O que torna a Escandinávia tão igualitária?

03/10/2019

Por
Andreas Møller Mulvad e Rune Møller Stahl

Tradução
Gabriel Landi Fazzio e Natalia Oliveira

Qual é a história por trás do forte Estado de bem-estar social dos países nórdicos? Dica: não é sua homogeneidade branca.

Multidão acompanha comício em Oslo antes das eleições gerais de 1936. Partido Trabalhista Norueguês / Flickr

Há uma razão pela qual os Estados de bem-estar social escandinavos seguem sendo motivo de inveja de muitos ao redor do mundo. Mesmo após décadas de tentativas de reformá-los pelo projeto neoliberal, a Escandinávia exibe uma divisão igualitária de rendimentos relativamente elevados, grandes programas de bem-estar social financiados por impostos, sindicatos fortes e taxas de desemprego relativamente baixas.

Os manuais neoliberais nos dizem que o único caminho para a prosperidade social é por meio de alíquotas baixas, desregulamentação econômica e competitividade selvagem nos mercados de trabalho. Ainda assim, a despeito de não cumprir as métricas da variante anglo-americana do capitalismo, os países escandinavos continuam a prosperar de maneira obstinada e sempre aparecem no topo dos índices globais de felicidade e qualidade de vida.

Portanto, não é nenhuma surpresa encontrar neoliberais e conservadores dedicando uma energia intelectual considerável em deslegitimar o “modelo nórdico” de bem-estar social.

No começo de 2015, o Institute of Economic Affairs (Instituto de Assuntos Econômicos), um think tank neoliberal britânico, dedicou um livro inteiro à “não excepcionalidade” escandinava. O objetivo era dar uma explicação que minimizava a história de sucesso dos Estados de bem-estar social nórdicos, argumentando à velha moda Hayekiana que o sucesso dos países nórdicos precederia a era do bem-estar social, e que qualquer coisa de excepcional e bem-sucedido sobre tal modelo já teria desaparecido desde então.

Enquanto isso, nos EUA, onde a campanha de Bernie Sanders pôs a ideia da social-democracia nórdica no centro do debate político, Kevin Williamson, da National Review, adotou a estratégia oposta. Em alguns artigos recentes, ele reconhece a contínua excelência da experiência nórdica e admite que os países nórdicos têm sido, de fato, relativamente bem-sucedidos até há bem pouco tempo.

Entretanto, em uma estranha reviravolta, Williamson também racializa a experiência nórdica, atrelando o sucesso de políticas social-democráticas à alegada branquitude e homogeneidade dos países nórdicos e, por conseguinte, enfraquecendo sua credibilidade como fonte de inspiração para progressistas estadunidenses comprometidos com o antirracismo.

O “consenso nórdico”

Em um artigo publicado em julho de 2015 na National Review, Williamson chama Sanders de “nacional-socialista” e denuncia seu uso da retórica do “nós e eles” como “não escandinava”.

Williamson interpreta a vontade de Sanders de lançar luz sobre conflitos de interesse frente o poder popular como se este fosse o “completo oposto” de como se faz política na Escandinávia – onde a política seria “guiada pelo consenso” – e onde essa “conformidade” constituiria uma “força estabilizadora e moderadora da política, permitindo o surgimento de um sutil, sofisticado e notavelmente amplo acordo social que contém as disputas políticas”.

A política escandinava é muito menos partidária e mais pró-coalizão que nos EUA, com a representação proporcional sendo eficaz em negar a qualquer partido uma maioria parlamentar absoluta, mas não devemos confundir uma conjuntura histórica circunstancial do século XX, de relativa civilidade política, como se fosse uma essência supra-histórica da cultura política nórdica.

Hoje o Estado de bem-estar social universal e o mercado de trabalho regulado e igualitário são tão populares entre os eleitores, que mesmo políticos liberais ou conservadores querendo desmontá-los têm de concorrer como defensores do bem-estar social se quiserem evitar o suicídio eleitoral. Porém, essa situação não emergiu das brumas da história. É o produto de décadas de lutas de organizações de trabalhadores e outros movimentos populares durante o século passado.

