“Nossos movimentos sociais vão conquistar de volta a democracia”

13/10/2020

Uma entrevista com
Evo Morales Ayma

Tradução
Ádamo da Veiga

Exilado na Argentina, ex-presidente golpeado Evo Morales contou à Jacobin sobre a sua história na luta anti-imperialista, os meandros que motivaram o golpe militar ano passado em conluio com os EUA e por que o partido MAS está preparado para vencer as eleições presidenciais deste mês.

Reprodução da Jacobin América Latina. Foto de Ariel Feldman.

O destino de Evo Morales após o golpe militar no ano passado na Bolívia segue o mesmo padrão persecutório que o de muitos líderes de esquerda, progressistas e anti-imperialistas, na região. Paralelos foram feitos com o golpe contra o Chile de Salvador Allende em setembro de 1973, com a tentativa de levante militar contra Hugo Chavez na Venezuela em 2002 e  com a tentativa da polícia equatoriana de derrubar Rafael Correa em 2010.

Com Morales exilado na Argentina, ele também tem sido comparado a um dos maiores lideres deste país, Juan Domingo Perón, após a tomada de poder por uma facção ultraconservadora do exército em 1955. A ditadura militar implementou um banimento total do movimento peronista, mas, ainda assim, o exilado Perón continuou a ter enorme influência devido a base que ele havia construído durante a década de mudança social radical e de política externa independente que ele perseguiu durante a sua presidência. Apesar do seu nome ter sido banido, o movimento peronista manteve-se ativo, e após a vitória eleitoral do seu candidato Héctor Cámpora em março de 1973, Perón finalmente foi autorizado a retornar.

Hoje, Evo Morales e o Movimento ao Socialismo (MAS) encontram-se em uma situação bastante similar. O período desde o golpe militar ano passado tem sido marcado por repressão, por massacres de dúzias de sindicalistas e ativistas indígenas, e por tentativas de banir o MAS das eleições presidenciais, atualmente marcadas para 18 de outubro. Isto tudo combinado com uma campanha midiática em curso, de manipulação e fake news, desenhada para manchar 14 anos de governo socialista.

Apesar disto, o MAS permanece sendo a força política mais forte na Bolívia, com as últimas pesquisas indicando que Luis Arce Catacora e David Choquehuanca devem vencer a eleição no primeiro turno com 44,4% dos votos – deste modo, atingindo a margem de 10% necessária sobre o candidato em segundo lugar, Carlos Mesa, também perdedor nas eleições de outubro de 2019. Ainda assim, uma disputa livre e justa parece crescentemente improvável, dada as contínuas interferências da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do seu secretário, Luis Almagro.

Antes da data planejada para eleição, Denis Rogatyuk e Bruno Sommer, jornalistas da Jacobin, sentaram-se com o ex-presidente golpeado Evo Morales para discutir a sua história como sindicalista e chefe de Estado, a sua experiência durante golpe e o que o MAS pode fazer se e quando retornar para o governo.


BS

Durante a Guerra da Água de Cochabamba de 1999-2000 – uma revolta massiva contra a privatização da água – você era o líder sindicalista resistindo ao governo neoliberal de Jorge “Tuto” Quiroga. Como você pode comparar a luta destes anos com a atual resistência nos trópicos de Cochabamba?

EM

Para começar, vale a pena mencionar o grupo de jovens camponeses e lideres indígenas, ativos desde o final dos anos de 1980 e início dos anos 90 do qual eu era parte. Nós nos perguntávamos – por quanto tempo seremos governados de cima e de fora? Por quanto tempo nossos planos e políticas continuariam vindo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial? E, quando os bolivianos vão governar a si mesmos?

A Bolívia sempre teve formas de poder social, poder sindical, poder comunal, vindos de baixo. Mas, quando nós nos perguntávamos como nós poderíamos nacionalizar nossos recursos naturais e melhorar nossos serviços básicos com base neste poder comunal ou social, percebíamos que não poderíamos fazer isso.

Então, era importante promover um instrumento político, sim, com base no movimento camponês dos trópicos, mas, acima de tudo, dos Quéchuas, Aimaras, mais de trinta nacionalidades indígenas. Nós propusemos um instrumento político de libertação do povo, com um programa para o povo.

