Após o golpe é impossível que a direita ganhe as próximas eleições sem fraude

09/10/2020

Uma entrevista com
Adriana Guzmán

Tradução
Marianna Braghini

A militante feminista Adriana Guzmán faz um balanço do governo do Evo Morales na Bolívia, detalhando a relação do MAS com os setores populares e as debilidades mediante o avanço da direita. Ela argumenta que o golpe teve duas etapas, uma primeira para desmoralizar e intimidar os indígenas e uma segunda jurídica para a elite retomar o poder.

Adriana Guzmán é membro da Comunidade Anti-Patriarcal Feminismo da Bolívia e Feministas de Abya Yala.

O artigo a seguir foi adaptado da Jacobin América Latina, uma iniciativa no idioma espanhol, lançada neste mês. Visite o site.


Adriana Guzmán, aymara e feminista comunitária antipatriarcal, é uma importante voz para interpretar o agitado cenário político boliviano. Foi uma das primeiras e mais assertivas a caracterizar os acontecimentos de 10 de novembro de 2019 como um golpo de estado racista e oligárquico, enfatizando que, antes de ser um golpe contra o governo Evo Morales, se trata de um golpe contra o povo.

Na presente entrevista, além de prover um balanço sobre a experiência do governo do Movimento ao Socialismo (MAS), nos ajuda a entender o governo interino de Jeanine Áñez e os setores que o sustentam. Ademais, levanta possíveis cenários que vêm se abrindo frente as eleições presidências –  ainda incertas – do próximo dia 18 de outubro e as tarefas dos movimentos sociais para reconstruir o caminho de recomposição e resgatar sua potência anti-oligárquica, anticolonial, feminista e plurinacional.


KN

Gostaríamos que nos contasse qual balanço podemos fazer do governo MAS. Depois de todos estes anos, em sua opinião, quais são os principais pontos fortes e fracos desta longa experiência?

AG

Acredito que o governo MAS é expressão de uma luta ancestral dos povos pela dignidade, contra o racismo, contra o colonialismo, pela possibilidade de construir o país que queremos, o território que queremos, a justiça que queremos. E isso foi possível durante quatorze anos. Acredito que uma das conquistas é também ter construído um instrumento político das organizações. Mas as vulnerabilidades justamente estão no fato de que, com o tempo, esse instrumento tende mais a se converter em um partido, do que em permanecer como um instrumento político.

O distanciamento dos dirigentes e autoridades do governo no trato com as organizações dificultam que se cumpra o mandato. Creio que isso foi uma debilidade importante. A principal, sem dúvida, em minha opinião, é que o Estado é um administrador do sistema patriarcal, capitalista, colonialista, racista… E apesar de defender um governo distinto, composto por mulheres e homens indígenas, por organizações, é difícil romper a estrutura burocrática que abarca também os empresários e tem que governar também para os ricos. Creio que esse tem sido o principal limite: que o governo devia ser também para os ricos, não apenas para o povo empobrecido.

KN

Você considera que houve uma debilidade ou incapacidade para responder o golpe de Estado? Quais fatores poderiam explicar isso?

AG

Acredito que houve muita confiança, tanto por parte do governo, como por parte das organizações sociais. Não dimensionamos que realmente aconteceria um golpe e que se golpe teria êxito. Pensamos que poderíamos disputar as ruas, como sempre fizemos. Desde o início deste processo estávamos colocando a disputa nas ruas: perante a assembléia constituinte e o referendo revogatório. Assim o fizemos também em 2008, frente a tentativa de dividir o país, frente a ameaça destes grupos fascistas de “limpeza étnica”, como a Unión Juvenil Cruceñista.

Como sempre disputamos as ruas, creio que estes quatorze anos nos fizeram demasiadamente confiantes. Acreditávamos que este processo era irreversível. Então, quando o golpe começa a ser vislumbrado, a partir de 22 e 23 de outubro, não pensamos que realmente se concretizaria. E creio que isso foi um ponto vulnerável tanto do governo assim como das organizações sociais.

