Greve Geral

13/05/2021

Por
Worney Almeida de Souza

O jornalista e escritor Lima Barreto nasceu neste dia em 1881. Ele vivenciou da vitoriosa greve geral de 1917, que reuniu mais de 70 mil trabalhadores, que fez São Paulo parar o Brasil e da greve insurrecional no Rio de Janeiro em 1918, que foi derrotada pela repressão e infiltração militar.

As greves operárias que eclodiram entre 1917 e 1919, em São Paulo e no Rio de Janeiro, tinham como motivações as condições de trabalho, a carga horária e a carestia dos alimentos. Wikimedia Commons.

Extraído do livro Lima Socialista, organizado por Worney Almeida de Souza (Autonomia Literária 2021).


O grande movimento começou com a paralização na fábrica de tecidos Crespi, no bairro da Mooca, no mês de junho de 1917. Os grevistas exigiam aumento de salário, proibição do trabalho feminino à noite, redução da jornada de trabalho e proibição do trabalho infantil.

Outras fábricas aderiram ao movimento e unificaram vários sindicatos, de inspiração anarquista. No dia 8 de julho é criado o Comitê de Defesa Proletária, que unifica as lutas com onze reivindicações principais:   

  1. Que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve;
  2. Que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores;
  3. Que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista;
  4. Que seja abolida de fato a exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, oficinas etc.;
  5. Que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalhos noturnos;
  6. Que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
  7. Aumento de 35% nos salários inferiores a $5.000 e de 25% para os mais elevados;
  8. Que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15 dias, e, o mais tardar, 5 dias após o vencimento;
  9. Que seja garantido aos operários trabalho permanente;
  10. Jornada de oito horas e semana inglesa;
  11. Aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.

O movimento cresce com comícios e concentrações nos bairros. No dia 9 de julho, numa manifestação em frente da fábrica Mariângela, no Brás, a carga de cavalaria da polícia mata o jovem sapateiro espanhol José Martinez. O funeral reuniu milhares de pessoas que atravessaram a cidade até o cemitério do Araçá, onde foi o sepultamento.

O clima de revolta crescia com confrontos nas ruas e em 12 de julho o Comitê decretou a Greve Geral com a adesão dos trabalhadores do comércio, transportes e funcionalismo público, reunindo cerca de 70 mil operários.

Trabalhadores paralisados em SP. Foto Wikimedia Commons.

O Comitê de Defesa Proletária negociou com os patrões através de uma comissão intermediadora, organizada por jornalistas. O resultado foi um aumento geral de 20% de salários, direito de associação, não demissão dos grevistas e a discussão dos outros itens da pauta unificada. 

A greve foi encerrada no dia 16 de julho, num comício realizado no Largo da Concórdia, no bairro do Brás. 

Insurreição Anarquista 

Motivados pela Revolução Bolchevique na Rússia e a destacada greve geral em julho de 1917, em São Paulo, os anarco-sindicalistas cariocas planejaram um movimento insurgente na capital do País, no dia 18 de novembro de 1918. Seguindo a teoria da greve geral insurrecional, da ação direta, quando os revolucionários desencadeariam um movimento de paralisação total, atraindo camponeses e soldados, que acabaria minando as bases da sociedade capitalista, até a tomada do poder pelos organismos operários (sindicatos, comitês e centrais). 

A I Guerra Mundial abalara a estabilidade do sistema burguês mundial, abrindo uma crise revolucionária, que resultara na tomada do poder pelos sovietes russos, as revoluções húngara e alemã. A possibilidade da revolução social, como alternativa ao declínio do capitalismo, parecia mais próxima e isso embalou os revolucionários, sindicalistas e anarquistas em todo o mundo. Essa esperança também tomou os brasileiros, especialmente os cariocas. 

No Brasil, nas primeiras décadas do século XX, não existia uma legislação trabalhista ou direito de trabalho, o que possibilitava uma super exploração da mão de obra, especialmente a fabril. Com condições precárias de moradia, alimentação, saúde e higiene, os trabalhadores tinham jornadas de 10, 12 ou 14 horas, incluindo crianças e mulheres, em condições insalubres e com salários miseráveis. Na indústria têxtil, que não exigia nenhuma qualificação, a rotatividade era muito grande. Não existia salário mínimo legal e cada empresa fazia sua política de pagamentos, contratações e demissões. As primeiras leis sobre férias remuneradas, acidentes de trabalho e regulamentação do trabalho infantil, só foram aprovadas no decorrer da década de 20. 

As greves operárias que eclodiram entre 1917 e 1919, em São Paulo e no Rio de Janeiro, tinham como motivações as condições de trabalho, a carga horária e a carestia dos alimentos. Já os têxteis (a maior categoria operária) estavam às voltas com a carestia e queda dos salários e o acúmulo de produtos estocados, consequência direta da I Guerra Mundial, que reduziu os dias de trabalho e apresentava a ameaça do desemprego em massa. Outro grave problema foi a epidemia de gripe espanhola, que vitimou cerca de 12 mil mortos, entre 12 de outubro e 5 de novembro, só na cidade do Rio de Janeiro. 

