Os vilões são os EUA, não o Irã

03/01/2020

Por
Derek Davison

Tradução
Letícia Bergamini

Trump diz que quer impedir o Irã de atacar os EUA e desenvolver armas nucleares, mesmo tendo destruído um acordo internacional que estava fazendo exatamente isso. Estamos diante de uma guerra que Washington diz não querer, mas que estão fazendo de tudo para causar.

Donald Trump, após assinar uma ordem executiva impondo novas sanções ao Irã, na Casa Branca, em 24 de junho de 2019. Foto: Mark Wilson/Getty Images

Quando não está ameaçando o Irã com “novas sanções”, Donald Trump mostra sua preferência pela guerra. Meses atrás, de acordo com o noticiário em Washington, ele pediu a seus assessores, incluindo o Secretário de Estado ‘falcão’, Mike Pompeo, e o Conselheiro de Segurança Nacional ‘ultra-falcão’, John Bolton, para “baixar o tom” da retórica sobre o Irã. Brian Hook, representante especial do Irã, disse ao Congresso que o objetivo da campanha de sanções de “pressão máxima” do governo é a negociação, não o conflito.

Trump foi longe demais ao dizer que será o “melhor amigo” do Irã – com uma condição: os iranianos desistirem de todos os esforços para obterem armas nucleares. “Não teremos um Irã com armas nucleares”, disse aos repórteres em junho. “Quando eles concordarem, terão um país rico. Serão muito felizes e eu serei seu melhor amigo. Espero que isso aconteça”.

Acreditemos, então, na palavra do presidente. Talvez ele esteja interessado em fechar um acordo. Entenderemos, assim, que o governo pode não estar confiando tanto na palavra do Irã (Teerã insistiu que “nunca estará em busca uma arma nuclear”) ou mesmo na palavra do setor de inteligência (cujo relatório, em 2007, concluiu que o Irã interrompeu o trabalho de armas nucleares que estava realizando em 2003). Que tipo de acordo ele estaria procurando com Teerã?

Para ser viável, o plano precisaria ser internacional, envolvendo não somente os EUA e Irã, mas também a China, a Rússia e os principais estados europeus. Todos eles teriam de tomar medidas conjuntas para garantir que o Irã cumprisse suas obrigações sob o pacto e se beneficiassem com isso. O acordo precisaria ser abrangente, cobrindo todos os aspectos do programa nuclear do país; incluir um mecanismo para reforçar a submissão iraniana e fornecer ao país um alívio da atual série de sanções estadunidenses e internacionais.

Esse acordo hipotético seria uma vitória para todas as partes: os EUA e companhia receberiam a cobiçada desnuclearização e o Irã seria libertado das sanções que causaram estragos em sua economia.

Há apenas um problema: esse tipo de acordo já foi criado em 2015. É o chamado “Plano de Ação Conjunto Global” (JCPOA) — no qual o Irã acordou com os Estados Unidos, China, França, Alemanha, Rússia, e Reino Unido. O mesmo acordo que Trump decidiu abandonar no ano passado, que agora levou os EUA e o Irã à beira de um confronto militar.

Enquanto Trump passou a campanha presidencial de 2016 destruindo o JCPOA — chamando-o de “o pior acordo já negociado” e declarando que sua “prioridade número um” seria “desmontá-lo”, os especialistas em controle de armas o apoiaram por ser uma ferramenta eficaz. Mais de oitenta especialistas em não-proliferação assinaram uma declaração conjunta em 2017, antes de Trump abandonar o acordo, dizendo que o JCPOA “provou ser um programa eficaz e verificável, sendo uma vantagem líquida para os esforços internacionais de não-proliferação nuclear”, bem como “um importante sucesso da diplomacia multilateral, cuja implementação plena é fundamental para a paz e a segurança internacionais”.

