Qual foi o resultado do movimento “Black Lives Matter”?

16/11/2019

Por
Keeanga-Yamahtta

Tradução
Victor Alexander

Cinco anos desde a sua criação, analisamos o que o movimento realizou e quais foram suas limitações e seu legado para o movimento negro.

Manifestantes participam de um protesto para marcar o aniversário de cinco anos da morte de Eric Garner durante um confronto com um policial no bairro de Staten Island em 17 de julho de 2019 na cidade de Nova York. (Spencer Platt / Getty Images)

O resultado da autópsia confirmou aquilo que seus vizinhos contaram que aconteceu do lado de fora de um condomínio de apartamentos de Houston, Texas. Pamela Turner, uma mulher de quarenta e três anos, avó de três, estava no chão, tentando se conectar com a humanidade do oficial de polícia que pisava nela mesmo gritando que estava grávida.

O oficial Juan Delacruz ignorou seus pedidos, se afastou, sacou sua arma e atirou cinco vezes. Três das balas atravessaram o corpo de Turner, acabando com sua vida. Uma entrou em sua bochecha, despedaçando seu rosto. Outra acertou seu seio esquerdo, e a última, seu abdômen. O médico legista considerou um homicídio.

O que aconteceu depois já foi ensaiado várias vezes anteriormente. A polícia colocou Delacruz em uma licença administrativa (paga) de três dias; a família contratou os serviços do advogado de direitos civis Benjamin Crump; o Reverendo Sharpton declamou a elegia; e uma manifestação bem organizada e participativa forçou a polícia a estender seus comentários para além das suas discussões típicas.

Nos cinco anos desde que Mike Brown Jr foi morto e as ruas de Ferguson Missouri entraram em erupção, a polícia ao longo dos Estados Unidos matou mais de quatro mil pessoas, um quarto delas afro-americanos. Cinco anos depois, as Vidas Negras Importam? Confrontado por uma série de obstáculos internos e externos, “o movimento” empacou, mesmo enquanto um supremacista branco governa da Casa Branca.

O assassinato de Mike Brown e a revolta que isso inspirou abriram um período de organização e protestos que ousadamente visavam acabar com o reinado de terror policial nas comunidades negras pobres e da classe trabalhadora por todo o país. Para aqueles que pensam que esse tipo de linguagem é hiperbólico, considere as conclusões alcançadas por uma comissão policial de Chicago de 2016 convocadas pelo ex-prefeito Rahm Emanuel após o assassinato cruel do adolescente negro Laquan McDonald pelo policial de Chicago Jason Van Dyke:

Essa indignação [sobre o assassinato de Laquan McDonald] expôs linhas falhas profundas e duradouras entre as comunidades negras e latinas de um lado e a polícia de outro, decorrente de tiroteios da parte da polícia, com certeza, mas também sobre as transgressões difundidas diariamente que impedem pessoas de todas as idades, raças, etnias e gênero em toda a Chicago de terem liberdade básica de se movimentar em seus próprios bairros. Paradas sem justificativa, abusadas verbal e fisicamente, e em alguns casos presas, e então detidas sem consentimento… os arquivos do Departamento de Polícia de Chicago dão validade à crença amplamente difundida de que a polícia não tem consideração pela santidade da vida quando se trata de pessoas de cor.

A própria existência do relatório representa uma evidência da pressão tremenda exercida pelos ativistas do movimento com o presidente Democrata no governo, na véspera de uma eleição histórica. Os eleitores negros haviam feito Obama presidente, e o partido precisava de no mínimo projetar uma aparência de progresso.

O Surgimento de um Movimento

No segundo mandato de Obama, o que começou como um movimento local em Ferguson eclodiu em uma força nacional muito mais ampla. Ao grande fracasso do júri que não condenou o oficial que matou Mike Brown Jr em Ferguson, se seguiu o júri de Nova York, que não condenou o policial Daniel Pantaleo, apesar do vídeo dele asfixiando Eric Garner até a morte nas ruas de Staten Island. Em uma explosão de raiva e descrença, de esperanças despedaçadas como vidro estilhaçado, as experiências de intimidação e abuso policial uniram jovens negros por todo o país.

Os divisores de águas de Ferguson, Cleveland, Los Angeles, Staten Island, e incontáveis outros alimentaram a rede que se tornou o Black Lives Matter (BLM – ou “Vidas Negras Importam”) no final do outono e início do inverno de 2014 e 2015. Em dezembro de 2014, dezenas de milhares de pessoas em todo o país participaram de atos de desobediência civil não-violentos. No dia 13 de dezembro de 2014, cinquenta mil pessoas marcharam pelas ruas de Nova York com gritos que conectavam Ferguson, Missouri, à cidade de Nova York e então à nação: “Mãos ao alto, não atire”, “Eu não consigo respirar”, “Vidas Negras Importam”. Houve protestos em todo o país, em cidades grandes e pequenas. Essas manifestações dispersas se conectavam através do grito, da exigência, e declaração de que as “Vidas Negras Importam,” da maneira semelhante ao grito de “liberdade já” durante o movimento de direitos civis dos anos 60.