Na organização sindical, os anarquistas estavam presentes na Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ), que congregava os trabalhadores industriais, de oficinas semi-artesanais e do setor de serviços. Fundada em julho de 1917, a União dos Operários em Fábrica de Tecidos (UOFT) tinha 30 mil sócios, em novembro de 1918, e conseguira uma organização considerável entre os têxteis. Outros setores também criavam associações de classe, como os metalúrgicos, sapateiros, alfaiates, gráficos e trabalhadores da construção civil. A organização operária foi aprimorada com a criação da União Geral dos Trabalhadores, em primeiro de fevereiro de 1918 com a adesão de 13 sindicatos e associações e a unificação com a FORJ. Durante o ano de 1918, têxteis, chapeleiros, marmoreiros, metalúrgicos e estivadores realizam greves que conseguem melhorias de trabalho, redução de jornada e aumentos salariais. Os sindicatos criaram sub sedes em bairros e em cidades da região metropolitana. Todas essas conquistas motivaram os militantes anarquistas a um passo maior: a greve geral.    

Em novembro, os têxteis iniciam uma movimentação pedindo a manutenção das 56 horas semanais de trabalho. No dia nove, os jornais noticiavam a revolução proletária alemã, enquanto que no dia 12 é assinado o armistício, colocando fim da Guerra na Europa, no dia 15 o presidente eleito, Rodrigues Alves, passa o cargo para o vice, Delfim Moreira (Rodrigues Alves morreria em 19 de janeiro de 1919).    

No dia 18 de novembro houve uma grande greve nas fábricas têxteis do Rio de Janeiro, Niterói, Petrópolis e Magé, paralisando a maioria das fábricas. Também entraram em greve os metalúrgicos e setores da construção civil. 

A partir das 17 horas, houve uma grande concentração no Campo de São Cristovão, na Praça da República e em outros pontos. A força policial, auxiliada pela cavalaria do Exército, estava alertada e procurou dispersar a multidão. Tiros foram disparados e bombas foram jogadas na delegacia do Campo de São Cristovão. O planejamento dos grevistas era atacar a Intendência da Guerra, no mesmo local, receber apoio dos soldados e apossar-se do armamento e do fardamento. Depois atacariam a Prefeitura, o Palácio da Polícia e o quartel-general da Brigada Policial. Subjugados esses objetivos, os operários atacariam o Palácio do Catete e a Câmara Federal, prendendo o presidente, senadores e deputados. Assim seria proclamado o Conselho de Operários e Soldados. Mas o movimento foi debelado no início, os operários foram cercados, presos e dispersados pelas forças militares. Os líderes foram presos e processados. A adesão de soldados era desejada pelos líderes anarquistas, como uma ação espontânea, tanto que alguns militantes operários foram presos ao tentarem distribuir folhetos, convocando os soldados a se unirem para derrubar o governo burguês, nas imediações de unidades militares. 

O movimento começou a desarticulado com a infiltração do tenente do Exército Jorge Elias Ajus, nas reuniões preparatórias do movimento. Vizinho do anarquista Ricardo Correa Perpétua, o tenente fingiu partilhar das intenções dos anarquistas e passava as informações para a polícia. Inclusive chegou a ser encarregado da elaboração militar do levante. Os líderes intelectuais do movimento eram José Oiticica, Astrojildo Pereira, Manuel Campos, Agripino Nazaré, Ricardo Correa Perpétua, Gaspar Gigante, João da Costa Pimenta, Álvaro Palmeira, Carlos Diaz, José Elias da Silva, Oscar Silva, Adolfo Buste e José Romero. A diretoria da União dos Operários em Fábrica de Tecidos (UOFT), com Manuel Castro, presidente e Joaquim Moraes, secretário também estava envolvida. Nas reuniões participavam lideranças de várias fábricas e o movimento tinha um detalhado plano de ataque a prédios públicos, com cerca de quatro mil operários em prontidão, armados de bombas, dinamite e gasolina para atacar os pontos chaves da cidade. Alertadas, as autoridades, comandadas pelo chefe da polícia, Aurelino Leal, cercaram as principais fábricas e guarneceram os pontos de concentração dos operários. Foram feitas cerca de 200 prisões, 180 destes foram deportados para campos de detenção no norte do País. Meses depois, foram liberados, por falta de provas.       

A greve dos operários têxteis prosseguiu por várias semanas, mas, no início de dezembro, o movimento foi derrotado, pela pressão patronal e a repressão policial, sem conquistar nenhuma reivindicação. 

A ação fracassou pela delação e pela eficaz repressão policial. Deve-se considerar que os anarquistas haviam superestimado sua própria força e a capacidade de aglutinação dos operários para desfechar o golpe armado contra as autoridades governamentais. 

Sobre os autores

é jornalista especializado em quadrinhos, revistas de passatempos, álbuns de figurinhas, desenhos animados, revistas de atualidades e artes relacionadas. Também é pesquisador, redator e produtor de revistas e livros sobre ecumenismo, esportes, história e cultura em geral.

Sobre o autor

Worney Almeida de Souza é jornalista especializado em quadrinhos, revistas de passatempos, álbuns de figurinhas, desenhos animados, revistas de atualidades e artes relacionadas. Também é pesquisador, redator e produtor de revistas e livros sobre ecumenismo, esportes, história e cultura em geral.

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