O modelo de streaming do Spotify se baseia em exploração

11/12/2020

Por
Alexander Billet

Tradução
Letícia Bergamini

No início deste ano, o Spotify anunciou que daria aos artistas e gravadoras um impulso na divulgação se eles aceitassem uma taxa de royalties mais baixa – sendo que ela já irrisória. Entre as brigas pela remuneração de artistas e a sindicalização de trabalhadores de empresas de podcasts, fica claro que até mesmo o mundo do streaming há conflito de classes.

O aplicativo de música Spotify anunciou que está mudando a forma como os artistas podem se promover na plataforma. (Foto: Unsplash)

Poucos dias após o lançamento de sua campanha Justice at Spotify (Justiça no Spotify) no final de outubro, a Union of Musicians and Allied Workers (União de Músicos e Trabalhadores Aliados) foi lembrada de por quê eles lançaram a campanha em primeiro lugar. O Spotify anunciou, no início de novembro, que estava mudando a forma como os artistas podem se promover na plataforma.

Classificado como “um novo recurso”, o Spotify agora permitirá, basicamente, que artistas e gravadoras paguem por maior visibilidade. Em troca de uma taxa de royalties mais baixa, as músicas e álbuns selecionados terão mais impulsionamento nas recomendações dos ouvintes. A declaração do Spotify diz:

Neste novo experimento, artistas e gravadoras podem identificar músicas que são prioridade para eles, e nosso sistema adicionará esse sinal ao algoritmo que determina sessões de escuta personalizadas… Isso permite que nossos algoritmos contabilizem o que é importante para o artista.

Como em todo discurso público, os eufemismos são pesados aqui. “O que é importante para o artista” pode ser melhor entendido como “o que o artista pode pagar”.

Comércio acima da música

Quem está familiarizado com o termo em inglês “payola” (“jabá”, em português) certamente o reconhecerá aqui. A prática de tocar certas músicas mais do que outras em troca de propina arruinou a carreira do DJ Alan Freed, pioneiro do rock, em 1959.

Desde então, tem sido vista – com razão – como uma prática que favorece não os melhores artistas ou os mais originais, mas artistas e gravadoras com os bolsos mais pesados. Até o nome da prática – acrescentando o sufixo “ola” ao final da palavra em inglês – lembra produtos que, quaisquer que fossem seus méritos, eram usados para tirar o controle da música das mãos dos artistas: vitrola, pianola, Motorola, payola

Esta não é a primeira vez que o Spotify é acusado de práticas desse tipo. Em agosto passado, o Daily Dot divulgou uma reportagem detalhada sobre um mercado negro em expansão de empresas de relações públicas cobrando, de gravadoras e artistas, taxas exorbitantes para colocar suas músicas nas influentes playlists próprias do serviço de streaming.

Embora isso seja tecnicamente uma violação de seus termos de serviço, o Spotify não mostrou nenhuma indicação de que esses termos sejam cumpridos – além do fato de que já permitem anúncios, uma despesa excessiva para quem está fora do sistema das grandes gravadoras.

Se o Spotify é tão descarado em favorecer o comércio em vez da música, é apenas porque a empresa vem enganando os artistas impunemente há algum tempo. Cada vez que a música de um artista é ouvida na plataforma, eles recebem, em média, cerca de US$ 0,004, ou pouco menos de meio centavo. Se quiserem ver um único dólar, a música precisa de cerca de 250 execuções. O que, naturalmente, é difícil de conseguir sem uma promoção considerável.

Além do mais, até mesmo esse quase meio centavo é uma média, o que significa que o pagamento geralmente pode ser menor. O Spotify distribui o pagamento pro rata, que basicamente coloca todo o dinheiro gerado a partir de streams em um único caixa e, em seguida, divide com base no número de streams que cada artista recebe, reduzindo ainda mais a parcela de artistas menores. A plataforma também está constantemente levando artistas aos tribunais, buscando maneiras de pagar ainda menos royalties do que já pagam.

“Spotifização”

Daí a campanha da Union of Musicians and Allied Workers, a Justice at Spotify. Entre suas reivindicações estão um aumento de pelo menos um centavo por play e o fim do esquema de pagar para ter suas músicas tocadas. Eles também exigem créditos listados para todos os envolvidos na gravação e um modelo de pagamento mais transparente e equitativo.

Quando a Justice at Spotify foi lançado, no final de outubro, tinha o apoio público de cerca de quatro mil artistas. Agora o número está acima de vinte e cinco mil. A maior parte deles não são grandes nomes com grandes gravadoras por trás. Muitos passaram suas carreiras trabalhando em selos independentes ou se lançando por conta própria.

Não é de se surpreender que a lista inclua muitos artistas conhecidos por falarem abertamente sobre política: Ted Leo, Moor Mother, Televangel, Guy Picciotto do Fugazi, Downtown Boys e Sheer Mag. Há também Thurston Moore, deerhoof, Zola Jesus e cerca de outros vinte e cinco mil.

“Muitos afirmam que tais taxas não são compatíveis com o sistema econômico atual do Spotify”, diz o comunicado da UMAW. “Nossa reivindicação é que esse modelo seja ajustado para que os artistas sejam pagos de forma justa. Se o modelo do Spotify não puder pagar os artistas de forma justa, ele não deveria existir.”