Mesmo enquanto comentaristas profissionais na mídia declaravam o movimento como morto, após a reação previsível dos sindicatos policiais e políticos conservadores, a primavera de Baltimore se espalhou pelas ruas, levada por jovens negros exaustos em razão da negligência institucional e do racismo bruto que jaz sob o envenenamento por chumbo nas águas da cidade, a pobreza e as escolas privatizadas. Se formos medir pelo número de organizações formais que surgiram, o movimento na verdade quase nunca esteve vivo, mas ele prosperou nos corações e mentes de jovens negros que desejavam ser ouvidos e vistos.

Contudo, nenhum movimento segue em frente simplesmente por sua causa ser correta. Sua ascensão ou sua queda são determinadas por um cálculo complicado envolvendo estratégia, tática, política, movimentos e contra-movimentos. O movimento Black Lives Matter sempre enfrentou dois desafios externos, sem incluir as lutas internas com as quais se defronta qualquer movimento. Externamente, o movimento precisava lidar com a forma com que a sua mera existência se tornou um ponto de encontro em torno do qual puderam convergir várias vertentes da direita supremacista branca. Para os ativistas mais visíveis, isso significava lidar com ameaças de morte reais, junto da enxurrada de assédio mais comum.

Logo no início da sua candidatura, Trump fez do BLM seu inimigo, chamando ativistas de terroristas e jurando apoio inabalável à polícia. Já o FBI, fazendo jus à sua história, passou a espionar ativistas negros e a inventar novas categorias políticas com as quais pudesse comunicar uma nova ameaça: os ”extremistas da identidade negra.” Nada disso era surpreendente, mas era exaustivo, e mesmo assustador. Quando Trump decidiu instrumentalizar o BLM em sua candidatura supremacista branca, apelando diretamente à “lei e à ordem” e alinhando sua campanha à histeria do “blue lives matter” (“vidas azuis importam”, uma reação ao BLM, com o azul fazendo referência aos uniformes dos policiais), ele colocou os ativistas e as organizações na mira.

Mas mais difícil ainda era navegar por entre as manobras da ala dominante do Partido Democrata em seus esforços para dividir o movimento entre os pragmáticos e aqueles que estavam se radicalizando rapidamente diante de um poder policial intransigente. O governo Obama virtualmente tinha uma política de “portas abertas” quando se tratava dos ativistas. Sua estratégia era fazer com que o envolvimento e encontros constantes com eles parecessem algum progresso. Isso significava ter contato regular com ativistas, estabelecer uma comissão nacional sobre policiamento e destacar o Departamento de Justiça para iniciar investigações e compilar relatórios sobre departamentos policiais notoriamente terríveis. E, no entanto, durante toda essa agitação, era difícil entender o que estava mudando. Onde estava o impacto?

Com um certo senso de urgência, o Partido Democrata procurou resolver essas questões para que os progressistas pudessem dedicar toda a atenção às eleições de 2016. Isso significava que os liberais na direção do partido estavam constantemente questionando os motivos, a estrutura e as demandas do movimento, na esperança de levar as coisas adiante. “Quem são seus líderes?” “Quais são suas demandas?” “Nos deem uma solução!” foram algumas das questões – ou melhor, das acusações – direcionadas às lideranças mais visíveis do movimento.

Jantar com o Presidente

Esse estilo reflete a influência de organizações não governamentais, que medem a eficácia do ativismo ou organização através das lentes da eficiência e dos resultados palpáveis. Havia pressão por soluções ou iniciativas políticas como uma maneira mais “real” e mensurável de enfrentar os problemas com o policiamento. Quando alguns ativistas se irritaram com esse enquadramento em particular, foram atacados como puristas.

Por exemplo, quando uma ativista de Chicago chamado Aislinn Pulley se recusou a ir a um encontro de portas fechadas na Casa Branca em fevereiro de 2016 por duvidar da sinceridade do governo Obama, o Presidente Barack Obama ligou para ela pessoalmente.

Obama disse, “Você não pode continuar gritando com eles e se recusar a vir porque isso poderia comprometer a pureza de sua posição… O valor de movimentos e ativismo social é trazer você à mesa, trazer você à sala e então tentar descobrir como este problema será resolvido. Portanto, você é responsável por preparar uma agenda que seja alcançável – que possa institucionalizar as mudanças que você almeja e engajar o outro lado.”.

Os comentários do presidente foram ouvidos em algumas partes do movimento. O movimento Black Lives Matter não era unânime em seus pensamentos, estratégias ou táticas – e essas ideias divergentes sobre os objetivos políticos e o processo pelo qual o movimento deveria tomar suas decisões eram profundamente contestadas dentro do movimento. Alguns ativistas aceitavam de bom grado as visitas à Casa Branca e acreditavam que isso significava que eles estavam sendo ouvidos no mais alto nível. Brittany Packnett, que era ativista em St Louis e Ferguson em 2014, explicou porque ela e outros participaram do encontro com Obama:

Barack Obama faz um pronunciamento após o anúncio da decisão da justiça na morte do jovem negro Michael Brown em Ferguson, Missouri. Foto: Alex Wong / Getty

Para conquistar a liberdade que queremos, ainda restam muitos momentos críticos para agirmos e é prudente não limitarmos quais seriam legítimos. Nossas lutas nunca serão ganhas apenas sentando na mesa das decisões sobre políticas públicas. Os manifestantes assumem riscos, constroem responsabilidade democrática orgânica nas ruas e forçam a adoção de táticas organizadas. Organizadores mobilizam as pessoas com ações estratégicas e diretas para pressionar pela mudança sistêmica em instituições e políticas. Os formuladores de políticas e os líderes institucionais são influenciados por todos os tipos de pessoas que continuam a pressionar em todos os espaços possíveis por mudanças duradouras. . . Acredito que o trabalho coletivo e variado desse movimento pode (e na verdade, já conseguiu) mover montanhas, mas vamos precisar de cada um de nós e de todas as táticas à nossa disposição para conquistarmos a liberdade que buscamos.

