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Em entrevista a Clara Zetkin, Vladimir Lenin advoga que só haverá democracia plena quando a mulher se ver liberta da exploração sexual e econômica. Ciper Chile/Migrar Photo

Por uma política sexual anticapitalista

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A apressada crítica aos movimentos sociais como identitários falha em reconhecer os modos como a democracia liberal excluiu sujeitos para mantê-los sob dominação. A crítica acertada é ao identitarismo, à redução da política à mera gestão de identidades e ao imediatismo dos movimentos em limitar sua visão política aos marcos da república burguesa.

Existe algo que as discussões em torno das identidades, sejam elas atravessadas por uma crítica ao identitarismo ou em uma defesa da identidade como categoria política, revelam: que há divisões dentro do capitalismo que não se restringem à divisão de classes. Esse é um ponto interessante, uma vez que as pessoas nem sempre se sentem identificadas a partir de sua classe, ou reconhecem a opressão à qual estão submetidas por este paradigma.

As divisões no interior da sociedade não são espontâneas ou necessárias: elas obedecem a uma lógica interior que serve ao capitalismo. Para este, concerne que sejam geradas diferenças para a exploração concomitantemente à justificativa da exploração segundo a constatação da diferença.

Se Frederich Engels se esforçou em construir sua tese de que a divisão sexual do trabalho precede a divisão de classes, a família e o Estado, é importante interrogar com qual propósito essas divisões e produções da diferença se dão. Este é um ponto de convergência entre as discussões sobre reconhecimento e sobre exploração, posto que aqueles que não gozam do status de humano sequer têm sua condição enquanto explorados reconhecida.

No princípio, era a divisão sexual

Segundo consta no primeiro volume da História da Sexualidade de Michel Foucault, o século XVI foi marcado por uma ciência da sexualidade em que a vontade de saber se debruçou sobre as práticas sexuais de modo a demarcar e distinguir o que seria do campo do normal ou de seu exterior constitutivo, o patológico. Nesta operação, o casal heterossexual assumiu posição central como ideal regulatório e no qual deveriam se inspirar todos os demais sujeitos. 

Não cabe aqui discutir os limites dessa acepção, tampouco a leviandade em que se forma o argumento de como este modo de relacionalidade galgou tal lugar, alijado de uma crítica e reconhecimento do capitalismo enquanto relação social. Como bem lembra Silvia Federici, há um projeto de manutenção da família mononuclear heterossexual para o acirramento da exploração do trabalho feminino alicerçado na divisão sexual do trabalho.

“Vladimir Lenin advoga que só haverá democracia plena quando a mulher se ver liberta da exploração sexual e econômica.”

Contudo, há algo que os autores da filosofia francesa contemporânea indicam em seu desejo pela reflexão sobre o sujeito: que a diferença sexual se tornou baliza central para as normas de reconhecimento, pois atestam os processos de constituição do sujeito, ao mesmo tempo em que o sexual concedeu linhas de fuga para o sujeito aprisionado nos confins da personalidade passível de ser reconhecida. Além do que, tomar o sexual – e a diferença sexual – enquanto objeto filosófico renovou toda uma tradição de pensamento.

Na Revolução Francesa, houve uma construção e projeto de sujeito, uma deliberada perspectiva sobre o sujeito que justificasse e se apoderasse da diferença para atender os anseios burgueses. Desde então, uma série de elaborações teóricas e de lutas organizadas denunciaram a impostura dos ideais burgueses de igualdade, liberdade e fraternidade, às custas de procedimentos de subjugação, colonização, punitivismo e etc..

“Um projeto democrático não pode se ver dissociado de uma perspectiva de sujeito. É indispensável tanto o colapso do sujeito quanto a radicalização da política para a democracia plena.”

Para além de apresentar uma contradição interna irreconciliável entre estes ideais e o regime de exploração no quais se apoiam, existiu a tentativa de quebrar a pretensa universalidade desses sujeitos abstratos através dos particulares mulher, negro e colonizados. Valeram-se também dos particulares as abordagens históricas, sociológicas e antropológicas. Porém, a aposta aqui é que o advento da psicanálise, e sua retomada pelas teorias crítica, feminista e francesa contemporânea, oferece algo da lógica do singular que é capaz de originar tanto fissuras quanto a ruptura com a visada de sujeito dominante que é útil ao capitalismo.

Sigmund Freud pensa tanto os processos de constituição do Ego, quanto aqueles aptos a propiciar uma descontinuidade no sujeito. Sua psicanálise, retomada e vivificada por Jacques Lacan, investe sobre o modo como os corpos se tornam viáveis para a cultura, inteligíveis e, dentro de um sistema predatório, úteis – e, em contrapartida, sobre aquilo que os deforma: as experiências que atestam contra a unidade egóica, a autonomia e a autenticidade.