Os grupos paramilitares tampouco são algo em que temos experiência e isso também dificultou nossa reação. Temos experiência de enfrentamento com os militares, como aconteceu em 2003, o massacre do gás. Mas quando os paramilitares são jovens, que podem ser seus vizinhos ou até mesmo seus filhos, isso muda muito a lógica de resistência. Em termos de governo, acredito que houve muita ingenuidade em pensar que a OEA, que é um órgão que nunca beneficiou os povos, poderia resolver democraticamente com uma auditoria.

Em relação a esta última questão, acredito que outra limitação do governo e das organizações gira em torno de querer manter lógicas civilizadas, institucionais, que são lógicas coloniais. Quando não estamos nas ruas, perdemos a disputa territorial que sempre tivemos. Esta tendência de definir as coisas por meio das instituições (como a auditoria da OEA) sabendo que possuem interesses internacionais por detrás, foi uma debilidade imensa.

As reações foram muito tardias por parte do governo, o que também ocorreu devido à uma desestruturação interna. Os ministros não funcionavam como um único corpo, como para poder discutir e responder de forma unitária. O golpe também veio de dentro, como sempre denunciamos.

KN

Existe algo como uma autocrítica do MAS neste período, digamos, desde fins de outubro em diante?

AG

A verdade é que eu acredito que a autocrítica veio das organizações sociais. Sobre como nos distanciamos da administração do Estado, como o instrumento político se converteu em algo mais parecido com um partido, como haviam cúpulas internas. Há uma autocrítica sobre a disputa entre uma esquerda – para mim – bastante colonial e as organizações sociais acerca da existência de discussões racistas e colonialistas dentro do mesmo processo e também dentro do mesmo aparato. 

Depois do golpe houve uma autocrítica das organizações. Mas, honestamente, não me recordo agora de uma autocrítica certeira do MAS, ou mesmo do Evo ou do Álvaro Garcia Linera. Não vi uma autocrítica que possa, digamos, facilitar também a autonomia do movimento, tanto do instrumento, assim como das organizações sociais. Uma vez que Evo se foi, há um vazio difícil de preencher nas ruas. Creio que neste momento a autocrítica seria importante. Mas não, não recordo ter existido uma suficientemente boa.

KN

A que você se refere com “esquerda colonial”?

AG

O processo de transformação tem uma longa memória. Pela luta dos povos indígenas originários, que já nos anos 1990 pediam uma assembléia constituinte, porque tínhamos uma discussão frente um Estado-Nação que nos apresentava como inquilinos em nosso próprio território, quando, na realidade, nos arrancaram este território para dá-lo a empresários da soja e a oligarquia de Santa Cruz. A construção de um Estado-Plurinacional tem uma boa memória, de uma assembléia constituinte, da justiça comunitária. E temos tratado de sintetizar esta proposta no “bem viver”, em suma qamaña, em sumak kawsay. Este era o horizonte político-ideológico deste processo de mudança para os povos indígenas, originários e campesinos.

Na luta, se somou também uma esquerda do projeto político do “bem viver”. Entretanto, uma vez que MAS conquistou o governo, esta esquerda já não assumiu este projeto político. Em vez disso, começou a defender uma lógica do “socialismo comunitário”, o que implicava em um Estado com governabilidade. E a governabilidade implica sempre negociar com os empresários, com os grandes capitais, para que o governo consiga estabilidade, para que eles não comecem a fazer pressão. E já não se pode construir o “bem viver” se negocia com o capital. Então assim gerou-se uma contradição dentro do mesmo processo, no qual esta esquerda colonial ganhou mais força, creio eu. Para nós, o caminho não era este: tínhamos que construir o “bem viver” em cada momento, em cada ato da construção do Estado-Plurinacional.