O Estado de bem-estar social-democrático enfrentou duros desafios históricos – tanto com a esquerda, diante de movimentos comunistas e da nova esquerda, quanto com a direita, pelos setores organizados da economia, do empresariado, como a poderosa organização patronal sueca SAF, e movimentos anti-impostos ao estilo Tea Party, que apareceram na década de 70 na Noruega e na Dinamarca.

Posto de maneira simples, o “consenso nórdico” nunca foi tão generalizado como Williamson quer fazer-nos crer.

Privilégio social-democrático?

Pouco depois do artigo “nacional-socialista”, Williamson publicou outro artigo intitulado “O mais branco dos privilégios”. Nele, executa uma surpreendente peça de pseudo-psicanálise sobre as pessoas na esquerda estadunidense que apontam o Estado de bem-estar social escandinavo como fonte de inspiração política.

Progressistas podem dizer que eles querem adotar modelos institucionais de bem-estar social universal como o da Escandinávia, mas o que eles realmente querem dizer, Williamson nos informa – com uma forte dose de hermenêutica da suspeita – é que eles não gostam de diversidade étnica. “‘Gostaríamos de tornar os EUA mais parecidos com a Noruega ou a Finlândia’ seria, entre outras coisas, uma forma de dizer ‘Gostaríamos de tornar os EUA mais parecidos com uma sociedade praticamente toda branca”.

Essa acusação parece ainda mais estranha considerando que foi o próprio Williamson que, apenas dois dias antes, havia nos relembrado que são os conservadores – não os progressistas – que teorizam há muito tempo que a homogeneidade étnico-cultural seria a chave para o sucesso político-econômico: “Uma crítica de longa data dos conservadores aos planos (como os promovidos por Bernie) para uma recriação do modelo dinamarquês em Nova Jersey, Texas e Mississipi é que o relativo sucesso dos Estados de bem-estar social da Europa Ocidental e, em particular, dos Estados escandinavos, está enraizado na homogeneidade cultural e étnica”.

Em todo caso, a premissa da tentativa disfarçada de Williamson de racializar a história de sucesso escandinava tem defeitos. Williamson escreve que as “nações do norte da Europa” eram, até recentemente, “etnicamente homogêneas, majoritariamente brancas, hostis à imigração, nacionalistas, e abertamente racistas em muito de sua política doméstica”.

As primeiras duas observações – homogêneas e brancas – são obviamente verdadeiras, porém banais. De qualquer forma, as alegações subsequentes põem Williamson numa situação delicada. Talvez tendo percebido em parte que seria evidentemente falso descrever de forma direta seu verdadeiro alvo, os países nórdicos, como particularmente racistas, xenofóbicos ou nacionalistas comparados a outros países, na Europa e ao redor do mundo, Williamson opta por uma descrição mais ampla e vaga como “norte da Europa”.

Pelos padrões europeus, a Escandinávia não é muito diferente quando se trata de racismo e nacionalismo, e é fácil encontrar exemplos tanto de hostilidade para com imigrantes, quanto de nacionalismo chauvinista e políticas racistas na história dos países nórdicos.

Por exemplo, como na maior parte dos países europeus, o antissemitismo foi grave nos países nórdicos antes da Segunda Guerra Mundial, e a febre nacionalista varreu todos os países nórdicos no século XIX, como o fez ao redor de todo o mundo.

Do mesmo modo, na medida em que os países nórdicos tiveram uma história colonial em menor grau, há também uma história de racismo institucional (à la Bélgica, Alemanha, Espanha, Portugal, Reino Unido, Holanda, França, EUA, etc.) que sobrevive até os tempos contemporâneos. O terrível tratamento dado pelas autoridades dinamarquesas às populações indígenas da Groenlândia é um exemplo típico do período pós-Segunda Guerra.

No entanto, Williamson não consegue provar, primeiro, que os países nórdicos – seja falando sobre política de Estado ou sentimento popular – realmente têm um histórico consistentemente pior que outros países (incluindo os EUA); e, segundo, que o racismo desempenhou algum papel no estabelecimento dos Estados de bem-estar social de estilo nórdico ao longo do século XX.

