Imaginando o fim do capitalismo com Kim Stanley Robinson

13/11/2020

Uma entrevista com
Kim Stanley Robinson

Tradução
Fábio Fernandes

Kim Stanley Robinson é autor de mais de vinte livros, incluindo Nova York 2140, Red Moon, e a trilogia de Marte. Ele conversou com a Jacobin sobre seu último trabalho, sua visão do socialismo, e por que precisamos lutar para imaginar o fim do capitalismo ao invés do fim do mundo.

Kim Stanley Robinson falando no Phoenix Art Museum em Phoenix, Arizona em Setembro de 2017. (Foto: Gage Skidmore / flickr)

The Ministry for the Future (“O Ministério para o Futuro”, ainda sem tradução para o português) é a tentativa mais recente de Kim Stanley Robinson de preencher uma lacuna importante na tradição da ficção utópica. Raramente lidando com a fase de transição em direção a uma sociedade melhor e diferente, a ficção especulativa desse tipo explora os estágios finais de um experimento utópico. The Ministry é uma exceção a essa tendência.

Uma história especulativa sobre as próximas décadas, o romance gira em torno de um ministério internacional criado para ajudar a implementar o acordo climático de Paris. A ação do romance abrange o globo, apresentando levantes populares, ecoterrorismo, guerra assimétrica, greves provocadas pelas dívidas estudantis e geoengenharia. Programas do tipo Green New Deal em várias das maiores economias do mundo têm destaque – com a Índia pós-BJP na liderança – e o recrutamento de muitos dos principais bancos centrais do mundo para financiar o trabalho em direção a uma transição justa dos combustíveis fósseis é explorada.

Estes são os ingredientes básicos da longa transição – e o que foi desdenhosamente chamado de “uma loja de culinária do futuro”. Mas, embora possa não servir como um projeto político, é um terreno inegavelmente fértil para um romance – e a desconsideração do gênero pelo assunto acabou beneficiando Robinson.

Olhando para trás a partir de meados do século XXI, The Ministry ajuda a abrir nossas mentes para um mundo em transição para longe do capitalismo. Imaginar é uma condição prévia necessária para resolver a crise ecológica de nossos tempos. A imaginação fornece o fulcro para alavancar o horizonte do possível. Ao imaginar possíveis rotas futuras, Robinson nos prestou um serviço inestimável.

Derrick O’Keefe, da Jacobin, militante e escritor baseado em Vancouver, conversou com KSR sobre política, economia, mudança climática, ficção científica e a jornada de agora para o futuro.


DOK

No mês passado, Vancouver, onde estou baseado, teve alguns dias com a pior qualidade de ar do mundo, graças à fumaça dos incêndios florestais da Califórnia e da Costa Oeste. Este foi um pano de fundo apropriado para a leitura de The Ministry of the Future, que começa com um evento climático catastrófico. Esse evento, que ocorre na Índia, ajuda a desencadear uma onda de mudanças políticas e ações climáticas em todo o mundo. Você acha que será necessário algo realmente extremo para acionar as mudanças de que precisamos?

KSR

Acho que já estamos lá, com a pandemia e com os incêndios e furacões: o nível de extremidade trouxe uma sensação de consciência geral de que algo terá de ser feito, e quanto antes melhor. Dito isso, acho que estamos à beira de eventos ainda piores acontecendo, como o livro deixa claro. Tem sido um ano memorável, um ano traumático – então este pode ser um estímulo para o início de algumas mudanças.

DOK

The Ministry é dedicado a Fredric Jameson, que foi seu orientador de doutorado.

KSR

Fred foi meu orientador, mas enquanto eu estava trabalhando no meu doutorado ele se mudou da UC San Diego para Yale, e, quando isso aconteceu, ele permaneceu em minha banca – mas a supervisão real foi transferida para meu orientador da graduação.

DOK

Eu queria perguntar a você sobre a citação agora famosa, atribuída a Jameson, que na verdade é meio que uma paráfrase: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo.” Agora eu me dei conta de que este livro será lançado num ano em que se tornou muito fácil imaginar o fim das coisas, e que o verdadeiro desafio é imaginar o início de algum tipo de sistema socialista. Por mais que The Ministry seja sobre o futuro, ele sugere que o início de que precisamos já está aqui conosco agora e que é realmente uma questão de ampliar algumas dessas alternativas.