Outros estavam desconfiados. Aislinn Pulley, a ativista de Chicago que Obama repreendeu por se recusar a encontrá-lo, tinha uma visão de mudança bem diferente daquela oferecida pelo presidente. Ela escreveu uma carta aberta em resposta às críticas dele:

Eu não poderia, com integridade, participar de uma farsa que serviria apenas para legitimar a falsa narrativa de que o governo está trabalhando para acabar com a brutalidade policial e o racismo institucional que a alimenta. Pelo número crescente de famílias que lutam por justiça e dignidade por seus parentes mortos pela polícia, eu me recuso a dar cobertura política aos seus autores e facilitadores, fazendo uma aparição entre eles… Afirmamos que a verdadeira mudança revolucionária e sistêmica em última instância será provocada apenas por trabalhadores, estudantes e jovens comuns – se organizando, se manifestando e tomando o poder das elites corruptas.

Tensões e debates desse tipo no interior de movimentos políticos não eram nada de novo, é claro, especialmente no movimento negro. Em 1964, o estrategista do movimento Bayard Rustin argumentou que o movimento pelos direitos civis e por novas formas de militância negra deviam estar preparados para mudar “do protesto à política”. Ele argumentou que “está claro que as necessidades dos negros não podem ser satisfeitas a menos que avancemos para além do que até agora foi colocado na agenda. Como esses objetivos radicais serão alcançados? A resposta é simples, enganosamente simples: através do poder político… Somos desafiados agora a ampliar nossa visão social, a desenvolver programas funcionais com objetivos concretos. ”

Rustin estava sugerindo que a mudança para a política formal marcaria um sinal de maturidade política e poderia proporcionar mudanças muito mais substanciais para as comunidades negras do que apenas protestar. Ele tinha em mente um amplo programa social-democrata seguido por uma nova onda de políticos. (Havia quase cem negros em cargos eleitos em 1964.) Nós conseguimos os políticos (dez anos após a convocação de Rustin, havia várias centenas de negros em cargos eleitos) – culminando na eleição de Barack Obama em 2008 – mas não o Estado de Bem-Estar Social.

A repreensão pública de Obama não era exatamente sobre a questão da “política eleitoral”, mas você pode ouvir ecos (em uma versão mais estreita) da mensagem de Rustin. Obama estava declarando que em 2016 era hora de parar de “gritar” e oferecer soluções pragmáticas que poderiam ser adotadas. Sua resposta revelava sua própria impaciência com a continuação do Black Lives Matter, agora ameaçando causar uma distração em relação às próximas eleições gerais em 2016. Mas, mais importante, sua intervenção pessoal também pretendia dividir o movimento entre os “que fazem” e os “que sonham”.

Para muitos ativistas, a enlouquecedora rede de violência policial e o sistema de justiça criminal em geral – a estrutura de multas e taxas, fianças caras e a arbitrariedade das sentenças – exigiam mais do que mesas-redondas e relatórios. Muitos buscavam mudanças estruturais, em vez de alterações superficiais, nos sistemas de justiça criminal federal, estadual e local. Alguns estavam adotando a política abolicionista e a crença de que a sociedade estaria melhor sem todo o paradigma carcerário. Em vez de gastar US$80 bilhões por ano para colocar seres humanos em gaiolas, talvez esses recursos pudessem ser redistribuídos de forma a melhorar a vida das pessoas, em vez de serem usados ​​para punir.

Desse modo, a repreensão de Obama e a resposta de Pulley revelavam mais do que bate-bocas estratégicos sobre o objetivo dos movimentos sociais. Dos muitos problemas na sociedade estadunidense expostos pelo Black Lives Matter, destaca-se a acentuada divisão dentro da política negra. O rancor político refletia parcialmente uma divisão entre gerações, mas também mostrava um cisma entre o ódio de classe dos trabalhadores negros e o otimismo de classe de uma pequena elite negra.

Alguns ativistas se irritaram com o paternalismo de Obama, que se apressou em lembrar o público estadunidense (geralmente branco) de que ele não era o “presidente da América Negra”, ao mesmo tempo em que trocava de linguagem para o “ebânico” para convencer os afro-estadunidenses a tirarem o “tio Pookie” do sofá e ir votar.

Mas não era só o Obama. Suas excentricidades raciais eram um lembrete amargo sobre como os negros eleitos frequentemente engordam mastigando o grosso dos votos dos negros, apenas para depois entregar pouco além das suas próprias imagens como símbolos do suposto progresso racial. Mas a realidade era que em muitas cidades, prefeitos negros, vereadores negros, delegados negros e policiais negros supervisionavam a desigualdade e a opressão que alimentaram o Black Lives Matter.

