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Jeff Bezos em 19 de setembro de 2018 em National Harbor, Maryland. (Alex Wong / Getty Images)

Jeff Bezos: seu legado é exploração

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Tradução
Editora Elefante

Jeff Bezos está deixando o cargo de CEO da Amazon, tendo feito uma fortuna de quase US$ 200 bilhões. É uma tentativa de recuperar sua reputação – mas ele não conseguirá escapar do legado de exploração que deixou para trás.

Jeff Bezos, que você também pode conhecer como “o homem mais rico do mundo” ou “aquele cara que comeu um lagarto uma vez“, está deixando o cargo de CEO da Amazon após 27 anos no comando – ou talvez seja melhor dizer que ele está dando um passo para o lado. Bezos assumirá o título de presidente executivo, o que significa que ainda terá um papel influente nas decisões, mas não será mais o rosto da empresa. No entanto, não há razão para acreditar que isso signifique que a Amazon se tornará a monopolista amigável que seu logotipo sorridente pode sugerir.

Com Bezos no comando, a Amazon passou de uma livraria online que começou de uma garagem em Bellevue, Washington, a uma das maiores empresas de capital aberto do mundo, que não apenas controla o comércio eletrônico e plataformas de armazenamento em nuvem, mas estendeu seu alcance para um número crescente de setores. No entanto, é importante não se distrair com a narrativa triunfalista das empresas de tecnologia e seus principais executivos, que se tornou muito comum desde que os negócios da Internet explodiram na década de 1990.

Costuma-se dizer que a Amazon foi fundada em Washington para que se aproximasse da Microsoft e tentasse atrair alguns de seus talentos, e embora isso seja parcialmente verdade, dificilmente foi o fator decisivo. Antes de fundar a empresa em 1994, Bezos era o vice-presidente sênior de um fundo de investimentos, e dizem que garantiu que a primeira casa que alugou em Bellevue tivesse uma garagem para que pudesse contar o tipo de história de fundação que se esperaria de uma empresa de tecnologia. Ele não era pobre e sabia bem como minimizar sua carga tributária.

A verdadeira razão pela qual Bezos foi atraído para Washington foi porque o estado não tinha imposto de renda sobre pessoas físicas nem sobre pessoas jurídicas e, na época, a Amazon só tinha que cobrar imposto sobre vendas nas compras feitas no estado em que a empresa estava sediada. Com uma população de pouco mais de cinco milhões em 1994, Washington era a base perfeita para enviar aos outros 260 milhões de americanos todos os livros que eles pudessem comprar – não porque Bezos gostasse de livros, mas porque eles podiam ser comprados no atacado, eram fáceis de despachar e as livrarias independentes haviam sido dizimadas, deixando um mercado a ser capturado.

Construindo um monopólio

Conforme a Amazon começou a atrair clientes e expandir suas ofertas de produtos, a empresa adotou uma abordagem diferente para o crescimento. Em vez de tentar obter lucro o mais rápido possível, Bezos jogou o jogo a longo prazo, reinvestindo os lucros da Amazon no negócio a tal ponto que ela não teve seu primeiro lucro trimestral até 2001 e seu primeiro lucro anual até 2003. Durante anos a seguir, as margens de lucro da Amazon permaneceram estreitas à medida que expandia seu império.

Essa foi, sem dúvida, uma ótima estratégia de negócios, mas trouxe consequências. Ao operar com prejuízo por uma década, a Amazon foi capaz de fornecer bens e serviços abaixo do custo para expulsar seus concorrentes e dominar os mercados em que operava. Isso só se tornou mais fácil à medida que crescia, como mostra o caso do Diapers.com.

Em 2009, Bezos viu que o Diapers.com [varejista online especializado em produtos para bebês de 2005 a 2017] estava ganhando popularidade entre pais, então marcou uma reunião com seus fundadores. Quando eles se recusaram a vender, a Amazon fixou seus preços para fraldas e outros produtos para bebês 30% abaixo dos oferecidos por seu concorrente, e quando Diapers.com ajustou seus preços, os da Amazon mudaram de acordo. A Amazon estava usando os lucros de seus outros produtos para vender produtos para bebês abaixo do custo, então Diapers.com teria que se vender ou então falir. A Amazon até lançou um serviço chamado Amazon Mom para oferecer produtos para bebês com descontos ainda maiores até que, em 8 de novembro de 2010, o Diapers.com finalmente foi vendido para a Amazon. Não muito depois, a Amazon Mom foi encerrada e os preços voltaram ao normal.