Se por um lado a diferença sexual e a família no modelo patriarcal autoritário produzem os corpos sexuados que necessitam para a sua manutenção na forma de indivíduos egóicos, por outro, há algo de insubmisso no sexual, na experiência erótica, no excesso libidinal e no (des)encontro com o outro, que foge a qualquer prescrição normativa. A descoberta do inconsciente golpeia justamente o sujeito em sua forma racional, volitiva e contratual, tal qual anseia e demanda a democracia liberal.

O sexual, o colapso do sujeito e a democracia plena

Um projeto democrático não pode se ver dissociado de uma perspectiva de sujeito. É indispensável tanto o colapso do sujeito quanto a radicalização da política para a democracia plena. Se por um lado a psicanálise é ambígua e limitada em sua compreensão dos processos históricos e das condições materiais necessárias para a revolta, por outro, ela oferece formas contra-hegemônicas de entendimento sobre o sujeito e as formas de relacionalidade.

Não se trata aqui de atribuir a Freud qualquer intencionalidade ou presunção política. Diferentemente de seu ex “discípulo”, o psicanalista anarquista Otto Gross, o “pai” da psicanálise se restringia a um pretenso ceticismo liberal. Gross, por sua vez, ciente de que o mal estar da época estava ligado à moral sexual, o modo como esta sobrepujava as mulheres, incitando um adoecimento psíquico específico sobre estas, propunha o rompimento das relações familiares patriarcais, monogâmicas e educacionais perpassadas pela figura de autoridade, como forma de se cortar o mal pela raiz e pensar uma psicanálise emancipatória.

Alexandra Kollontai, atenta à maneira como a moral sexual vigora no capitalismo, propunha novas formas de relacionalidade entre homens e mulheres não passíveis de expropriação. O capital produz e se serve das relações de parentesco, de parcerias amorosas e de fetiches, os cooptando e esvaziando de conteúdo político. No entanto, há também aquilo que é gerado no seu interior que é capaz de desestabilizá-lo ou que está fora de seu domínio.

Até mesmo nos debates progressistas da experiência socialista sobre a questão feminina, fica evidente a dificuldade de superação da dicotomia masculino vs feminino, atrelado à distinção público vs privado. Em entrevista a Clara Zetkin, Vladimir Lenin advoga que só haverá democracia plena quando a mulher se ver liberta da exploração sexual e econômica. Para tanto, propôs a criação de creches, restaurantes e lavanderias populares, além do direito ao voto, aborto e divórcio. Entusiasta de um movimento internacional de mulheres, igualdade jurídica e representatividade na política, considerava inoportunas as discussões sobre casamento, sexo e sexualidade à luta de classes. Essa contradição moralista encerra o argumento de tomar por liberal – ou moderno – tudo aquilo que diverge minimamente de um suposto projeto universal, posto que algo do tipo poderia obstaculizar ou secundarizar a luta de classes, ao mesmo tempo em que reconhece o potencial desagregador do sexual.

Wendy Goldman, no percurso histórico que traça sobre a situação da mulher na experiência soviética, aponta como o argumento em defesa de que, para criar as condições materiais para a libertação feminina, era primeiro necessário a superação da luta de classes, revela o modo como a exploração sobre os corpos femininos foi tomada como um sacrifício prestado pelas mulheres à luta maior.

“O fazer político fica então reduzido a um jogo de cartas marcadas conforme um telos masculinista que é solidário aos ideais da Revolução Francesa.”

Apesar dos inegáveis avanços, houve uma série de contratempos em que, reconhecendo o quão dispendioso era ao Estado custear os cuidados das crianças e relativos à alimentação, uma valorização da família e da maternidade serviu de política exploratória sob o trabalho feminino não remunerado. Ou seja, como se fosse imprescindível também ao socialismo, ou a tentativa de sua efetiva implementação, este excedente de acumulação a partir do trabalho não remunerado generificado: ancorado na diferença sexual e exploração da mesma.

A apressada crítica aos movimentos sociais como identitários falha em reconhecer os modos em que outrora se legitimou processos de dominação daqueles excomungados da posição de sujeitos. A crítica acertada é ao identitarismo, à redução da política à mera gestão de corpos e de conflitos, e ao imediatismo dos movimentos sociais em limitar o seu fazer político aos modos desde já dispostos pela democracia liberal.

Não se intenciona desvalorizar as conquistas da esquerda nas tão ameaçadas democracias liberais. Contudo, pouco vale a defesa da democracia em termos técnicos e constitucionais como oposição ao neoliberalismo. O engodo reside em forçar aos movimentos sociais uma determinada gramática que não só calcifica as potencialidades políticas, como também a abrangência das mesmas. Aquilo que é passível de ser incorporado pela democracia liberal não a fere e pode ser convertido em mercadoria.

Restringir o fazer político à identidade, unidade e universalidade, às formas institucionalizadas de se fazer política, inclusive a política partidária, sindicalista e de órgãos dirigentes filiados a projetos partidários de conciliação de classes, responde a um modo masculino de se fazer política.