O racismo nu da descrição que Donald Trump fez de Baltimore como um covil “infestado de roedores”, onde “nenhum ser humano quer viver” capturou a atenção da nação, mas uma verdade mais ampla recebeu menos – autoridades negras eleitas em nível local e nacional traíram seus eleitores por meio de negligência institucional e depois contaram com um policiamento brutal para gerenciar a crise que se seguiu.

Foi essa traição das promessas de “esperança” e “mudança” que reuniram os jovens rebeldes em Ferguson e depois em Baltimore – que Obama e a prefeita de Baltimore, Stephanie Rawlings-Blake, descreveram como “bandidos” – para agir em nome de milhões.

Esse foi o contexto espinhoso da frustração de Aislinn Pulley e de sua rejeição ao convite para conversar com o presidente dos Estados Unidos. O ponto aqui não é se a decisão de Packnett de encontrar com Obama ou a de Pulley de declinar do convite foi mais correta que a outra. A realidade é que todos os movimentos sociais são expressões do profundo desejo de mudança ou de reforma da situação atual.

Para o Black Lives Matter, isso poderia ser expresso como a esperança de que os policiais “parassem de nos matar”, mas, no final das contas, era um movimento pela reforma do status quo do policiamento. Mas o que acontece com frequência é que, com o decorrer dos eventos, os participantes do movimento chegam a conclusões radicalmente diferentes sobre qual deveria ser seu objetivo. Para muitos ativistas do BLM, sua conclusão começou a ser que a polícia não podia realmente ser reformada. Isso os colocou em conflito com a natureza da reforma do próprio movimento.

A Tirania da Falta de Estrutura na Era das Redes Sociais

No entanto, o maior problema foi a incapacidade do movimento de criar espaços para debater e lidar com a tensão entre reforma e revolução, ou mais grosseiramente, entre câmeras corporais e a abolição da prisão. Todos os movimentos são confrontados com debates existenciais sobre sua viabilidade e longevidade. Sempre há decisões cruciais a serem tomadas por qualquer movimento em relação à direção e ao melhor caminho para se chegar lá. Porém, sem a oportunidade de avaliar, discutir ou ponderar coletivamente o que o movimento é ou deveria ser, essas divergências políticas às vezes podem se transformar em amargos ataques pessoais.

Entre os ativistas do movimento, disputas pessoais acrimoniosas foram expressas por todo o cenário das redes sociais, criando um acervo material de arquivos para os agentes do Estado. Isso também alimentou a animosidade e a discórdia entre pessoas que tinham todo interesse na colaboração e na solidariedade. A cultura do apontamento chamava a atenção para cada transgressão, munida da crença de que o ato teria sido cometido com a pior das intenções. A boa vontade que muitos imaginavam e queriam que estivesse no coração do movimento só poderia ser construída com base em confiança e em relacionamentos genuínos. Era difícil construí-las sem estruturas formais, responsabilidades claras e mecanismos de liderança e de prestação de contas.

De fato, a “prestação de contas democrática e orgânica” na qual Packnett insistia estava ausente. A falta de pontos de entrada claros na organização do movimento e a ausência de qualquer organização ou estrutura democrática que prestasse contas dentro do movimento deixaram poucos espaços para se avaliar o estado do movimento, atrasando sua capacidade de articulação e adiando a generalização de lições e táticas estratégicas de uma localidade para a próxima ou de uma ação para a próxima. Em vez disso, a ênfase na autonomia, mesmo à custa da desconexão em relação ao movimento mais amplo, deixava cada localidade apenas com seus próprios dispositivos para aprender e conjurar sua própria estratégia.

O movimento BLM alegava não ter líderes, abraçando o “horizontalismo” de seu antecessor no movimento Occupy. Mas todos movimentos possuem lideranças; alguém ou algum grupo de indivíduos está decidindo que isso ou aquilo ou não vai acontecer; alguém decide como esse ou aquele recurso será ou não usado; alguém decide se essa ou aquela reunião vai ou não ocorrer. A questão não é se existem líderes, é se esses líderes precisam prestar contas perante aqueles que eles representam. Também importa a maneira pela qual se determina a função deles como líderes. No caso da reunião com Obama, parece que os participantes foram selecionados pelo governo Obama como indivíduos ou organizações que eles determinaram que seriam a liderança do movimento. Talvez isso fosse inevitável, mas a falta de prestação de contas diante das pessoas comuns que compunham a massa do movimento poderia causar confusão ou ressentimentos.

No entanto, a insistência de que não havia liderança, mesmo enquanto pessoas estavam sendo consideradas líderes pela ordem política, obscurecia o modo como as decisões estavam sendo tomadas e quem deveria responder por elas. Esses problemas se aprofundaram quando começou a parecer que o movimento estava indo na direção errada ou estagnado, pois ficou difícil determinar a quem procurar por orientação.