A prática de oferecer produtos e serviços abaixo do custo para afastar os concorrentes é chamada de preços predatórios e é uma tática anticompetitiva. Ao longo dos anos, Bezos abusou repetidamente do poder que a Amazon acumulou com o preço baixo de suas ofertas para tirar os concorrentes do mercado, espremer vendedores terceirizados em sua plataforma e extrair subsídios públicos de governos estaduais nos Estados Unidos. A empresa já está sendo investigada por práticas anticompetitivas nos Estados Unidos e na União Europeia, mas há uma consequência muito mais profunda de seu sucesso.

O modelo de subestimar um serviço para afastar concorrentes e estabelecer uma posição de monopólio tornou-se um modelo de negócios central no Vale do Silício – um modelo que os capitalistas de risco gastarão bilhões e bilhões de dólares em aporte para concretizar. Embora os consumidores possam ver benefícios no período em que a empresa está expulsando seus concorrentes, como os pais fizeram durante o breve período que a Amazon estava tentando minar a Diapers.com, os monopolistas tendem a não ter muita consideração por seus trabalhadores.

Explorando uma força de trabalho crescente

Na carta de Bezos anunciando sua nova posição, ele afirma que “a invenção é a raiz do nosso sucesso”, mas algumas pessoas podem contestar essa afirmação. É comum atribuir o crescimento de uma empresa, especialmente no setor de tecnologia, ao seu líder visionário e aparente proeza tecnológica, mas a Amazon não seria nada sem seus 1,3 milhão de trabalhadores, a maioria dos quais organizam, cumprem e até entregam os pacotes que são o core business da empresa.

As histórias de péssimas condições de trabalho na Amazon não são novidade. Em 2011, os trabalhadores denunciaram a empresa por não instalar aparelhos de ar-condicionado em muitos de seus armazéns, causando superaquecimento e desmaios no trabalho. Nos últimos anos, também ficou claro que os trabalhadores da Amazon devem cumprir metas de produção quase impossíveis, se sentem pressionados a pular as idas ao banheiro e estão sobrecarregados a ponto de os acidentes de trabalho serem quase o dobro do padrão da indústria nos Estados Unidos. Sempre que os trabalhadores tentaram resistir, a Amazon revidou vigorosamente. A empresa é conhecida por suas táticas de combate aos sindicatos e, durante a pandemia, foi exposta por contratar funcionários da notória agência Pinkerton para espionar trabalhadores, grupos ambientalistas e sindicatos. Também se descobriu que a empresa rastreou listas de servidores internos e grupos privados do Facebook em que os trabalhadores se organizavam.

Nos últimos anos, a Amazon também construiu uma das maiores redes de  logística dos Estados Unidos, mas ao contrário dos correios dos EUA (United States Postal Service), ela depende de mão de obra não sindicalizada e de uma série de terceirizados para fazer as entregas. A Amazon já impacta negativamente os salários nas comunidades onde instala centros de atendimento, e, ao transferir mais trabalhos de entrega para sua rede não sindicalizada de entrega não só causa redução dos salários médios desse setor, mas também ameaça uma instituição pública que tem sido uma fonte estável de emprego para negros americanos.

Bezos se apresenta como alguém que se preocupa com os trabalhadores, escrevendo em sua carta que a Amazon usou sua “escala e escopo para liderar em importantes questões sociais”, incluindo “nosso salário mínimo de US$15 e o Compromisso Climático”, mas isso não é nada além de manipulação corporativa. O salário mínimo de 15 dólares foi uma resposta à pressão combinada de trabalhadores e legisladores por conta do fato de que muitos de seus funcionários dependem de auxílio governamental para comer. O aumento dos salários desviou a atenção negativa da empresa, embora alguns trabalhadores afirmassem que a situação estava pior porque a Amazon reduziu outros benefícios.

A crescente organização dos trabalhadores na Amazon é toda a evidência de que se precisa para ver que Bezos não era um bom chefe. A empresa falhou em cumprir suas metas climáticas e até demitiu funcionários de gerência mais abertamente ativistas. Durante a pandemia, não conseguiu manter os trabalhadores seguros a tal ponto que eles se mobilizaram ao redor do mundo. A empresa até tentou difamar um trabalhador que foi demitido por tentar organizar os colegas, mas isso se tornou uma crise que explodiu na cara dos executivos quando vazaram as anotações de suas reuniões. Os trabalhadores de um depósito em Bessemer, Alabama, vão até começar a votar se devem se sindicalizar no final deste mês – e a empresa está lutando contra com unhas e dentes.