KSR

Eu sou um romancista, sou formado em literatura. Não estou pensando nessas ideias, estou ouvindo o mundo e me agarrando – às vezes ao vazio, às vezes simplesmente agarrando novas ideias e vendo o que todos estão vendo.

Se pudéssemos instituir algumas dessas boas ideias, poderíamos rapidamente mudar de um capitalismo para um pós-capitalismo mais sustentável e mais socialista, porque muitas das soluções óbvias estão contidas no programa socialista. E se tratássemos a biosfera como parte de nosso corpo estendido que precisa receber mais atenção e cuidado, então as coisas poderiam melhorar rapidamente, e já existem precursores que demonstram essa possibilidade.

Eu não acho que seja possível postular um colapso, ou uma revolução, para um sistema totalmente diferente que funcionaria sem interrupções em massa e talvez uns tiros pela culatra,  então é melhor tentar imaginar uma progressão gradual do que temos agora para um sistema melhor. E quando terminarmos – quero dizer, “terminar” é a palavra errada – mas, no final do século, poderíamos ter um sistema radicalmente diferente do que temos agora. E isso é meio que necessário se quisermos sobreviver sem desastres. Então, já que é necessário, poderia acontecer. E eu estou sempre procurando por modelos plausíveis que já existem e imaginando que eles serão aprimorados.

Modelos do mundo real para o futuro

DOK

A economia cooperativa da Mondragon, na região basca, surge como um desses modelos em vários de seus livros. E em The Ministry, há o exemplo de Kerala, porque a Índia é tão central para a ação do livro quanto líder da transição para uma ação climática drástica.

KSR

Estou muito interessado em ambos esses exemplos. Na verdade, nunca estive em nenhuma das regiões, mas tenho contatos em ambas. Na Mondragon, eles sabem que sou um escritor estadunidense de ficção científica que gosta deles, porque meus livros da trilogia de Marte foram traduzidos para o espanhol e estão indo muito bem na Espanha. Com Kerala, eu estudo a região há vinte, vinte e cinco anos. Tipo, por que ela é diferente e como é diferente? Poderia ser uma situação do tipo “o pequeno controla o grande” para o resto da Índia? E assim por diante.

Coloquei lugares em que já estive no romance, porque precisava de alguns pontos de ancoragem – principalmente Zurique [onde o ministério do título está sediado]. Minha esposa e eu moramos em Zurique por anos e finalmente consegui colocar isso na ficção, o que foi um grande prazer. Mas, quanto ao resto do mundo, e para esses tipos de precursores de esquerda, ou estados de esquerda já existentes que estão num nível regional ou municipal, muitas vezes pensei comigo mesmo: “Existe alguma razão para que eles não possam ser tomados como modelos?” Existe alguma razão real – visto que obviamente existem razões ideológicas; se você é um defensor do capitalismo per se, então você diria que eles são pontos fora da curva ou muito pequenos para serem relevantes – mas se você é uma pessoa de esquerda, você olha para eles e vê o apoio público para o que eles estão fazendo, e você pergunta: “Por que isso não poderia funcionar numa escala maior?” Especialmente se você está tentando imaginar futuros que funcionem melhor, que é o que um escritor utópico de ficção científica faz, então você está desesperado por modelos do mundo real.

DOK

Quando ouvi originalmente a sinopse deste livro, imediatamente me pareceu algo como um Daqui a Cem Anos – Revendo o Futuro ecossocialista. O personagem principal dessa obra de Edward Bellamy adormeceu por mais de um século e então acordou em uma espécie de utopia pós-capitalista no ano de 2000. Em contraste, The Ministry é mais sobre a jornada até 2050 ou mais, um mundo muito diferente de hoje, tanto econômica quanto politicamente. Como você situa essa obra, e a sua obra de maneira mais ampla, dentro da tradição utópica?

KSR

Bem, o livro de Bellamy é bom para se pensar, porque teve um impacto no mundo real. Havia clubes Bellamy, e todo o movimento progressista foi energizado por Daqui a Cem Anos.

Eu me inseri na tradição utópica. Não é um grande corpo de literatura, é fácil ler os maiores sucessos da tradição utópica. Você poderia fazer uma lista, quero dizer, cerca de vinte ou vinte e cinco livros seriam os destaques de todos os quatrocentos anos, o que é um pouco chocante. E talvez haja mais coisas por aí que não permaneceram no cânone. Mas se você falar sobre o cânone utópico, ele é muito pequeno – é interessante, tem seus hábitos, seus problemas, suas lacunas.