Palavras duras? Sim, mas de que outra forma um criminoso tão notório deveria ser tratado? Para alguns, a ideia da implosão do Spotify é desagradável, aumentando a possibilidade de sermos incapazes de ouvir qualquer música que gostamos, seja na rua ou em casa. Mas isso, por sua vez, levanta uma série de questões sobre o papel que a música desempenha em nossas vidas – e se plataformas como o Spotify são um bem irrestrito como poderiam ser vistos uma década atrás.

O fato da UMAW ver a necessidade de exigir que o Spotify liste todos os trabalhadores envolvidos na produção de uma música mostra a forma do impacto do serviço de streaming. Os ouvintes podem acessar quase todas as músicas já gravadas, onde quer que estejam no mundo, mas não podem acessar a lista completa de quem tornou aquele som possível.

Isso contribui muito mais para isolar a música do que para democratizá-la. Uma música não reconhecida como trabalho é menos capaz de fornecer conexão e compreensão significativas. Como mercadoria, torna-se mais esquecível, mais descartável, mais um acompanhamento para a alienação.

Mesmo como uma mercadoria descartável, ela ainda domina nossa imaginação. No momento, os algoritmos do Spotify estão entregando nossas playlists dos “Melhores de 2020”, destinadas a revelar nossos gostos para nós mesmos após um ano inteiro de sugestões do tipo “talvez você também curta”. E se os novos modelos promocionais forem aprovados, serão baseados cada vez menos em nossos gostos reais, cada vez mais em quem paga, prejudicando ainda mais nossa capacidade de explorar e descobrir.

Não é à toa que o termo em inglês “spotification” (ou “spotifização”) entrou no léxico dos estudos culturais nos últimos anos, encapsulando a mentalidade de “conveniência ou morte” que a produção just-in-time e a distribuição sob demanda enredou em nossas vidas diárias.

Isso não quer dizer que a rubrica de streaming em geral precise ser abandonada. Outros serviços, como o Tidal, conseguiram compensar os artistas de maneira mais justa. O modelo do Bandcamp não fornece apenas compras diretas dos downloads, vinis e outros produtos de merchandising, mas também uma linha direta de comunicação entre o artista e o ouvinte.

Tidal e Bandcamp ainda são empresas capitalistas, logo, em algum ponto se sentirão pressionadas a limitar o espaço que fornecem aos artistas. Por enquanto, porém, esse espaço está lá, e vem sendo sufocado por modelos como o do Spotify.

Sindicalizando a indústria da música

A UMAW não é a única voz do trabalho organizado enfrentando o Spotify. À medida que a empresa foi expandindo sua influência sobre aquilo que ouvimos, ela se lançou com agressividade sobre o ambiente dos podcasts. Além de começar a produzir seus próprios podcasts, ela vem comprando outras empresas de produção dessa mídia.

A aquisição mais recente é a rede de Parcast, cujos os empregados anunciaram o interesse em se unir ao sindicato de autores Writers Guild of America. Isto faz dela a terceira rede de podcasts, após a Ringer e a Gimlet Media, a ver seus trabalhadores se sindicalizarem desde que começaram a orbitar o Spotify.

Essa emergência do conflito de classes dentro do universo mundial de streaming é significativa. Vinte anos atrás, a idéia de que a internet poderia ser usada para encontrar e escutar a música foi uma revelação. Alguns comentaristas chegaram a ver nela o fim da indústria musical como conhecemos, e a oportunidade de substituí-la por algo além do alcance comercial dos executivos das gravadoras.

Eles estavam certos apenas em partes; falharam em prever que outros “inovadores” com dinheiro seriam capazes de cercar e monetizar este outro formato. Que os trabalhadores e os artistas estejam exigindo sua parte não é apenas uma prova de que o mundo online nunca esteve acima do capitalismo; também nos força a questionar o porquê, e o que será necessário para tornar a arte um direito público.

Uma coisa é a sindicalização em empresas de podcasts, muitas das quais possuem funcionários e cronogramas regulares. Sindicalizar os artistas seriam outros quinhentos — algo indiscutivelmente muito mais difícil. Claramente, o Spotify vê sua relação com os artistas de maneira mais semelhante a contratantes independentes do que empregador-empregado.

No entanto, as lutas em torno dos trabalhadores na “economia compartilhada” mostram como esta definição pode ser tornada maleável. Até o momento em que este texto foi escrito, o Spotify ainda não havia respondido às exigências da UMAW. Esta, entretanto, promete “escalar” a campanha caso as demandas não sejam atendidas.

Ainda não está nítido o que pretendem realizar para aumentar essa “escala”. Porém, é algo que nós devemos apreciar, assim como deveríamos fazer com toda oportunidade de recriar a nossa relação com a arte, com o trabalho e com nós mesmos.

Sobre os autores

é escritor, artista e crítico cultural que mora em Los Angeles. Seus escritos apareceram em Jacobin, In These Times, Chicago Review e outros meios de comunicação. Ele é editor da Locust Review e blogs da To Whom It May Concern.

Sobre o autor

Alexander Billet é escritor, artista e crítico cultural que mora em Los Angeles. Seus escritos apareceram em Jacobin, In These Times, Chicago Review e outros meios de comunicação. Ele é editor da Locust Review e blogs da To Whom It May Concern.

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