Levando o terror de Lovecraft ao segregacionismo racial

24/09/2020

Por
Eileen Jones

Tradução
Felipe W. Martins

A nova série da HBO, Lovecraft Country, mescla as histórias de monstros macabros de H. P. Lovecraft com o terror da vida real dos EUA no período das leis de Jim Crow. Mais uma vez, Jordan Peele mostra que o monstro mais assustador é o policial supremacista branco.

Os atores Courtney B. Vance, Jonathan Majors, e Jurnee Smollett em cena de Lovecraft Country. Foto: HBO

Lovecraft Country é uma nova série de dez episódios da HBO que faz parte do projeto do diretor estadunidense Jordan Peele de transmitir a difícil experiência dos negros em seu país por meio das convenções do cinema de terror. O filme Get Out (“Corra!”, no Brasil), escrito e dirigido por Peele em 2017, foi sua estreia como diretor. Desde a primeira cena desse filme, ele mostrou perfeitamente e de maneira explosiva como esse novo subgênero funcionaria: um homem negro (interpretado por Lakeith Stanfield) está perdido em um bairro branco rico depois do anoitecer e tenta desesperadamente sair de lá antes que a polícia ou alguns paranoicos locais comecem a persegui-lo. Instantes depois, ele começa a ser seguido por alguém em um conversível luxuoso que, dirigindo devagar bem atrás dele, começa a cantar uma canção britânica macabra da época da 2º guerra mundial: “Corra, coelhinho, corra”. Em seguida, o negro é sequestrado pelo motorista desconhecido, envolvendo os espectadores no mistério do desaparecimento do pobre homem.

Desde o filme “Get Out”, o diretor Jordan Peele continuou seu projeto escrevendo e dirigindo o filme Us (“Nós”, no Brasil), cuja estreia nos cinemas ocorreu em 2019, e servindo como co-criador e produtor executivo da série da HBO “Lovecraft Country”, que também inicia com a história de um americano negro que desaparece misteriosamente.

Terror negro

Jordan Peele não é o primeiro cineasta negro a explorar a opressão racial por meio do gênero terror, mas o notável sucesso de seus filmes, tanto comercialmente quanto em críticas, rendeu-lhe uma grande notoriedade. Como descreve o documentário Horror Noire: A History of Black Horror, lançado em 2019 e dirigido por Xavier Burgin, há toda uma tradição de filmes B desde a era do “blaxploitation” (de “black”, ou “negro”, e “explotaition”, ou “exploração” – movimento cinematográfico norte-americano de protesto) na década de 70 e além.

Exemplos desses filmes de protesto contra o racismo incluem Blacula, o Vampiro Negro, de William Crain (1972), que conta a história de um príncipe africano do século XVIII que se torna um vampiro na cidade de Los Angeles contemporânea após seu apelo para abolir o comércio de escravos ser ignorado. Não esqueçamos de Ganja & Hess, de Bill Gunn (1973), que apresenta um antropólogo negro que se tornou um vampiro, fazendo uma releitura do desgastado clássico Drácula, fazendo uma reflexão sobre o legado da dominação branca. Ambos os filmes são de uma época em que os filmes de terror afro-americanos estilisticamente criativos e politicamente polêmicos floresciam mesmo em face das restrições dos pequenos orçamentos.

Se a categoria “horror noire” (terror negro) for expandida para incluir filmes de terror dirigidos por diretores brancos, mas compostos por atores negros nos papéis principais, devemos fazer menção ao ator afro-americano Duane Jones, que interpretou o personagem “Doutor Hess Green” no filme “Ganja & Hess”, após atuar como “Ben” no clássico de terror zumbi “A Noite dos Mortos-Vivos”, de 1968. A escolha de Duane Jones, que George A. Romero sempre disse ser daltônico (ou “cego para cores”), foi mudou completamente o impacto social causado pelo filme, tornando-o um marco para a discussão de questões raciais nos EUA. Na época, o longa foi anunciado com cartazes mostrando o personagem de Ben esmurrando um homem branco de meia-idade em uma disputa pela liderança em uma casa de sobreviventes dos zumbis, e finaliza com o assassinato de Ben por uma multidão de brancos liderada por policiais que, supostamente, confundiram-no com um zumbi.

Provavelmente, o terror negro mais conhecido é a franquia O Mistério de Candyman, iniciada em 1992. No filme, o ator afrodescendente Tony Todd interpreta o papel de Daniel Robitaille, conhecido como Candyman, que é o filho de um escravo de uma plantação em Nova Orleans que é morto sob tortura após se tornar um respeitado artista e se envolver com uma mulher branca. Anos depois, o fantasma de Candyman aterroriza os habitantes de um bairro pobre de Chicago, chamado Cabrini-Green, que foi construído sobre seu túmulo não identificado. Por conta do longa, o referido bairro de Chicago, que fazia parte de um projeto de construção de moradias populares, tornou-se famoso; entretanto, por conta de sua alta criminalidade, Cabrini-Green começou a ser usado como argumento daqueles que eram contra projetos de habitação pública nos EUA.

