquisas recentes. O fracasso moral e político do partido Centro Democrático, com seus laços profundos e bem documentado com o narcoparamilitarismo, contrasta fortemente com o movimento liderado por jovens que se fundiu na revolta social mais significativa e generalizada que a Colômbia já viu nos últimos 70 anos.

Em 27 de maio, Duque compareceu ao Wilson Center em Washington, DC, com o ex-embaixador e ex-diretor da USAID, Mark Green, alegando que respeita protestos pacíficos e o Estado de direito e tem tolerância zero para abusos policiais. Ao mesmo tempo, ele não resistiu à repercussão de um vídeo de entrevistas simuladas em inglês publicado dias antes, em que atribuía a culpa de todo o levante e da violência subsequente a Petro e às forças subversivas sombrias que buscavam minar sua presidência.

No dia seguinte, Marta Lucía Ramírez, vice-presidente interina e ministra das Relações Exteriores, se reuniu com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, para continuar a ofensiva. (Ela foi incapaz de garantir uma reunião com o vice-presidente Harris.) Enquanto isso, no bairro de Siloé, em Cali, um investigador fora de serviço do Gabinete do Procurador-Geral matou dois jovens manifestantes em um bloqueio. O atirador foi então capturado e morto por outros manifestantes.

Naquela noite, o grupo de direitos humanos Justapaz enviou uma nota denunciando os atiradores paramilitares à paisana em Siloé, visando os trabalhadores de saúde que prestavam assistência aos 14 manifestantes já feridos pelo tiroteio daquela noite. Naquela noite, Duque apareceu do outro lado da cidade em Ciudad Jardín – o mesmo bairro nobre de Cali que serviu de base de operações para grupos paramilitares que atacavam os manifestantes – onde cumprimentou residentes ricos com abraços e anunciou pela terceira vez em duas semanas sua intenção de implantar a força militar para reconquistar Cali dos manifestantes. Já militarizou oito departamentos do país, basicamente um terço da Colômbia, em resposta aos protestos.

Duque caiu em desgraça com os Estados Unidos logo depois que membros de seu governo se intrometerem nas eleições presidenciais dos EUA em 2020 em nome da pessoa errada. Mas Washington perdoou as transgressões do narcoregime de extrema direita considerados estratégicos para os interesses dos Estados Unidos – e a Casa Branca precisa fortalecer sua posição na Colômbia mais do que nunca, pois há uma provável mudança política no horizonte do Brasil e Chile. Dada a vitória desta semana do candidato socialista Pedro Castillo nas eleições presidenciais peruanas, é concebível que dentro de um ou dois anos a grande maioria dos países sul-americanos seja liderada por governos de esquerda, uma reviravolta dramática em relação à recente onda de extremismo neoliberal de direita e protofascismo que devastou a região.

A questão é se os Estados Unidos continuarão a apoiar governos colombianos repressivos como o de Duque, independentemente das violações dos direitos humanos. Esse apoio está se tornando cada vez mais difícil de sustentar diante da crescente atenção da mídia sobre suas atrocidades recentes. Mas os Estados Unidos nunca tiveram medo de apoiar ataques à democracia na região, incluindo nos últimos anos na Bolívia, Brasil, Haiti, Honduras e Paraguai.

No mínimo, seria uma surpresa ver os Estados Unidos deixar seu principal aliado sul-americano cair nas mãos da esquerdas social-democrata. As condições na Colômbia, no entanto, podem deixá-los sem muita escolha.

Sobre os autores

é um artista e jornalista independente que mora no Brooklyn e em Bogotá.

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Imperialismo, Militarismo and Política

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