Neste ponto, nós tivemos que romper com o sistema capitalista. Neste sistema, os movimentos sociais são chamados de “terroristas” e os sindicados não são feitos para estarem envolvidos politicamente. Mas nós dissemos que nós temos direitos políticos e que não podemos apenas ser sindicalistas preocupados exclusivamente com demandas trabalhistas. Se nós queremos uma transformação profunda, é importante também produzir transformações nas estruturas do Estado. Em certa medida, nós tivemos problemas com os trabalhadores, que insistiam na “independência sindicalista” e na instância da não-política.

Então, vieram os governos de Hugo Banzer [1997-2001] e Tuto Queiroga [2001-2002]. Eles privatizarem as redes de eletricidade e telecomunicações da Bolívia, enquanto nossos recursos naturais, como o gás, eram entregues às companhias transnacionais. Diversas vezes, eu fui negociar com os líderes nacionais do COB (Central dos Trabalhadores Bolivianos, o principal sindicato federal), assim como com as confederações camponesas e, nas diferentes negociações com os governos neoliberais, nós sempre colocávamos o tópico da nacionalização sobre a mesa. Nossa alegação era a de que, quando o gás estava no subsolo, ele pertencia aos bolivianos, mas quando ele era extraído, ele deixava de ser boliviano. Os contratos inconstitucionais que eram assinados diziam – literalmente – que o dono adquiria o direito à propriedade na boca de poço. E quem era o dono? As companhias transnacionais.

DR

Na eleição presidencial de 2002, você foi derrotado por Gonzalo “Goni” Sánchez de Lozada, depois de uma campanha de mentiras, medo e intimidação contra você e o MAS. Hoje, estamos vendo algo similar. Que lições do presente você tirou desta experiência?

EM

Em 1997, me foi proposto ser candidato à presidência e eu fui alvo de muita difamação por parte do governo de Sánchez Lozada. Eles diziam: “Como pode um traficante de drogas, um assassino, ser presidente?” Então, eu desisti da candidatura. Mas em 2002, havia um consenso de que eu deveria me candidatar. 

Eu duvidava de que eu poderia conseguir uma boa votação: um jornal internacional disse que o MAS poderia conseguir 8%, e todas as pesquisas diziam 3 ou 4%. Sánchez de Lozada aliou-se com o movimento Bolívia Libre (Liberte a Bolívia), movimento que antes, em 1989, havia reunido segmentos da esquerda, dos sociais-democratas; este partido tinha suas bases em ONGs e era usado para receber dinheiro da Europa em particular.

O embaixador norte-americano, José Manuel Roche, disse “Evo Morales é um Bin Laden andino e os plantadores de coca são o Talibã – então, não vote nele”. O povo anti-imperialista da Bolívia reagiu contra isso se perguntando “por que o embaixador norte-americano acusa Evo Morales de ser um Bin Laden andino?” O Presidente Tuto Quiroga teve que permanecer em silêncio; apesar de hoje ele concordar que há interferência na Bolívia por parte da Argentina e de outros países. Eu disse que o Embaixador Roche foi meu melhor gestor de campanha por ter feito estes comentários. E o resultado foi que chegamos a 20%.

Sinceramente, até aquele momento, eu não tinha certeza se algum dia eu poderia ser presidente, mas daquele ponto em diante, eu pensei que poderia ser – e nós tínhamos que nos preparar. Com um grupo de profissionais, nós começamos a desenvolver um programa muito sério e responsável para o Estado, para o povo boliviano.

BS

As Guerras do Gás – uma revolta popular contra a privatização dos hidrocarbonetos em 2003 -2005 – foram um verdadeiro ponto de inflexão, tanto para Bolívia, quanto para você. Foi quando nós vimos o poder das organizações sociais, sobretudo, na cidade de El Alto. Como você compara este momento histórico com hoje – e que papel você acha que este tipo de movimento desempenhará no processo de restauração da soberania popular?

EM

Com estas lutas nós pudemos conseguir algumas vitórias, mas não uma mudança estrutural. Quando eu fui para o Chapare, nos trópicos de Cochabamba, a frente camponesa indígena propôs mudanças maiores nas negociações sobre hidrocarbonetos. Os representantes do governo neoliberal responderam dizendo: “Não, vocês estão fazendo política. Política de vocês é um crime, um pecado. A política dos camponeses nos trópicos é um machado e um facão – ou, na região do Altiplano, a picareta e a pá.”