Isso não significa que “se ao menos” tivesse havido aquele encontro ou aquela reunião, ou mesmo se houvesse mais democracia na tomada de decisões, que o movimento Black Lives Matter teria triunfado sobre a brutalidade policial. Mas isso levanta a questão crucial de como os militantes emergem de uma batalha perdida – ou mesmo de uma guerra perdida – com mais clareza sobre sua experiência, as lições aprendidas e os relacionamentos recuperados que podem permitir que eles lutem outro dia com uma noção melhor do que fazer da próxima vez.

Entre Hillary Clinton e as “Fundações Progressistas”

Essas tensões dentro do movimento BLM foram ampliadas pelo notório assédio de ativistas, iniciado pelos minions de Trump e pela manipulação contínua realizada pelos agentes do Partido Democrata. A pressão para levar o movimento adiante e ao mesmo tempo permanecer em contato com autoridades para quem o engajamento visava criar a aparência de algum progresso gerou uma enorme desgaste para os ativistas. Essa tensão transbordou quando o Partido Democrata nomeou Hillary Clinton como sua candidata.

O slogan da campanha de Clinton, “A América Já é Ótima,” era uma réplica ao “Tornar a América Ótima Novamente”, de Trump, mas também deixava transparecer um nível de distanciamento político que chocou os jovens negros que estavam envolvidos em uma luta de vida ou morte, alimentando o debate sobre a melhor maneira de se avançar na luta. Ao mesmo tempo, os ativistas tinham certeza de que, se Clinton vencesse, ela ficaria em dívida com os jovens eleitores negros, dando credibilidade a uma estratégia focada em iniciativas políticas que poderiam ter sido realizadas dentro do governo Clinton.

O impulso do movimento começou a minguar por várias razões; mas o resultado disso foi tornar a disputa no interior do jogo político parecer um caminho mais viável para se seguir em frente. Enquanto a persistência de abusos e assassinatos policiais fazia com que o problema parecesse intratável, a ausência de debates democráticos e de elaboração estratégica levariam a uma ênfase menor para as marchas e ações em massa. Ao invés disso, as manifestações foram ficando menores, menos sonoras, lideradas por pequenos grupos de pessoas que, assim, ficavam vulneráveis ​​à prisão.

Esse ciclo de ações menores, que facilmente terminavam em prisões, se tornou uma profecia autorrealizável, com muitos desses ativistas criticando a falta de disposição de outros para se “sacrificar”. A pequena dimensão e a marginalidade dos protestos se tornaram um porrete moral com o qual bater nas pessoas que não estavam dispostas a se arriscar a serem presas. Nesse contexto, se envolver com a ordem política estabelecida parecia uma rota mais realista para se fazer algo – pelo menos para algumas pessoas, certamente não para todos.

Esse era o caso de maneira ainda mais patente, conforme as fundações supostamente progressistas vinculavam grande parte de seu financiamento à capacidade dos ativistas de “obter resultados”. O financiamento das fundações passou a inundas as organizações do movimento quase imediatamente após a revolta de Ferguson. O dinheiro era necessário e foi aceito prontamente, enquanto os organizadores tentavam sustentar o impulso gerado pela revolta de Ferguson e as manifestações subsequentes se espalhavam por todo o país, à medida que a polícia continuava matando afro-americanos. Porém, as doações de entidades que iam do Google à Ford Foundation, passando por dezenas de outras, vinham com algo mais além do dinheiro ou financiamento: obviamente, elas estavam tentando conectar o caráter progressista inerente dos movimentos sociais às suas “marcas”.

Em alguns casos, no entanto, como com a Ford Foundation, historicamente o dinheiro vem acompanhado de um esforço para manipular os objetivos e a direção do movimento. A Ford era notória na década de 1960 por usar seus vastos recursos para empurrar os radicais negros em direção ao “desenvolvimento comunitário” e ao capitalismo negro, para longe de seu potencial insurgente. Karen Ferguson escreveu de forma incisiva sobre as maneiras pelas quais a Ford alavancou sua intervenção financeira no movimento negro dos anos 1960 para promover líderes “responsáveis”, aqueles que ela considerava capazes de promover uma direção política com a qual ela concordasse.

Mas não era apenas a Fundação Ford. Megan Ming Francis descreve um processo de “captura de movimento” ao contar como os doadores de fundações nas décadas de 1920 e 1930 usaram o financiamento como isca para ajudar a mudar o foco político da NAACP (a “Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor”) do terrorismo branco e do linchamento para a educação, constituindo uma menor ameaça para o status quo político.

As fundações continuam a influenciar os movimentos no sentido da moderação e do compromisso. Essa lógica está enraizada na realidade dessas organizações multibilionárias que, em última análise, se vêem resgatando o sistema de seus excessos.

Considere um artigo publicado recentemente pelo presidente da Fundação Ford, Darren Walker. No artigo, Walker aconselha a sabedoria das “nuances”, como uma rejeição de posições políticas “extremas”. Como ele sugere de maneira articulada,

A oposição extrema parece ter entrado para o manual de estratégias dos líderes em todas as categorias. Nesta visão de mundo, é tudo ou nada, bom ou mau, o melhor ou o pior… Enquanto isso, não se encontra nuances e complexidade em lugar nenhum. E, assim, nossos desafios extremos permanecem extremamente sem solução.