Matagal maldito

Em Lovecraft Country, o personagem principal Atticus Freeman (interpretado por Jonathan Majors), um veterano da Guerra da Coréia, retorna a Chicago sabendo que seu pai, Montrose Freeman (Michael Kenneth Williams), desapareceu misteriosamente no caminho para a fictícia cidade de Arkham, no estado de Massachusetts. Essa cidade é também o cenário de “matagal maldito” do conto de terror/ficção científica do escritor Howard Philips Lovecraft, chamada “The Color Out of Space” (“A Cor que Caiu do Céu”, no Brasil), de 1927 – e, portanto, é um lugar a ser evitado por todos. Ainda assim, Atticus sai para procurá-lo, acompanhado por seu tio George Freeman (Courtney B. Vance) e sua amiga de infância Letitia Dandridge (Jurnee Smollett). O grupo tem que dirigir por “Lovecraft Country” – um país fictício baseado nos EUA dos anos 50, quando vigoravam as leis segregacionistas Jim Crow – cheio de variados monstros (inspirados em outros contos de terror de Lovecraft) e de racistas brancos que garantem que lugar nenhum na “pátria” seja seguro para uma pessoa negra.

Ressalte-se que os membros do elenco principal são tão talentosos, carismáticos e bonitos, que conseguem atrair a atenção do espectador em face das fraquezas do primeiro episódio da série.

O tio do personagem principal, George Freeman, escreve green books (ou “livros de capa verde”), que são guias de viagem específicos para viajantes negros, com indicação de hospedarias, estabelecimentos e restaurantes que aceitavam receber amigavelmente cidadãos de pele negra. Assim, através do guia, o grupo viajante vai a uma lanchonete chamada “Libby’s”, considerada um paraíso para clientes afrodescendentes. Porém, para a surpresa deles, o local está sob nova administração e um novo nome, com uma atmosfera nem um pouco convidativa para negros. Letitia, enquanto caminhava para o banheiro, ouve a garçonete dizer ao telefone: “É claro que não os servi, não depois do que você fez com Libby!”

Letitia, Atticus e George são perseguidos por uma horda de yahoos (monstros com forma humanoide), mas conseguem fugir da lanchonete e da cidade, por um triz. Essa cena é até “tranquila” em comparação com a cena posterior, que retrata uma perseguição na Sundown Town, que é uma cidade onde negros eram proibidos por lei de serem encontrados após o pôr do sol. Enquanto trafegavam pela cidade sob a luz do sol, um sádico policial branco ordenou que o grupo dirigissem em baixa velocidade, com intuito de fazer com que eles não conseguissem sair da cidade antes do pôr-do-sol, para prendê-los sob o pretexto da lei.

A base da série da HBO é um livro lançado em 2016 também chamado “Lovecraft  Country”, de Matt Ruff, que revela o escritor H. P. Lovecraft como um fervoroso supremacista branco, conhecido por seu racismo virulento e seus mundos de terror brilhantemente imaginados. Na realidade, o autor H. P. Lovecraft expressava seu racismo diretamente em muitas de suas próprias histórias. Em um de seus contos mais famosos, “O Chamado de Cthulhu”, de 1928, um investigador busca a origem de uma “estátua grotesca, repulsiva e aparentemente muito antiga” de “um monstro de formato vagamente humano, (…) com a cabeça em forma de polvo, cheia de tentáculos, um corpo escamoso e de aparência elástica, grandes garras nas patas traseiras e dianteiras, e longas asas estreitas nas costas, (…) de cócoras em um pedestal retangular cheio de caracteres indecifráveis”. Em seguida, o investigador localiza um culto de adoração à estátua celebrado por mestiços em um pântano perto de Nova Orleans: “Sem roupas, essas criaturas híbridas zurravam, berravam e se contorciam em torno de uma monstruosa fogueira em forma de anel em cujo centro, incongruente em sua pequenez, jazia a mal talhada estátua”.

