Por que os EUA financiaram bandas de rock anti-Hugo Chávez na Venezuela?

15/06/2020

Por
Tim Gill

Tradução
Débora Nascimento

Documentos obtidos recentemente mostram que, em 2011, os EUA financiaram bandas de rock na Venezuela – por meio de um grupo ligado à direita que mais tarde tentaram dar um golpe. Dar dinheiro a jovens músicos parece inócuo, mas faz parte de uma longa história de intromissão dos EUA nos processos democráticos de outros países para promover interesses imperialistas.

Keep on rockin 'in the free world. photoshopbattles / Reddit.

Em 28 de maio, compartilhei no Twitter alguns documentos que obtive por meio de uma solicitação com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA) endereçada à National Endowment for Democracy (NED), uma agência semi governamental criada sob o governo Ronald Reagan em 1983 para realizar operações políticas dos EUA no exterior, muitas delas anteriormente realizadas pela CIA. O grupo e suas agências afiliadas, incluindo o International Republican Institute e o National Democratic Institute, oferecem financiamento e treinamento a partidos políticos e organizações não governamentais no exterior, muitos dos quais de oposição a governos em desacordo com os interesses dos EUA.

Dentre as dezenas de acordos firmados em 2011 que recebi, um deles envolvia financiamento a bandas de rock jovens para tocar e gravar músicas, além da distribuição de CDs. Nos termos do acordo, as bandas venezuelanas competiriam entre si em um concurso nacional e os vencedores se apresentaram em um show final em Caracas. Nesse acordo em particular, o NED menciona como objetivos do projeto “promover maior reflexão entre os jovens venezuelanos sobre liberdade de expressão, sua conexão com a democracia e o estado da democracia no país”. Na Venezuela, o NED firmou parceria com seu donatário, Un Mundo Sin Mordaza (SM), para organizar e sediar a competição.

Embora a SM seja tecnicamente uma organização não governamental, está longe de ser apartidária. Sua afinidade com a oposição política de direita na Venezuela e com o governo dos EUA fica evidente a partir de uma rápida olhada na página do grupo na internet. E mais, o próprio NED demonstrou publicamente essa afinidade ao publicar uma história brilhante sobre a diretora executiva do grupo, tornando esse relacionamento mais do que claro para o público.

Com isso, o NED apresentou o SM como um dos verdadeiros garantidores da democracia, amplamente difundido no país, em vez de um grupo que promove uma visão de “democracia” alinhada à visão e aos interesses dos EUA na Venezuela e em toda a América Latina.

Rock contra a democracia

Semelhante a outros acordos de concessão do NED, este, em particular, contém referências a como o governo venezuelano atacou a democracia e como os jovens estudantes estão liderando protestos contra ele. Ao mesmo tempo, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), uma agência oficial de política externa dos EUA, criada sob o governo John F. Kennedy para promover os interesses político-econômicos dos EUA no exterior, já trabalhava há muito tempo com grupos de estudantes que se tornaram referência em protestos contra Hugo Chávez, particularmente a partir de 2007.

Foi aí que Juan Guaidó, líder da oposição no centro das recentes tentativas frustradas de fomentar um golpe na Venezuela, entrou na vida pública.

Além disso, em entrevistas, os membros da USAID disseram que o principal objetivo da agência com os grupos de estudantes no país era especificamente ajudá-los a formar organizações duráveis. Um administrador da USAID me disse que:

“o objetivo da agência era ter milhares de jovens, do ensino médio ao superior que se sentiam ultrajados com um cara de aparência indígena no poder. Eles eram idealistas. Queríamos ajudá-los a construir uma organização cívica para que pudessem se mobilizar e se organizar. Isso é diferente de protestar”.

O comentário é revelador. Se é verdade que, conforme descreve o funcionário da USAID, os jovens “se sentiram ultrajados com esse cara de aparência indígena no poder”, fica descarado o racismo que é central para a oposição venezuelana da classe média alta.

Algumas pessoas contrárias a Chávez rejeitaram esse programa em particular como irrelevante e indigno de atenção. Cientistas sociais e estudiosos das humanidades, no entanto, há muito tempo reconhecem o poder da música em protestos, para fazer amizades e se definir.

