Como os ricos gentrificaram e desvirtuaram o Burning Man

07/09/2020

Por
Keith A. Spencer

Tradução
Ricardo Lisias

Burning Man se tornou um festival para capitalistas libertários poderosos, fugindo do ideal inicial inspirado nos situacionistas de Maio de 1968. Quando “liberdade” e “inclusão” são desconectadas da democracia, os processos acabam desembocando no elitismo.

Trey Ratcliff / Flickr.

A princípio o festival anual Burning Man parece uma utopia socialista: leva
milhares de pessoas a um deserto vazio para criar uma sociedade alternativa. Dinheiro e propaganda estão banidos e a economia se baseia na doação. O festival encoraja seus membros a levar consigo os meios necessários para esse novo mundo, de acordo com as próprias habilidades.

Além disso, apresenta a “inclusão radical”, a “auto expressão radical” e a “desmercantilização” como princípios, e apresenta essa sociedade alternativa como um espaço de liberdade, em que as fronteiras de sexo e gênero são fluidas e devem ser ultrapassadas.

Essas ideias – a essência do Burning Man – são com certeza chamativas.

No entanto, os capitalistas também adoram, sem ironia, o Burning Man, e para quem acompanhou a história recente do festival, a ideia de que ele é absolutamente anticapitalista parece absurda: no ano passado (2014), um investidor bilionário capitalista fez uma festa que custou 16.500 dólares por cabeça no festival, sua área era um negócio hiper exclusivo repleto de convidados e modelos circulando para entretê-los.

O Burning Man está conquistando a reputação de “evento de networking” entre o pessoal de tecnologia do Vale do Silício, e revistas de tecnologia agora mandam jornalistas para fazer a cobertura. CEOs como Mark Zuckerberg do Facebook e Larry Page do Alphabet são fãs entusiasmados, bem como o ícone conservador anti-impostos Grover Norquist e muitos colaboradores da revista libertária (e financiada pelas indústrias Koch) Reason. O CEO da Tesla, Elon Musk, vai ainda mais longe ao declarar que o Burning Man “é o Vale do Silício”.

Auto expressão radical

Com duração de uma semana, o festival Burning Man acontece uma vez por ano no feriado do Dia do Trabalho em um remoto e alcalino campo no Noroeste de Nevada. Duas horas ao norte de Reno, o inóspito Black Rock Desert parece um lugar muito pobre para abrigar uma cidade temporária com 60 mil pessoas — e no entanto esse é justamente o ponto. Na área desértica, um mundo alienígena é criado e depois desmantelado no intervalo de um mês. O festival culmina com a queima deliberada de uma efígie simbólica, o “homem” do título, uma escultura de madeira com mais ou menos trinta metros de altura.

O festival Burning Man tem origens despretensiosas: um grupo de artistas
e hippies que se juntou para queimar uma efígie em Baker Beach, São Francisco, e em 1990 se organizaram para realizar o mesmo festival em um local onde a polícia não os incomodaria por causa das pirotecnias não autorizadas. Uma pesquisa os levou ao deserto de Black Rock.

Burning Man é de fato um descendente da contracultura de São Francisco
dos tempos passados, e tem o mesmo tipo de libertino “espírito da nudez”.
Alguns dos primeiros organizadores do festival tinham uma admiração especial pelos Situacionistas, o grupo francês de esquerda cujos manifestos e grafites como “nunca trabalhe” tornaram-se ícones do Maio de 68 na França.

Apesar de os Situacionistas terem sempre sido um pouco opacos ideologicamente, uma de suas crenças centrais era a de que as cidades haviam se tornado espaços opressores de consumo e trabalho, e precisavam ser reimaginadas como locais de lazer e revolta. Por isso, grande parte do trabalho deles envolvia cortar e rearranjar mapas, e consumir alucinógenos enquanto vagavam por Paris.