Notoriamente, de Thomas More (Utopia) em diante, houve uma lacuna na história: a utopia é separada por espaço ou tempo, por uma disjunção. Eles chamam isso de Grande Trincheira. Em Utopia, eles cavaram uma grande trincheira na península para que sua península se tornasse uma ilha. E a Grande Trincheira é endêmica na literatura utópica. Quase sempre há uma quebra que permite que a sociedade utópica seja implementada e funcione com sucesso. Eu nunca gostei disso porque uma conotação da palavra “utópico” é irrealidade, no sentido de que “isso nunca vai acontecer”.

Portanto, temos que preencher essa trincheira. Quando Jameson disse que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, acho que ele estava falando sobre a ponte que falta daqui para lá. É difícil imaginar uma história positiva, mas não é impossível. E agora, sim, é fácil imaginar o fim do mundo porque estamos no início de um evento de extinção em massa. Mas ele está falando de hegemonia, de um tipo de leitura marxista da história, e o tipo de noção gramsciana de que todos têm a mentalidade de que o capitalismo é a própria realidade e que nunca pode haver outra maneira – então é difícil imaginar o fim do capitalismo. Mas eu simplesmente inverteria a questão e diria: é difícil imaginar como chegaremos a um sistema melhor. Imaginar o melhor sistema não é tão difícil; você apenas cria algumas regras sobre como as coisas devem funcionar. Você poderia até dizer que o socialismo é esse tipo de imaginário utópico. Vamos apenas fazer assim, uma espécie de sociedade de ajuda mútua. E eu concordaria com qualquer pessoa que disser: “Bem, esse é um bom sistema.”

O interessante a se dizer, e também as novas histórias para contar se você for um romancista de ficção científica, se você for algum tipo de romancista – quase todas as histórias já foram contadas algumas vezes – mas a história de como chegar a um novo e melhor sistema social, isso é quase um nicho vazio em nossa ecologia mental. Então, tenho me empenhado nessa tentativa. É difícil, mas é interessante.

O Homo Economicus é uma fraude

DOK

Seria justo dizer que em meio e por entre toda a ação em The Ministry, há algumas polêmicas sendo apresentadas? Uma polêmica recorrente é contra a economia dominante, um tema que permeia todo o livro de que há necessidade de novas métricas e novos índices para quantificar a biosfera e expressar o que realmente valorizamos, em vez de apenas o PIB e o mercado de ações.

KSR

Com certeza há uma polêmica. Primeiro, eu gostaria de fazer uma distinção entre economia e economia política, porque em geral, a economia como é praticada hoje é o estudo do capitalismo. Ele toma os axiomas do capitalismo como dados absolutos e então tenta trabalhar a partir deles para várias melhorias e ajustes no sistema que tornariam o capitalismo melhor, mas não questionam os axiomas fundamentais: cada um está nessa por si mesmo, todos perseguem seus interesses próprios, que produzirão os melhores resultados possíveis para todos. Esses axiomas são altamente questionáveis, e eles vêm do século XVIII ou são ainda mais antigos, e não combinam com a ciência social moderna ou a própria História em termos de como nos comportamos, e eles não valorizam a biosfera natural adequadamente, e tendem a encorajar ganhos extrativos de curto prazo e interesses de curto prazo. São posições filosóficas que se expressam como se fossem fixas ou como se fossem a própria natureza, quando na realidade são criadas pela cultura.

A economia política é um tipo de coisa do século XIX, uma ideia mais aberta em que poderíamos ter sistemas diferentes. E isso explica muitas das lutas do século XX. Mas o capitalismo gosta de fingir que é a própria natureza, e isso é o que a economia é hoje, em grande parte.

Considere o termo “eficiência”. Na economia capitalista, é considerado quase um sinônimo de “bom”, mas depende completamente do que se tem em mente quando falamos de eficiência. Porque metralhadoras são eficientes, câmaras de gás são eficientes. Portanto, “eficiência” como tal não significa “bom”. É a medida do mínimo esforço aplicado com o maior valor obtido.

Uma das coisas que estamos vendo durante a pandemia é que o sistema global de criação de máscaras é eficiente, mas também é frágil, quebradiço e não confiável porque redundância, robustez e resiliência são todas relativamente ineficientes, se a única definição de eficiência for o lucro.