O fato de grupos como Pussy Riot, entre outros, terem se tornado o rosto da oposição aos governos em países como a Rússia, não deve ser novidade para ninguém. A música traz em si a possibilidade de incitar e inspirar as pessoas a agir, tornando-se porta-voz de movimentos sociais.

Tudo isso, é claro, ocorreu durante o ano de 2011, nas vésperas das eleições presidenciais de 2012, em que Hugo Chávez concorreu com o governador da oposição Henrique Capriles, candidato explicitamente defendido pela SM, aquela organização que recebeu dinheiro do NED. Chávez derrotou Capriles em eleições consideradas livres e justas, semelhantes às eleições presidenciais anteriores em 2006, quando Chávez derrotou Manuel Rosales.

Os responsáveis políticos dos EUA certamente não acreditaram que esse programa sozinho derrubaria o governo Chávez. Mas o programa era parte de uma agenda muito mais ampla e abrangente para cultivar vozes antigovernamentais em todo o país. As músicas que eles financiaram poderiam se tornar hinos para protestos de rua e mais resistência ao governo Chávez? Talvez. Certamente há uma longa história de canções de protesto utilizadas por uma série de movimentos sociais, tanto na esquerda quanto na direita.

Em março de 2008, o ex-embaixador Patrick Duddy solicitou não apenas o apoio da USAID, mas também solicitou ao Departamento de Defesa (DoD) dos EUA um financiamento para “influenciar o ambiente de informações na Venezuela. O objetivo da estratégia é combater a campanha ativa e deliberada da República Bolivariana da Venezuela (BRV) para instigar na população uma percepção negativa dos EUA e distorcer mais de 100 anos de relações estreitas e mutuamente benéficas entre os dois países”.

Ao fazer isso, Duddy solicitou financiamento para “shows de rock  e festivais musicais”. Porém, não fica claro se o DoD financiou ou não esses empreendimentos.

O rock racista do Império Global

Uma pergunta final parece ter gerado certo interesse: quais foram as bandas que receberam financiamento? Não acredito que esses jovens sabiam que o financiamento vinha diretamente do governo dos EUA. O que eu penso é que o SM chegou aos grupos com a promessa de fazer um grande show em Caracas, ao lado de uma banda nacional (Viniloversus), além de gravar músicas. Que banda jovem não desejaria essa exposição nacional?

Ainda no final, a SM deu o primeiro lugar no concurso à Antigravedad, uma banda sem reconhecimento, graças a uma música intitulada “Primates”. O grupo tem a mesma disposição “ultrajada” da classe média alta em relação aos cidadãos da classe baixa que o membro da USAID citado reconheceu acima.

Na música e no show de 2011, a banda lamenta as supostas atividades criminosas dos venezuelanos, que descrevem como “gorilas” e “primatas”. Durante o show, um dos membros ainda ostenta uma camisa branca com um gorila em destaque.

Assim como nos EUA, aqueles que colonizaram o que é hoje a Venezuela escravizaram africanos e indígenas. As ramificações desses esforços persistem até hoje, com uma elite de pele clara que habita áreas da classe média alta e muitos venezuelanos de pele mais escura que vivem em bairros pobres de todo o país.

O tom racista da música não poderia ficar mais claro. Desde o início da era Chávez, estudiosos observaram que a “civilização” versus a “barbárie” era uma estrutura orientadora para a oposição ao chavismo, como a própria oposição frequentemente comparava Chávez a um gorila.

Não pode haver objeção a jovens que escrevem músicas contra o governo, e a Venezuela tem uma longa trajetória de bandas de rock anti-autoritárias. E também não pode haver objeção a grupos não governamentais que organizam eventos e festivais de música, a maioria dos quais sem o financiamento do NED. Como império global, no entanto, os EUA têm a capacidade desproporcional de amplificar algumas vozes e marginalizar outras para elevar seus próprios interesses e distorcer a democracia na região, mesmo através do financiamento de um festival de música e de uma banda de rock sem nome.

Sobre os autores

é professor de sociologia na Universidade da Carolina do Norte.

Sobre o autor

Tim Gill é professor de sociologia na Universidade da Carolina do Norte.