Porque o Vale do Silício ama o coronavírus

13/04/2020

Por
Matthew Cole

Tradução
Natanael Alencar

A pandemia é o choque que o Vale do Silício precisava para completar sua presença na sociabilidade e nos ambientes de trabalho – com novas tecnologias controlando nosso dia-a-dia de maneiras tão profunda que serão difíceis de reverter. Precisamos nos apropriar dessa infraestrutura para nos proteger dessas empresas.

Imagem de Da Kuk / Getty Images.

O coronavírus é um choque profundo na economia global, causando pânico nos mercados financeiros, um apocalipse nos empregos e uma crise sem precedentes dos sistemas de saúde. Ao mesmo tempo, as medidas necessárias de segurança estão desafiando a própria natureza do trabalho e sociabilidade humana. Distanciamento e isolamento social tem sido implementados ao redor do mundo e em muitos países, impostos por alguns Estado com rigidez militar.

Enquanto Boris Johnson, salvo pelo sistema público de saúde inglês, aplica demãos de deleites churchillianos em sua fantasia de “Estado de guerra”, o Reino Unido encara uma catástrofe social que vai além da economia. No curto prazo, haverá sérias perdas no setor industrial devido à diminuição da escala ou falência da clientela, e entraremos em uma recessão. Mas, no longo prazo, testemunharemos mudanças na natureza do trabalho e na sociabilidade humana que parecem próximas do livro “Admirável mundo novo” do que de nossa realidade pré-coronavírus. Os gigantes do setor de tecnologia estão celebrando e a chave do sucesso deles será nossa quarentena. Um mundo diferente virá à tona assim que a economia se recuperar, um mundo no qual a tecnologia media uma proporção muito maior de nossas vidas do que qualquer ideólogo do Vale do Silício poderia ter sonhado que seria possível.

Embora lucrar com crises seja comum na trajetória capitalista, a forma particular que as companhias de tecnologia estão se beneficiando da pandemia tem impactos sociais muito mais amplos do que simplesmente financiar o lucro delas. Ainda que a “Aldeia Global” de MacLuhan seja verdade há algum tempo, ele não poderia ter antecipado a escala e o escopo da pervasividade tecnológica que está em curso.

Conforme afirmou Wayne Kurtzman, um analista na firma de pesquisa em tecnologia IDC, “isso pode ter impulsionado o mercado de tecnologia em sete anos”. Os imperativos da crise por trabalho de casa e por isolamento social “é uma oportunidade perfeita para que as companhias se tornem os empreendimentos digitais que eles almejam ser”, acrescentou Kutzman. É o realismo vampírico do capitalismo na mais alta octanagem. Esta é uma questão que devemos levar muito a sério – o coronavírus é o choque que o setor de tecnologia precisava para completar a revolução de silício. 

Para captar as implicações da nova ecologia cibernética para o trabalho e sociedade, precisamos compreender a economia política da conectividade.  Ao longo do fim dos anos 90 e da década de 2000, houve investimentos massivos de investimento público e privado em infraestrutura de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TIC). Depois da crise financeira de 2007-8, a larga escala de desestruturação financeira faz com que o capital de risco migrasse para as novas tecnologias, propulsionando transformações digitais e criando mudanças estruturais na infraestrutura das TICs direcionadas para pavimentar conectividade móvel e “datificação” em massa.

De acordo com o Internet World Stats, a conectividade com a internet cresceu de 16 milhões ou 0,4% da população global, em dezembro de 1995, para 4,57 bilhões ou 58,7% da população global, em janeiro de 2020. Em 2018, 5,1 bilhões de pessoas (66% da população) possuía conexão móvel e espera-se que chegue a 5,7 bilhões (71% da população) em 2023. Havia 3,7 bilhões de conexões 4G em 2018.  

Ao longo da última década, testemunhamos o chamado “crescimento da economia imaterial”, que se refere ao aumento nos investimentos em bens como direito de propriedade intelectual, branding, software e rede de dados – que possuem dinâmica econômica diferente do que os investimentos tangíveis. Um dos bens intangíveis mais importantes é informação, atualmente tratada como capital na maioria das grandes corporações. A ascensão do uso massivo dos smartphones, o consumo digitalmente mediado e comunicação de máquina para máquina através da “internet das coisas” em produção permitiu uma “datificação” em uma escala sem precedentes.

A vastidão de dados no interior da relação entre humanos e máquinas é difícil de imaginar. O crescimento em dados normalmente segue o que é conhecido como lei de Cooper, na qual o tráfego quase duplica a cada 2,5 anos, o que significa que os 33 zetabites (trilhões de gigabites) em 2018 provavelmente aumentará para 1322 zetabites em 2023 e 528 zetabites em 2028. Contudo, é importante notar que esses dados são diversos e nem todos possuem valor. A maior parcela é simplesmente de streaming de vídeo de plataformas como Youtube e Netflix. O valor está nos dados dirigidos e triangulados sobre hábitos de trabalho e de consumo provenientes de companhias digitalmente conectadas. Eles são usados pelo marketing direcionado, e têm sido utilizados cada vez mais para treinar e incrementar algoritmos de aplicativos de inteligências artificiais voltados para a produção e para o consumo.  

Enquanto a maioria das companhias ainda não conta com políticas formais de avaliação de dados, os dados são tipicamente avaliados através de uma combinação de três coisas: 1) o valor do bem; 2) o valor da atividade; 3) o valor futuro. Em 2018, estima-se que a indústria corretora de dados gerou US$ 200 bilhões em receita anual e está expandindo. Apenas na Europa, a Comissão Europeia estima que o mercado de dados (mercado de produtos e serviços digitais) pode chegar a valer mais de 106,8 bilhões de euros em 2020. As três maiores corretoras de dados – Experian, Equifaz e Transunion – giram bilhões de dólares anualmente. Esses dados possuem valor porque potencialmente permitem que companhias antecipem mudanças do mercado, manipulem comportamentos de trabalho e de consumo e que sejam usados para vigilância em massa por empresas de tecnologia e Estados.  

O isolamento global provocado pelo coronavírus aumentou aos milhões o número de pessoas trabalhando de casa, uma mudança que pode ser permanente. Esse crescimento aumentou significativamente o tráfego online e a mediação digital. De acordo com a companhia de segurança Cloudflare, o tráfego geral é entre 10% e 20% e o pico chega a 13% desde o começo de fevereiro, apenas nos Estados Unidos. A maior parte do aumento do tráfego corresponde aos consumidores de serviços de vídeo com teleconferência e jogos, um aumento de 300% e US$ 400 respectivamente. No Reino Unido, o chefe do escritório líder em tecnologia e informação da British Telecomunicações, Howard Watson, disse que houve um recorde no fluxo de tráfego, chegando ao pico de 17,5 terabites por segundo, com um tráfego em dias normais por volta de 4 a 5 terabites por segundo. O uso de dados já chega a mais de 30% para os 18 milhões de clientes da Vodafone e tende a crescer na medida em que as estratégias de governo seguem no mesmos sentido que as dos vizinhos europeus. Nós não temos nenhuma propriedade e pouquíssimo controle através do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados sobre o que é coletado em nossa atividade digital.

Muitas nações sequer são donos da infraestrutura e si. A infraestrutura da internet consiste em uma espinha dorsal de cabos submarinos, rede de TIC nacional e armazenamento de dados (veja o exemplo do Google). No Reino Unido, as redes de telecomunicação são propriedade da Openreach, que foi estabelecida em 2006 e é uma grande divisão do Grupo British Telecomunicações PLC. Em 2019, a Google possuía 1,4% dos cabos de submarinos no mundo, em medidas de comprimento, e 8,5% se incluirmos cabos com propriedade compartilhada. A compra de cabos é uma ampliação da privatização de infraestruturas locais de internet que vem ocorrendo desde que a Netflix decolou. A maior parte da atividade online (incluindo Netflix) depende de algum tipo de armazenamento privado de dados, em sua maioria providos pela Amazon Web Services.

Dado o fato de que os isolamentos estão acontecendo em muitos países e que o trabalho em casa é a nova normalidade, não deveria nos surpreender que algumas companhias de tecnologia estão lucrando com a crise. Ações da Zoom, uma plataforma de vídeo conferencia, aumentaram 74% esse ano, enquanto a S&P 500 desvalorizou em 21% na maior liquidação desde a crise de 2008. A receita do quarto trimestre totalizou US$ 188,3 milhões, mais do que 78% em relação ao ano anterior. A companhia aumentou em 2,22 milhões de usuários ativos mensais no fim de fevereiro de 2020, mais do que teve em todo ano de 2019. Mas a startup do Vale do Silício ainda tem de publicar um relatório de transparência detalhando suas práticas de segurança, como exige o grupo Access Now.

Outra plataforma vital para facilitar o teletrabalho é a Microsoft Teams. Ela está incluída na assinatura do pacote Office 365 e fornece meios de gerenciar projetos, fluxos de trabalho e ferramentas de conferência. Entre 11 e 19 de março, houve um aumento de usuários na Microsof Teams na ordem dos 12 milhões – de 32 para 40 milhões, ante os 20 milhões em novembro. Os dados disponibilizados para essas companhias sobre processos de fluxo de trabalho, comunicação e comportamento online são extremamente valiosos.   

Existe um imperativo de “datificação” das organizações que abarca a vigilância das pessoas, lugares, processos, coisas e relações entre eles. A empresa moderna busca extrair todos os dados, de todas fontes (máquina, trabalho e consumidores), de qualquer maneira (geralmente burlando leis). A operação dos métodos de análise de dados tende a ser opaca ou ininteligível aos empregados. O crescimento massivo de trabalho digitalmente mediado e de atividade social tem dado às companhias de tecnologia a oportunidade de capturar dados sobre os comportamentos dos trabalhadores e conhecimento situado.

Esses dados podem revelar coisas sobre os indivíduos que nem eles estão cientes. A captura de dados sobre fluxos de trabalho, comunicação e reações emocionais mina o controle dos trabalhadores sobre seus processos de trabalho bem como a privacidade dos consumidores. Existem limitadas proteções sociais nesse ambiente digital e a aplicação delas nem sempre é efetiva. Isso torna difícil de garantir o consentimento informado dos empregados baseado nas diretivas do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e ainda mais difícil situar a questão dos dados como parte das negociações coletivas.

Como Thomas Piketty apontou recentemente, a “datificação” e a automação tornam “a questão de quem controla as máquinas e é dono das patentes e os fluxos de renda associados com essas propriedades cada vez mais importante”. De acordo com um relatório elaborado por um grupo de experts de alto nível sobre o impacto das transformações digitais nos mercados de trabalho na União Europeia, os dados de trabalhadores e consumidores contribuem, sem que haja remuneração, para “o estoque de capital intangível que em algum momento irá substituir seus trabalhos intelectuais e manuais”.

A “datificação” e a automação da vida cotidiana permite que o capital ponha rédeas no conhecimento da humanidade de maneiras que subordina a sociedade à lógica daqueles que controlam as máquinas. É urgente que conheçamos isso como um problema sério. Não deveríamos deixar que as companhias de tecnologias continuem a capturar nossos dados e os transformem em capital. Precisamos nos apropriar das máquinas – ou destruí-las.

Sobre os autores

é um pesquisador em nível de pós-doutorado no Centro para Relações de Emprego, Inocação e Mudança na Universidade de Administração de Leeds.Ele também é pesquisador afiliado da Autonomia, coordenador do IIPPE Grupo de Política Econômica do Trabalho e membro da Associação de Relações Industriais das Universidades Britânicas.

Sobre o autor

Matthew Cole é um pesquisador em nível de pós-doutorado no Centro para Relações de Emprego, Inocação e Mudança na Universidade de Administração de Leeds.Ele também é pesquisador afiliado da Autonomia, coordenador do IIPPE Grupo de Política Econômica do Trabalho e membro da Associação de Relações Industriais das Universidades Britânicas.