Walker descreve como extremistas políticos os ativistas na cidade de Nova York que vêm lutando pelo fechamento da horrível prisão de Rikers Island. Walker fez parte de uma comissão que concordou em fechar Rikers, apenas para construir várias cadeias menores para substituí-la. Ele diz que é um compromisso – um exemplo do tipo de nuances para as quais os abolicionistas penais parecem impermeáveis. Walker defende que rejeitar uma solução de compromisso é “deixar a perfeição ser inimiga do progresso. Se pularmos etapas, corremos o risco de criar um novo tipo de lacuna – uma lacuna de oportunidades e alianças perdidas”.

Mas tudo isso é um subterfúgio para a sua verdadeira intervenção:

Podemos enxergar como nossos sistemas capitalistas entraram em colapso, enquanto também apreciamos como os mercados ajudaram a reduzir em todo o mundo o número de pessoas que vivem na pobreza… Podemos criticar as fortunas ilícitas, enquanto também apreciamos a necessidade atual de que o capital privado financie certos bens públicos valiosos e incentivamos os indivíduos ricos a compreender seus próprios privilégios e a apoiar reformas institucionais.

Raramente neste mundo você ganha algo sem motivo. As dezenas de milhões de dólares que a Fundação Ford distribui para organizações e ativistas de todos os tipos vêm com a intenção de redirecionar ou remodelar a insurgência e as rupturas em direção a meios mais moderados. Isso nunca fica tão claro, porque se ficasse, não seria eficaz. Walker aqui não está falando apenas pela Ford, mas pode-se considerar que esse é o objetivo da maioria das empresas que desenvolvem uma ala filantrópica como forma de influenciar o debate sobre questões sociais. Uma das maneiras com que isso funciona hoje é com a ênfase sobre iniciativas e soluções políticas como a via prática para fazer avançar um movimento ou agenda social.

Considere como o movimento pela plataforma política do Black Lives foi alardeado de tal maneira que o fez parecer tão importante quanto as próprias marchas e mobilizações. Certamente, muitas das reformas exigidas pela plataforma de políticas tinham longo alcance e, se implementadas, poderiam ser transformadoras. Mas sem um movimento social em campo para criar a força necessária para coagir a ordem política estabelecida a abandonar sua intransigência, como isso se tornaria possível?

A ascensão da plataforma política e sua projeção como uma conquista culminante para o movimento revelaram mais sobre o estado do movimento do que se pretendia. De maneira semelhante à abordagem de uma lista de desejos para uma campanha presidencial, é fácil pedir a lua e as estrelas – e às vezes é necessário imaginar qual seria o aspecto da liberdade – mas depois que as demandas foram entregues e as promessas foram feitas, alguém tem que lutar para torná-las realidade. A plataforma não era capaz de responder à questão central de como aproveitar a força física de um movimento social para fazer isso.

Os dólares das fundações podem ter outras consequências não-intencionais. A capacidade de garantir financiamento mina o potencial para o desenvolvimento de práticas mais democráticas no interior do movimento, dando às pessoas com acesso ao financiamento uma voz desproporcionalmente grande. Com mais recursos, vem também mais autoridade pela maneira como isso eleva o perfil, a presença e a voz de alguns. Essa dinâmica acaba cortando o tipo de unidade de propósito necessário para enfrentar o desafio de impedir o abuso e os assassinatos policiais. Em vez disso, os ativistas passam a serem compelidos a competir entre si por financiamento, com base em sua contribuição “única” para o movimento.

Essas observações não pretendem ser uma espécie de pregação sobre como o dinheiro das fundações suja os nossos movimentos – embora sem dúvida suje. Deveríamos parar e nos perguntar sobre o porquê de empresas que ganham bilhões sob o capitalismo estadunidense estarem tão ansiosas para “doar” dinheiro a ativistas, muitos dos quais adotam alguma versão de política anticapitalista. Como mencionei acima, a influência financeira das fundações sempre tem sido um fator, pelo menos durante a maior parte do século XX e atualmente. Todos nós podemos conceber maneiras singulares de arrecadar dinheiro para nós mesmos, mas é difícil imaginar a grande escala de ativismo necessária para enfrentar os problemas de nossa sociedade a base de venda de bolos e eventos sociais.

No entanto, a disponibilidade desse dinheiro exige ainda mais democracia dentro de nossos movimentos. Significa que a tomada de decisão precisa se estender para além dos funcionários, do conselho executivo ou de seja lá quem estiver recebendo um salário para alcançar o pessoal que compõe as fileiras do movimento. Isso significa que grande parte de nossa organização e ativismo às vezes será confusa, lenta e mal-direcionada, mas também pode tornar mais fácil para que todos reivindiquem a propriedade do movimento.

A participação mais ampla de todos os que estiveram envolvidos no movimento Black Lives Matter poderia ter resultado em mais contato entre as diferentes camadas do movimento. Com a criação de espaços políticos em que essas diferentes camadas poderiam se envolver e ter maior influência recíproca, poderia haver um aumento do senso de urgência no movimento e nas mobilizações de massas. Algumas pessoas concluíram que mobilizações da massa não são mais necessárias; que as pessoas simplesmente aparecem e depois voltam para casa. Certamente, esse pode ser um efeito, mas não devemos subestimar o poder transformador da união e da ação coletiva necessárias para que as pessoas se manifestem juntas. Não se trata apenas de sua influência sobre a formulação de políticas ou sobre as instituições de governo, mas também nas maneiras pelas quais o poder se manifesta entre aqueles que compõem as fileiras da marcha.

