Relembrando a Revolução Saur

20/08/2021

Por
Jonathan Neale

Tradução
Cauê Seignemartin Ameni

Quarenta e três anos atrás, os comunistas conquistaram o Afeganistão na esperança de trazer modernidade e progresso ao país. Embora tenham implementado grandes reformas, cabe perguntar se eles estavam fadados ao fracasso.

Um dia após a Revolução de Saur em Cabul, Afeganistão. Cleric77 / Wikimedia

Quarenta e três anos atrás, em 28 de abril de 1978, os comunistas fizeram uma revolução no Afeganistão. Meu amigo Tahir Alemi foi um deles. Ele era um homem bom e gentil que queria mudar o mundo.

Tahir era professor de literatura pashto na Universidade de Cabul. Ele percorreu um longo caminho. Seu pai era um pequeno camponês em uma aldeia em Nangrahar, perto da fronteira com o Paquistão. A família trabalhava em sua própria terra e tinha um meeiro [agricultor que trabalha em terras de outra pessoa e reparte seus rendimentos com o dono dessas terras]. Até então estava se saindo melhor do que a maioria da população. Tahir chegou à universidade e conseguiu seu emprego por meio de sua enorme inteligência. Ele amava seu pai, seus irmãos e sua mãe. Mas ele teve que enfrentar os valores de seu pai.

O Afeganistão na década de 1970 era um país feudal. O poder não estava com os empresários urbanos, mas com grandes proprietários de terras que viviam no campo. Às vezes havia dois grandes senhores em uma aldeia, às vezes um, e em alguns lugares um homem dominava várias aldeias. Havia muitos camponeses intermediários, homens como o pai de Tahir, talvez com um peão e meeiro junto, mas ainda trabalhando em suas próprias terras.

Abaixo deles estavam os meeiros, talvez metade da população, que tinham permissão para ficar com um terço da safra que colhiam. Na aldeia de Tahir era um quinto, porque a terra era melhor. Em toda parte, meeiros, trabalhadores e pastores eram pagos apenas com o suficiente para comprar três pães naan para cada dois adultos e dois para cada duas crianças. Isso era 2.000 calorias por adulto e 1.300 por criança. Eles não podiam pagar qualquer outra comida.

Fui antropólogo no Afeganistão no início dos anos 1970. As pessoas com quem me envolvi eram nômades com ovelhas, mas passaram por tempos difíceis. Seu padrão de vida era bastante típico dos afegãos pobres. As mulheres tinham dois vestidos em suas vidas, um quando atingiam a puberdade e um segundo quando se casavam. Uma família comum tinha uma pequena xícara de chá. Eles comiam carne, com grande entusiasmo, uma vez por ano na Festa do Profeta. Para que o sabor acompanhasse o pão, eles preparavam uma sopa fervendo trevo e outras verduras que colhiam. Duas das três famílias mais ricas da pequena aldeia de 33 famílias competiram para mostrar hospitalidade a mim e minha esposa. Uma família fritou um ovo para mim em uma ocasião especial. O outro me deu ensopado com uma pequena batata. Ninguém mais tinha uma.

A exploração nessa escala – dois terços a quatro quintos da safra para o proprietário de terras – exigia crueldade e violência. A maior parte disso veio dos senhores locais e seus guarda-costas e bandidos, apoiados pelo governo. Mohammed Zahir Shah, o rei de Cabul, e sua família construíram seu poder favorecendo um senhor em cada distrito e governando por meio dele. “Às vezes temos tirania”, Tahir me disse uma vez. “Então eles vêm e matam você e toda a sua família. Agora temos democracia. Então pegam só você e só arrancam seus olhos. ” Foi uma piada. Nós rimos.

Fotografia de estúdio de Mohammad Zaher Khan em uniforme militar.
Haji Amin Qodrat, Cabul / Wikimedia

O Afeganistão era um país pobre, principalmente árido, deserto ou montanhoso. O governo não tinha poder para tributar os grandes senhores ou os pequenos camponeses. Em vez disso, confiaram em direitos alfandegários. Desde 1842, diferentes governos afegãos contavam com alguma forma de subsídio estrangeiro, geralmente dos britânicos. A partir da década de 1950, o Afeganistão começou a ter “desenvolvimento”. Como parte da Guerra Fria, a ajuda russa e norte-americana pagou cerca de 80% do orçamento civil e a maior parte do orçamento militar. Os russos pagavam cerca de dois terços e os norte-americanos cerca de um terço. Havia muito pouca indústria ou desenvolvimento econômico. O dinheiro da ajuda foi para o Exército, escolas e o serviço público. Agora havia alguns milhares de alunos na Universidade de Cabul e centenas de milhares nas escolas. A velha classe dominante de proprietários de terras era minúscula e não havia como eles fornecerem professores e funcionários públicos. Os recém-educados eram homens como Tahir, filhos de camponeses médios. Seus pais e avós odiavam, em silêncio, os grandes senhores e o governo, e os recém-educados também os odiavam.