Sua tentativa de comprovar a alegação de uma xenofobia nórdica intrínseca é limitada a um seletivo rol de fatos sobre a história migratória sueca, provavelmente a verdade mais medonha que ele conseguiu encontrar. Numa análise mais detalhada, todas as acusações parecem derivar de um único artigo do antropólogo Charles Westin, e nenhuma delas parece realmente respaldar a insinuação de Williamson quanto a um racismo institucional sueco.

Ele apresenta três informações aos leitores. Primeiro, que, por muitos anos, a maioria dos trabalhadores imigrantes que vinham para a Suécia eram de outros países escandinavos porque as confederações sindicais preocupavam-se com a “força de trabalho estrangeira barata”.  Ao destacar esse fato, Williamson simplesmente expõe sua má-fé ideológica ao definir qualquer oposição a controles de entrada de mão de obra no mercado de trabalho nacional, sejam quais forem suas motivações, como paleoconservadora aos moldes de Pat Buchanan.

Entretanto, o posicionamento da confederação sindical sueca, a LO, evidentemente não foi motivado por xenofobia. Ao contrário, o propósito era defender as condições de vida de qualquer trabalhador na Suécia, sem distinção de raça, etnia ou cidadania. Como Westin escreve (mas Williamson convenientemente se esquece de adicionar), “[A LO] concordou que importar força de trabalho mais barata não seria permitido e que trabalhadores estrangeiros deveriam desfrutar dos mesmos níveis salariais e direitos que os suecos, incluindo acesso a benefícios para desempregados”.

Em segundo lugar, ele diz que muitos judeus foram rejeitados quando buscaram refúgio na Suécia entre 1930 e 1940 devido à propagação do antissemitismo. O que Williamson não conta é que esse cenário mudou um tanto drasticamente durante a guerra em si, quando um grande número de judeus da Noruega e da Dinamarca (juntamente com membros dos movimentos de resistência à ocupação alemã) fugiram para a Suécia. Aqui, de novo, Westin é esclarecedor: “No começo houve alguma relutância em aceitar esses estrangeiros mas, de modo geral, logo eles foram aceitos e mesmo bem-vindos”.

Em terceiro lugar, ele diz que “a palavra sueca moderna para ‘imigrante’ não significa “pessoa estrangeira” mas “pessoa não nórdica na Suécia”. Esse fato tem algo de incisivo, mas aqui também Williamson se esquece de nos contar a história inteira – desta vez sobre as tentativas diligentes do Estado sueco de combater esse infeliz pensamento habitual.

Como Westin escreve,

“Hoje, as autoridades evitam o termo “imigrante”, usando, ao invés disso, “pessoa de origem migrante” no discurso oficial. Uma política de gestão da diversidade foi introduzida alguns anos atrás a fim de combater tendências de exclusão social e estereotipagem. Também foram fortalecidas as prévias leis de combate à discriminação étnica, antes mais fracas”.

Em suma, a argumentação de Williamson ao apresentar o modelo nórdico como inerentemente racista é fraca, na melhor das hipóteses. É verdade que os países nórdicos hoje em dia contam com consideráveis movimentos populistas de direita dominados por valores xenofóbicos, mas isso também é verdadeiro para a maior parte do continente europeu.

De fato, se o Estado de bem-estar social ao modo nórdico fosse particularmente compatível com o racismo e conduzisse a ele, como se poderia explicar o similar crescimento do populismo xenofóbico de direita na França, na Suíça, no Reino Unido, todos eles países com sistemas sociais distintamente diferentes?

É verdade que ainda não vemos fortes movimentos antirracistas e antidiscriminação na Escandinávia análogos ao Movimento pelos Direitos Civis nos EUA. Por outro lado, seria sofrido encontrar exemplos na história nórdica moderna de algo equivalente às organizações populares racistas como a Ku Klux Klan ou ao racismo institucionalizado de Jim Crow.

Não estamos sugerindo que as populações nórdicas sejam inerentemente menos racistas que outras. Estamos meramente dizendo que Williamson falha em provar que há algo intrinsecamente racista ou nacionalista acerca da experiência nórdica. Nem ao menos os Estados de bem-estar social nórdicos do século XX tiveram na exclusão étnica um fator principal para seu funcionamento; ao contrário, eles eram baseados em princípios universais de direito à cidadania, e não em princípios internos exclusivistas baseados em raça ou cultura.