KN

E pensando agora no 10 de novembro, como podemos caracterizar o que aconteceu? Nós sabemos que, em algum momento, apareceu uma pluralidade de esquerda. Como você caracteriza e o que é o que determina que apareçam caracterizações diferentes, por exemplo, dos feminismos?

AG

Acredito que primeiro temos que repensar nossa compreensão do que é um golpe. E isso também significa se descentralizar da lógica do Estado. Porque acredito que a maioria dos golpes (no Chile em 1970, em Honduras em 2010) tem sido golpes contra o povo que resultaram logo em um golpe de Estado. E isso tem sua razão. Creio que o que aconteceu em 10 de novembro aqui na Bolívia foi um golpe contra o povo; um golpe racista, uma advertência patriarcal para todos e de uma advertência e humilhação particular às mulheres indígenas. A mensagem era que fossemos indígenas seríamos humilhadas. Uma mensagem racista, de advertência colonialista. Para um retorno, exatamente, à colônia. Como sintetizado na imagem de Luis Fernando Camacho, entrando com uma bíblia e uma bandeira no palácio do governo, o Palácio Quemado, e não na Casa Grande del Pueblo, construída em 2018 como nova sede do Estado-Plurinacional.

Foi um golpe contra o povo com uma ação de exemplo público. Porque não precisa necessariamente tomar a cadeira presidencial, pois, não é ali que reside o poder. Não bastava trazer os militares e retirar Evo do poder. O poder está no povo, nas comunidades, nas organizações que decidem viver fora do Estado nacional, que decidem viver questionando o patronato para recuperar a terra e a autonomia política, territorial e organizativa. E recuperando nossa voz, nossa palavra e nossa posição na administração do Estado também.

Então era preciso que o golpe fosse primeiro contra o povo para poder resultar em golpe de Estado em seguida. Como há uma compreensão teórica dos golpes e Evo Morales renunciou, surge uma discussão sobre tratar-se ou não de um golpe. Muitas pessoas dizem que não foi um golpe, mas sob uma compreensão reduzida do que é um golpe. Até o momento as Forças Armadas não intervieram diretamente. Mas o golpe já havia ocorrido: o golpe contra o povo, a advertência, casas de autoridades foram incendiadas, além do sequestro de muitas mulheres, esposas, filhas, filhos e irmãos de autoridades, humilhados publicamente na praça. Transmitido pelo Facebook, atacados, humilhados, inclusive sexualmente, como aconteceu com o irmão do deputado Víctor Borda.

Então havia toda uma advertência que obrigou Evo Morales a renunciar. Nós, como organização – eu faço parte do feminismo comunitário antipatriarcal – discutimos internamente e também com outras organizações e dizíamos que a única forma de parar isso era com a renúncia de Evo. Porque houve muita violência: iam incendiar a casa de todos dirigentes, violentar suas filhas, suas esposas. Usaram o corpo das mulheres como um espaço, um território, de onde construir o golpe.

E acredito que, por outro lado, há um feminismo reducionista, que enxerga o golpe como um golpe tradicional, em que as Forças Armadas atuam. Essa foi uma das primeiras discussões para não se aceitar o golpe. Mas creio que a causa principal de existir um debate sobre se o 10 de novembro foi ou não um golpe, é que existe um feminismo colonial e racista, que há muitos anos questionava o governo MAS e os movimentos sociais. A partir da lógica de se era ou não um Estado extrativista, havia muitos questionamentos, nos quais acredito que o racismo ganhava dos questionamentos em si.

A lógica dos “bons indígenas” que deveríamos fazer aquilo que elas acreditavam que deveria ser feito. Então este racismo, esse colonialismo, faz com que a vida das mulheres que foram sequestradas, ou das autoridades que tiveram suas casas incendiadas, não sejam importantes. María Galindo chamou isso de “desobediência civil”. E muitas outras feministas, não só na Bolívia, como Rita Segato, da Argentina e outras do México, que não chamam o que aconteceu de um golpe de Estado. Que deslegitimam, de dentro e de fora, o que estava acontecendo no país. Para mim, trata-se de um feminismo colonial, racista e fundamentalmente academicista. Não estava nas ruas, não estava vendo como os paramilitares operam, como os policiais operam. Era nítido. Se tivessem colocado a cabeça para fora da janela, poderiam ter visto como estava sendo arquitetado um golpe de Estado.