A economia capitalista compreende e julga mal o mundo, e é por isso que estamos na confusão em que estamos – presos entre a degradação da biosfera e a desigualdade social radical. Ambos são resultados naturais do capitalismo como tal, um resultado dos cálculos econômicos que fazemos sob os axiomas capitalistas.

Aqui precisamos fazer algumas distinções. A quantificação faz realmente parte da ciência. As ciências sociais possuem algumas ferramentas para compreender e generalizar desde as particularidades dos indivíduos até o que o grupo pode desejar.

Vinte e cinco anos atrás, eu poderia ter dito: “Temos que jogar a economia fora”. Isso não vale mais para mim. A economia tem um conjunto de ferramentas. E as ferramentas das ciências sociais, trabalhando com os axiomas certos, podem contribuir para uma economia socialista. Pode haver um sistema econômico pós-capitalista. Mas aí começamos a falar de uma economia política diferente.

Essa é uma das coisas que The Ministry trata. É possível a transformação, em etapas, da economia política em que estamos agora, que é o capitalismo neoliberal, para o que se poderia chamar de anti-austeridade, para um retorno ao keynesianismo, e depois disso para a social-democracia, e depois disso para o socialismo democrático, e depois disso para um sistema pós-capitalista que pode ser uma invenção completamente nova para a qual não temos um nome?

É por isso que me proponho a chamá-lo de “pós-capitalismo”, para não tentar defini-lo por nenhuma das economias políticas do século XIX. Acho que muitas das soluções podem ser encontradas no socialismo, mas não me considero um socialista. Eu gostaria de manter esse conceito um pouco mais aberto à ideia de que temos que transformar o capitalismo como tal, e que podemos empurrá-lo para as margens, onde podemos ter um mercado para o que não é necessário. Acho que o próprio mercado tem que ser reexaminado, e isso é tão fundamental para a forma como a sociedade moderna funciona que é assustador, e, para mim, é melhor pensar de forma gradual e imaginar a sociedade de onde estamos agora se transformando para uma economia política melhor que ainda está definida.

Morte térmica planetária ou o fim do capitalismo — nós podemos escolher

DOK

Um dos axiomas dessa economia política melhor é expresso em The Ministry como “Propriedade pública dos serviços de necessidade e representação política real” – duas coisas juntas que hoje estamos longe de ter, em maior ou menor grau, em quase toda parte.

Uma parte fundamental para ir daqui para lá, para uma nova economia política, envolve a questão das finanças. Em Nova York 2140, um de seus personagens é um corretor de Wall Street especulando sobre os mercados entre as marés, e grande parte da ação envolve finanças e bancos. Em The Ministry, medidas ainda mais radicais são contempladas para colocar as finanças a serviço de um futuro habitável e não submerso. De onde você tirou a inspiração para a Carbon Quantitative Easing (flexibilização quantitativa do carbono) e o resto da transformação das finanças imaginada nesse livro?

KSR

A Flexibilização Quantitativa do Carbono não é ideia minha. Eu realmente sou apenas um ouvinte aqui, tentando amplificar as ideias. Essa ideia está circulando por aí. Recentemente, até mesmo Lawrence Summers – que foi secretário do Tesouro de Bill Clinton e um neoliberal de primeira ordem – e seu think tank têm divulgado coisas sobre algum tipo de FQC. Então, está se espalhando rapidamente como uma ideia, e fico feliz por isso.

Mas nos anos desde que escrevi Nova York 2140, aprendi mais sobre os bancos centrais e percebi que nacionalizar os bancos, o que acontece em 2140, não seria suficiente. Seria ótimo se todos os bancos fossem de propriedade do povo, e se os bancos não fossem empresas privadas com fins lucrativos, isso também seria ótimo – mas seria apenas uma etapa ao longo do caminho; não seria suficiente. Porque, a esta altura, os bancos centrais estão apenas preocupados em estabilizar o dinheiro e talvez ajudar os níveis de emprego, e não vão fazer mais nada a menos que estejam sob enorme pressão. Eles precisam ser mudados, e é disso que trata este romance.

Mudar a maneira como encaramos o dinheiro seria um passo em direção ao pós-capitalismo. Se o dinheiro fosse criado do zero, mas não dado aos bancos para emprestar ao que eles quisessem e sim dado a projetos de descarbonização primeiro, e só depois fluindo para a economia geral – o primeiro dinheiro gasto pelos governos, que fazem o dinheiro em primeiro lugar, seria voltado para esforços de descarbonização. Isso me parece uma boa ideia, uma ideia necessária.