Excepcionalidade escandinava

Se a “homogeneidade branca” não é a variável chave, como deveríamos explicar, então, a excepcionalidade escandinava? O primeiro passo é perceber que muitos aspectos do desenvolvimento do Estado de bem-estar social escandinavo não são tão excepcionais assim – são variantes de uma experiência geral da Europa ocidental.

Os Estados nórdicos modernos estiveram na afortunada posição de se desenvolverem na proximidade geográfica imediata dos países centrais do sistema capitalista mundial, ao mesmo tempo em que mantinham sua independência política. Essa fortuita circunstância histórica implicou que os países nórdicos lucrassem, direta ou indiretamente, primeiro dos fluxos comerciais dos primórdios do capitalismo mercantil e depois do industrialismo e do colonialismo.

Em um primeiro momento, eles se desenvolveram por meio do comércio lucrativo de produtos primários – bens agrícolas processados na Dinamarca, madeira e minerais metálicos na Suécia – mas, do fim do século XIX em diante, eles conseguiram se industrializar. Graças a isso, os países nórdicos, como o resto do noroeste da Europa, tornaram-se comparativamente ricos e bem organizados.

A Escandinávia também não esteve sozinha no desenvolvimento de amplos sistemas de bem-estar social no século XX. Por toda a Europa Ocidental, a essência de um comprometimento social em torno da construção de instituições de bem-estar universais emergiu na alvorada do século XX pari passu com a ascensão dos movimentos de trabalhadores organizados.

Na esteira da Segunda Guerra Mundial, as elites europeias, cautelosas com uma classe trabalhadora radicalizada e a ascensão do comunismo soviético, viram-se na necessidade de fazer concessões aos trabalhadores a fim de manter o sistema capitalista. Isso resultou no rápido crescimento do salário real e na criação de instituições de bem-estar social em toda a Europa Ocidental controlada pelos EUA, auxiliada pelo Plano Marshall e pelo generoso acesso ao mercado estadunidense.

Mais uma vez, a Escandinávia fez igual à tendência geral da Europa Ocidental. Porém, esse novo modelo de capitalismo social tomou uma forma mais radical aqui do que em outros lugares. Sob a hegemonia de fortes partidos social-democratas, a redistribuição e o bem-estar social em áreas como saúde, educação, transporte e moradia atingiram um alcance não visto em qualquer outro lugar da Europa.

Isso foi em grande medida o produto de um movimento sindical especialmente forte, politicamente fortalecido por robustas alianças com partidos social-democratas. Os trabalhadores conseguiram atingir hegemonia política forjando alianças com outros movimentos populares em apoio do igualitarismo e da democratização, principalmente os movimentos corporativos de base camponesa e os movimentos de mulheres após os anos 70.

O Estado de bem-estar social escandinavo atingiu seu ápice provavelmente nos anos 70 e 80, quando a desigualdade esteve com os mais baixos índices registrados em economias capitalistas. Além disso, a Dinamarca e a Suécia viram o apoio sindical crescer em relação a programas de democracia econômica, que, por meio de fundos salariais (“wage-earner funds“, um tipo de participação nos lucros), gradualmente assumiriam a propriedade dos meios de produção.

Entretanto, esse também foi o momento em que o modelo nórdico começou a mostrar suas primeiras fissuras.

O projeto social-democrata nunca conseguiu contestar com sucesso o poder do capital privado. Quando a pressão da competição internacional e da integração econômica europeia estreitaram o espaço para políticas nacionais e deslocaram o terreno político decisivamente em favor do mercado, o comprometimento social inerente ao “modelo nórdico de bem-estar social” começou a desmanchar-se.

Nessa conjuntura, o modelo nórdico provou-se frágil, e a Escandinávia não ficou imune à onda neoliberal que varreu o globo após a queda do Muro de Berlim. Desde os anos 90, mesmo os partidos social-democratas nórdicos têm se adaptado em grande escala a um novo consenso quanto a políticas de privatizações, desregulamentação e redução de direitos e benefícios sociais. Como consequência, os sistemas sociais da Escandinávia estão, aos poucos, aproximando-se da média europeia.

