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Ursula Le Guin fotografada em maio de 2009. Foto: Oregon State University / Flickr

Ursula K. Le Guin, construtora de mundos

POR
Tradução
Everton Lourenço

Ursula K. Le Guin nasceu neste dia em 1929. Suas obras pressionavam os leitores a expandirem sua visão sobre o que é possível - e isso é central para a luta socialista.

Ursula K. Le Guin era amada. Seus romances, poemas, suas reflexões sobre seu gato Pard e suas exortações para que se fale a verdade na cara do poder a tornaram querida por milhões de pessoas. Escrever um tributo adequado a uma pessoa como essa é uma tarefa difícil, até porque, embora eu seja uma fã de longa data de Le Guin, não sou das mais obcecadas.

Forcei agressivamente meus amigos não iniciados a lerem A Mão Esquerda da Escuridão, mas não me lembro com qualquer nitidez dos meandros do Ciclo de Hain, e além de saber que Le Guin era uma Oregoniana com pais e hobbies interessantes, não me debrucei sobre os detalhes biográficos de sua vida.

Não obstante, me sinto compelida a me juntar ao coro de tristeza e lembrança. As histórias de Ursula Le Guin deram forma à minha imaginação sociológica de maneiras só rivalizadas pelas minhas primeiras incursões no campo da Economia Política. Na verdade, minha descoberta de Le Guin coincidiu com minha descoberta do marxismo; as duas formas de pensar pareciam perfeitamente complementares.

Minha crença na compatibilidade entre elas resultava em parte das críticas de Le Guin ao capitalismo e a todos os sistemas sociais enraizados em coerção e opressão. Ao longo de sua vida, ela não manteve em segredo suas visões políticas, fosse a oposição à Guerra do Vietnã e ao colonialismo ou seu corajoso discurso na premiação do National Book Awards em 2014, no qual condenou as corporações vorazes que passaram a dominar o mundo editorial, declarando: “Nós vivemos no capitalismo; seu poder nos parece inevitável. O mesmo se dava com o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e transformado pelos seres humanos.”

Mas o apelo da visão de Le Guin para mim era mais profundo do que sua visão política – eu me apaixonei pelo seu método.

Le Guin era uma materialista. O vínculo que ela estabeleceu entre o capitalismo e os reis sugere esse materialismo – uma ênfase na História que Le Guin compartilhava com materialistas históricos convictos, como Ellen Meiksins Wood e E.P. Thompson.

Ellen Meiksins Wood – outra grande intelectual que partiu cedo demais – definia o materialismo histórico como uma forma de ver o mundo que:

[…] não permite nenhuma sequência pré-ordenada ou unilinear, e na qual […] o capitalismo – ou qualquer outro modo de produção – é algo que precisa ser explicado, não pressuposto, e que busca explicações não em alguma lei natural trans-histórica, mas nas relações sociais, contradições e conflitos historicamente específicos.

Le Guin era mestre em enxergar e construir relações sociais. Ela era uma construtora de mundos.

Ela poderia esculpir um mundo em poucas páginas – Aqueles Que Abandonam Omelas – ou através de um conto épico – Os Despossuídos. Seus mundos eram, a meu ver, projetados com o olhar de uma materialista histórica; cada um deles capturava as relações sociais, contradições e conflitos que definem a sociedade. As batalhas pessoais de seus muitos protagonistas – Tenar, Selver, Ai – contra o racismo, sexismo, colonialismo e a tradição encapsularam a dinâmica da vida real entre estrutura e agência de uma maneira incomparável.

O interesse de Le Guin na colisão de biografia e história fomentou uma interrogação que atravessou toda a sua carreira sobre o desejo humano de dar forma à sociedade. Em Floresta é o Nome do Mundo, a sociedade é despedaçada por colonos brutais vindo da Terra; em A Mão Esquerda da Escuridão vemos as maquinações do “soft power” e da diplomacia; e em A Curva do Sonho e Os Despossuídos, Le Guin se engalfinha com a questão do desejo pela utopia.