Porque, como salvar a biosfera não traz lucro na ordem capitalista, nós nunca iremos fazer isso, e portanto estamos condenados. Portanto, uma reforma fundamental de como consideramos o dinheiro em si é absolutamente necessária. Estou dizendo que uma economia política pós-capitalista que considera o dinheiro como sendo criado para o bem público e sendo gasto nisso primeiro – e que depois vai pingando lentamente para a economia geral – é uma mudança fundamental e, sem ela, estaremos em apuros terríveis.

DOK

Grande parte da ação se passa na Suíça, como você mencionou, porque muitos dos personagens principais são membros do Ministério do Futuro, com sede em Zurique. Você se preocupa que sua história possa evocar conceitos de direita como o bicho-papão do governo mundial globalista de que falam os nacionalistas para evitar ações contra a mudança climática?

KSR

Bem, talvez sim, mas eu diria que a esquerda tem que combater fogo com fogo. Ideias de direita também são concepções de globalização, sob disfarces terrivelmente pobres de nacionalismo. Mas o sistema nacionalista está embutido no capitalismo; é completamente internacional e global. Esses direitistas, se pudessem ganhar um centavo a mais por hora vendendo os cidadãos nacionais, enviando suas indústrias para a China ou Índia – fariam isso num segundo, e já o fizeram. Portanto, eles precisam ser desmascarados por serem completamente inconsistentes e hipócritas. E a esquerda precisa ser muito mais agressiva nisso e dizer que o problema não é a globalização em si; o problema é a má globalização, que é o capitalismo, em oposição à boa globalização, que é a ajuda mútua e a cooperação entre os Estados-nação por meio de tratados internacionais e coisas como a ONU.

O Acordo de Paris é crucial. É um evento importante na história mundial. Pode se transformar na Liga das Nações, e nesse caso estaríamos ferrados. Ou pode se transformar em algo novo na história, uma forma de descarbonizar sem jogar o jogo de soma zero de nação contra nação.

Portanto, tudo isso precisa ser combatido no nível da batalha discursiva, e nenhuma concessão pode ser feita nesse ponto. Quero dizer, o pensamento da direita é extremamente hipócrita, complicado e contraditório, e isso precisa ser empurrado e apontado em todas as oportunidades – esses supostos nacionalistas também vão te trair. Essa batalha discursiva é muito importante.

DOK

Você falou sobre a Grande Trincheira, de como vamos daqui para lá, e me dou conta de que este livro é muito pé-no-chão. Não há referência a uma colônia lunar, muito menos a qualquer versão de Marte da Elon Musk Inc., e não há menção a comunidades fechadas fora do planeta como no filme Elysium. Esta ausência implica que salvar a terra, ou fazer a transição para um sistema habitável, requer parar a colonização capitalista do espaço? Eu ficava a todo momento esperando que aparecesse um personagem tipo Elon Musk.

KSR

Bem, uma vez que existem 106 capítulos – acho que poderia ter feito 107 e ter falado sobre isso. Mas talvez a ausência fale mais alto do que palavras. Todas essas coisas são fantasias, e viagens de fantasia de bilionários não vão a lugar nenhum.

Em Red Moon e Aurora, eu fiz minha declaração sobre o que é possível e o que não é. Porque no mundo capitalista, você tem que ter lucro, e nem mesmo os bilionários têm dinheiro suficiente para financiar adequadamente esses empreendimentos por conta própria. Então, eles falam sobre mineração de asteroides – isso é besteira. Eles falam sobre a mineração de Hélio-3 na lua – isso é besteira. Não há lucro no espaço. É apenas uma fantasia da nossa cultura atual, porque todos foram convencidos pelos escritores de ficção científica [risos] e não estão prestando atenção ao jogo dos números, eu acho.

Eu acredito na ciência espacial. Estou totalmente apaixonado pela NASA e pela ciência espacial pública, como parte do governo. Existe um ditado da NASA, “ciência espacial é ciência da Terra”, e eu acredito totalmente nisso.

DOK

Isso me parece exatamente o tema de Aurora. Você tem que se afastar para o espaço, a 150 anos da Terra, para perceber o que tem, e naquele livro, eles realmente dão meia-volta na nave.