O artista e crítico radical John Berger escreveu sobre manifestações de massas:

Teoricamente, as manifestações têm o objetivo de revelar a força da opinião ou sentimento popular: teoricamente, são um apelo à consciência democrática do Estado.

Nesse sentido, escreveu Berger, os números de presentes em um protesto são significativos, não por causa de seu impacto sobre o Estado, mas sobre aqueles que tomam parte no protesto:

A importância do número de envolvidos pode ser encontrada na experiência direta daqueles que participam ou que testemunham e simpatizam com a manifestação. Para eles, os números deixam de ser números e se tornam a evidência de seus sensações, as conclusões de sua imaginação. Quanto maior a manifestação, mais poderosa e imediata (visível, audível, tangível) ela se torna como metáfora para sua força coletiva total.

O ponto é que esses movimentos ou mobilizações não apenas criam a possibilidade de mudar nossas condições materiais, exercendo a força dos muitos contra à intransigência dos poucos. Os movimentos sociais também criam arenas onde nós mesmos podemos ser transformados. Ações em massa nos tiram do isolamento do dia a dia e nos tornam atores políticos.

Em uma sociedade que erroneamente atribui nossas conquistas aos nossos talentos individuais e que coloca a culpa de nossas falhas em nossas fraquezas individuais, o movimento de massas, essa arena de lutas, nos une para compartilharmos nossas dificuldades e para mostrar que a solução para muitos dos nossos problemas é coletiva. O movimento de massas chacoalha o senso comum predominante em nossa sociedade.

A militante e feminista radical negra Ella Baker compreendia a necessidade de dar esse cutucão na bolha do ”senso comum”.

Para que nós, como pessoas pobres e oprimidas, nos tornemos parte de uma sociedade que tenha significado, o sistema sob o qual hoje existimos deve ser radicalmente alterado. Isso significa que teremos que aprender a pensar em termos radicais. Eu uso o termo “radical” em seu significado original – chegar ao fundo e compreender a causa raiz dos problemas. Significa enfrentar um sistema que não se presta às suas necessidades e conceber meios pelos quais você pode alterar esse sistema.

A satisfação coletiva no confronto e o potencial para a mudança abrem a possibilidade para se colocar esse tipo de pergunta. Sem isso, é difícil se libertar da razoabilidade e do pragmatismo, como aconselhados por Obama, quando ele deu um sermão para um ativista de Chicago sobre os objetivos estreitos dos movimentos sociais – mudar uma lei ou iniciar uma política pública.

À medida que 2015 e 2016 avançavam, ninguém acreditava que Trump venceria; em vez disso, os ativistas começaram a se concentrar em maneiras para mudar um novo governo Clinton no sentido de uma reforma da polícia. É claro, Trump acabou eleito e todos os planos de mudança para Washington, DC, para iniciar a fase “interna” do movimento nunca se concretizaram. Hoje, existem poucos sinais do movimento popular e de base do Black Lives Matter que, em seus primeiros anos, capturou a imaginação e as esperanças dos jovens negros e além.

Isso certamente não significa que o movimento “fracassou”. Ainda existem muitos ativistas do BLM organizados e engajados de outras formas. É impossível imaginar que o apetite público pela reforma da justiça criminal, incluindo a reforma da fiança e o lento mas constante processo de descriminalização da maconha, poderia estar acontecendo sem a influência do movimento Black Lives Matter. Todos estamos em dívida com o movimento por ter trazido à luz a extensão total com que mulheres negras, incluindo mulheres trans, também são vítimas de violência e abuso racista, sancionados pelo Estado. Muitos dos militantes centrais na organização do movimento enxergam essas novas arenas de luta como uma expressão continuada do movimento BLM.

No entanto, o movimento de massas que capturou a atenção do mundo e que colocou de ponta cabeça o status quo já não existe da mesma maneira. De certa forma, isso é esperado. Nada fica parado, muito menos algo tão vivo e dinâmico quanto um movimento social. As questões sobre estratégia, tática e democracia que surgiram como conseqüência da ascensão do movimento BLM não desapareceram; na verdade, elas permanecem críticas para determinar como podemos transformar nossa situação atual.

Ainda na Luta por um Futuro Onde as Vidas Negras Importam

O que o rosto despedaçado de Pamela Turner, explodido pela bala de um policial, nos fala sobre os esforços do movimento Black Lives Matter? Ele nos conta sobre como o policiamento é absolutamente central para manter o status quo racista, sexista e desigual.

Sindicatos policiais e autoridades eleitas gostam de retratar o policiamento como perigoso, como se fosse uma espécie de última linha de defesa bizarra entre “nós” e algum elemento criminoso ameaçador e obscuro “lá fora”. Na realidade, a maior parte do policiamento envolve vigiar e assediar os pobres e a classe trabalhadora. Quando pessoas negras e pardas são super-representadas entre as fileiras dos pobres e da classe trabalhadora, são essas pessoas que sofrem a maior parte do peso dos encontros com a polícia. Ser morto pela polícia é uma das principais causas de morte de jovens homens negros. O sociólogo Frank Edwards disse que os jovens homens negros têm “maiores chances de serem mortos pela polícia do que… de dar a sorte numa raspadinha da loteria.” Pamela Turner, que sofria de esquizofrenia, estava na mira da polícia local por causa de várias infrações menores que a colocaram em contato com eles. Em abril passado, ela recebeu um aviso de despejo que resultou em uma acusação de “ofensas criminais” e um encontro com o mesmo policial que acabou por matá-la semanas depois.