É possível lembrar-se dos Situacionistas ao caminhar por Black Rock City, a efêmera cidade do Burning Man. Ainda que Black Rock City pareça em certo sentido uma cidade, com uma malha circular de terra margeando a escultura do “homem”. Por outro lado ela é completamente surreal: as pessoas andam seminuas vestidas com peles e purpurina, canos adornados com a forma de navios ou dragões tocam house music enquanto cruzam a rua.

Como qualquer cidade real, Burning Man tem bares, restaurantes, casas
noturnas e teatros, mas são todos levados pelos participantes, pois eles devem levar “alguma coisa“:

As pessoas que vão ao Burning Man não são meros “frequentadores”, mas na verdade participantes ativos em todos os sentidos da palavra: criam a cidade, a interação, a arte, as performances e por fim a “experiência”. A participação é o segredo de Burning Man.

Essa participação parece algo igualitário, mas conduz a contradições
interessantes. Os espaços e espetáculos mais elaborados tendem a ser trazidos pelos ricos pois eles têm o tempo, o dinheiro, ou ambos, e portanto podem fazer isso. Os frequentadores mais ricos normalmente pagam funcionários para construir e planejar seus próprios espaços (e muitas vezes exclusivos). Se você examinar a lista online de anúncios gratuitos de São Francisco no mês de agosto, vai ver propagandas para trabalhos de temporada, bicos para cuidar das regalias dos burners ricos.

Os ricos também contratam guias sherpas do Himalaia para acompanhá-
los pelo festival. Alguns burners se referem pejorativamente aos espaços dessas pessoas ricas como “os acampamentos desconfigurados“.

A admiração do Burning Man pelo Vale do Silício é antiga e  trabalhadores ligados à tecnologia sempre foram fãs do festival. Mas ele nem sempre foi destino de bilionários — no começo, era um festival gratuito com uma roda de tendas altas, arte esquisita e fogos de artificio; mas conforme os anos foram se passando, acampamentos desconfigurados mais exclusivos apareceram e cresceram junto com o preço dos ingressos — que foram de 35 dólares em 1994 para 390 dólares em 2015 (mais ou menos 16 vezes a taxa de inflação do período).

Black Rock City tem seu próprio aeroporto, licenciado pela FAA, desde 2000, e ele fica cada vez mais movimentado. Nos dias do evento você pode ir de San Carlos no Vale do Silício para o festival por 1.500 dólares. Em 2012, Mark Zuckerberg aterrissou no Burning Man em um helicóptero particular, e ficou por um dia apenas, para comer e servir sanduíches grelhados artesanais de queijo. Do New York Times:

“Costumávamos ter trailers e refeições pré-cozidas” afirmou um homem que frequenta o Burning Man com um grupo de empresários do Vale do Silício. (Ele pediu para não ser identificado para não prejudicar suas relações.) “Agora, apareceram os chefs mais exóticos do mundo e pessoas que constroem chalés para nós com camas e ar-condicionado.” Ele acrescentou se divertindo: “É isso, ar-condicionado no meio do deserto!”

A crescente presença da elite no Burning Man não é notada apenas pelos
forasteiros — frequentadores antigos resmungam que o Burning Man se tomou “gentrificado“. Comentando sobre a matéria do New York Times, burners revelam desgosto com frequentadores que não trabalham. “Pagar pessoas para vir aqui, cuidar de você, montar suas instalações… fazer a sua faxina… essas pessoas não têm noção.”   

Muitos burners ficaram furiosos depois de ler uma mulher contando que foi explorada ao trabalhar para convidados do investidor Jim Tananbaum que custaram 17 mil dólares cada. Em suas declarações, ela mostrou de várias formas diferentes como Tananbaum violava os princípios do festival, mantendo um “status VIP” ao fazer eventos e carros artísticos privativos e gritar com um de seus artistas contratados. 

Os funcionários de Tananbaum recebiam 180 dólares por dia sem hora
extra, mas a delatora anônima afirma que ela e outros trabalhavam de quinze a vinte horas por dia durante o festival. 

