O socialismo é eurocêntrico?

31/08/2020

Por
Nivedita Majumdar

Tradução
Deborah Almeida e David Guapindaia

Tanto a exploração capitalista quanto a resistência dos trabalhadores são similares em todo o mundo. No Ocidente e fora dele, o socialismo fala sobre essas experiências.

Uma trabalhadora em uma fábrica têxtil em Bangladesh. Foto: Banco Asiático de Desenvolvimento | Flickr

A melhor maneira de falar sobre socialismo é começar pelo capitalismo. O capitalismo, como todos sabemos, é um sistema fundamentalmente guiado pela intenção do lucro. Essa é a questão central do capitalismo. Todos os malefícios do capitalismo que conhecemos – salários baixos, condições de trabalho degradantes, perda da autonomia dos trabalhadores, retaliação contra quem se organiza – tudo isso provém da corrida pelo lucro. Os capitalistas querem lucrar; e todo o resto deriva dessa lógica fundamental.

O socialismo surge como uma resposta à esta natureza intrinsecamente injusta do capitalismo. Se o capitalismo está enraizado na intenção do lucro, o socialismo está baseado na intenção de lutar pela equidade e justiça. Os trabalhadores, apesar de tudo, sempre revidam. O socialismo é sobre essa luta, e sobre a visão de uma ordem justa, livre da opressão e dominação, que incentiva essa luta.

A pergunta a ser feita é, essas forças opostas da opressão capitalista e da resistência socialista têm diferenças nas diversas partes do mundo? 

Houve um acidente em uma fábrica de roupas em 2013 em Dhaka, Bangladesh, onde 1.100 trabalhadores perderam suas vidas quando as paredes desmoronaram em cima deles. Foi uma tragédia totalmente evitável. A administração sabia que a estrutura estava cedendo, mas forçou os funcionários a continuar trabalhando mesmo assim.

Mesmo que o acidente tenha chamado a atenção global, as condições de trabalho da indústria têxtil continuam funestas. Os trabalhadores em Dhaka, no entanto, continuaram a se organizar por melhores salários e melhores condições – e a retaliação contra eles tem sido brutal. Em dezembro de 2016, milhares de trabalhadores de Bangladesh participaram de uma greve não-autorizada. Consequentemente, nos dois meses seguintes, dezenas de organizadores foram detidos sob acusações criminais infundadas; mais de 1.500 perderam seus empregos, e no chão de fábrica, trabalhadores enfrentam retaliações verbais e físicas rotineiras e ataques aos sindicatos.

Não há dúvidas de que a história em Bangladesh corresponde à de trabalhadores no México, Indonésia, Brasil e em toda parte. No início de 2017, na Índia, por exemplo, tribunais condenaram treze pessoas em uma fábrica multinacional de automóveis à prisão perpétua e diversas outras a sentenças menores. Seus crimes: se organizarem. Há o Massacre dos Mineradores de Marikana na África do Sul, no qual trinta e quatro mineradores foram alvejados e mortos. Exemplos como estes são abundantes. 

A questão é, esses acontecimentos no Sul Global são tão diferentes daquilo que se vê nos países capitalistas centrais?

Durante as recentes audiências no Senado dos EUA de Neil Gorsuch, o então candidato da Suprema Corte de Trump, o caso do motorista de caminhão Alphonse Maddin recebeu atenção nacional. Maddin estava dirigindo um caminhão de reboque em temperaturas abaixo de zero quando os freios da carreta falharam. Ele pediu um caminhão de resgate e, depois de esperar várias horas sem aquecimento, decidiu desatrelar a carga e dirigir até um lugar seguro.

Por causa dessa decisão, Maddin perdeu seu emprego.

Maddin, como os trabalhadores têxteis de Bangladesh, foi obrigado a escolher entre a sua vida e seu ganha-pão. Novamente, nos EUA, como em qualquer outro lugar no mundo, quando trabalhadores se organizam contra condições brutais de trabalho e por melhores salários, encontram retaliação.

Em 2015, o Walmart fechou 5 de seus escritórios e 2.200 trabalhadores perderam seus empregos, tudo sob o pretexto de reparos nos encanamentos das lojas – mas os fechamentos foram claramente medidas para quebrar a sindicalização. A retaliação pode não ser tão crua e brutal, mas isso só ocorre porque eles conseguem se safar mais facilmente em outras partes do mundo.

A lógica, no entanto, é a mesma. Não há diferença no que motiva os capitalistas – ou no que motiva os trabalhadores.

A acusação de que o socialismo seria uma questão apenas Ocidental supõe que, por causa da origem do socialismo no Ocidente, ele perderia a relevância em contextos não-Ocidentais. Entretanto, os trabalhadores estão sujeitos às mesmas forças de exploração de trabalho, independente de onde estejam. Eles trabalham para patrões que são motivados apenas pelo lucro e que têm pouco incentivo para atender às suas necessidades. 

E aonde for, os trabalhadores também percebem que sua única opção é lutar, se quiserem melhores condições. Portanto, contra todas as adversidades, eles revidam.

Sempre internacionalista

Desde sua concepção, o socialismo foi fundamentalmente internacionalista tanto na sua conceituação quanto no seu alcance. 

Essa é a ideia de socialismo que incentivou Frantz Fanon em sua batalha contra o colonialismo francês; o comunista Chris Hani no movimento anti-apartheid na África do Sul; Amílcar Cabral quando ele lutou contra os Portugueses; Walter Rodney em seu ativismo pelos oprimidos do Caribe; Che Guevara em Cuba e na América Latina. Para eles, e para incontáveis outros, o socialismo era uma teoria e filosofia não menos relevante às suas realidades do que era para os sindicalistas britânicos ou estadunidenses.

Pensemos em M. N. Roy. Ele nasceu no fim do século XIX em uma vila na região da Bengala. Ele foi radicalizado no movimento de independência indiano, e nos seus vinte e poucos anos, Roy saiu da Índia para levantar fundos para uma insurreição armada contra os britânicos. Ele viajou da Indonésia para a China, para o Japão, e para os Estados Unidos – o tempo todo desviando das autoridades, fazendo conexões políticas e tentando obter armas e dinheiro, viajando disfarçado na maior parte do tempo.

Ele não pôde ficar muito tempo nos EUA pois estava sendo seguido. Acabou indo para o México, onde se envolveu com os trabalhadores organizados e fundou o que hoje é o Partido Comunista Mexicano em 1919. Vladimir Lenin confiou a Roy o trabalho na causa colonial, e Roy teve um famoso debate com Lenin sobre o papel da burguesia nacional em países coloniais.

Em 1920, em Tashkent, Roy também foi um dos membros fundadores do Partido Comunista da Índia. Mais tarde, ele voltou para a Índia, onde foi aprisionado em condições horríveis, mas continuou a escrever.

Agora imagine o absurdo que seria considerar o socialismo eurocêntrico quando apresentamos o contexto da vida de um revolucionário do Sul Global como M. N. Roy, que fundou não um, mas dois Partidos Comunistas, em dois continentes diferentes.

Então a verdadeira questão é: por que a dúvida se o socialismo seria apenas ocidental ou eurocêntrico ganhou força nos últimos tempos?

Um produto da derrota

Uma perspectiva como esta ganha adeptos somente em um momento de derrota. Quatro décadas de incessante ataques neoliberais aos pobres e aos trabalhadores, aos salários, ao financiamento público de necessidades básicas como moradia, saúde e na educação que possibilita uma vida decente, e de dizimação de sindicatos e do poder da classe trabalhadora no geral, resultou em uma esquerda eviscerada, incerta do seu próprio legado.

Assim, esse questionamento emerge de uma esquerda acadêmica, de uma esquerda que foi desprovida da força vital dos movimentos, e da compreensão do poder e da solidariedade que os movimentos trazem para a cultura mais ampla.

Sem os movimentos, não há muita consciência do que incentiva a classe trabalhadora. Se você não é proletário; se você é da classe-média ou classe alta, sua tendência natural não vai ser se aproximar das necessidades e interesses da classe trabalhadora, a menos que existam estes movimentos. Esse é o porquê dos movimentos terem, em muitas maneiras, mudado os cenários de um país como os EUA, especialmente os ambientes da Universidades, nas décadas de 1960 e 1970. Mas desde então houve um grande período de “seca” de movimentos.

Portanto, na academia de hoje dos países capitalistas centrais, temos uma classe abastada que não tem razão alguma para se inclinar às políticas da classe trabalhadora – mas que interesse, no entanto, de manter seus privilégios de classe.

A noção de que o socialismo seria Ocidental emerge deste quadrante, e toma a forma de um radicalismo que afirma falar pelo Sul Global, e declara que o socialismo não atenderia às experiências culturais desses países.

Note como tal posição tira o crédito do socialismo, e que cria um racha no interior da esquerda como ela é, sem estabelecer uma posição que ameace as estruturas de poder. E, ainda assim, parece ser radical porque afirma falar por um não-Ocidente autêntico. Muito esperto.

Essa posição é também parte de uma tendência mais ampla na academia frequentemente alinhada com problemas de colonialismo, raça, gênero, sexualidade e afins. Não há absolutamente nada de errado com isso. Não se pode ser socialista sem ser antirracista, feminista – alguém que é contra toda forma de discriminação e indignidade.

O problema é um tanto diferente: é como as análises desses problemas têm sido frequentemente alienadas da lógica do capital e da luta de classes.

Um radicalismo desdentado

O que temos hoje é um antirracismo dos privilegiados, um antirracismo que não ameaça o poder e que não se envolve com os sofrimentos reais dos pobres e das minorias.

A crítica à esquerda da corrida presidencial de Bernie Sanders refletiu muito dessa posição. Ta-Nehisi Coates, por exemplo, criticou Bernie por defender mudanças estruturais sem considerar a raça, como o aumento do salário mínimo ou faculdades gratuitas. Coates argumentou que esse tipo de programa universal acaba beneficiando principalmente os brancos.

O que esse antirracismo ignora é o fato de que a grande maioria dos trabalhadores que seriam retirados da pobreza ao aumentar o salário mínimo seriam pessoas não brancas. Ou que os benefícios da faculdade gratuita seriam enormes e pesariam esmagadoramente para os negros da classe trabalhadora.

Eu ensino na CUNY, uma universidade onde 75% dos estudantes são de alguma minoria. Mais da metade dos nossos alunos tem uma renda familiar anual de menos de US $ 30.000. Meus alunos não precisaram de nenhum curso em pensamento interseccional para entender que a faculdade gratuita é do interesse deles.

Por que, então, essa oposição a programas universais que visam transformar as desigualdades estruturais – precisamente as desigualdades que sustentam o racismo? É um antirracismo que se recusa a ver o capitalismo como o principal fator de desigualdade – e um antirracismo que goza de uma enorme popularidade nesta época. Como resultado, é um antirracismo que não fala das necessidades e interesses das minorias da classe trabalhadora. É o antirracismo de uma classe privilegiada.

Se você acredita que políticas econômicas universais não seriam especialmente benéficas para as pessoas negras pobres dentro do país, então você será igualmente crítico das políticas socialistas internacionalmente. Se a política socialista não fala das experiências das minorias raciais dos EUA, segue o argumento, ela também seria estranha à realidade cultural dos países não ocidentais.

É um radicalismo que, em nome da cultura, em ambos os casos prejudica certas necessidades e impulsos fundamentais das pessoas exploradas.

Algumas dessas mesmas forças estão operando no Sul Global, que também testemunhou um reinado neoliberal que ainda não foi contido. Também por lá, com o enfraquecimento da resistência da esquerda organizada, as idéias socialistas de transformação econômica e de direitos universais estão cada vez mais sob ataque.

Eu fazia parte da esquerda estudantil Indiana e, como estão fazendo estudantes em todos os lugares, nós lutávamos por uma educação de qualidade e acessível para todos. Também éramos muito ativos em outras causas maiores, sociais e políticas. Tive a sorte de fazer parte da esquerda em um país onde, ao contrário dos EUA, ela desfruta de uma ressonância cultural e eleitoral muito maior.

Se eu me lembro de ter sido acusada com a idéia que nossa luta pela justiça educacional e pelos direitos dos trabalhadores era algo… Ocidental? Que de alguma forma estávamos sendo enganados pelo pensamento Ocidental ao seguirmos essa linha? Sim, eu me lembro – essa acusação vinha da direita.

A direita cultural não tinha problemas com o capitalismo, mas o socialismo era uma coisa Ocidental. O feminismo também, aliás. Soa familiar?

Agora, a deslegitimação do socialismo como algo Ocidental por uma direita nacionalista no Sul Global é obviamente compreensível. O que é curioso é o ressurgimento da mesma idéia, de que o socialismo seria eurocêntrico e inadequado à experiência vivida pelas pessoas não-ocidentais, no interior da esquerda ocidental amplamente baseada na academia.

Pense no que esse posicionamento significa.

Significa que uma mulher de Bangladesh, em uma fábrica de roupas, se organizando apesar do risco de ser demitida e de receber retaliação física de diferentes tipos – que uma mulher como essa, que está se reunindo com outras pessoas, tentando se organizar, tentando formar um sindicato, e que tem uma visão do que seria trabalhar sob condições que não sejam tão coercitivas, e que com salários com os quais ela possa alimentar sua família, poderia até ter uma vida decente – que essa mulher foi enganada.

Significa que ela não está em sintonia com a autêntica cultura de Bangladesh, onde as pessoas não entendem as condições opressivas de trabalho como uma injustiça – e que, se o fazem, não se espera que elas lutem contra essas condições. Significa que o povo de Bangladesh não experimenta a liberdade em relação à coerção como uma necessidade fundamental.

Essa trabalhadora supostamente foi enganada pelo pensamento socialista; ela está funcionando de uma maneira desconectada de sua cultura. Essa é a acusação de que estamos falando. 

Uma luta universal

Devemos ser claros: um radicalismo que acredita que o socialismo seria uma idéia estrangeira no não-ocidente está negando aos os trabalhadores naquela parte do mundo a resposta humana fundamental de lutar contra a opressão. Está dizendo que pessoas não ocidentais são incapazes de imaginar uma sociedade justa e livre.

Então, quando radicais nos EUA afirmam que o socialismo seria ocidental, estão unindo forças com a direita ao redor do mundo.

Abraçar a universalidade do socialismo não é negar especificidades culturais. Pessoas de todos os lugares vivem e florescem em suas culturas e comunidades locais e mais amplas. Contudo, os seres humanos não podem prosperar plenamente em nenhuma cultura enquanto o capitalismo continuar gerando privação e impotência.O socialismo é o esforço para lutar contra uma ordem social desumanizada e para criar as condições para o florescimento humano. É um impulso universal.

Sobre os autores

é professora associada de Inglês na Universidade John Jay. É secretária do sindicato de professores e funcionários da Universidade CUNY, em Nova Iorque.

Sobre o autor

Nivedita Majumdar é professora associada de Inglês na Universidade John Jay. É secretária do sindicato de professores e funcionários da Universidade CUNY, em Nova Iorque.