Então veio a Guerra do Gás, uma luta concentrada na cidade de El Alto. Qual era o problema subjacente? Fora as questões da privatização, nós não conseguíamos entender porque nossos governantes queriam instalar uma usina de GNL [gás natural liquefeito] no território chileno – não,  instalações estatais, mas, privadas – e dali enviar o gás para a Califórnia. Nós estávamos tendo falta de gás, enquanto eles enviariam gás para os EUA – mas por que não primeiro abastecer os bolivianos?

A luta pela nacionalização estava se aprofundando, e lá, o povo de El Alto estava mais unido do que nunca, em um único conselho de bairro. Agora, eles me dizem que há dois, mesmo três conselhos de bairro, uma fraqueza, na minha opinião. Porém, os conselhos de bairro mais combativos e fortes não são apenas patrióticos, mas anti-imperialistas, baseados na irmandade dos Aimaras.

Nós estávamos convencidos de que iríamos superar todos estes problemas através da luta do povo, da luta do povo de El Alto.

DR

Você conseguiu nacionalizar os recursos naturais do país e criar uma economia estável e em crescimento. O que você recomenda enquanto políticas chave para resolver a crise econômica em curso na Bolívia, criada pelo governo golpista?

EM

Primeiro, um fato importante sobre o qual as pessoas deveriam ser informadas. No momento em que nós nacionalizamos, em 2005, a receita anual de petróleo mal passava dos 2 bilhões de bolivianos. Depois que nós nacionalizamos, por volta de 11 de janeiro de 2019, no dia de aniversário do Estado Plurinacional, nós aumentamos para 38 bilhões de bolivianos a receita petrolífera. Em 2005, eles nos deixaram com um PIB de 9,5 bilhões de dólares. Em janeiro do ano passado, nós o deixamos com 42 bilhões de dólares – imagine a importância desta mudança.

A Bolívia era o menor país da América do Sul em termos de crescimento econômico, no entanto, nos 14 anos em que eu fui presidente, por seis anos a Bolívia esteve em primeiro lugar. Quando eu ia em fóruns internacionais, encontros, ou para alguma inauguração, os outros presidentes me perguntavam: “Evo, este ano, quanto de crescimento econômico vai ser?” Eu dizia para eles que por volta de 4 ou 5%, e eles me perguntavam o que eu estava fazendo para conseguir isso. E eu respondia: “Nós precisamos nacionalizar nossos recursos naturais e os serviços básicos devem ser um direito humano.”

As privatizações estão de volta agora. O Decreto Supremo 4272, imposto pelo governo da Jeanine Áñez, no dia 24 de junho deste ano, propõe um retorno ao passado, reduzindo o Estado ao seu tamanho “anão”, como quer o Fundo Monetário Internacional (FMI). O Estado não vai investir em companhias públicas, e ele contribuirá menos para a expansão do aparato produtivo em benefício do povo boliviano. A ideia deste decreto é um retorno ao funcionamento do Estado apenas enquanto regulador e não como um investidor em projetos nacionais.

As receitas do FMI estão todas neste Decreto Supremo: privatização da eletricidade, telecomunicações, saúde e educação. A privatização da educação já começou, porque esse ano eles não separaram um orçamento para a criação de novas escolas. No dia 14 de setembro, eles começaram a privatizar a energia em Cochabamba; o procurador apontado por Áñez renunciou, porque o decreto de privatização era inconstitucional. Serviços básicos são um direito humano e não podem ser um negócio privado, a saúde não pode ser uma mercadoria e a educação é muito importante para a emancipação do povo. Então, o povo se ergue em rejeição a isso.

Infelizmente, a Bolívia, atualmente, tem duas pandemias: a pandemia que nos mata com o vírus – e paralisa a produção através da quarentena – mas, também um governo que paralisa todas as obras públicas e as submete às políticas capitalistas.

Nossa tarefa é defender as nacionalizações e aprofundar a industrialização. É este o objetivo que temos que alcançar, para que possamos continuar com o crescimento econômico. Mas, primeiro nós temos que recuperar a democracia e tomar de volta nosso país.

BS

Agora, nós vemos nossos irmãos indígenas sendo perseguidos de novo por este regime racista, liderado por Áñez e os paramilitares. O que você acha que o próximo governo do MAS deve fazer para ajudar a erradicar o racismo na Bolívia de uma vez por todas?