Política do feminino

No livro O feminismo é feminino? A inexistência da Mulher e a subversão da identidade, propõe-se que há modalidades lógicas por detrás do fazer político atrelados à diferença sexual. Um modo masculino de se fazer política é aquele que se orienta em torno do mito do patriarcado, da ordenação generificada dos corpos, de onde se extrai uma figura identitária a partir da qual os sujeitos se alienam e que é tanto exceção, quanto excluída deste universal que funda por sua extração.

Ao passo que, um modo feminino de se fazer política é aquele que parte da inexistência da mulher, da ausência do matriarcado enquanto mitologia estruturante, e da indeterminação no campo do sexual que movimenta os corpos para além das identidades individualizantes ou coletizáveis que cobra o preço da burocratização da vida e das relações. 

Masculino e feminino correspondem a modalidades de gozo e competem a todos os corpos, independente das hetero ou auto designações. Estes, referem-se tanto aos processos de constituição egóica e de reconhecimento pautados na diferença sexual, quanto às linhas de fuga e descontinuidades generativas do campo sexual, respectivamente. Há práticas de relacionalidade que são profundamente improdutivas e insubmissas ao capitalismo e que interferem nos modos como os sujeitos se apresentam e agem politicamente.

“É preciso propor novas balizas de reconhecimento não atrelados à diferença sexual, e em que diferença não corresponda à exclusão, exploração e violência, tal como se dá invariavelmente nas sociedades capitalistas.”

Existe uma afinidade entre o mito do patriarcado e o capitalismo manifesta nos ideais da revolução burguesa. Segundo Joan Scott, há um paradoxo da igualdade que garante não só a produção da diferença, mas a institucionalização da exclusão – que serve à mesma lógica da proliferação das diferenças. Iguais são os membros de uma fraternidade que se unem sobre o patriarcado e que têm por liberdade o comércio.

A identidade suportada pela diferença sexual conta não só aos lugares generificados na divisão sexual do trabalho, como também à sociedade. É valioso ao Estado que os sujeitos se reconheçam e se organizem como identidades, que reclamem o acesso que lhes foi negado de forma protocolar e que se produzam novas e infindáveis diferenças. As muitas particularidades e os agrupamentos que se formam pouco importam ao Estado: na medida que a exceção faz a regra, muitas exceções também o fazem. O fazer político fica então reduzido a um jogo de cartas marcadas conforme um telos masculinista que é solidário aos ideais da Revolução Francesa.

É claro que para se pensar uma programática política em direção a uma democracia plena há um campo de normatividades a ser percorrido e fundamentado nas experiências concretas, estratégias e táticas traçadas por toda uma tradição militante. Há, sim, um momento de transição para o alcance de uma democracia plena em que, superada a luta de classes, supera-se também a necessidade do aparelho estatal. Contudo, há algo precioso para refletir sobre os levantes, insurgências, revoltas e a própria revolução em termos de imaginação política referidas a um modo feminino de se fazer política.

Pouco interessa, também, reduzir a política à ação política e ao levante, ou jogá-los por terra por não atingirem efeitos duradouros. Muitas vezes, estes tipos de análise falham em reconhecer que há prenúncios históricos e a acumulação de saber a datar destes eventos. Ou ainda, ao dizer de uma política sexual anticapitalista, da restrição da política aos atos de fala, como se a reforma linguística pronominal conseguisse, por mágica nominalista, superar a arbitrariedade dos regimes contemporâneos de reconhecimento em que, como bem lembra Louis Althusser, “é evidente, é ele ou ela”.

Faz-se mister uma política sexual anticapitalista, em que os sujeitos não tenham uma relação corpórea consigo mesmos e com terceiros em decorrência de seus predicados, atributos e marcadores sociais. Despojados de uma relação em que presumem ser e ter um corpo, despossuídos do princípio identitário do qual são acusados, outro fazer político para além da receita de bolo identidade, unidade e universalidade é possível.

Para tanto é preciso propor novas balizas de reconhecimento não atrelados à diferença sexual, e em que diferença não corresponda à exclusão, exploração e violência, tal como se dá invariavelmente nas sociedades capitalistas. É um contrassenso resumir a imaginação política sob o argumento do tangível.

A política a partir da descontinuidade introduzida pelo sexual, ou seja, a política de acordo com a lógica feminina, não é a política da multiplicação de nomes na esfera pública, mas a do uso contingente e provisório de identidades conforme as demandas em curso, servindo-se das fissuras capazes de subverter a norma – ou seja, não é sobre ocupar o poder, mas de sua deposição. E a que tem como objetivo específico a ruptura, o fim de toda e qualquer identidade segundo o modelo de reconhecimento imposto pela República aliado ao desmonte do projeto liberal para o alcance de uma democracia plena. 

Sobre os autores

é psicanalista, feminista e doutora em Processos Psicossociais pela PUC Minas, com período sanduíche no departamento de filosofia da New School for Social Research. Autora do livro "O feminismo é feminino? A inexistência da Mulher e a subversão da identidade", (Scriptum, 2021) e "Fins do Sexo: como fazer política sem identidade" (Autonomia Literária, 2022).

Cierre

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Published in América do Sul, Análise, Psicanálise and Sociologia

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