O policiamento é o último serviço do setor público que o governo financia de maneira mais sólida, enquanto retira o financiamento e negligencia todos os outros aspectos da infraestrutura cívica. À medida que os serviços públicos por todo o país são desmantelados, centenas de milhões de dólares são encontrados para pagar pela brutalidade policial e pelas ações judiciais em torno de assassinatos policiais. Só Chicago já gastou mais de US$ 800 milhões desde 2004 para liquidar ações judiciais por brutalidade policial e mortes injustas.

Se qualquer outra instituição pública incorresse nesse tipo de despesa, seu orçamento e seu serviço seriam reduzidos ou encerrados. Por exemplo, quando em 2012 o Conselho de Educação de Chicago alegou que estava com um déficit na casa dos bilhões de dólares, sua proposta de solução foi fechar 52 escolas públicas. Contudo, em meio as revelações sobre a tentativa da gestão de Rahm Emanuel de encobrir o papel da polícia no assassinato de Laquan McDonald, o prefeito recebeu a bênção do Conselho da Cidade de Chicago para abrir uma nova academia de polícia no valor de US$ 95 milhões.

Por mais corruptos, violentos ou racistas que sejam os policiais, seu orçamento nunca diminuirá. As autoridades eleitas e os ricos e poderosos, cujos interesses tantas vezes eles representam, sabem que à medida que as despesas públicas são cortadas e que os bons empregos com benefícios ficam cada vez mais fora de alcance, o abuso policial traz ordem à uma situação potencialmente insustentável. A dor e o sofrimento dos netos de Pamela Turner, da mãe de Laquan McDonald ou dos pais de Mike Brown Jr são danos colaterais nesta guerra para manter o status quo. É literalmente o preço para seguir com as coisas como estão.

Assim, cinco anos depois, grande parte da discussão institucional sobre a reforma da polícia permanece focada em “maçãs podres”, preconceitos implícitos e na melhoria do treinamento. Como resultado, a principal mudança política foi o uso generalizado de “câmeras corporais”. Desde 2014, as forças policiais por todos os EUA gastaram mais de US$ 192 milhões nesses dispositivos. Em Ferguson, onde o movimento encontrou seu coração e sua alma, agora existem mais policiais negros do que brancos. Nesse sentido, Ferguson finalmente alcançou o resto dos Estados Unidos. Enquanto isso, os negros são detidos 5% a mais e os brancos são detidos 11% a menos do que em 2013.

Manifestantes protestam em frente à sede da segurança pública da cidade de Chicago pelo assassinato de Laquan McDonald em 1º de dezembro de 2015 em Chicago, Illinois. Foto: Scott Olson / Getty

Reconhecer a teimosa persistência do abuso e da violência policial tem menos a ver com pessimismo do que com sobriedade. Não há solução simples e rápida para a brutalidade policial. A polícia é tão difícil de transformar porque a ordem política estabelecida precisa dela, especialmente quando decide que não tem mais nada a nos oferecer. Foram necessários cinco longos anos, repletos de mortalidade, para que as autoridades que administram o Departamento de Polícia de Nova York demitissem um policial que sufocou a vida de um homem que estava dizendo claramente: “Não consigo respirar”. Foram necessários cinco anos para que o Departamento de Justiça decidisse que não apresentaria acusações federais de direitos civis contra Pantaleo, como se seu estrangulamento ilegal, que tirou a vida de Garner, não fosse a definição da violação de direitos civis.

Mas qual é o valor em se proteger o “estado de direito” quando a própria lei prioriza aquilo que tem mais valor para a elite, enquanto ignora aquilo que tem mais valor para a maioria de nós? Em outras palavras, nem a lei e nem a aplicação da lei estão do nosso lado, e isso no fim das contas torna extremamente difícil o movimento pela reforma de ambos. Geralmente, obtemos o tipo de mudanças que desejamos quando somos capazes de pressionar e coagir a elite política, sua ordem estabelecida e suas leis, para fazê-los nos enxergar e nos escutar. E para fazer isso, são importantes a maneira como nos organizamos, o que pensamos, o que exigimos, o que imaginamos e pelo que mantemos nossa esperança.

Estes são valores-chave para qualquer movimento social. A democracia – onde vemos todas os nossos anseios, nossos fracassos e nossos esforços como conectados – significa tentar trazer a bordo o máximo de pessoas possível e descobrir como fazer isso funcionar. As vidas negras podem importar – mas isso vai exigir uma luta não apenas para mudar a polícia, mas para mudar o mundo que depende da polícia para gerenciar sua distribuição desigual dos bens essenciais à vida.

Sobre os autores

é uma colunista da Jacobin e professora assistente no Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Princeton. É autora de "From #BlackLivesMatter to Black Liberation".