EM

Na Bolívia, parece que nós estamos retornando aos tempos da Inquisição. A direita racista tem usado a Bíblia para destilar ódio. Eles usam a Bíblia para roubar, matar e cometer genocídio impunimente. Eles usam a Bíblia para discriminar, para queimar Wiphalas [bandeiras indígenas], para pisar nos oprimidos e em mulheres indígenas. Foi um grupo racista com dinheiro que inseriu essa mentalidade. 

Em dezembro de 2019, o senador republicano Richard Black reconheceu que o golpe foi planejado nos EUA, aproveitando-se desta oportunidade aberta pela direita racista na Bolívia. Eu fiquei surpreso com o que o dono da Tesla, Elon Musk, disse em 24 de julho: ele confessou ter tomado parte no golpe.

Então, o golpe foi direcionado contra nós, para controlar nossos recursos naturais, pelo lítio. Nós havíamos decidido industrializar o lítio e começamos pelas nossas reservas internacionais. Acordos de comercialização foram assinados com a Europa, com a China. Como parte da agenda patriótica marcando o bicentenário da nossa independência, nós planejamos construir 41 usinas, mais 15 para cloreto de potássio, carbonato de lítio, hidróxido de lítio, 3 para baterias de lítio, e outras usinas para insumos e produtos derivados. Mas, como eu disse, não deixamos os EUA entrar aqui – e esse foi o nosso crime.

O golpe também foi direcionado contra o nosso modelo econômico. Nós evidenciamos um modelo econômico independente do FMI, que tinha crescimento e redução da pobreza e desigualdade. E, então, veio o golpe.

Deste modo, eu acho que nós vamos ter que procurar mecanismos para unir os bolivianos, porque não podemos ter esse tipo de confrontação. É muito lamentável que hajam paramilitares, grupos armados nas ruas.

Nosso Movimento para o Socialismo (MAS) é um instrumento político para a soberania dos povos, e este movimento político de libertação não é apenas histórico, sem precedentes, mas único no mundo. Desde os tempos coloniais, nossos povos indígenas foram ameaçados com o extermínio – não apenas racismo e discriminação, mas extermínio. Em alguns países da América Latina, não há mais movimentos indígenas, porém, nossos ancestrais lutaram duro na Bolívia, Peru, Equador, Guatemala e México. Depois de 500 anos de resistência popular indígena, em 1992, nós dissemos: “Da resistência à tomada de poder.” E, na Bolívia, nós mantivemos essa promessa.

Quando nós começamos a demonstrar que quando nós governamos para nós mesmos, há mais esperança para Bolívia, veio o golpe. Essa é a nossa realidade, então, nós temos que procurar acabar com esse racismo. Nós temos que estar unidos, respeitando nossas diferenças de natureza programática e ideológica. Mas isso demanda política sem violência. 

DR

Quando você foi presidente, você levou a Bolívia até o cenário internacional e se juntou à luta por um mundo multipolar. Infelizmente, estamos vendo que muitos destes avanços foram revertidos devido as ações do regime golpista. Na sua visão, qual seria o melhor modo de restaurar o lugar da Bolívia no cenário internacional no futuro?

EM

Quando eu era um líder sindical, eu participei de alguns encontros com chefes de Estado sobre luta contra o tráfico de drogas, como em Viena, por exemplo. Com a ajuda de ONGS que tinham um estatuto consultivo, eu pude participar e ouvir cuidadosamente o que meu governo dizia nestes fóruns internacionais.

“Eu me junto à proposta dos EUA”, “Eu apoio a proposta dos EUA”, era apenas isso. A Bolívia nunca teve uma política patriótica, uma proposta boliviana. Quando nós chegamos ao poder, nossas propostas se focaram na defesa da Mãe Terra e nos serviços básicos. Nós trouxemos para as Nações Unidas uma proposta de que a água deveria ser um direito fundamental para todos os seres humanos e não um negócio privado; todos apoiaram esta proposta, apenas os EUA e Israel se abstiveram. 