Reabilitando uma imagem manchada

Nos próximos anos, a Amazon provavelmente enfrentará mais desafios do que nunca. A militância de trabalhadores no setor de tecnologia de forma geral está aumentando, e certamente haverá mais tentativas de sindicalizar os trabalhadores dos depósitos no futuro, especialmente se a luta em Bessemer for bem-sucedida. A empresa provavelmente também enfrentará ações judiciais antimonopólio nos Estados Unidos e talvez na União Europeia também. Bezos está saindo dos holofotes antes que tudo isso aconteça.

Quase no final de sua carta, Bezos explicou que assumir o cargo de presidente executivo lhe dará “o tempo e a energia de que preciso para focar no Day 1 Fund, no Bezos Earth Fund, no Blue Origin, no Washington Post e em minhas outras paixões.” À medida que a Amazon continua com o ethos implacável imbuído por Bezos, ele agora pode trazê-lo para outros empreendimentos enquanto tenta suavizar sua imagem.

Em 2018, Bezos foi questionado sobre o que ele faria com seus bilhões, e sua resposta foi reveladora: “A única maneira que posso ver para usar tantos recursos financeiros é investindo meus ganhos na Amazon em viagens espaciais. É basicamente isso.” Com um patrimônio líquido de US$ 130 bilhões, que caiu após seu divórcio de MacKenzie Scott em 2019 e disparou durante a pandemia para perto de US$ 200 bilhões, seus olhos não estão atentos à escalada da crise climática, à crescente desigualdade ou ao aumento de pessoas sem-teto que assola a cidade natal da Amazon, Seattle – mas apenas miram as estrelas.

Isso não é surpresa. A Amazon foi criada em Washington para reduzir sua carga tributária e foi considerada a pior grande empresa de tecnologia por suas estratégias de evasão fiscal. Ela lutou vigorosamente contra as tentativas de cobrar imposto sobre vendas em compras fora de Washington, cedendo apenas em 2017, e mais recentemente também lutou contra uma pequena taxa municipal de Seattle para financiar programas de ajuda aos sem-teto, além do fato de que frequentemente não paga imposto de renda federal nos Estados Unidos.

Bezos parece ter aprendido uma lição com Bill Gates depois de ter seu nome envolvido em escândalos nos últimos anos. Gates foi execrado após o caso de antitruste da Microsoft e adotou a filantropia para reabilitar sua imagem. Anos mais tarde, e depois de dar milhões a empresas de mídia, Gates é majoritariamente bem visto na imprensa com matérias sobre como ele está salvando o mundo ao doar seu dinheiro, distorcendo o impacto real de como ele aplica sua vasta riqueza.

Parece que Bezos seguirá um manual semelhante. Ele já distribuiu dinheiro para grupos de sem-teto através de seu fundo Day 1 Fund e para organizações climáticas por meio de seu Earth Fund. Mas essa doação esconde o problema fundamental.

Lutando pelo futuro

Como o homem mais rico do mundo, Bezos tem um poder imenso e, no final das contas, vai usar sua riqueza para defender e promover seus interesses, conforme sugeriam seus comentários sobre o espaço. Após décadas de cortes de impostos, governos em todo o mundo ficaram sem a receita necessária para enfrentar as  seguidas crises do século XXI, e os bilionários não podem preencher a lacuna, não importa o quanto suas equipes de relações públicas e o sistema de mídia corporativa  digam o contrário.

O poder e a riqueza que Bezos possui é o produto direto da exploração brutal de mais de um milhão de trabalhadores que são tratados não como seres humanos, mas engrenagens de uma grande máquina que não irá parar até que não haja como escapar de sua rede abrangente de plataformas e serviços. Devemos rejeitar não apenas suas tentativas de usar seus ganhos ilícitos para reescrever sua história pessoal, mas também seu desejo inevitável de definir nossos horizontes em um futuro que coloque os interesses dos bilionários à frente dos do resto da humanidade.

À medida que ele se afasta da posição de CEO, devemos reconhecer o quão obsceno é para um homem ter ganhado cerca de US$ 90 bilhões durante uma crise de saúde global, onde o desemprego nos EUA disparou para níveis nunca vistos desde a Grande Depressão e mais de cinquenta milhões de americanos estavam passando fome. Seu nome deveria ser sinônimo da crueldade do sistema para o qual ele contribuiu e se beneficiou. A própria existência de um Bezos é a prova da necessidade de desmantelar as estruturas capitalistas que permitem a existência de tamanha desigualdade. Jeff Bezos não merece redenção.

Sobre os autores

é um escritor de tecnologia canadense. Ele é o apresentador do podcast Tech Won't Save Us e autor do livro Road to Nowhere: What Silicon Valley Gets Wrong about the Future of Transportation (Verso, 2022).

Cierre

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Published in América do Norte, Análise, Capital, Economia and Tecnologia

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