Na sequência, a polícia interrompe a cerimônia orgástica, espancando e matando muitos dos “celebrantes mestiços”. Os sobreviventes, levados mais tarde à delegacia para serem interrogados, são descritos assim:

“Todos os prisioneiros mostravam ser homens de um tipo muito baixo, de sangue mestiço e mentalmente aberrantes. Na sua maioria marinheiros, com alguns negros e mulatos, provenientes em grande parte das Índias Ocidentais ou de Cabo Verde, davam um ar de vodu ao culto heterogêneo. Mas antes que muitas perguntas fossem feitas, tornou-se evidente que estavam envolvidos com algo muito mais profundo e mais antigo do que o fetichismo negro (…)”.

Com H. P. Lovecraft, sempre vai ter algo envolvido muito mais profundo e mais antigo que “humanidade”. Depois de assistir apenas o episódio de estreia da série Lovecraft Country, não ficou claro o grau de interesse dos produtores e roteiristas nas entidades ancestrais anteriores à humanidade que sempre são “invocadas” para reaparecer nos dias presentes na ficção do falecido escritor. Mas há um grande interesse em pegar a tendência de Lovecraft de descrever as pessoas não-brancas como aberrações quase tão monstruosas quanto as próprias Abominações de Eldritch e torcê-la, de modo que as monstruosas criaturas humanas sejam agora predadores racistas brancos.

O que pode dar errado?

Esta representação “cartunesca” de monstruosos personagens brancos tem sido uma fonte de algumas reclamações sobre a série Lovecraft Country – que, em geral, está sendo muito bem recebida e elogiada pelo público.

Em um artigo da revista estadunidense The Atlantic, intitulado “What Lovecraft Country Gets Wrong About Racial Horror” (“onde Lovecraft Country peca a respeito do horror do racismo”), Hannah Giorgis argumenta:

“A série passa tanto tempo se concentrando na monstruosidade quase cômica de seus personagens brancos que acaba prejudicando o desenvolvimento de seus protagonistas negros. É explícito que a série considera que o racismo é ruim, até pior do que os shoggoths [monstros] criados por Lovecraft. (…) Entretanto, no meio da série, fico me perguntando quem realmente são Atticus, George e especialmente Letitia (um arquétipo clássico da mulher durona). O que anima os personagens negros de Lovecraft Country quando eles não estão lutando contra racistas, sejam homens ou monstros? (…) Do jeito que está, a série indevidamente simplifica a realidade da supremacia branca na sua alegoria com monstros, enquanto trata o próprio elenco negro menos como personagens humanos e mais como veículos criados somente para uma crítica ao racismo americano”.

Provavelmente é o meu amor pelas convenções dos filmes deste gênero que fazem com que eu não me importe se os personagens racistas brancos são humanamente complexos ou não. Se um xerife está ameaçando enforcar três negros por estarem em sua cidade após o pôr do sol, quem se importa se em outras circunstâncias ele é um homem charmoso, um pai dedicado ou um guitarrista de habilidade incomum? Também não vejo a falta de desenvolvimento dos 3 protagonistas negros alegada no artigo de Giorgis. Na verdade, fiquei fascinada pela insistência da série em mostrar o quanto eles são retraídos, o quanto guardam intensamente seus pensamentos privados e seus segredos – o que parece exprimir bem a realidade daqueles que viveram sob o jugo da supremacismo branca.

No início do primeiro episódio, há uma cena emblemática, quando o ônibus em que Atticus se encontra dá problemas e para de funcionar. Ele e a outra passageira negra com quem ele conversou no fundo do ônibus, uma magra mulher de meia idade, permanecem sentados, enquanto um caminhão chega para levar todos os passageiros de volta à cidade para pegar outro ônibus. Atticus, um rato de biblioteca, retorna à leitura de sua ficção científica – que inclui todo tipo de heroísmo possível na ficção mas que parecia tão improvável para ele até aquele momento, apesar dele ter sempre de vencer níveis extraordinários de perigos em seu dia a dia. Parece evidente que nenhum passageiro negro esperaria ter permissão para viajar tão perto dos passageiros brancos no caminhão que veio ao seu resgate, e que eles teriam de caminhar o resto do caminho, carregando a sua bagagem – que é exatamente o que acontece. A tensão da cena, quando Atticus se depara com o olhar do motorista do caminhão, é a dúvida sobre se haverá mais manifestações de maldade – se Atticus a mulher de meia idade serão agredidos verbalmente apenas por serem negros e olharem para o caminhão que também poderia tê-los transportado para a cidade.

Isso porque, em geral, insulto é somente um das tantas outras injúrias cotidianas que os negros sofrem sob o vigor das leis segregacionistas de Jim Crow. Parar para abastecer o carro é o suficiente para que o trio sofra assédio, enquanto um adolescente branco os insulta em voz alta, imitando um macaco. E enquanto o grupo dirige, passam por um outdoor que apresenta as panquecas da “Aunt Jemima” (“Tia Jemima”), uma marca de alimentos que estampa em seu logotipo a estereotipada imagem da “mammy”, um legado da escravidão representando a mulher escravizada para o trabalho doméstico, servido deliciosos pratos e amamentando as crianças de seus senhores (a Quaker Oats Company, dona da marca Tia Jemima, anunciou que vai substituir o nome e a imagem em um esforço “para avançar em direção à igualdade racial” – apenas em 17 de junho de 2020).