Eu poderia comentar muito da política internacional a partir destas mesmas linhas. Eu ri da intervenção (por videoconferência) da presidenta de facto da Bolívia nas Nações Unidas, atacando a Argentina, acusando o presidente argentino de interferência. Que direito ela tem de falar de interferência estrangeira? Mas, pensando, acima de tudo, na América Latina, nos tempos de Chávez, de Lula e Kirchner – tempos diferentes dos atuais – nós propusemos importantes processos de integração regional como a UNASUL e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Barack Obama começou o processo de destruição da UNASUL, CELAC, usando a Aliança do Pacífico [aliança de governos de direita].

O atual presidente dos EUA organizou o Grupo de Lima para confrontar a Venezuela. Diante disso, nós precisamos de grande união e pensamento estratégico no Grupo Puebla e outros setores do ALBA-TCP [Aliança Bolivariana para as Américas]. Mas, nós não estamos sozinhos. Eu tenho grande esperança de que nossos povos, nossos movimentos sociais, vão conquistar de volta a nossa democracia. 

Nós gostaríamos de uma América Plurinacional, porque nós somos muito diversos. Que bom seria para a Europa, para outros continentes, reconhecer essa diversidade, que bom seria para essa diversidade ser reconhecida pelas constituições, pelas organizações internacionais. Nós, na Bolívia, somos tão diversos – diversidade cultural é a riqueza da nossa identidade, da nossa dignidade. E devido a nossa diversidade, nós lutamos por liberdade, por igualdade – é essa a profunda luta que nós estamos travando.

No entanto, neste momento, nós realmente demos as costas para o passado. O que o governo de direita neoliberal está fazendo é somente qualquer coisa que os EUA diga para eles fazerem. A política do século XIX que afirmava “América para os Americanos” – a doutrina Monroe – tem que terminar.

Os EUA e o capitalismo acham que eles foram enviados por Deus para dominar o mundo, que a soberania cabe apenas aos EUA. Quando um povo se liberta, então vêm as bases militares, intervenções militares e golpes.

BS

Como tem sido o exílio para você? Quais são seus sentimentos sobre os militares que lhe traíram, e o que o MAS irá fazer quando retornar ao poder para garantir que o exército seja fiel a Bolívia?

EM

Eu não queria deixar a Bolívia. Eu via isso como uma questão de “terra natal ou morte”. Mas um grupo de membros da Assembleia, líderes nacionais, alguns ministros, me disseram que “para salvar o processo de transformação, nós temos que salvar a vida do Evo”. Eu fiquei surpreso com isso e não tão convencido de que isso era verdade.

Em segundo lugar, em 10 de novembro, antes da minha renúncia, depois do motim da polícia nos últimos dois dias, os movimentos sociais estavam convocando os bolivianos para tomar de volta a Plaza Murillo, em La Paz, e, na imprensa, eu ouvi que as Forças Armadas estavam demandando a minha renúncia. O que eu pensei, naquele momento? Que se eu não renunciasse, no próximo dia, com tamanha tensão agravada, um massacre aconteceria. Para evitar o massacre, eu escolhi renunciar, porque somos defensores da vida. 

Até esse momento, haviam ocorrido tantos conflitos, como as greves da oposição em Potosí e em Santa Cruz no final de agosto e setembro. Nós evitamos todas essas mortes. Alguns me pediram para militarizar as coisas, e declarar Estado de sítio, mas eu me recusei. Eu tive muitos encontros com os militares e comandantes da polícia, e eu disse a eles que as balas devem ser usadas defendendo o território boliviano, não contra o povo.

Imagine: Evo presidente, massacres, mortes. Como isso teria acabado?

Mesmo quando eu cheguei em Chimoré no domingo de tarde, em 10 de novembro, eu disse: “Agora, eu vou para a selva”. Naquele momento, eu pensei que se eu não renunciasse, haveria um massacre em La Paz no dia seguinte. A polícia e os militares iriam atirar nos meus irmãos e irmãs que queriam recuperar o Palácio Quemado (o palácio de governo), Plazza Bolivia, e a principal praça da cidade. 

Eles iriam me culpar. Eu renunciei para que não houvessem mortes e massacres sob a meu governo – pois nós somos defensores da vida, da paz, mas com justiça social. Com um parêntese, vou dizer que a luta pela paz é uma luta contra o capitalismo – se houver paz com justiça social, não haverá mais capitalismo, ele terá sido derrotado. Assim, no dia 11 de novembro, eu deixei a Bolívia. 