KSR

Sim, exatamente. Aurora é minha declaração sobre deixar o sistema solar e toda aquela ideia de que a humanidade está destinada às estrelas. Tento colocar uma estaca no coração dessa ideia. Mas a lua, Marte, os asteroides – isso é mais local. Mas não é lucrativo. Então, você verá a China na lua [como em Red Moon], você verá uma presença internacional lá. Tenho certeza de que será como a Antártica. E a Antártica é interessante. Todo verão, desembarcam lá cerca de duas mil pessoas. Não é explorável; não há lucro a ser feito lá. E ninguém está interessado. Tipo, se eu disser para as pessoas: “Oh, eu fui para a Antártica”, é tipo, “Quem se importa?”

Para combater as mudanças climáticas, vamos precisar de cada flecha em nossa aljava

DOK

E suponho que você já passou algum tempo na Antártica, porque há tantos detalhes na ação que ocorre lá, tanto neste livro quanto em seus trabalhos anteriores.

KSR

Sim, estive lá duas vezes. Tenho um romance inteiro sobre isso. A elevação do nível do mar é tão iminente que a Antártica será importante. E essa ideia de sugar a água de debaixo dessas geleiras para desacelerar seu derretimento e seu deslize para o oceano, essa é uma ideia que os glaciologistas têm, na verdade um glaciologista específico. E quando pergunto a seus colegas sobre esse plano, eles dizem: “sim, nós temos a tecnologia para isso”.

A questão é se o fundo [das geleiras] está configurado corretamente. Em outras palavras, a forma terrestre da Antártica sobre a qual o gelo repousa pode ou não ser propícia para sugar água. Portanto, é uma questão em aberto se minha seção a respeito de salvar o nível do mar em The Ministry realmente funcionaria… É provavelmente a parte mais especulativa do romance, sugerir que isso poderia ser feito e que funcionaria. Isso seria uma geoengenharia extremamente útil, mas no momento ninguém está confiante de que realmente funcionaria, porque não sabemos o suficiente sobre como é o fundo. Portanto, a parte antártica do romance é um pouco de “wishful thinking”.

DOK

A geoengenharia é às vezes uma espécie de “terceiro trilho” na esquerda ou nos círculos políticos ecológicos, algo em que não se pode tocar. A certa altura, um de seus personagens neste livro sugere que seria necessário uma nova palavra.

KSR

Eu sei exatamente do que você está falando, esse tipo de sensibilidade de terceiro trilho. Eu diria que as condições mudaram tanto que agora estamos obviamente experimentando ativamente as mudanças climáticas. Eu posso ver que uma análise esquerdista padrão disso é que seria apenas mais uma desculpa capitalista. Mas o que estou dizendo é que já estamos fazendo isso, pode se tornar necessário e, de qualquer maneira, uma nação como a Índia, se for atingida por uma onda de calor, não vai se preocupar com nenhum tipo de esquerda discutindo filigranas. Muitas pessoas de esquerda estão bem de vida, bem de vida o suficiente para ter uma filosofia política que quer que as coisas sejam melhores para todos, em parte, como no meu caso, então eu não me sinto como um aristocrata ridículo, mas apenas um precursor do que todos terão mais tarde.

O que quero dizer a todos os meus leitores de esquerda é: superem isso. Estamos em uma situação em que todo mundo tem que botar a mão na massa, em que todas as coisas possíveis que já foram sugeridas para escapar do evento de extinção em massa estarão sobre a mesa. E esses argumentos teóricos – “ah, mas é apenas outro estratagema capitalista”, “é uma bala de prata”, “é uma fantasia” – bem, em parte é verdade e em parte não. Portanto, não há desculpa para rigidez ideológica sobre algo tão importante. Como esquerdista, eu diria a outros esquerdistas: superem o preconceito contra o termo geoengenharia e olhem novamente para a situação em que nos encontramos. Precisamos descarbonizar. Tudo o que fizermos em escala para conseguir isso é uma forma de geoengenharia.

Eis aqui uma coisa que venho dizendo para abrir os olhos em torno da geoengenharia: os direitos das mulheres são uma tecnologia de geoengenharia. Eis o porquê: quando as mulheres desenvolvem e conquistam direitos, porque precisamos chegar ao pós-patriarcado e também ao pós-capitalismo, a taxa de reposição da população – uma população estável é de 2,1 filhos por mulher – cai naturalmente, a partir de suas próprias escolhas de vida, para uma taxa de 1,8 ou 1,6. Então, se você começar a falar sobre os direitos das mulheres como um método de geoengenharia, isso tira esse método da terra da fantasia, que é onde estamos presos agora. Porque hoje, quando um esquerdista ouve “geoengenharia”, pensa em uma empresa de petróleo criando uma cortina de fumaça, sugerindo que poderíamos continuar queimando carbono se simplesmente jogarmos poeira na atmosfera, e em como podemos acabar em algum tipo de Snowpiercer ou outra situação extrema e exagerada. Portanto, serve como uma alegoria sobre coisas que podem dar errado.