KN

Sobre quais forças sociais o governo interino de Jeanine Áñez se sustenta?

AG

O governo de Jeanine Áñez é sustentado pelo capital internacional e o poder econômico da oligarquia de Santa Cruz. São eles que o sustentam economicamente o governo e armaram politicamente o gabinete de Jeanine Áñez. Colocaram seus melhores profissionais como ministros como López, Marinkovic e outros. Socialmente, Jeanine Áñez, se sustenta via a desestruturação dos movimentos sociais. Ou seja, no desgaste que houve, na advertência que nos deram, na geração de uma cultura do medo, na perseguição sistemática pela qual muitos dirigentes tiveram que passar e se esconder, no fato de que Evo teve que sair do país junto à outros dirigentes.

Se sustenta decepando o movimento, que agora estão escondidos ou fora do país. Esta situação faz com que precisemos de um tempo para nos rearticular e reorganizar, até quando pudemos estar novamente nas ruas com mais força.

Em parte, o governo também de sustenta com a impunidade do racismo que gerou o golpe. Sempre existiu uma classe média racista, com muita raiva acumulada, porque perderam a administração do Estado. Essa classe média, que sempre aspira ser burguesa, pequeno burguesa, empresária e oligárquica, se conformou em administrar o Estado para os ricos. Mas neste caso não conseguia administrar o Estado como o fazia para as oligarquias. Colocamos – ou construímos, se preferir – uma burocracia própria. Não sei se melhor, mas definitivamente não era a deles. Então o racismo da classe média se sustenta nisso. E acredito que o governo de Añez se sustenta nesta fissura, nesta vulnerabilidade, no medo das organizações sociais.

KN

Agora gostaria de te perguntar sobre o cenário atual, da perspectiva do conflito social. Sabemos que em 18 de outubro deve ocorrer a eleição presidencial. Com qual cenário de conflito social a Bolívia chegará até este dia?

AG

Em agosto houve uma grande mobilização, uma recuperação das forças de diversas comunidades, um bloqueio de mais de 185 pontos no país para exigir que as eleições não sejam adiadas para após 18 de outubro. A Central Obrera Boliviana (COB), os partidos e o MAS acordaram que seja em 18 de outubro, colocando diversos entraves para que não se adie novamente. Há uma cultura muito orgânica das organizações sociais na Bolívia. Apesar de termos nossas críticas, todas decidimos acatar a posição da COB. E nos colocamos em vigília. Neste momento estamos em vigília para garantir que as eleições realmente sejam realizadas. Ainda assim, existem certas ações por parte do governo interino que nos fazem pensar que as eleições não vão acontecer, ou que sejam fraudadas.

Então acredito que agora há duas dimensões: uma, a vigília, a exploração de todos os caminhos democráticos, partidários e de diálogo, para que a eleição de fato se concretize. Outra, a permanente articulação das organizações para avaliar quais serão os mecanismos de resistência caso as eleições não se realizem, quais serão os mecanismos de recuperação do governo, de recuperação de determinados territórios que hoje se encontram militarizados. E isso é aprofundado pela pandemia. Pois, além de nos ter massacrado em Senkata e Sacaba em novembro do ano passado, estão nos massacrando com a pandemia, com seu abandono genocida nos hospitais.

São mais de cinco mil mortos até o momento. E não mortos pelo vírus, mas mortos porque os respiradores nunca chegaram, porque não há testes, não há medicamentos. Então o descontentamento se aprofunda, a raiva da sociedade é generalizada que chega até a perder o medo do vírus para sair às ruas para protestar. Neste momento, há mobilizações todos os dias, das mães e pais de família contra o encerramento do ano escolar, pela recuperação do almoço escolar, dos professores, de diferentes setores. Pelo menos em La Paz, que é onde eu estou, há agitação todos os dias.

KN

Falemos um pouco sobre as perspectivas, sobre o que pode acontecer. O que pode-se esperar de um novo governo do MAS?

AG

Um dos cenários possíveis é que as eleições aconteçam e haja fraude. Que Jeanine Áñez burle a eleição e saia como ganhadora, ela ou outro partido próximo da oposição. Acredito que esta é uma grande possibilidade, reproduzindo um pouco o que se fez em Honduras. Ali, é o terceiro governo que engana o povo, frauda eleição e o segue com a cartilha golpista. O que se passa em Honduras é uma ditadura. E acredito que é a mesma receita que tentam aplicar aqui. Esse é um dos cenários.

O outro cenário é que se realizem eleições e os resultados sejam respeitados. É inegável que, neste cenário, o MAS irá ganhar. Portanto, que respeitem esta vitória, mas se para garantir a estabilidade e a governabilidade, o governo do MAS terá que mudar. Acredito que isso será um grande risco para o projeto político que defendemos e que queremos seguir aprofundando. Principalmente, se fizerem acordos políticos para deixar impunes os mentores dos massacres. Pessoas como Jeanine Áñez, ou Murillo, devem enfrentar um julgamento de suas responsabilidades e o que queremos para eles é o cárcere. Pelos irmãos massacrados, pela forma que têm operado, humilhado, assassinado, cometendo violência sexual contra nossas irmãs. Eu acredito que um dos principais riscos é que o MAS negocie sua estabilidade e governabilidade com a mesma direita fascista que operou esse golpe.

KN

Gostaria de fazer mais duas perguntas, relacionadas com os cenários que você descreve. Se chegou-se a impor, efetivamente, um governo de direita, quais são os desafios do movimento social?

AG

Acredito que os anos de governo do MAS, se bem serviram para construir muitas coisas dentro do Estado, a institucionalidade e as leis, também enfraqueceram muito os movimentos sociais. Porque nosso papel não é construir leis: nosso papel é construir a vida cotidiana deste bem-viver que defendemos. Então o principal desafio mediante um eventual governo que se coloque como continuidade do golpe, é a reconstrução e rearticulação dos movimentos sociais, a formação política das novas gerações, que são as que têm se alinhado com a direita, as que saíram às ruas inclusive para golpear seus próprios pais ou mães. A universidade foi um ator fundamental neste golpe. Nos resta um longo caminho de recuperação, de reconstrução política para redefinir o projeto político-ideológico do bem-viver, de sua viabilidade em termos de Estado ou em termos de autonomia dos povos. Acredito que isso será fundamental se Añez ganhar ou alguém que dê continuidade a este golpe de Estado.

KN

E no caso das eleições acontecerem e se respeite seu resultado? Como pode-se pensar a relação do MAS com os movimentos sociais e suas lutas?

AG

É muito mais fácil fazer uma autocrítica e uma reconstrução do tecido social e comunitário do projeto político sem que se esteja sendo perseguido ou preso. Sem um golpe de Estado, um governo interino, uma ditadura. Acredito que se o MAS ganhar, se o resultado das eleições for respeitado e eles forem governo, certamente estaremos discutindo e criticando os erros que fizeram no governo e pensando como construir o bem-viver, que é a aposta dos povos originários. Será uma situação difícil, mas não tanto como é estar sob um governo interino, onde somos perseguidas e vivemos com a possibilidade permanente de sermos assassinadas de forma impune a qualquer momento. Creio que uma das coisas mais difíceis, neste segundo cenário, é desarmar essas lógicas de cúpula partidária que geraram dentro do partido. Uma das coisas mais difíceis será recuperar o MAS realmente como um instrumento das organizações, não como um aparato de lógica partidária.