Eles sonharam, esses jovens professores, com um Afeganistão desenvolvido e moderno. Certa vez, na província de Helmand, Tahir e eu estávamos no meio de uma multidão silenciosa de curiosos assistindo a uma manifestação de algumas dezenas de garotos do ensino médio. Os alunos se revezaram em pé na caixa para gritar seu slogan: “Morte aos Khans”. Khan era a palavra local para os grandes senhores. O slogan dos meninos não era abstrato. Seu programa político era matar aqueles homens em seu distrito.

“Você tem essas coisas na América?” Tahir me perguntou.

Eu disse a ele que sim, e eu lembrei de alguns casos. Ele me contou sobre o Terceiro de Akrab, em 1965, quando os estudantes em Cabul protestaram em frente ao parlamento recém-eleito e três manifestantes foram mortos a tiros. Ele esteve lá.

Os rapazes e as moças dessa nova classe urbana, a maioria deles professores como Tahir, estavam todos se envolvendo com os partidos islâmicos ou comunistas. A Irmandade era islâmica. Eles tinham formação universitária, da mesma classe de Tahir, e seus jovens militantes se tornariam os líderes da resistência aos russos. Os comunistas foram divididos em dois. Parcham (a Bandeira) era mais educado, urbano e moderado. Khalk (o Povo) era menos educado, de famílias rurais e mais frequentemente de pashtuns. Tahir se juntou a Parcham. Em 1973, os comunistas estavam crescendo mais rápido do que a Irmandade.

Certa vez caminhamos e viajamos de ônibus para as aldeias ao redor de Nangrahar. Tahir foi selecionado pela universidade para ser meu “guia” durante a parte inicial de meu trabalho de campo. Paguei a ele quatro vezes o seu salário mensal de 1.500, três vezes o que um trabalhador ganhava. Eu ainda estava aprendendo o idioma e ele traduzia tudo para mim. Ele também escreveu regularmente relatórios sobre mim para a polícia secreta. Nós dois sabíamos disso, mas não mencionávamos.

O casamento de Tahir foi arranjado. Sua esposa nunca tinha ido à escola. Havia muita coisa que ele não podia falar com ela. Mas ele se casou para agradar sua família. Eles haviam escolhido uma garota local para ele na esperança de que isso o mantivesse ligado à aldeia, e durante os primeiros anos do casamento ela morou com seus pais e ele a visitava quando podia. Ele tentou desenvolver um relacionamento real com ela. Outras meninas iam à escola nas cidades e nas aldeias. Tanto Parcham quanto Khalk estavam cheios de camaradas mulheres. A libertação das mulheres foi fundamental para seu sonho de um mundo melhor. Tahir esperava que um dia, em breve, pudesse fazer a mudança de sua esposa para morar com ele em Cabul. Quando isso acontecesse, ele prometeu, eu poderia conhecê-la, porque ele nunca obrigaria ela a ficar reclusa.

Em 1972 houve uma seca, um efeito precoce da mudança climática. A fome atingia partes do norte. A ajuda alimentar veio dos EUA. Nas cidades, os oficiais do governo empilharam os sacos de grãos nas praças. Os soldados guardavam os grãos e os oficiais os vendiam por até dez vezes o preço normal. Os pequenos camponeses venderam suas terras por quase nada aos clãs feudais e compraram os grãos. Os sem-terra sentaram e esperaram pela morte. Um jornalista francês perguntou-lhes por que não atacavam as pilhas de grãos. “O rei tem aviões”, disseram, “e eles nos bombardeariam”.

O rei e seu governo perderam quase todo o apoio da população. O primo do rei, Mohammed Daoud, foi um primeiro-ministro brutal até 1963. Ele se inclinou mais para os soviéticos e o rei mais para os norte-americanos. Agora os EUA estavam cortando a ajuda depois do Vietnã, e a maior parte do dinheiro vinha da Rússia. Daoud articulou um golpe militar, com apoio soviético. O golpe não encontrou oposição. Depois da fome, ninguém estava preparado para morrer pelo rei.