Em um momento no qual a profunda crise e as contradições do capitalismo neoliberal têm despertado um retorno do impulso utópico (e distópico), o tratamento de Le Guin sobre o assunto é mais relevante do que nunca. Tanto A Curva do Sonho quanto Os Despossuídos (com o seu subtítulo adotado pelos fãs como “Uma Utopia Ambígua”) são contos de advertência, destacando o conflito entre desejos utópicos, historicidade e estruturas sociais.

A Curva do Sonho apresenta as tentativas de um psiquiatra ambicioso de usar os “sonhos eficazes” do protagonista (que transformam a realidade) como atalhos para resolver os profundos problemas sociais de racismo, colapso ambiental, pobreza e guerra. Os resultados são horríveis: guerra nuclear, autocracia, ataque alienígena e pele cinza para todos. Os Despossuídos explora a vida em uma colônia anarco-sindicalista no planeta estéril Anarres; o romance solapa fantasias utópicas prescritivas com questões espinhosas sobre ambição, coletivismo e poder.

Ambas as histórias estão enraizadas em uma visão de mundo materialista, destacando como nossas interações com a natureza produzem as condições de vida. Não há um desdobramento ou ponto final; há uma visão e uma luta contínua por algo melhor – uma visão de mundo que ecoa a visão política de figuras da vida real como Ella Baker.

O objetivo do materialismo histórico sempre foi interpretar o mundo para poder transformá-lo. A romântica em mim acredita no poder da arte, segue talhando a noção de que mundos criados pela ficção especulativa carregam a possibilidade de mudar para melhor o mundo em que vivemos.

No mínimo do mínimo, histórias como as contadas por Le Guin destacam a indissociabilidade entre a cultura e o capitalismo. Há muito tempo, em um trem público para o norte de Nova Jérsei, vi um pôster de uma minissérie do canal Sci-Fi baseada nos livros do Ciclo de Terramar de Le Guin. Foi emocionante – até que percebi que o cara de cabelos loiros e olhos azuis no meio do pôster era para ser Ged.

Ged não deveria ser branco. Incomodava Le Guin o fato da literatura infantil e juvenil ser quase desprovida de protagonistas negros e pardos. (De acordo com Centro Cooperativo de Livros Infantis, nove em cada dez livros infantis publicados nos EUA em 2013 tinham um protagonista branco.) Ela queria expandir a noção de quem poderia ser um herói, então ela escreveu Ged como um garoto com “pele marrom avermelhada”.

Os produtores da minissérie aparentemente estavam mais preocupados com o lucro do que com essas aspirações, então escalaram um ator branco. Le Guin ficou furiosa. Ela publicou um artigo desautorizando a série, dizendo aos leitores que o esquema de cores em seus livros era “consciente e deliberado” e que “Ged com um rosto branco [era] uma mentira, uma traição – uma traição do livro e do seu leitor em potencial.”

Le Guin levava a sério seu papel como criadora de mundos e foi uma crítica veemente do fato de que a fantasia e a ficção científica estavam preocupadas principalmente com “as aventuras de pessoas brancas em mundos brancos”. A ficção especulativa continua tendo de enfrentar o racismo e o sexismo, mas Le Guin, ao lado de grandes nomes como Octavia Butler, forçou o gênero a uma direção nova e mais radical.

A visão materialista de Le Guin e sua apaixonada interrogação da sociedade lhe permitiram criar verdadeiras obras-primas, elevando a ficção e, o mais importante para mim, a nossa visão do que é possível.

Ela fará muita falta.

Sobre os autores

faz parte do conselho editorial da Jacobin. Ela é autora dos livros "The New Prophets of Capital e The Smartphone Society: Technology, Power" e "Resistance in the New Gilded Age", prestes a ser publicado.

Cierre

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Published in Análise, Arte, Cultura, homeIzq, Livros, Política, Sociologia and Tecnologia

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