Lovecraft Country não é sutil sobre isso, e de fato enfatiza demasiadamente esses elementos, fazendo com que eles pareçam menos onipresentes na sociedade sob análise, graças à apresentação deles em closes fechados e às explicações, às vezes fatigantes, em meio aos diálogos dos personagens. Portanto, é estranho e desanimador ler artigos sugerindo que essa ênfase seria necessária para explicar artefatos racistas antigos para o público contemporâneo, como a recente publicação da revista Insider. A premissa é que as pessoas não teriam notado o close prolongado no outdoor da Tia Jemima ou entendido seu significado, e o mesmo valeria para os “greens books” e as “Sundown Towns”. A aparição heroica no 1º episódio do jogador de beisebol Jackie Robinson – o lendário nº 42 – também é explicada pela publicação da Insider, assim como também a voz do romancista James Baldwin, extraída de um famoso debate quando este devastou os argumentos em defesa da igualdade e das oportunidades nos EUA que foram apresentados pelo ultra-conservador William Franck Buckley Júnior.

Se os editores da revista Insider quisessem ser realmente educativos, poderiam apontar muitos outros detalhes sobre a série. Por exemplo, a cópia de “O Conde de Monte Cristo”, de Alexander Dumas, encontrada por Atticus no apartamento de seu pai desaparecido, não importante apenas por representar “um homem que foi injustamente preso e que depois foge”. A herança racial de Alexander Dumas também está sendo referenciada: seu pai, um general, nasceu no Haiti, filho de um nobre francês e uma mulher negra escravizada. E o sobrenome de Letitia, “Dandridge”, refere-se às lindas e extremamente talentosas irmãs Dandridge, Vivian e Dorothy, que chegaram à fama se apresentando no “Cotton Club”, no Harlem (NY), e, mais especificamente, a Dorothy Dandridge, que foi a primeira estrela negra no cinema estadunidense, cuja carreira passou por um trágico declínio que pode ser atribuído aos papéis de estereótipos racistas que ela era convidada a desempenhar e ao tormento de seu envolvimento profissional e pessoal com homens brancos abusivos.

Será que precisamos entrar nos antecedentes do nome de Atticus? A série se passa antes de 1960 e, portanto, antes da existência do famoso best-seller lançado em 1960, chamado “To Kill a Mockingbird” (O Sol é para Todos, no Brasil), de Harper Lee, onde seu protagonista, Atticus Finch, é um advogado branco que defende um homem negro injustamente acusado de estupro. Podemos supor que seu nome seria uma homenagem ao poeta romano Atticus, que significa “ateniense” ou “oriundo da Ática”. O nome provavelmente carrega consigo a sugestão de um pouco das tendências estéticas e filosóficas mais cultivadas entre os gregos, que foram admiradas e cooptadas em grande parte pelos conquistadores romanos. Ressalte-se que alguns gregos altamente educados muitas vezes serviam aos romanos como escravos.

Mas, sem dúvidas, sabemos que o nome de Atticus se destina a evocar o livro “To Kill a Mockingbird”, de Harper Lee. Atticus Finch já foi um personagem muito celebrado, baseado no pai do autor, Amasa Lee, que também era advogado, e foi interpretado pelo ator Gregory Peck na adaptação do livro para o cinema em 1962, mas hoje ele é desdenhado como uma fantasia liberal. O personagem de Atticus Finch (assim como o pai de Harper Lee, Amasa Lee) foi revelado como sendo um segregacionista pela próprio Lee em seu segundo romance lançado em 2015, “Go Set a Watchman” (Vai e Põe uma Sentinela, no Brasil), chocando gerações mais velhas de fãs do livro.

É um emaranhado de conotações que parece muito mais rico, complexo e promissor do que sugere a publicação da Insider – e pode ser um bom presságio no sentido de que o resto da série se abstenha de suas piores tendências de transformar o terror empolgante e inteligente em lições sobre a época das leis de Jim Crow para amadores.

Sobre os autores

é crítica de cinema na Jacobin e autora de Filmsuck, EUA. Ela também hospeda um podcast chamado Filmsuck.

Sobre o autor

Eileen Jones é crítica de cinema na Jacobin e autora de Filmsuck, EUA. Ela também hospeda um podcast chamado Filmsuck.

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