Naquele dia, o território sul-americano estava sob controle dos EUA. Eles não deixaram o avião que veio do México me buscar entrar no espaço aéreo da Bolívia. Foram três, quatro, presidentes se comunicando o dia todo sobre como me tirar de lá. Para o regime golpista haviam dois resultados aceitáveis: Evo morto ou Evo nos EUA. Quando eu ainda estava em El Alto, os próprios militares comentaram que eles teriam que me enviar para os EUA; outros compararam isso com o golpe no Chile em 1973.

Durante a minha luta política sindical, eu fui preso, perseguido e confinado na Bolívia. Mas eu nunca tinha procurado asilo antes. Então, agora que sou um refugiado, eu completei o currículo inteiro de um anti-imperialista, de um esquerdista que não desiste. Estas são as consequências.

O legado dos movimentos indígenas são o seu anticolonialismo e anti-imperialismo. Nos tempos coloniais, eles desmembraram Túpac Katari e, agora, nos tempos da República, eles querem nos “desmembrar”, acabar com nosso movimento político, banir o MAS, banir o Evo. Estes são os planos dos EUA. Os EUA dizem: “O MAS não deve retornar para o governo ou o Evo para a Bolívia.” Mas eu tenho certeza de que um dia nós iremos retornar, e, aos milhões, restaurar a liberdade para o povo boliviano.

DR

Se você pudesse voltar no tempo, o que você melhoraria no seu governo? E, olhando para o futuro, o que você espera do MAS agora – e que papel você gostaria de desempenhar?

EM

Primeiro, formar novos líderes requer, por si mesmo, muita liderança – então, compartilhar minha experiência na luta sindical, mas também na luta eleitoral e na administração. A política é uma ciência do serviço, do esforço, do compromisso, do sacrifício pela maioria, pelos humildes. Obviamente, a política é uma luta em meio a vários interesses. E o que nos distingue é que nós lutamos pelos interesses comuns, interesses coletivos, em favor dos pobres. Nossa luta não é pra concentrar capital nas mãos de uns poucos, mas para redistribuir riqueza, para garantir certa igualdade, justiça social, paz com igualdade, com dignidade e justiça social. Quando nós retornarmos – e nós devemos retornar, cedo ou tarde – eu realmente quero compartilhar essa experiência, compartilhar uma pequena parte de toda essa luta.

Na primeira vez que fui até Chapare para viver – na verdade, para sobreviver, depois da morte do meu pai – subitamente me convidaram para ser um líder sindical. Eu não queria isso, mas havia confiança em mim, e então deixei meu trabalho como agricultor. Eu entrei na liderança do sindicato e eu fui torturado, perseguido, confinado, ameaçado tantas vezes. Desde 1989, eu tenho passado por julgamento de tantas acusações, difamações, que não possuem fundamento ou base nos fatos.

Eu não fui para Chapare para ser um líder e muito menos para me tornar presidente. Mas a minha escola foi a luta sindical, a luta social, a luta comum, não como aqueles que dizem: “Eu venho da juventude comunista ou socialista”. Me perguntam como pôde ir para a presidência sem uma educação acadêmica. Eu respondo que eu pude fazer isso por conta da nossa luta pela verdade e honestidade. Este governo tentou me culpar pela corrupção – mas não colou por que não houve. Depois de tantas difamações contra mim… que adianta mais essa?

Nós temos apenas uma certeza: que nós vamos vencer a presidência muito mais vezes no futuro.

Sobre os autores

foi presidente do Estado Plurinacional da Bolívia de 2006 até o golpe de 10 de novembro de 2019. Atualmente está no exílio.

Bruno Sommer é jornalista e fundador do portal El Ciudadano.

é jornalista da El Ciudadano, escritor, colaborador e pesquisador com várias publicações, incluindo Jacobin, Tribune, Le Vent Se Leve, Senso Comune, GrayZone e outros.

Sobre os autores

Evo Morales Ayma foi presidente do Estado Plurinacional da Bolívia de 2006 até o golpe de 10 de novembro de 2019. Atualmente está no exílio.

Bruno Sommer Bruno Sommer é jornalista e fundador do portal El Ciudadano.

Denis Rogatyuk é jornalista da El Ciudadano, escritor, colaborador e pesquisador com várias publicações, incluindo Jacobin, Tribune, Le Vent Se Leve, Senso Comune, GrayZone e outros.

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