KN

Uma última pergunta, também relacionada às eleições. Carlos Mesa também será candidato. Existe alguma possibilidade da direita, ou pelo menos da oposição ao MAS, de ganhar as eleições de maneira limpa, se competirem juntos, por exemplo, Mesa e Áñez?

AG

Pela história, pela memória ancestral e até por um sentido comum, é impossível que Mesa ou Añez ganhem neste momento, depois do golpe de Estado que ocorreu, depois da humilhação às mulheres indígenas, depois de queimarem a whipala. Muita gente que não estava dentro do MAS, que inclusive questionava o processo de mudança, hoje se identifica com esta luta, com o Estado-Plurinacional, com a whipala, com a reivindicação dos povos. Hoje, eles olham no espelho e se reconhece. Esta é uma esperança que gerou no golpe. Por coisas assim, acredito que é impossível que Áñez, ou Mesa ganhem sem fraude. Áñez muito menos: é uma figura absolutamente desgastada, que provou sua incapacidade na gestão do governo. Além da inspiração fascista, ela também tem uma enorme incapacidade de administrar. E Mesa, também é um candidato desgastado. Primeiro pela experiência de seus governos, por seu papel nas últimas eleições, por sua incapacidade de administrar o conflito, de colocar alguma outra alternativa. Como a própria Añez afirmou, Mesa está assistindo do palco tudo que está acontecendo no país. E creio que isso gera um grande desprestígio. Na minha percepção, sem fraude, nenhum dos dois consegue ganhar do MAS.

KN

Perfeito, Adriana. Muito obrigada. Para terminar, agora sim, há algo que te parece mais importante de mencionar e que não perguntei?

AG

Há duas coisas, que não sei bem como colocar, mas te direi. A primeira: uma das principais críticas de esquerda, de intelectuais que se desvincularam do processo e de um feminismo – para mim – colonial, meio ambientalista, girou em torno da caracterização do governo MAS como profundamente extrativista, o criticando por ter pactuado com empresários, madeireiros, transnacionais, etc. Mas me pergunto, se tinham razão, por que deram um golpe? Esta hipótese de que o governo MAS foi o pior, na negociação com os empresários e o que mais impulsionou o extrativismo no país, em um sentido comum, para mim, cai por terra. Isso não está correto. Porque, se fosse assim, o golpe de Estado não teria ocorrido. Acredito que aqui há uma perspectiva colonial reduzida (além de um pouco de ignorância da história do país e das políticas que foram desenvolvidas por aqui).

A segunda é sobre os feminismos. Existem diferentes coletivos feministas e, principalmente, importantes figuras públicas, como María Galindo, que desconhecem o golpe de Estado e falam de “desobediência civil” ou de “machocracia”. Creio que é importante repensarmos, dentro do feminismo en Abya Yala, porque há uma construção falocêntrica do feminismo. Resulta que sempre avaliam o processo do Brasil reduzido ao Lula, ou da Venezuela o reduzindo ao Maduro, ou da Bolívia o reduzindo a Evo. Na perspectiva daqueles feminismos, sob esta percepção falocêntrica, muita história fica invisibilizada. Mas os processos são mais do que uma pessoa, os processos são mais do que um homem. Além dos erros ou acertos de Evo, neste país, existiu um processo protagonizado pelos movimentos sociais, protagonizado pelos povos, que não podemos perder de vista.

Sobre os autores

é integrante do Feminismo Comunitario Antipatriarcal da Bolívia e Feministas de Abya Yala.

é advogada, representante da Coordinadora Feminista 8M (Chile) e colaboradora da Jacobin América Latina.

Sobre os autores

Adriana Guzmán é integrante do Feminismo Comunitario Antipatriarcal da Bolívia e Feministas de Abya Yala.

Karina Nohales é advogada, representante da Coordinadora Feminista 8M (Chile) e colaboradora da Jacobin América Latina.

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