O trabalho real na articulação do golpe foi feito por oficiais militares comunistas, principalmente da ala Khalk. Como os professores, os oficiais eram de origem camponesa média, geralmente os primeiros de suas famílias a serem educados e, muitas vezes, treinados na União Soviética.

O golpe não mudou nada importante. O poder permaneceu com os grandes senhores, embora a retórica de Daoud fosse de esquerda. A universidade, escolas secundárias e escolas primárias tornaram-se locais intensamente políticos, especialmente nas cidades. Alguns professores faziam proselitismo pela Irmandade, outros por Khalk e Parcham. Os alunos debatiam sobre o que fazer. Parcham defendeu trabalhar com a ditadura de Daoud. Khalk queria uma revolução completa.

Os comunistas estavam crescendo. Em abril de 1978, Daoud ordenou o assassinato de um líder comunista, Mir Akbar Khyber. As duas alas dos comunistas se reuniram para uma grande manifestação pública em seu funeral em Cabul. Daoud prendeu todos os líderes de ambas as alas, e eles sabiam que logo seriam mortos. Um dos líderes, Amin, conseguiu colocar um golpe bem planejado em movimento. Os mesmos oficiais do Exército e da Força Aérea que trouxeram Daoud ao poder mataram ele e toda a sua família. Tal como aconteceu com o rei, ninguém estava disposto a lutar por Daoud e os comunistas triunfaram.

No dia seguinte à Revolução de Saur, Afeganistão, 28 de abril de 1978. (Foto: Cleric77 / Wikimedia)

Os comunistas anunciaram a revolução, que apelidaram de “grande revolução de abril”, inspirados na Revolução de Outubro. Eles aprovaram duas leis com o objetivo de transformar o golpe em uma revolução. A primeira era a reforma agrária: distribuiriam as terras dos latifundiários entre os meeiros. Houve muitas áreas onde o governo não tinha como garantir a reforma agrária, mas em Helman, onde os jovens gritavam “morte aos Khans”, os comunistas começaram a tomar as terras e redistribuí-las.

A segunda foi a abolição das doações que o marido fazia à família da namorada em troca da mão dela. Eram somas muito grandes de dinheiro, às vezes representando dois ou três anos de renda para uma família média. Mas o mais importante foi o lugar simbólico ocupado por essa prática, considerada por muitos como o sinal mais evidente da opressão contra as mulheres.

As relações entre homens e mulheres não eram a caricatura sexista que conhecemos agora na propaganda islamofóbica. Nas aldeias, talvez quatro ou cinco famílias em cada duzentas mantivessem suas mulheres reclusas, permitindo-lhes sair apenas com burcas. Na maioria das famílias pobres, as mulheres tinham que trabalhar nos campos com os homens. Mas se a opressão das mulheres não era tão denunciada como é hoje, ela era bastante real, como era em outros países. Entretanto, os comunistas estavam determinados a mudar tudo isso. O decreto sobre o preço da noiva era apenas formal e em algumas áreas as meninas foram incentivadas a dançar em público.

As medidas sobre a terra e o casamento desencadearam uma rebelião liderada por mulás locais. Os mulás não eram iguais aos islâmicos da Irmandade. Esses eram homens instruídos, engenheiros e teólogos. Os mulás eram, em sua maioria, aldeões pobres, treinados apenas o suficiente para ler farsi e recitar o Alcorão em árabe. Eles sempre foram tratados com desdém pela elite. Mas eles tinham uma história de liderança na resistência popular.

O Afeganistão nunca foi conquistado. Os britânicos invadiram em 1838-42 e novamente em 1878-1880. Nas duas vezes a elite afegã levou o ouro do invasor – literalmente, em bolsas – e não resistiu. Em ambas as vezes, porém, os mulás pregaram nas cidades e vilas, levantando uma revolta popular da jihad que expulsou os britânicos. Então, na década de 1920, um novo governo reformador sob o rei Amanullah tentou “modernizar” o país, como Ataturk havia feito na Turquia e Reza Shah no Irã. Amanullah insistiu no fim da reclusão para mulheres da elite e insistiu que usassem vestidos ocidentais. Em seguida, ele tentou tributar as terras dos grandes senhores e pequenos camponeses do sudeste, provocando uma revolta liderada pelos mulás. Então, um trabalhador que se tornou “bandido social”, Habibullah, liderou uma insurreição popular em Cabul. Com a ajuda britânica, a família real reprimiu a revolta, mas o experimento social de Amanullah estava no fim.