Mas eu quero argumentar que a humanidade é agora um jogador importante na biosfera da Terra, e qualquer coisa que fizermos para ajudar a biosfera da Terra em escala – em outras palavras, toda a civilização fazendo isso de propósito – poderia ser definida como geoengenharia. E então você obtém soluções de software e de hardware.

Então, lei, justiça, pós-capitalismo, direitos das mulheres, pós-patriarcado – todas essas coisas poderiam ser definidas como formas de geoengenharia e, nesse ponto, o termo meio que se desintegra. Na verdade, estamos falando mesmo é de civilização, como tal, como uma forma de gestão da biosfera. Então é isso que estou repetindo continuamente sobre este ponto, porque há muito endurecimento de posições, e essas posições estão sendo tomadas com base na situação que existia por volta de 1980 ou talvez 1990. As posições estão atrás da curva das realidades. Portanto, como escritor de ficção científica de esquerda, é minha responsabilidade ser politicamente incorreto de maneiras provocativas.

DOK

Um dos personagens de The Ministry se pergunta em algum momento: “eles foram tolos por terem tentado tanto encontrar as palavras num mundo que corria na direção da catástrofe?” Todo escritor que trabalha com o tema do clima, seja abordando-o por meio da ficção ou não, provavelmente tem esse pensamento de vez em quando. Você tem trabalhado duro por décadas em um gênero que muita gente rejeitou. Contra essa tendência esnobe, Ursula K. LeGuin sugeriu uma vez a abolição das categorias de gênero e subgênero, argumentando que “literatura é literatura”. Você acha que a ficção científica, ou ficção especulativa, está finalmente recebendo o devido respeito – especialmente neste ano de pandemia?

KSR

Estamos dentro de um romance de ficção científica, enquanto cultura. A ficção científica é o realismo de nosso tempo, como tenho repetido várias vezes. É a melhor maneira de descrever o mundo em que vivemos.

Eu leio muito, tenho a mente aberta. Como escritor, escolhi ficção científica conscientemente porque ela expressa melhor o realismo de nossas vidas hoje. Desde a pandemia, todo mundo quer ouvir o que um escritor de ficção científica tem a dizer. Claro que não temos a solução e é claro que não podemos prever o futuro, mas o que eu acho que está acontecendo é que as pessoas estão percebendo que a mudança climática já está aqui, está nos martelando, e que temos que pensar mais como os escritores de ficção científica vêm pensando há décadas.

Este ano, vi um aumento no interesse que não tem a ver comigo pessoalmente, tem a ver com a ficção científica como gênero. Agora, você não vê todo mundo interessado. Há uma multidão de pessoas que gostam de permanecer em uma estrutura anterior de sentimento, para usar o termo de Raymond Williams. Mas essa estrutura de sentimento agora é inadequada e essencialmente reacionária. Agora que você está no mundo da ficção científica, o que vai fazer? Talvez você vá ler mais ficção científica!

Sobre os autores

é autor de mais de 20 livros, incluindo Nova York 2140, Red Moon e a Trilogia da Marte.

é co-fundador e editor da Ricochet Media, autor de Michael Ignatieff: The Lesser Evil? ("Michael Ignatieff: O Mal Menor?") e co-autor de A Woman Among Warlords ("Uma Mulher Entre Os Senhores da Guerra"), juntamente de Malalai Joya, do Afeganistão. Derrick é um militante político há muitos anos em Vancouver, Canadá.

Sobre os autores

Kim Stanley Robinson é autor de mais de 20 livros, incluindo Nova York 2140, Red Moon e a Trilogia da Marte.

Derrick O’Keefe é co-fundador e editor da Ricochet Media, autor de Michael Ignatieff: The Lesser Evil? ("Michael Ignatieff: O Mal Menor?") e co-autor de A Woman Among Warlords ("Uma Mulher Entre Os Senhores da Guerra"), juntamente de Malalai Joya, do Afeganistão. Derrick é um militante político há muitos anos em Vancouver, Canadá.

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux