Por que a luta socialista nos games chegou para ficar

06/10/2020

Por
Rafael Grohmann

A nova direita surfou na politização dos gamers, mas o tremendo sucesso do jogo Tonight We Riot, distribuído e produzido por cooperativas de esquerda, um fenômeno cada vez mais presente na indústria do videogame, mostra que narrativas comunistas e anarquistas estão tendo mais adesão em meio à crescente distopia capitalista. No Brasil, jogos simulam as lutas da classe trabalhadora do passado e atual.

Um grupo antifa manda uma chuva de coquetel-molotov nos agentes da repressão para libertar a cidade. Cenas do jogo Tonight We Riot.

“Você não está sozinho”. A fala do jogo Tonight We Riot (disponível no Steam e para Switch) não é à toa. O jogador só poderá sobreviver em um mundo em que uma elite controle as vidas dos trabalhadores se atuar coletivamente. Não há espaço para ações individualistas em um jogo sobre ação direta dos trabalhadores: “enquanto um de nós sobreviver, a Revolução continuará”, conclama outro lema do jogo.

Lançado em maio pela Means Interactive, braço de games da Means TV, plataforma de streaming que se tornou a principal fonte de documentários na esquerda norte-americana, e produzido pela Pixel Pushers Union 512, uma cooperativa de gamers, o jogo é declaradamente socialista e mostra que os jogos não são só um espaço para a direita e precisam ser disputados pela circulação de narrativas de esquerda. Afinal, os games são, desde seus primórdios, recheados de perspectivas políticas. 

“Ter um jogo em que o protagonista, em vez de ser um cara armado, é um movimento de pessoas, pode ajudar as pessoas a perceber como muito dos jogos que elas estão jogando estão mostrando um ponto de vista muito diferente”, afirma Stephen Meyers, um dos desenvolvedores de Tonight We Riot. O outro co-criador do jogo, Ted Anderson, ressalta a importância da organização coletiva: “somente por meio do trabalho em conjunto pode-se alcançar a capacidade de construir um mundo melhor para si mesmo, suas famílias e seus amigos”. Para eles, uma perspectiva declaradamente de esquerda em um jogo pode mostrar que a distopia capitalista que vivemos não precisa ser do jeito que é.

Os jogos são uma arena da luta de classes e dos debates culturais, embora nem sempre se posicionem assim. Jamie Woodcock, professor da Open University e autor do livro Marx no Fliperama (Autonomia Literária), afirma que parte da esquerda não considerou os games como dignos de nota, deixando o terreno livre para a nova extrema direita (conhecida como alt-right nos EUA) se infiltrar nessa área. “Como outras formas de cultura, a esquerda deve disputar ideias nos videogames, incluindo experimentar jogos como o Tonight We Riot”, analisa Woodcock.

Games como Tonight We Riot ajudam a circular narrativas socialistas a lugares que desconhecem ou torcem o nariz para a palavra socialismo. A Means, distribuidora do jogo, é uma cooperativa de trabalhadores que tem como objetivo transferir os meios de produção do entretenimento para a classe trabalhadora. Atualmente possui uma plataforma de streaming com conteúdo anticapitalista e uma divisão de games. Em entrevista à newsletter DigiLabour em 2019, Naomi Burton, fundadora da Means junto com Nick Hayes, falou que um dos objetivos da iniciativa é normalizar expressões como socialismo e comunismo: “queremos tornar o socialismo e a consciência de classe tão legais que seja irresistível fazer parte de um movimento cultural tão forte”.

Nick Hayes, em entrevista exclusiva à Jacobin Brasil, diz que os jogos distribuídos pela Means Interactive sempre unirão uma jogabilidade divertida e um olhar político que aumente a consciência de classe: “somos todos comunistas e anarquistas e não temos medos de ser e usar isso com orgulho em nossas camisetas”. Para os desenvolvedores do jogo, Tonight We Riot quer mostrar que os trabalhadores têm muito mais em comum entre si do que com a classe dominante: “temos grande apreço por sindicatos e pelo socialismo democrático. Este jogo vem de um lugar de amor sincero e um desejo de construir um mundo melhor”, afirma Stephen Meyers.

O jogo está sendo um tremendo sucesso. Para Nick Hayes, Tonight We Riot superou todas as suas expectativas em relação a vendas, cobertura midiática e feedback dos jogadores. Além disso, os desenvolvedores da Pixel Pushers Union 512 ficaram impressionados com a grande de quantidade de usuários brasileiros no Steam. Nas plataformas de games, os jogadores elogiam tanto os aspectos políticos quanto a própria experiência que o game proporciona. Isso vem ao encontro do pensamento da Means Interactive: “os jogos que lançamos sempre serão primeiro divertidos e depois políticos. Não existe jogo sem política, e os nossos não serão diferentes”, diz Hayes.

Para Jamie Woodcock, experiências divertidas e lúdicas como Tonight We Riot podem fazer com que a esquerda aprenda com os jogos: “isso não quer dizer que eles sejam substitutos para outras formas de ação, como organizar seu próprio local de trabalho, mas é um modo de contestar as ideias dominantes e apresentar alternativas”. Nick Hayes concorda com os limites e as possibilidades que os jogos podem oferecer ao socialismo: “falando francamente, um tijolo pode ser mais útil aos socialistas do que os games em nossa luta pela libertação. Mas os jogos e as mídias socialistas são essenciais para fazer com que novas pessoas se juntem ao movimento e tornem normais ideias como ação coletiva ou espancar fascistas e policiais de choque”.

O jogo Tonight We Riot, além de fazer circular narrativas socialistas, é tanto produzido quanto distribuído por cooperativas. Isso também faz circular outras formas de organização do trabalho a partir de autogestão e propriedade coletiva dos trabalhadores. A cooperação entre as cooperativas foi ressaltada tanto por Nick Hayes quanto pelos desenvolvedores do jogo. A indústria de games é marcada por condições precárias de trabalho e cooperativas como a Pixel Pushers Union 512 tentam prefigurar possibilidades coletivas para o setor.

Para Ted Anderson, “depois de tanto tempo na indústria, vendo como as estruturas gerenciais nos jogos tendem a canalizar todo o dinheiro para a pessoa que iniciou a empresa, nós gostaríamos de produzir coisas de uma maneira mais igualitária entre todos os trabalhadores envolvidos no desenvolvimento dos jogos. Na indústria, nunca pensaram em fazer uma distribuição mais igualitária”.

Tonight We Riot foi produzido ao longo dos últimos cinco anos, sendo tocado em parceria com a Means Interactive por oito meses. Nick Hayes, em entrevista à DigiLabour, já havia afirmado que a única via possível para a estrutura de propriedade da Means era uma cooperativa: “nós pensamos que, se o entretenimento for feito por meio de uma estrutura democrática, de baixo para cima, oferecida por uma cooperativa de trabalhadores, ele seria muito mais representativo da vida real das pessoas. Além de tudo, seria melhor e mais legal”.

O Game Workers Unite, sindicato dos trabalhadores de games, oferece recursos para trabalhadores de games criarem uma cooperativa e citam outras iniciativas, como a canadense Spek Work, que criou um jogo para criticar a gig economy e o modo como as tecnologias moldam o trabalho dentro da injusta produção capitalista. Além disso, há outros desenvolvedores explicitamente marxistas, como Colestia, que produziu o jogo A Bewitching Revolution e A Hand With Many Fingers.

Game jam dos trabalhadores

Não é de hoje que aparecem jogos que criticam a exploração do trabalho e o capitalismo. Um exemplo é o Phone Story, de 2011, que mostra a cadeia de produção de iPhone, incluindo crianças escravizadas no Congo e trabalhadores que tentaram suicídio na China. Outra oportunidade para as pessoas experimentarem novas formas de jogos enquanto pensam na organização do trabalho e dos trabalhadores é o Workers Game Jam, organizado pela revista socialista Notes From Below e pelo Game Workers Unite do Reino Unido. “Para muitas pessoas que nunca se organizaram no trabalho ou estiverem em um sindicato, os game jams que fazemos são uma maneira fácil de pensar sobre essas ideias e práticas, fertilizando ideias e experiências”, afirma Woodcock, um dos organizadores. O Workers Game Jam teve sua segunda edição em 2020 com o tema ação coletiva e recebeu inscrições de dois jogos brasileiros: A Voz do Operário e Jornada do Trabalhador de Si Mesmo.

A Voz do Operário é um jogo narrativo sobre as lutas dos operários no ABC dos anos 1970 a partir dos jornais sindicais. Você precisa escolher manchetes da Tribuna Metalúrgica e entregar jornais na porta da fábrica. Tudo isso entremeado por citações de Marx e Lenin. O desenvolvedor Walter Bolitto considera ser essencial apresentar a área de desenvolvimento de jogos para outros militantes, mesmo sem experiência prévia. Um exemplo é o roteirista do jogo, Mateus Lazzaretti, que nunca havia se envolvido com um game, mas está pesquisando o tema de A Voz do Operário no curso de História da UFSM.

O jogo Jornada do Trabalhador de Si Mesmo mostra a vida de um motorista que trabalha para plataformas digitais precisando fazer a gestão da própria sobrevivência ao mesmo tempo em que procura driblar as lógicas perversas dos algoritmos e organizar-se com outros trabalhadores em protestos e greves. Fabricio Barili, mestrando em comunicação pela Unisinos e pesquisador do DigiLabour, desenvolveu o jogo em uma equipe de doutorandos e mestrandos e afirma que é importante circular o conhecimento de pesquisas acadêmicas sobre lutas dos trabalhadores para outros formatos. “O lúdico também pode ser uma forma de emancipação política”, afirma Barili.

Todo jogo é político e é preciso circular novos significados no universo dos games. “O recente surgimento de desenvolvedores marxistas nos oferece jogos capazes de difundir teoria marxista e discutir os eventos que vem surgindo na conjuntura política e que deixam claras as contradições do capitalismo”, enfatiza Walter Bolitto. 

No livro Marx no Fliperama, Jamie Woodcock provoca o leitor: “por que jogadores devem se interessar pelo marxismo? Por que os marxistas devem se interessar pelos jogos?”. A resposta está nas narrativas socialistas para imaginarmos um mundo melhor e nas lutas dos trabalhadores da própria indústria dos jogos. Games como Tonight We Riot, A Voz do Operário e Jornada do Trabalhador de Si Mesmo são ótimas justificativas para entender o poder didático dessas plataformas e mergulhar neste universo tão central na formação cultural dos jovens. E para mostrar que a direita não vai dominar por muito tempo o universo cultural dos jogos.

Sobre os autores

é professor do Mestrado e Doutorado em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Intervenção DigiLabour, que mantém uma newsletter. Coordena no Brasil o projeto Fairwork, da Universidade de Oxford. Doutor em Ciências da Comunicação pela USP.

Sobre o autor

Rafael Grohmann é professor do Mestrado e Doutorado em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e coordenador do Laboratório de Pesquisa e Intervenção DigiLabour, que mantém uma newsletter. Coordena no Brasil o projeto Fairwork, da Universidade de Oxford. Doutor em Ciências da Comunicação pela USP.

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