Depois dos anos 1930, os mulás continuaram a ser os guardiões da ortodoxia, embora o islamismo dos afegãos fosse de um tipo relaxado e não muito ortodoxo. Os mulás teceram um islamismo conservador e uma oposição à libertação das mulheres, juntamente com uma oposição ao imperialismo cristão da Grã-Bretanha e dos EUA e o imperialismo ateu da União Soviética. Para a maioria dos afegãos, também, homens e mulheres, o Islã também era o coração moral de suas vidas.

Mulheres afegãs, 1927. Wikimedia

Depois da Revolução Saur, os mulás começaram a organizar resistência ao governo. Como haviam feito contra os britânicos e Amanullah, eles articulavam a oposição ao domínio estrangeiro. A revolta começou nas montanhas e nas fronteiras, onde o governo sempre foi mais fraco, e se espalhou pelos vales e cidades. Ao enfrentar essa resistência, os comunistas enfrentaram um problema terrível e não tiveram o apoio da maioria. Então eles recorreram à crueldade.

A Revolução Saur foi baseada em um golpe liderado por jovens oficiais. Mas o Afeganistão tinha um Exército erguido com serviço militar obrigatório, com homens de todos os cantos do país, principalmente de famílias de pequenos camponeses e meeiros. Esses soldados seguiram ordens, mas não foram politicamente convencidos. Não houve levantes urbanos e nenhuma guerra camponesa por terra. Nesse sentido, a Revolução Saur foi um golpe de cima para baixo com pouco apoio rural.

Os comunistas tinham apoio real nas cidades. Nas eleições livres realizadas antes de Daoud assumir o poder em 1973, eles conquistaram a maioria das cadeiras no Parlamento em Cabul. Eles contavam com o apoio de crianças em idade escolar, estudantes universitários, funcionários públicos e outros trabalhadores nas grandes cidades. Mas, em um país predominantemente rural, isso não foi suficiente. Confrontado com pregações inflamadas e revoltas rurais, o novo governo comunista só pôde enviar soldados para prender pessoas. Isso provocou mais inquietação e eles começaram a reprimir as pessoas, o que gerou mais revolta. Nos vinte meses seguintes, os comunistas e seu exército perderam o controle da maior parte do país. Em dezembro de 1979, eles dominavam completamente apenas 3 das 34 províncias. Em 28 províncias, os quartéis do Exército asseguravam o controle das cidades e vilas maiores, enquanto os insurgentes controlavam o campo. Em 3 províncias, os insurgentes controlavam até as cidades.

Sob essa pressão conjuntural, os comunistas se dividiram em três campos. O grupo Parcham, liderado por Baback Karmal, defendeu a construção de uma aliança com todas as forças progressistas nacionais. Na prática, isso significava proferir devoções muçulmanas, esquecer a pauta sobre o preço da noiva e as mulheres e suspender a reforma agrária. Essa política estava em conformidade com o conselho da KGB e dos generais soviéticos, que consideravam a ideia de revolução social prematura e temerária. O problema com essa abordagem é que os mulás – e o resto do Afeganistão – não foram enganados.

Para os militantes mais radicais do grupo Khalk, isso também foi uma traição ao sonho compartilhado de um Afeganistão moderno e o fim do sexismo e da pobreza opressora. Em poucos meses, eles limparam o Parchamis. Alguns, como Karmal, foram para o exílio na Europa Oriental e na União Soviética. Os Khalkis enviaram os demais para a prisão.

Mas ainda assim o parafuso da resistência apertou em torno das cidades. O grupo Khalk se dividiu em dois. Taraki, o líder mais velho, um romancista de um clã de pastores e nômades, não viu outra saída a não ser convidar as tropas soviéticas para reprimir a resistência. O líder mais jovem, Mohammed Amin, de uma área rural nos arredores de Cabul, estudou pedagogia na Universidade de Columbia, em Nova York. Ele era um nacionalista afegão e não aprovaria as tropas soviéticas em nenhuma circunstância.

A KGB aconselhou Taraki a matar Amin. Taraki tentou e falhou, porque a maioria dos radicais do Khalki também era contra as tropas russas. Em vez disso, Amin mandou matar Taraki.