A ascensão da direita

É em um contexto de deterioração do Estado de bem-estar social que se torna possível entender a roupagem específica que o populismo de direita assumiu na Escandinávia.

Williamson está realmente certo quando aponta para o “chauvinismo do bem-estar social” como um mal-estar contemporâneo no clima político nórdico, mas ele não compreende as causas desse fenômeno. A ascensão dos Verdadeiros Finlandeses, do Partido Progressista Norueguês, do Partido do Povo Dinamarquês e dos Democratas Suecos é resultado de particularidades nacionais. No entanto, em comum a todos esses grupos está o apoio crucial que recebem de frações significativas da classe trabalhadora que, desde os anos 80, têm perdido grande parte da relativa segurança em suas vidas como consequência da desindustrialização e da redução de gastos com o bem-estar social.

Para além disso, o enfraquecimento do movimento trabalhista na era neoliberal produziu um ciclo de desdobramentos negativos que cortou os profundos laços – a infraestrutura da sociedade civil – entre o movimento trabalhista, os social-democratas e a classe trabalhadora, além de abalarem os valores de solidariedade.

Em seu livro sobre a ascensão do Partido Progressista, o autor e pesquisador norueguês Magnus Marsdal descreve como os eleitores tradicionais da social-democracia entre a classe trabalhadora são incapazes de se identificar com um partido social-democrata que parece absorvido em tecnocracia acadêmica e completamente desligado das preocupações dos trabalhadores . Com os partidos dominantes advogando o mesmo tipo de política econômica, esses eleitores voltam-se ao problema da imigração na hora de decidir sua lealdade política.

A peculiaridade histórica do populismo xenofóbico e de direita que vem varrendo os países nórdicos e o resto do norte da Europa é sua coarticulação com a defesa do Estado de bem-estar social em desmoronamento. Conforme a proteção social diminui, algumas pessoas passam a interpretar erroneamente dois efeitos da globalização e da reestruturação do capital – a imigração em massa e a deterioração dos serviços de bem-estar social – como se tivessem uma relação de causa e consequência.

É precisamente devido ao fato de os Estados de bem-estar social nórdicos serem universais, e não etnicamente exclusivistas, que dois problemas analiticamente distintos tornaram-se justapostos na política nórdica contemporânea: por um lado, manter o Estado de bem-estar social sob a pressão da globalização neoliberal; por outro lado, lidar com a transformação de uma sociedade monoétnica para uma multiétnica.

O casamento entre duas formas de nostalgia indutoras de sensação de segurança – étnico-cultural e material – é o chauvinismo do bem-estar social explicado em poucas palavras. Entretanto, esse chauvinismo do bem-estar social não é uma continuação lógica do Estado de bem-estar social nórdico. Na verdade, é um triste desvio infeccioso dele, produzido pelo desespero popular depois de mais de três décadas de reformas neoliberais.

Lições da experiência nórdica

Isso não significa que os progressistas estrangeiros não consigam encontrar inspirações no sistema social escandinavo. Desde educação gratuita financiada por impostos até subsídios para assistência infantil e generosos benefícios para desempregados, há diversos programas que continuam entre os mais progressistas do planeta.

Todavia, enquanto buscam inspirações nessas iniciativas, é importante observar que a excepcionalidade escandinava não é baseada em um determinado rol de instituições e programas prontos para serem implementados por iluminados tecnocratas. Os projetos institucionais dos países nórdicos foram produzidos por um forte movimento sindical em aliança com outras forças populares. Quando essa base começou a erodir, como aconteceu na Escandinávia de 1980 em diante, as instituições de bem-estar social foram junto.

A única forma de atingir “níveis escandinavos” de redistribuição e proteção social é começar a construir poderosos movimentos populares capazes de fazer avançar essa agenda.

Um bem-sucedido movimento por um Estado de bem-estar social abrangente em um país multiétnico daria não apenas uma excelente resposta ao determinismo cultural explícito ou implícito, como também seria uma importante fonte de inspiração para os progressistas europeus à procura de ferramentas eficazes para enfrentar o chauvinismo do bem-estar social.

Sobre os autores

é professor assistente na Copenhagen Business School

é candidato a um PhD em ciência política na University of Copenhagen.