A classe emergente dos frequentadores do Burning Man é revelada por
dados: o censo do Burning Man (sim, eles têm um censo, exatamente como um Estado nação real) mostrou que de 2010 a 2014, o número de frequentadores que ganham mais de 300 mil dólares por ano dobrou de 1,4% para 2,7%. Esse número é especialmente significativo dada a grande presença dos 1% mais ricos no Burning Man. 

Em uma sociedade realmente democrática, todos têm voz igualmente. No
Burning Man todo mundo é convidado a participar mas as pessoas que têm
mais dinheiro decidem que tipo de sociedade o Burning Man vai ser — elas
escolhem os artistas e constroem suas próprias extravagâncias. Elas também determinam o tamanho da própria generosidade, e como gastar dinheiro.

Pode parecer uma bobagem destacar a falta de democracia no “governo”
de Black Rock City. Além de tudo, por que devemos nos preocupar se Jeff
Bezos encomendou um unicórnio gigantesco de metal, ou um enorme navio
pirata de metal, ou se Tananbaum quer gastar 2 milhões em um acampamento com ar-condicionado? Mas os princípios desses magos da tecnologia — de que as sociedades são criadas a partir da caridade, e que os verdadeiros “construtores do mundo” são os ricos e privilegiados — não desempenham o seu papel apenas no mundo de fantasia do Burning Man. Eles são transmitidos para o mundo real, frequentemente com resultados nada positivos. 

Lembremos quando o CEO do Facebook Mark Zuckerberg decidiu ajudar
a “arrumar” as escolas públicas de Newark? Em 2010, Zuckerberg — talvez
procurando melhorar sua imagem depois de sua representação insensível na cinebiografia The Social Networkdoou 100 milhões de dólares para o sistema educacional de Newark para modernizar as escolas. 

O dinheiro foi direcionado como uma parte do plano do então prefeito de Newark Cory Booker de reconstruir a cidade como “capital das escolas públicas autônomas do país”, contornando a participação pública através da parceria com a filantropia privada. 

Tradicionalmente, a educação pública se embrenha ao processo democrático: em um dado distrito escolar, a comunidade elege a administração da escola por um breve período de tempo. A administração toma decisões e faz deliberações públicas. A doação de Zuckerberg, e o projeto que vinha junto com ela, minam diretamente esse processo democrático ao promover a agenda de privatização das escolas públicas, destruir os colegiados locais, tirar o poder dos professores e colocar o controle da educação pública nas mãos de tecnocratas e investidores. 

Talvez isso não esteja ligado ao festival — afinal de contas, o Burning
Man é para ser um mundo todo voltado para a diversão e a liberdade. Mas não é. É o contrário. Faça o que quiser, expresse a si mesmo radicalmente e foda-se a visão do resto do mundo, são exatamente as razões da atração dos tecnocratas tecnológicos do Vale do Silício pelo Burning Man. 

Para esses jovens trabalhadores da tecnologia — a maioria branca e homem — que vão em bando ao festival, o Burning Man reforça e estimula a ideia de que eles podem refazer o mundo sem a presença de mais ninguém. É uma fantasia libertária radical. Infla-lhes os egos e os convence de
que eles têm o poder e o direito de construir a sociedade para todos nós, de
dizer como as coisas devem ser. 

É o lado negativo do Burning Man, razão pela qual os capitalistas poderosos
— e especialmente os capitalistas libertários — o amam tanto. É o mundo ideal deles: um mundo onde noções vagas de participação substituem a democracia real, e a única forma de imposto é a caridade auto-imposta. Vamos relembrar a propaganda publicada junto aos editoriais dos jornais pelo CEO da Whole Foods, John Mackey, na esteira do anúncio do Obamacare, em que ele propunha um sistema de saúde mantido por “doações voluntárias deduzíveis dos impostos.” 

Esse é o sonho dos libertários e do 1% maios rico, e se realiza no
Burning Man – a casta mais baixa dos burners que deseja participar no
festival depende dos caprichos e fantasias dos ricos para criar a Black Rock
City. 

Burning Man prenuncia um modelo social futuro que é particularmente
atraente para os ricos: uma oligarquia libertária, em que pessoas de todas as classes e identidades coexistam, mas em que o bem-estar social e a comunidade existam apenas na base da caridade. 

É claro que a riqueza é capaz de financiar mais, tanto nas dependências
quanto no que “traz” para a mesa: então no Burning Man, aqueles com mais
dinheiro, que podem proporcionar mais em termos de participação, trabalho e caridade, são os mais celebrados. 

É a sociedade a que estamos cada vez mais nos aproximando nos outros
358 (não Burning Man) dias do ano: com um Estado de Bem-estar decadente, cada vez mais instalações públicas existem apenas como consequência da doação de grandes fortunas. Mas quando bens comuns são resultados de doações dos ricos, mais do que a garantia de participação da sociedade, o componente democrático da sociedade civil é muito reduzido e colocado nas mãos da pequena elite que ganhou dinheiro usando sua influência para cortar impostos e desmontar o Estado de Bem-estar do primeiro plano. 

É como na minha ex-cidade de Pittsburgh, o sistema de bibliotecas recebe
o nome de Andrew Camegie, que doou uma parcela dos fundos iniciais. Mas o dinheiro doado não foi ganho por Carnegie; ele o arrancou das costas de seus funcionários, muitos deles sofrendo de estafa por causa do trabalho e das doenças causadas pela poluição em suas fábricas de metal. O custo social real de uma caridade é o esquecimento do trabalho que a construiu e os efeitos destrutivos que ela acarretou. 

No Burning Man o 1% mais rico — que ganhou seu dinheiro do
mesmo jeito que Carnegie há algum tempo — aparece com um exército de
empregados, mas são eles que levam o crédito pelo que “trouxeram”. 

O slogan do Burning Man e seu princípio central é a auto expressão
radical: 

A auto expressão radical provem de dons particulares do indivíduo. Ninguém além de um indivíduo ou de um grupo de colaboradores pode determinar seu conteúdo. Ela é oferecida como um dom para os outros. Nesse sentido, quem doa deve respeitar os direitos e liberdades de quem está recebendo. 

A base da degeneração de Burning Man pode estar em seu próprio
conceito. Na verdade, a ideia de uma radical auto expressão é, no mínimo, sob as bases do capitalismo, um ideal direitista de Ayn Rand, e poderia facilmente ser o princípio de ação de qualquer uma das grandes empresas de mídia social no Vale do Silício, que lucram com as pessoas investindo trabalho não pago ao cultivar representações digitais. 

É bom para elas que sejamos o mais interessados possíveis em nós
mesmos, desde que quanto mais fiquemos obcecados na nossa identidade
digital, mais nossas informações pessoais possam ser obtidas e vendidas. É fácil ver por que os fundadores dessas empresas tenham encontrado seu espaço no deserto. 

Não parece que o Burning Man possa agora ser reformado ou recuperado
das mãos dos empreendedores ricos que começaram a gostar dele e ocupar sua direção. Ele se tornou um festival que libertários ricos gostam porque nunca há uma crítica radical ao seu cerne, e, sem qualquer sombra de democracia, pode facilmente ser controlado por quem tiver influência, poder e riqueza.

Burning Man será lembrado mais como o modelo do sonho do CEO Larry Page de um Estado libertário, do que como o espaço situacionista libertário que poderia ter sido. Como tal, é uma fábula premonitória para radicais e utopistas. Quando “liberdade” e “inclusão” são desconectadas da democracia, muitas vezes levam ao elitismo e ao fortalecimento do status quo.

Sobre os autores

é um escritor freelance e estudante de pós-graduação da Bay Area.

Sobre o autor

Keith A. Spencer é um escritor freelance e estudante de pós-graduação da Bay Area.