Quando foi negociado em 2015, a premissa do JCPOA era simples: em troca de aceitar limitações em seu programa de energia nuclear e um intenso regime de inspeções para verificar seu cumprimento, o Irã obteria alívio das sanções estadunidenses e internacionais. Ao obrigá-lo a refazer um reator de água pesada que poderia ter gerado desperdício significativo de plutônio e estabelecer limites estritos ao programa de enriquecimento de urânio do país, o acordo fechou os dois caminhos potenciais do Irã para as armas nuclear. Mais criticamente, o Irã concordou com um nível sem precedentes de monitoramento e inspeções para verificar sua fidelidade. Esse trabalho foi realizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, que afirmou incessantemente a adesão do Irã ao acordo.

Esse é o acordo que Trump escolheu violar no ano passado. Com a reimposição das sanções dos EUA – que se aplicam não apenas às entidades estadunidenses, mas a todas as partes que buscam negociar com o Irã – tornou-se impossível para Teerã receber quaisquer benefícios, apesar de sua fidelidade ao acordo. Embora os demais signatários do JCPOA precisem proteger parte do comércio iraniano das sanções norte-americanas, esses esforços têm um alcance muito limitado e, graças ao domínio dos EUA no sistema financeiro global, ainda são vulneráveis a sanções.

Não é de se espantar que os iranianos tenham recentemente começado a reduzir seus próprios compromissos com o acordo nuclear e planejem continuar a reduzi-los. Surpreendentemente, o governo Trump fez um alerta contra o país – o governo “ainda espera que o Irã cumpra os termos [do JCPOA]” “, de acordo com a NBC News. Mas a saída dos EUA do JCPOA, associada à aplicação zelosa de sanções do governo Trump, destruiu o pacto. Para todos os efeitos, o JCPOA não existe mais, e a noção de que o Irã continuaria aderindo a um acordo sem saída é, no mínimo, irracional.

Se a abordagem do governo Trump ao Irã parece incoerente, é porque é. Ele diz querer impedir o Irã de desenvolver armas nucleares, mas destruiu um acordo internacional que estava fazendo exatamente isso. Seus conselheiros dizem que querem forçar o Irã a negociar um acordo mais expansivo que atenda às deficiências do original, mas a melhor maneira de incentivar o país a continuar colaborando seria garantir que ele recebesse todas as vantagens prometidas pelo JCPOA.

Agora, os líderes iranianos chamam a oferta dos EUA de “engano”, e até os ostensivos aliados estadunidenses, como a França, dizem não terem visto “nenhum sinal de que os EUA estejam interessados em dialogar”. O governo alega que quer construir uma “coalizão global” para isolar e combater o Irã, mas suas ações isolaram apenas os EUA, mostrando que são eles, e não o Irã, os vilões nessa situação.

O governo Trump fez sanções a ele mesmo, amontoando-se cada vez mais no Irã e não oferecendo a Teerã qualquer chance de aliviá-las sem envolver algum tipo de rendição. Após a mais recente rodada de sanções dos EUA — que teve como alvo o próprio líder supremo aiatolá Ali Khamenei — o Irã insinuou que o “caminho para a diplomacia” está fechado agora, e não há razão para duvidar de que estejam falando a verdade.

A única constante nos últimos quarenta anos das relações Irã-EUA tem sido o profundo desejo de Washington de mudar o regime de Teerã. Visto sob esse prisma, a recusa do governo em criar uma rampa para descer dessa crise totalmente estadunidense pode ser deliberada — parte de um plano para punir o povo iraniano de maneira tão severa que eles acabem se levantando e derrubando seu governo em nome de Washington. Mas ainda não há indicação de que o esforço esteja funcionando. Enquanto isso, milhões de pessoas estão sofrendo, enquanto a região do Golfo Pérsico se aproxima de uma guerra que os EUA dizem que não querem, mas estão fazendo de tudo para causar.

Sobre os autores

é um autor e analista especializado no Oriente Médio e política externa estadunidense.

Sobre o autor

Derek Davison é um autor e analista especializado no Oriente Médio e política externa estadunidense.