A resistência rural ainda crescia. Amin estendeu a mão para os norte-americanos, pedindo seu apoio para contrabalançar os soviéticos. Os EUA recusaram. O governo soviético, com medo de que Amin conseguisse construir uma aliança com os norte-americanos ou caísse nas mãos da insurgência, continuou tentando assassiná-lo. Nenhum comunista afegão no país faria isso por eles. Diante desse ataque violento, Amin começou a praticar mais crueldade, prisões, tortura e execuções.

Os tanques soviéticos cruzaram a fronteira em 24 de dezembro de 1979. A Revolução Saur acabou. Os soviéticos atiraram em Amin e substituíram-no por Babrak Karmal, trazido do exílio em Moscou. As prisões começaram a se encher de Khalkis. Tudo o que os mulás e os islamistas educados diziam sobre os comunistas serem as ferramentas dos estrangeiros ateus se provou verdadeiro.

Soldados viajam a bordo de um veículo de combate aerotransportado BMD soviético, 25 de março de 1986. Departamento de Defesa dos EUA / Wikimedia

Na primavera de 1980, os protestos noturnos começaram na cidade de Herat, no oeste, se espalharam rapidamente para Kandahar, no sul, e depois para Cabul. Os funcionários públicos em Cabul, uma das bases comunistas mais fortes, entraram em greve contra a ocupação russa. Os alunos do colégio para meninas em Cabul, sempre partidários da libertação das mulheres e dos comunistas, reuniram-se no pátio e gritaram para que os homens do Afeganistão se levantassem contra o invasor.

A ocupação russa duraria oito anos, com tanques nas cidades e bombardeios aéreos pelo interior. Em uma população de 20 milhões, até um milhão foram mortos, outro milhão sofreu algum dano e 6 milhões foram levados ao exílio. Quando tudo acabou e os tanques soviéticos partiram, os senhores da guerra islâmicos assumiram o poder. O sonho do feminismo e do socialismo estava morto.

O efeito político foi o mesmo que teria sido nos Estados Unidos se a esquerda tivesse se aliado a um invasor para matar entre 8 e 15 milhões de norte-americanos com um bombardeio aéreo e levar 90 milhões ao exílio. As ideias sobre a libertação das mulheres foram contaminadas.

Alguns dos comunistas eram cruéis por natureza. Outros eram como Tahir, pessoas decentes que queriam um mundo melhor. Assim que começaram a impor o socialismo contra a oposição da maioria, eles se perderam.

A ideia de que o comunismo ou socialismo exigia uma ditadura por uma minoria foi amplamente aceita entre os radicais nas décadas de 1960 e 1970. Karmal aprendera sua política na prisão em Cabul, Taraki aprendera a dele em Bombaim e Amin passara anos em Nova York. Os comunistas afegãos estavam simplesmente fazendo o que a esquerda globalmente sabia que deveria ser feito se realmente quisessem mudar o mundo. Sua tragédia é, de certa forma, a mesma replicada em outros lugares.

Quando eu o conheci, os olhos de Tahir se encheram de lágrimas enquanto ele falava sobre a ignorância e o sofrimento dos aldeões que encontramos. Ele os entendia, os amava e sabia por que era muito difícil convencê-los. Há alguns anos, eu estava tomando uma cerveja com um amigo afegão em Londres e perguntei se ele conhecia Tahir. Sim, disse ele, um homem bom, gentil.

“Um Parchami”, disse ele.

“Sim”, eu disse, “um Parchami”.

Meu amigo estava na prisão com Tahir em Jalalabad no outono de 1978, pouco antes da invasão soviética. Ele saiu, e Tahir não. Meu amigo não tinha informações definitivas, mas tinha certeza de que Tahir havia sido executado.

Espero que ele esteja errado – mas também sei que ele não estava.

Sobre os autores

é escritor. Seus livros são "People’s History of the Vietnam War", "Tigers of the Snow", "What’s Wrong with America" e "Stop Global Warming". Ele bloga com Nancy Lindisfarne no Anne Bonny Pirate (annebonnypirate.org).

Sobre o autor

Jonathan Neale é escritor. Seus livros são "People’s History of the Vietnam War", "Tigers of the Snow", "What’s Wrong with America" e "Stop Global Warming". Ele bloga com Nancy Lindisfarne no Anne Bonny Pirate (annebonnypirate.org).

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